domingo, 25 de abril de 2021

REVOLUÇÃO OU REPARAÇÃO

            Este título é irônico? Mais irônica é a política. Mais ainda aqueles que, sabendo dos limites das ideias insistem em redigir um roteiro de igual natureza e sobrepô-lo ao anterior casando frase a frase e palavra com palavra.

            É certo que deveríamos partir direto para o conflito entre as ideias trazendo para o campo das discussões, como fez Rosa Luxemburgo, ao confrontar os conceitos de “reforma ou revolução”, mas nos faltaria justamente o principal que é o sujeito destinatário da convocação. Rosa ao criticar o “revisionismo” percebeu que a mansidão do processo proposto cheirava a um desejo de normalidade ordenada, ele levaria a um comportamento passivo dos trabalhadores, quase exemplar aos olhos dos capitalistas. Por isso se propôs a confrontar “o que”, com o “como”. Para ela, naquela situação, considerar a luta sindical e a luta parlamentar como meios de dirigir e educar pouco a pouco o proletariado, tendo em vista a conquista do poder era uma loucura.

            O conceito de “estado de coisas” utilizado por Rosa é de fundamental importância hoje, para observarmos os “instantes da política”. Para melhor compreendermos aqui, transformamos “as coisas” do conceito, em forças. Na medida em que elas se colocam de uma forma e não de outra, temos um “estado de coisas” estabelecido, conflitivo ou concordado. No entanto, se houver qualquer manobra, um passo à frente ou um passo trás, as mesmas forças mudam as colocações e, o “estado de coisas” surge como outro cenário desejado ou não.

            O problema maior é responder à questão, se os movimentos e manobras, desejam um outro “estado de coisas” novo ou o sonho é voltar para o estado anterior? Em História falamos de política e em política falamos de História. “Falamos” porque contamos e analisamos o que já foi. Podemos até dizer, narramos de maneira satisfatória ou apreensiva como éramos em comparação com o que nos tornamos.

            E eis então que podemos fazer política com estratégias e perspectivas ou, ao contrário, com táticas e desejos saudosistas. Podemos ainda, a partir do “estado de coisas” do tempo presente, insurgir os preparativos futuros ou apenas buscar ter de volta o passado, reconstruindo o velho pote, que ao cair quebrou-se em mil pedaços.

            Por tudo isso, e na falta de um pouco mais de perspicácia, vivemos os “dilemas rasos”. Rasos porque as ideias são pouco profundas, não discutem os dilemas profundos e estruturais. Elas, sendo as mesmas das cartilhas alfabetizadoras da política anterior, chegam até o grau da conciliação. E, nesse movimento paciencioso, nem mesmo os conflitos das ideias aparecem porque estão longe da realidade material. Preocupados com o “arco de alianças” esquecem que aquelas forças exigirão a assinatura do contrato mantenedor da ordem. E nesse linguajar quase musicado, as palavras, “revolução” e “reparação”, rimam, mas indicam que os passos da dança são completamente opostos.

            Há muitas formas de confirmar o desejo de volta ao passado. No estado de coisas colocadas no presente, há a luta pela reparação dos “direitos políticos”, para que se tenha um candidato à altura em 2022. Não é ruim. Diante dos acontecimentos, posicionar-se contra é um atentado ao bom senso. Mas, por que isto tornou-se  tão importante? Porque o desejo, tal qual faz o “principio do prazer” na teoria de Freud, leva a querer a reparação do “estado de coisas” já desfeito. Não seria por que o conceito de democracia passou a ter um conteúdo que garante os prazeres da classe média, egoísta e sonhadora com a reparação do mal a ela causado pelo fim do paraíso institucional?

            Vamos a um comparativo ilustrador. No início do capitalismo os “socialistas utópicos” queriam reparar o movimento devastador causado pelo avanço das forças produtivas sobre as relações sociais, morais e religiosas, estruturando pequenas comunidades de produção cooperativadas. Na oposição estava a burguesia que utilizava das reformas legais para fortalecer-se enquanto classe para atacar o poder político e, por meio da revolução criar o novo Estado. Portanto, já tivemos na História intenções e processos relacionados nas três conceituações: reparação, reforma e revolução. Se os “utópicos” partiam da reparação para chegarem às reformas, a burguesia partia das reformas para chegar à revolução. Ela veio a ocorrer em 1789 na França. Logo, presos à reparação, na atualidade, as forças que comporão o sonhado “arco de alianças” para ganhar as próximas eleições, colocam-se um passo atrás da velha burguesia.

Dois pontos importantes podem ser considerados entre as iniciativas utópicas e burguesas: a) ambas atuavam contra o estado de coisas daquele tempo; b) o ponto divergente era que, os utópicos se orientavam pelos sonhos e os burgueses pelo real concreto em busca do poder. Evidentemente a burguesia ao propor reformas, aos poucos foi afirmando o reconhecimento das formas de produção e comercialização capitalistas, elas rapidamente suplantaram as relações de produção do feudalismo.

            No tempo de Rosa Luxemburgo, diante do estado de coisas postas pelo capitalismo, já não se tratava mais de propor reformas porque as relações de produção já apontavam para a cooperação e socialização. Restava fazer a revolução, tomar o poder e suprimir o sistema jurídico que ordenava, coagia e garantia a propriedade privada dos meios de produção aos burgueses.

            Sem estender-nos tanto, é importante pensarmos justamente, se o “ser outro” melhor que imaginamos, está na direção do futuro ou do passado? Se está no futuro não cabe a “reparação” pura e simples, porque ela se coloca atrás das reformas burguesas que jamais saíram de pauta, mesmo dentro do Estado capitalista. De tempos em tempos, de acordo com o “estado de coisas”, os capitalistas mexeriam nas leis trabalhistas, previdenciárias, políticas, fiscais, educacionais, orçamentárias, criminais, armamentistas e tantas outras. De tal modo que, se os trabalhadores no intuito de intervirem na política, propuserem reformas, assemelham-se aos burgueses do passado. Mal comparado, seria como se, de um dia para outro os operários de uma fábrica, sem deixar de serem operários, decidissem trocar o macacão e passassem a usar paletó e gravata como uniforme, para, esteticamente imitarem os patrões.

            Se não é, como disse Rosa Luxemburgo, “o que”, mas o “como fazer” para mudar o “estado de coisas” que nos interessa, devemos considerar como negativas todas as iniciativas que apenas visam a reparação de direitos, de políticas públicas e medidas assistenciais. Os problemas estruturais possuem causas estruturais e, não é porque o estado da colocação das forças sociais no tempo presente não aponta para superá-las, que elas deixarão de ser estruturais. Em algum momento teremos de enfrentá-las, para tanto devemos nos ater ao “como”. Ele pode ser repetido no fazer, mas deve intencionar ser diferente no querer.

            O novo sujeito da História somente surgirá quando houver História por fazer. Enquanto a História se repetir, como “farsa ou tragédia”, os sujeitos serão os mesmos e os resultados cada vez pior.

                                                                                                         Ademar Bogo

                                                           

domingo, 11 de abril de 2021

O DIREITO À INTOLERÂNCIA

            O filósofo francês, François-Marie Arouet, mais conhecido por “Voltaire”, por volta do ano de 1760, em um de seus tratados disse que há poucos casos em que a intolerância é um direito humano, mas não deixa de ser uma opção necessária a ser usada.

            Florestan Fernandes tinha consciência que a intolerância é uma prática recorrente na História, praticada permanentemente pelos ricos contra os pobres. Não tolerar é próprio daqueles que transformam os interesses em dogmas e, por isso, as reações são sempre devastadoras. Nesse sentido, o sociólogo brasileiro indicou que, para defenderem os seus direitos, os pobres devem usar a “intransigência”.

            Do ponto de vista hermenêutico ou interpretativo, “intransigência” é não fazer concessão ou ser inflexível nos princípios. Já a intolerância é não admitir o que ação alheia, no caso da política, deixar de aceitar pacificamente. Portanto, as duas etimologias nos levam a um lugar comum, no qual fazemos as opções e estabelecemos que, em relação aos nossos direitos devemos ser sempre intransigentes, porque, ao contrário, tornando-nos “transigentes” cederemos, tanto nos princípios quanto nos direitos já conquistados. Por outro lado, o “direito à intolerância”, temporariamente, também deve ser exercido pelos pobres quando os demais recursos foram esgotados, isto porque, na boa moral, a tolerância é um valor que deve ser cuidado e praticado.

            Vejamos a tese combinante das duas proposições. Com a intransigência de não ceder em nossos princípios e direitos, restabelecemos o valor da resistência. Resistir é defender o que já temos, mas, quando há algo novo a ser conquistado, a resistência apenas não ajuda. Precisamos de algo a mais para que sejam destravados os freios que impedem os avanços. A conquista de novos direitos só virá com doses elevadas de “intolerância”.

            Para quem manuseia constantemente a Constituição federal, não há novidade alguma em argumentar a favor da intolerância dos pobres frente à situação atual. No artigo 5º vamos encontrar que somos “todos iguais perante a lei” e, por isso, devemos ter garantido, “a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade...”. Da mesma forma, podemos ler no artigo 6o que trata dos “direitos sociais”, dizendo que eles são: “a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”.

            As evidências do “direito à vida” e a “assistência aos desamparados” estão nos dois artigos e revelam que o Estado nas circunstâncias  presente, deveria empenhar-se em adquirir vacinas e liberar ajuda suficiente para os desamparados. São duas coisas que não conquistaremos com a “intransigência”, porque, esses direitos já estão garantidos por lutas anteriores. É preciso que se abra um tempo de intolerância contra os governantes que, apesar de terem tido a autorização para “furar o teto” de gastos para o auxilio emergencial, agem como se o Estado fosse propriedade privada de uma minoria de mal intencionados que, ao invés da ciência e da sensibilidade humana, adotam o negacionismo como diretriz política.

            Por que a intolerância dos pobres passa a ser um direito? Porque o país tornou-se um território de risco. A perspectiva da proliferação e transmutações do coronavirus veio a ser incontrolável. Há quase uma centena de novas cepas espalhando-se pelo território e as mortes diárias alcançam os níveis mais elevados do mundo.

            Por outro lado, o retardamento do controle do vírus retarda também qualquer solução no campo econômico e social. A obrigatoriedade do isolamento físico remete ao afastamento das possibilidades, dentre outras, da produção de renda, abertura das escolas e atividades culturais.

            A perspectiva da vacina vir para livrar-nos de todos os males é uma verdade incompleta. O ritmo lento com que as doses são distribuídas nos diz que, em 2023 ainda teremos gente para receber a primeira dose e isto que não estamos contando com o período indefinido da eficácia das doses aplicadas.

            Há, portanto, uma série de bloqueios no poder executivo, estendidos na economia, na política e nas ideias que impedem qualquer alternativa ao caos. Os poderes, legislativo e judiciário associados aos partidos políticos, agem, em nome da “democracia negacionista”, com adequada tolerância, levando a população também a se comportar do mesmo modo.

            Está na hora de fazer uso do direito à intolerância e fazer de cada passo individual ou coletivo, um ato de protesto. É tempo de intolerar por um tempo. Precisamos salvar a nação.

                                                                                                    Ademar Bogo

                                                                                              Autor do livro: Moral da História

                  

                

domingo, 4 de abril de 2021

QUEM VIVER VERÁ

     O título deste texto traz consigo dois alertas: o primeiro, obviamente, porque temos uma ameaça iminente de até julho de 2021, chegarmos a 500 mil mortos vítimas do coronavírus, e quem quiser escapar vivo, que se cuide. O segundo nos vem da sabedoria popular, indicando o possível vir a se realizar algo ainda pior.

     A política existe para fazer mudanças. Desde a Polis, na Antiga Grécia, ela é a arte de administrar, conduzir e orientar os cidadãos. Por isso, ela é dinâmica, muda continuamente, entra e escapa do controle, basta um vacilo e o cavalo encilhado se vai batendo as patas.

      Pela própria natureza, a política se move por duas revelações: a primeira, ao mostrar quando as coisas vão mal; a segunda, quando dá esperança de que as coisas ficarão bem. Mas, e quando há satisfação e se deseja que tudo continue como está? Aí já não é mais política, chamamos de “acaso temporário” ou ingenuidade mesmo. Política, portanto, é movimento, contradição e disputa.

     Os acasos constituem-se de diferentes modos. Eles surgem pela formação das novas circunstâncias. “Por acaso”, reuniram-se naquela época um conjunto de crises, um líder de eleitores avulsos que, delegaram o poder e se recolheram no mundo da individualidade. “Por acaso” também, juntando-se ao descontentamento das populações, um mito (mentira) aterrorizador e, por desejo de vingança, entregou-se a ele o próximo mandato. “Por acaso ainda”, as massas arrependidas, como as rãs na fábula de Esopo, pediram um novo governo a Júpiter porque o atual não estava bom e, por acidente, ao cair um pesado tronco no meio da lagoa, por ficar inerte, insatisfeitas elas quiseram outro dirigente e, foram atendidas com a chegada  de uma víbora genocida, que passou a devorar uma a uma. A cada baixa, arrependidas, elas pediam que voltasse qualquer um dos governantes anteriores.

     Vivemos, como humanos, o tempo da terceira reinvindicação das rãs e, a cada dia, mesmo desorganizadas, mais pessoas se convencem que é preciso mudar para voltar atrás. Interessante é perceber que, como as rãs, sem inteligência, seguimos mais os instintos do que a razão. Preferimos voltar para o lugar passado ao invés abrirmos uma possibilidade de futuro e não pedir mais a Júpiter um governo, mas criá-lo pelas próprias decisões.

    Nesses tempos sombrios, lemos muito. A grande maioria dos escritos saúdam os avanços conjunturais. Afinal, ficamos sabendo após dois anos de mandato do atual presidente da República, que as forças armadas, sem saírem do governo, "não concordam" em dar um golpe de Estado. A notícia da queda do ministro das relações exteriores, exímio causador de intrigas com todos os países, foi um alívio. A desenvoltura de Lula como candidato, após a anulação de suas condenações, foi um alento ainda maior. As sensações que os textos e matérias passam, é que estávamos muito mal, mas agora estamos ficando bem.

     Ninguém em sã consciência, diante do pior, pode deixar de escolher o menos pior. Há momentos que o simples fato de cortar a corda, mesmo sem amparar o corpo do enforcado, estatelando-o no chão, é um avanço. Pelo menos escapará com vida. Mas, depois da corda cortada e o suicida salvo, dever-se-ia tomar algumas providências, no mínimo cortar o galho que serviu de suporte para amarrar a corda, para que ele não volte a se enforcar.

     Vamos por passos, para manter-nos nas três informações acima. Diante da troca de comando nas Forças Armadas, após a revelação de que não era conveniente dar forma a um novo golpe de Estado, tornaram-se democratas os militares? Superaram a aversão que cultivam contra o comunismo? Decidiram-se por construir uma nação soberana e independente? Por outro lado, a troca do ministro das Relações Exteriores do Brasil, suplantou a visão de que a “terra é plana” e a boa imagem do Brasil fora de suas fronteiras será reconstruída? E, por fim, a possibilidade de impedimento do atual presidente e a perspectiva de Lula voltar a ser presidente, questiona o poder do capital, a concentração da riqueza, a superação da miséria, a exploração da força de trabalho, o pagamento da dívida pública, a apropriação indevida das empresas públicas? A devastação das florestas? O uso inadequado da terra? A matança policial da juventude? Então, escreva tudo, fale sobre tudo, só não diga que avançamos.

    O significado da palavra “avançar” é “ir para diante”, isto quer dizer, “ir para outro lugar"; não é retroceder, nem ficar onde estamos teórica ou fisicamente. Nesse caso, tomemos a euforia antecipada da vitória nas próximas eleições, isto porque, desconsiderá-las seria uma ingenuidade e, impedir que aconteçam, seríamos a favor do totalitarismo. A pergunta é evidente: com qual programa ganharemos a eleição para presidente da República? Com que forças marcharemos até o poder? Como será composto o governo? E como será a democracia no sentido amplo a partir da vitória?

    Claro, ouviremos dizer que “ainda é cedo” para discutir essas questões; agora a luta é “por vacina e ajuda emergencial”. Porém, não esqueçamos que enquanto o Partido dos Trabalhadores governava o país, as forças antidemocráticas; as Forças Armadas; os banqueiros, industriais, credores etc., estavam calados, mas todos vivos, sem mudarem um detalhe em suas concepções contra a esquerda e contra o socialismo e se se posicionaram de tal forma, da mesma forma continuarão posicionados.

    Dois italianos, Antônio Gramsci e Norberto Bobbio, nos presentearam com inovações no conceito de “sociedade civil”. O primeiro demonstrou que a composição da “sociedade civil” já não era apenas formada pelos proprietários privados; junto a eles vigoravam diversos “organismos privados” que interagiam também no âmbito da política e unificavam-se no “bloco histórico”. O segundo definiu a sociedade civil como o lugar onde surgem e se desenvolvem os conflitos econômicos, sociais, ideológicos, religiosos e que as instituições estatais têm a função de resolvê-los, pela mediação ou pela repressão. 

    Talvez, a parte mais significativa da teoria de Bobbio, esteja na definição dos “sujeitos” da “sociedade civil”, compreendidos como: as classes sociais, os grupos, os movimentos, associações, organizações de classe, movimentos de defesa dos direitos civis, de libertação da mulher, de jovens etc., com a ressalva de que os partidos podem estar nesta como também na sociedade política representada pelo Estado.

    O que isto tem a ver com as contradições apontadas acima? Tudo. Basta reler a História do período neoliberal, para perceber como o capitalismo decadente agiu para desfazer as coletividades afirmativas, como os movimentos sociais, sindicatos, partidos e associações de diferentes objetivos e, incentivou as coletividades negacionistas e destrutivas, como as milícias, seitas religiosas e facções políticas. 

    Isto nos mostra que a “volta ao lugar passado”, tornou-se inviável, há obstáculos ao redor do velho ninho sinalizando para fazer (diferentemente do que as forças de esquerda fazem hoje) a provável importunação política  para impedir a governabilidade. É evidente o rompimento do velho “Contrato Social”, firmado entre a “sociedade civil” desfeita ou enfraquecida pelo neoliberalismo e o Estado responsável pela ordem. E, se é certo que no presente as Forças Armadas, “não defendem” o governo que é seu, defenderiam um governo que não será? 

    Para qualquer um dos dois objetivos a ser alcançado: revolucionário ou institucional, o caminho passa pela reorganização da “sociedade civil”. Se na ausência de condições para atuarmos no primeiro, que o segundo adquira características diferenciadas do que já foi. Para tanto, há um processo urgente a construir, iniciando pela ampla discussão e elaboração do programa do próximo governo. Ao discutir socialmente, resgatam-se práticas educativas, retomam-se as formas organizativas associativas e afirma-se o sujeito coletivo capaz de intervir e defender as suas conquistas continuamente.

    De outro modo, indo para as disputas, como disse Lenin, “como camponeses que acabaram de deixar o arado”, seremos aniquilados pela cultura do ódio e, a passageira vitória se converterá numa retumbante e sanguinária derrota. Uma árvore se protege do vendaval se tiver a seu redor uma floresta.

                                                                                               Ademar Bogo

domingo, 28 de março de 2021

HISTÓRIA E LIBERDADE

            Com esse título o filósofo Karel Kosik, praticamente conclui o seu livro, “Dialética do concreto”, e convida a pensar sobre o problema filosófico, “o que é a História?”. Nestes tempos sombrios, responder esta pergunta é enfrentar os dilemas postos, mas, acima de tudo, tentar compreender onde estão ou para onde foram os sujeitos da História?

            Diante de tudo o que vemos na política, nenhuma resposta é fácil. Se não há ponto de fuga, o sujeito da História precisa reaprender a conjugar o verbo “enfrentar” e, enquanto reaprende, analisa o substantivo das circunstâncias aonde se alojaram as mais duras e perversas contradições.

            Muitos sujeitos históricos vividos em outros tempos fizeram-se essa mesma pergunta: “O que é a História?”. As diversas respostas formuladas nem sempre foram favoráveis ao bem, isto porque, a História não é “racionalmente determinada”, por isso é que devemos acreditar que a razão se cria na História. Em grande medida, não se pode predestinar o futuro. Dizemos, “em grande medida”, porque, também não é pela espontaneidade ingênua que descobriremos a direção a seguir. 

            Portanto, as lições que perpassaram as consciências em todos os tempos e chegaram até nós, nos ensinam que não basta ter razão é preciso fazer com que essa mesma razão seja vitoriosa. Por sua vez, uma vitória pode ser parcial se tiver o propósito de vir a ser total, caso contrário, os restos das derrotas reabilitam-se e retornam impedindo que o total não se realize. Em política, muitas vitórias podem ser parciais, mas existem algumas que devem ser definitivas, caso contrário, o discurso envelhece repetindo a mesma convocação: “Começar de novo”.

            Kosik nos diz que, não sabemos quem somos antes da História e somente nela existimos. Implica dizer: sem fazermos a nossa História seremos sujeitos sujeitados na História dos outros, aquela a qual pertencem “os atos de heroísmo e os crimes”. Difícil é saber quando um não se confunde com o outro. Em certas circunstâncias é mais fácil perceber as diferenças, porque, os próprios criminosos fazem questão de exaltar os crimes, exibindo-os como recados intimidadores. Sendo assim, “O sentido da História está na própria História...”; é preciso compreendê-la para saber qual sentido devemos dar aos fatos.

            Uma coisa é certa, a História não limita às reduções de algumas supremacias ou a alguns fatos tristes e constrangedores. “Não é a História que é trágica, mas o trágico está na História”. Logo, a tragédia representa apenas uma parte da História. A outra parte é marcada pelas forças que querem ver o dia seguinte. É evidente que a tragédia de mais de trezentos mil mortos não é nenhuma notícia a ser esquecida após ser lida. Mas, são essas mortes, pelo menos grande parte delas, que desafiam os vivos a não se deixarem morrer e nem matar. Isto por que a morte tem causas, e elas podem ser de ser físicas e também políticas. Morre-se por falta de remédio e também por falta de governo.

             O mesmo ocorre com a liberdade, as carências que estão nela impedindo as realizações coletivas. A liberdade também é um movimento que depende da ação para adquirir significado. Livre não é apenas ter o direito de ir e vir, quando por trás há a redução da autonomia. Como poderia um pássaro solto ser livre se lhes cortaram as asas? Livre não é o cidadão que pode votar em um representante. Como poderia ser livre para escolher se os candidatos já vêm numerados e registrados? “Liberdade é espaço histórico que se desdobra e se realiza graças à atividade do corpo histórico, isto é a classe”. Liberdade é, portanto, a possibilidade de conduzir dois corpos: o individual e o coletivo, representado pela classe social.

            O sujeito da História é um sujeito sem medo, mas é também desvencilhado dos projetos limitados, das ilusões e imaginações fantasiosas, de que o capitalismo pode ser humanizado e o Estado garantidor da igualdade. Se assim pensamos, entendemos a liberdade como sendo o espaço interno das quatro paredes que nos abrigam. Sonhamos com o infinito, mas não saímos das prisões que construímos para justificarmos que as circunstâncias não são favoráveis. 

            Se a História universal não pode ser determinada, a particular pode, por meio das opções feitas. Se o pássaro engaiolado acredita que é livre para voar por todos os lados dentro da gaiola, acreditará ser aquele o tamanho da liberdade possível e jamais se preocupará em achar a porta de saída. Se acreditamos que as soluções estão na troca de governo, como o pássaro engaiolado, durante quatro anos não veremos nenhuma porta de saída.

            Somos nós os sujeitos que fazemos a História e a contamos depois de feita. São os outros que fazem a História e também a contam depois de feita. Essa é a questão: se um lado conta a História, impede que o outro lado a conte. Podemos por um tempo contar duas Histórias? Podemos, mas ela sempre dará razão àqueles que melhor se posicionam. Isto porque, a História é como o Mar, todos os rios, por maiores que sejam, ao tocarem  o oceano são subsumidos.

            Não é livre quem teme o golpe de Estado e, por isso, não age para impedir que ele venha. Não é o medo que impede que venha o temporal, mas se ele está vindo, ele virá. Cabe preparar-se para enfrentá-lo. Não é livre quem teme a ditadura e por isso se esgueira nas franjas da oligarquia, chamando-a de democracia. Enquanto assim se comporta, milhões de brasileiros e brasileiras que mendigam ajuda emergencial ou se deitam no piso das próprias salas para escaparem das balas homicidas, a ditadura já chegou.

            Com o problema filosófico “o que é a História”, respondido, o recado está dado: ou fazemos a História ou os outros a farão. Os que fazem, contam, os que não fazem são contados.   

                                                                                                                                                                                                                     Ademar Bogo

 

domingo, 21 de março de 2021

A VERDADE VOS DERROTARÁ

            Immanuel Kant, Karl Marx e Friedrich Engels, trataram do tema do cosmopolitismo de maneira diferenciada. O primeiro vinculou a explicação à vontade universal, os outros dois inseriram o conceito na perspectiva histórica e dialética compreendido na expansão do capital e do mercado capitalista.

            Kant desenvolveu a teoria dos “imperativos morais”. A sua intenção foi fazer com que a vontade humana fosse vista como um “dever” de alcance universal. Interessava a ele justificar a busca do “reino dos fins”, no qual, se cada um tomasse a humanidade existente no humano nunca como meio, chegaríamos à “paz eterna”. Para ele, a questão estava em fazer vir a termos uma humanidade dotada de razão e, por ser universal, guiar-se-ia pela autonomia da vontade como lei natural, sem contudo apontar para nenhum projeto.

            Marx e Engels também analisaram a questão universal, mas de olho no capitalismo. No Manifesto Comunista mostraram que “a burguesia imprime um caráter cosmopolita à produção e ao consumo, em todos os países, por meio da exploração do mercado mundial. E para o desespero dos reacionários, ela retirou da indústria a sua base nacional”. Portanto, Kant orientou-se pela vontade individual. “Age de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser um princípio de uma lei universal”. Marx e Engels materializaram a expansão pela vontade do mercado e do capital que impõem as próprias leis.O primeiro, quis dar vos ao agir voluntariosos do indivíduo, os dois outros denunciaram o agir perverso e criminoso do mercado e do capital. 

        Na atualidade, as vontades individuais e universais foram intensificadas, mas estão longe de estabelecerem uma racionalidade favorável à civilização. Do ponto de vista universal, o progresso prometido por aquilo que, no início do século vinte, veio a ser denominado de “imperialismo” e no final do mesmo século, converteu-se em “globalização”, foi por assim dizer, “um ato permanente de vontade” do capital internacional, para apossar-se das riquezas nacionais dos países dominados, mas, acima de tudo, foi uma obrigação imposta pelo mercado de levar o capital a todos os lugares da terra para salvar a própria estrutura capitalista. E a vontade individual? No caso brasileiro, teríamos, na visão de Kant, uma verdade abstrata e metafísica sendo imposta pelos slogans: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, e, do ponto de vista de projeto político nada de concreto apresenta.

            Por outro lado, há dois aspectos a serem considerados que representam as ideologias enganosas dos dizeres. O primeiro, é que a “autonomia da vontade” expressas pelas palavras, “Deus acima de todos”, não está na devoção dos governantes daqui, mas no poder imperialista que se coloca, de verdade, “acima de todos”; logo, a subordinação é ideológica concreta. O segundo aspecto, sem “autonomia da vontade” interna, por estar dominado pela vontade externa, o governo entregou-se ao “deus dará”, é a dominação ideológica abstrata. Não sabendo o que fazer posiciona-se na contramão da história, oferecendo como solução aos problemas humanitários, o “Estado de sítio”. Ou seja, enquanto os capitalistas, com “vontade de rapina” esfolam as riquezas naturais, situadas no quintal, o mandatário fica gritando da janela que imporá medidas totalitárias contra aqueles que disserem que ele “não vale um pequi ruído”. Dessa forma, Getúlio Vargas chamado de “Sancho Pança” e “Mãe dos pobres”, não teria implantado a indústria nacional. Juscelino Kubitschek, conhecido desde a infância por “Nonô” e a própria mãe o apelidou de “Meu fusca”, por ser identificado pelas iniciais de JK como a placa do carro, não teria feito Brasília, a capital do país. Lula, chamado de “Sapo barbudo”, não teria feito, na opinião dos analistas, o melhor governo da República e teria recorrido à Lei de Segurança Nacional para perseguir desafetos.

            A vontade metafísica governamental que, segundo os adeptos, elegeram um “mito” e não um presidente, vai do lado avesso. Ao invés de buscar soluções para os problemas concretos das mortes pelo coronavírus, da fome, desemprego e outros, pelo menos duas dezenas de problemas, fica procurando leis para enquadrar indivíduos que lhe tecem criticas, enquanto ocupa-se em liberar a compra de armas ao invés de investir na indústria, tecnologia, educação etc., iniciativas que de fato enfrentariam a decadência nacional e anulariam as criticas. Sua ocupação predileta é instigar os seguidores a boicotarem as medidas e orientações dos governadores e prefeitos; negar a gravidade da crise generalizada, ofender os países que poderiam auxiliar com repasse de vacina e, fazendo ameaças de que instalará um Estado de Sítio. Para que? para dominar quem? Para dar golpe em quem?

            Há, de fato, como disseram os filósofos, um “cosmopolitismo” da vontade do capital e do mercado, imobilizadores que não é em nada solidário. Em primeiro lugar pela expansão do capital, interessa às grandes corporações a exploração até o fim, mantendo a economia regulada pelo dólar. Em segundo lugar, do ponto de vista sanitário, a globalização da Pandemia, em nossas terras encontrou aliados negacionistas rompedores de todas as medidas protetivas, enquanto o mundo olha estupefato, com medo de que as novas cepas queiram também participar do cosmopolitismo da morte.

            A ignorância é uma doença que só pode ser curada com o conhecimento. Por isso clamamos, homens do governo, estudem! Estudem tudo e também a teoria social do materialismo histórico e verão que é melhor governar um povo de barriga cheia e feliz do que grandes contingentes de massas famintas e tristes. Busquem soluções que orgulhem os patriotas! Incluam no vocabulário cotidiano, para substituir as ofensas, palavras de otimismo, conforto e ânimo! A morte só traz perdas, tristeza, melancolia e depressão! Usem o Estado, enquanto puderem, a serviço da vida e deixem de ser inimigos de vós mesmos! Caso contrário: A verdade vos derrotará.

A visão desmantelada, sem nenhum projeto, alimentada apenas por um desejo totalitário, nos está conduzindo para longe até do que desejava Kant, “ao mundo dos fins” onde de fato reinaria a “paz eterna”. O “mundo dos fins” o qual estamos indo, não há Paz e nem respiração. Se o propósito necrotrófico era matar 30 mil pessoas, já ultrapassou a meta em dez vezes e chega à casa das 300 mil mortes, com uma tendência imperativa de multiplicar por dois e talvez por três este número, tornando-nos, possivelmente, nesta copa pandêmica mundial, os primeiros campeões do século vinte e um.

            A exploração capital e a pandemia tornaram-se as duas pragas insuportáveis da civilização: o primeiro mata de fome, o segundo de asfixia.  As respostas a eles deverão ser dadas em âmbito internacional. Temos portanto, duas uniões a serem feitas: a união de países, povos e governos para combater a Pandemia e a união de classe e das massas exploradas para enfrentarmos e superarmos o capitalismo. Se a verdade liberta, ela tarda mas não falta.

                                                                                                                       Ademar Bogo               


domingo, 14 de março de 2021

O APOCALIPSE

 

               Apocalipse, em grego quer dizer “revelação”. Portanto, pode ser lido este conceito com outro conteúdo que não seja aquele apenas do “juízo final”. Revelação que também nos remete a “tirar o véu”, desvelando aquilo que mal se compreende, tornando evidente algo que sempre nos pareceu misteriosamente reservado.

            O filósofo Nietzsche ao escrever o seu livro, “O anticristo”, para tecer criticas à religião indicou que, “as intuições mais preciosas são aquelas que se tem por último: as intuições mais preciosas são os métodos”. Podemos considerar que existe uma grande verdade nisso: se a última intuição é a mais preciosa e podemos transformá-la em um método de ação, significa que é possível chegar o fim da ingenuidade e da subserviência à perversidade.

            De outro modo temos de reconhecer que, entre o principio e o fim vigora a existência da História. Sobre isto, Marx e Engels já alertaram em “A Ideologia Alemã” de 1845, quando categorizaram a “libertação” como “um ato histórico e não um ato do pensamento, e é ocasionada por condições históricas...”

            Todas as gerações vivem os seus dilemas, as atuais, vivemos o dilema da morte. Esta nunca esteve tão próxima; basta sair de casa para contrairmos o vírus, voltarmos e assassinarmos as pessoas que mais amamos. Talvez seja também, a época “apocalíptica” que mais revela as verdades da dominação capitalista e, como para muitos não são as “últimas intuições”, elas não conseguem a transmutação para os métodos de ação em vista da superação das contradições.

            Não temos nenhum estudo reunido feito pela psicanálise que nos revele a estrutura da personalidade (neurótica, psicótica ou perversa) dos 37 presidentes da república já existidos no Brasil. O atual (38º) supera qualquer comparação pelo grau de perversidade que manifesta a cada dia. Move-se ele pelo “principio do prazer” constante, por isso age sem nenhum escrúpulo nem sentimento de culpa. Para ele valem os momentos de transgressão da ordem e do bom senso. Nesse sentido, se uma afirmação lhe é prazerosa pela manhã, mas à tarde do mesmo dia deixou de ser, muda e expressa o seu contrário. Vive a criar suspense e a ofender, desprezar, humilhar e zombar das pessoas, mesmo que estas estejam enlutadas. Diz o que lhe causa satisfação, mente e desmente a própria mentira.

            Poderíamos empregar mais tempo descrevendo as atitudes perversas e intoleráveis em uma autoridade, mas não entenderíamos as razões da perversidade arraigadas na política e, nem tampouco conseguiríamos ter “as últimas intuições” como inspirações para a formulação de um método ou estratégia de superação.

            A pergunta inicial a ser respondida é, por que o perverso na política tem um número espantoso de seguidores? No caso brasileiro, com quase 280 mil mortos vítimas da Covid-19, sendo o principal culpado, o presidente da república, um zombeteiro, desleixado, ignorante à ciência, que propositalmente não articulou a compra de vacinas, nas pesquisas de opinião sustenta-se com 30% da aprovação?   

            Não podemos negar que há em todo ser social, potencialidades para a perversão. Para a maioria das pessoas ela chega ao nível da inveja, da competição, do desejo que o outro vá mal, na difamação caluniosa, na ofensa verbal, no desprezo cotidiano etc. Para outros, manifesta-se em um nível mais elevado, expresso pelo racismo, feminicídio, homofobia, homicídio e outras manifestações materializadas ainda no nível dos ataques individuais. O terceiro e mais elevado nível, aloja-se na pratica política e manifesta-se contra as multidões, impedindo o acesso aos direitos, negando proteção, indo até o genocídio, que também se estende contra as outras espécies, tornando-se, biocídio e  ecocídio gerando em seus adeptos a sensação de prazer. No entanto, a revelação para entendermos a perversidade presidencial e a de seus defensores não a encontraremos em suas atitudes, devemos buscar as respostas nas causas estruturais da sociedade capitalista.

            Todo ser humano é um ser social. A sua formação é social como também a sua educação e profissionalização. Há, portanto, uma estrutura social, em nosso caso, capitalista, que sustenta a estrutura comportamental. Aprendemos a pensar com as informações e os temas que a sociedade nos apresenta. Internalizamos preconceitos, convicções machistas, e critérios racistas no convívio familiar e nos grupos sociais. Nesse sentido, olhando de baixo para cima, o que é o modo de produção capitalista senão um complexo estruturado, reprodutor de perversões que a uns pouco dá prazer, e a uma grande maioria reserva-lhes o sofrimento?

            O que é a perversão social, senão ver no final do mês, o assalariado que tudo produziu em uma fábrica construída com subsídios públicos, voltar para casa, em direção à periferia, embarcado em um ônibus lotado, enquanto o pretenso proprietário faz outro trajeto de helicóptero? Mas isto não é tudo. Por que o empregado aceita tal condição e o patrão não é preso por concentrar a riqueza extraída do trabalho alheio? Pelo simples fato que a perversidade humana, para garantir a exploração empresarial, foi expressa nas leis e foi a perversidade jurídica que sustentou três séculos de trabalho escravo no Brasil. Com ela, travestida de “interesses”, cerceou-se a liberdade dos mais pobres ao acesso à terra; o acesso à educação de qualidade às massas empobrecidas e tantos outras formas de aniquilamento da dignidade humana.

            Então chegamos ao ponto critico: se estranhamos a perversidade do presidente da república, por que não estranhamos a crueldade do capital e, principalmente a perversidade do Estado que age cotidianamente para garantir a ordem perversa que a pequena-burguesia eleitoreira chama de “democrática”? Ao contrário, as forças políticas de “esquerda” que deveriam cultivar a critica contra a base estrutural do capitalismo, que faz penar a maioria da população, enquanto a minoria usufrui o prazer de dominar, pensa e prepara-se para adentrar nas estruturas perversas para “fazer justiça”.

Voltemos primeiramente a Marx e Engels (1845) quando, após dizerem que a expressão dos limites econômicos existentes não é apenas puramente teórica, mas também existe na consciência prática, “daí se segue que todas as lutas no interior do Estado, a luta entre democracia, aristocracia e monarquia, a luta pelo direito de voto etc. etc., não são mais do que formas ilusórias...” Portanto, as ilusões corroem as intuições e, por essa razão restringem-se os métodos e as frentes de combate. Mas podemos ir mais longe, e recorrermos a Aristóteles que já, no seu tempo percebera da mesma maneira que podemos ter três tipos de governo: de um, de um grupo e de muitos, mas que no final esse terceiro tipo se transmuta para um grupo oligárquico, impossibilitando qualquer tentativa de se ter um governo popular.

            Pensar em combater a perversidade do perverso com uma simples disputa eleitoral que ainda está por vir, no distante 2022, em vista de tirá-lo da cadeira para alguém sentar em seu lugar, é sim uma ilusão, quando na verdade a perversidade surge e se sustenta pela estrutura social, capitalista e estatal, mantendo como devotos 30% da população mais abastada ou alienada por ela que a vitória eleitoral não desmancha.

            Lembremos que na Antiga Roma, na metade do século primeiro, os cristãos eram presos e levados às arenas e coliseus para serem, em grupos, comidos por leões, enquanto nas arquibancadas compraziam-se, o imperador e os seus acompanhantes. De lá para cá nada mudou, apenas os leões foram substituídos pelas milícias e forças policiais, que matam jovens negros nas periferias das cidades, enquanto os alienados festejam. Por sua vez, a tentativa de armar os 30% da população alucinada é a última forma de expressão do perverso que sonha ver um dia as populações e inimigos políticos, inteiramente dizimados. Nesse sentido, combater o perverso e não a estrutura do capital e estatal que o sustenta, é o mesmo que atacar o leão dentro do Coliseu, enquanto o imperador protegido se diverte olhando do alto.

            Não nos enganemos senhores e senhoras, a perversidade não é só uma estrutura na personalidade, ela é um sistema estruturado que o perverso dela se utiliza para realizar os seus prazeres. E, não estranhemos, que por prazer e não por necessidade institucional, o perverso,  poderá oficializar o golpe de Estado para impedir a realização das eleições de 2022. Por enquanto diverte-se com ameaças, enquanto as forças contrárias se deleitam com o “Lula livre”, esquecendo-se de tudo, inclusive que seis votos no Supremo Tribunal Federal pode fazer valer a perversidade jurídica, e anular a decisão anterior. 

            Apocalipse, portanto, não deve ser visto como fim de tudo, mas como revelação daquilo que ainda está por vir. E, se tiver que ser o fim, que seja das estruturas que sustentam as perversidades. Desmascará-las e não elogiá-las é a intuição correta. O método exige uma finalidade maior do que esta bandeira eleitoral sustentada no frágil mastro da legalidade. A caneta que absolve é a mesma que condena. Entre uma opção e outra passa o afiado fio da navalha que pode cortar um pouco e de vez em quando do lado direito, na maioria das vezes corta mesmo do lado esquerdo.

            Que a maioria dos mortos na Pandemia, pressione nossas cabeças para que pensemos corretamente e entendamos que, a democracia ora reinvindicada pela esquerda, é música para os ouvidos da direita e, nesse ritmo ela continuará servindo para que os leões continuem devorando os escravos para garantir o prazer diário dos perversos.

                                                                       Ademar Bogo   

      

domingo, 7 de março de 2021

O PARTICULAR E O UNIVERSAL

            Quando refletimos sobre o particular e o universal, imaginamos existir uma distância e, mais ainda, um total descomprometimento entre eles. Esse pensar desassociado de certo nos vem do princípio, de pensarmos ser o cidadão responsável pela sua propriedade privada, as demais responsabilidades públicas ficam a cargo das autoridades.

            O filósofo húngaro György Lukcás nos ajuda a pensar sobre este assunto no sentido que, “o singular não existe mais que na conexão que leva ao geral. O geral não existe mais que no singular, pelo singular. Todo indivíduo é geral (de um modo ou de outro). Todo geral constitui uma partícula ou um aspecto ou a essência do singular.” Nesse sentido, pensar em separar um do outro é levar os juízos a cometerem um desvio “tautológico”, retirando a importância do predicado do sujeito, principalmente quando expressa que, o “particular é particular” e “universal é universal”.

            Desde a antiguidade o “Cosmos” e a “Phisis” estiveram interligados pela relação entre os corpos e espíritos. O universo não é uma ilusão expressa pela opinião particular. É a redução da capacidade de pensar e a mesquinhez individual que reduziram o mundo ao alcance do privado. O particular sem o universal perde a essência e fica irreconhecível. Somos e sabemos quem somos quando nos comparamos.

            Por outro lado, se levarmos as tautologias para a argumentação filosófica, veremos que, embora os predicados sejam idênticos ao sujeito, os juízos expressam de forma concreta, algo a mais. Acrescentam, pelos significados encadeados, o prolongamento do entendimento e a qualificação do senso critico. Se não vejamos: quando ouvimos a expressão: “Brasileiro é brasileiro”, inicialmente pensamos uma repetição desnecessária do sujeito; no entanto, os juízos tautológicos nos conduzem a perceber o dito e o não dito.

            Ao dizemos: “Brasileiro é brasileiro”, podemos entender a primeira parte da expressão, tratar-se do “brasileiro” cidadão. A importância maior, porém, está no significado do segundo “brasileiro”. Ele significa o predicado da oração que dá qualidade ao sujeito. O predicado, portanto, nos mostra juízos positivos e negativos. Podemos considerar presente na intenção do “brasileiro” predicado e não sujeito, as características do “homem cordial”, alegre, afetuoso, bem relacionado, festeiro, esperto etc. Por outro lado, o juízo pode nos levar a pensar no “brasileiro” ingênuo, acomodado, tolerante, descuidado e assim por diante. Logo, “Brasileiro e brasileiro” não é uma repetição, mas uma significação.

            Essas expressões são correntes nas falas cotidianas, surgidas às vezes como elogios: “craque é craque”; como superação” “mãe é mãe”; como heroísmo: “soldado é soldado”; como dedicação: “professor é professor”; sempre ditos no sentido da valorização. Outras vezes apelamos para a critica ligeira, por meio de expressões de aceitação como: “bandido é bandido”; “policia é polícia”; “banqueiro é banqueiro”.

            Isso posto, é importante compreender os predicados. Eles são responsáveis pela revelação das características dos sujeitos. Precisam ser considerados como parte da reação política. Ajudam-nos a combater o comodismo. Alertam-nos para procedermos a a discordância com as atitudes e expressões de desprezo legitimadoras da ordem da perversidade, sustentáculo da ineficiência da prática política, resumida na tautologia de “Morrer tem que morrer”, como se fosse uma verdade universal sem culpabilidade particular.

            Sigmund Freud ao tratar da “Dissecação da personalidade psíquica”, em 1923, fez justamente essa associação do particular com o universal ao comparar os “territórios estrangeiros” internos e externos ao ego, dizendo que, “Os sintomas são derivados do reprimido, são, por assim dizer, seus representantes perante o ego; mas o reprimido é território estrangeiro para o ego – território interno – assim como a realidade....é território estrangeiro externo”.

            O entendimento de Freud é que, temos um território interno estrangeiro ao ego (eu) que se localiza no inconsciente, onde estão retidos os traumas, as reprimendas e as outras neuroses e, existe um outro território, também  estrangeiro, ao ego, que é a realidade externa. Vemos, portanto, que também pela Psicanálise o particular e o universal estão interligados.

Nesse sentido, ao voltarmos ao juízo tautológico, percebemos que a expressão “governo é governo” não significa independência e, a soberania nacional quando atinge a esfera da perversidade, como o inconsciente no humano deve ser deve ser contida pelas forças conscientes com a ajuda das forças internas e externas.

            Do modo, a compreensão de que, “presidente é presidente”, não pode significar a autorização para uma conduta sem limites. “Presidente é presidente” deve significar um verdadeiro líder e não como um genocida, exterminador das florestas e do patrimônio publico.

            Diante das expressões tautológicas incivilizadas, nos dizendo que: “perverso é perverso”; “corrupto é corrupto”; milícia é milícia”; “insanidade é insanidade”, “desleixo é desleixo” e, “incompetência é incompetência”, consideramos ser de fundamental importância observar essa realidade, para que ela nos motive a reagirmos  no território interno, em busca do apoio e a participação da ordem externa. É hora dos países importadores de produtos produzidos na Amazônia, deixarem de fazê-lo. Todos os esforços devem ser combinados para que o particular (Brasil) não venha a ser um, mal universal.

Por outro lado, um povo não pode ser refém do próprio medo. O medo que o Congresso Nacional tem das forças armadas, evita de abrir o processo de impedimento do presidente; o medo que o Supremo Tribunal Federal tem das forças armadas, impede de declara os desmandos de Sérgio Moro como suspeitos. O medo que os partidos de esquerda têm das forças armadas, contém as iniciativas de irem além do processo eleitoral e, tantos outros medos estão presentes nas universidades, nos movimentos populares e sindicais, nas fileiras estudantis e intelectuais de que as mesmas forças armadas possam dar um “golpe de Estado”. O que falta ainda para que seja declarado o governo brasileiro como governo do tipo militar? O silogismo lógico nos diz que, quanto mais demoram a legitimar a forma de governo totalitária, mais se prolonga agonia da insípida democracia e, quanto mais se retarda a reação popular interna e da comunidade internacional, mais se prolonga a agonia das massas deserdadas.

            Baseados em que podemos fazer esta afirmação. As tendências mostram que a pandemia no Brasil não será controlada facilmente a Curto e a médio prazo, e, chegar a meio milhão de mortos é uma questão de seis meses de tempo futuro.  O atraso proposital da vacinação que teve como causa o negacionismo inicial de ser “uma gripezinha”, induziu a não fazer contrato com os laboratórios e, por isso o Brasil foi colocado nos últimos lugares da fila de espera. Isto fará com que, o território nacional,  particular venha a se tornar um verdadeiro canteiro de recriação das variantes do vírus que, pela resistência, colocará em risco a própria eficácia da vacina tão esperada.

Para o mundo, a “tautologia” afetiva histórica de que “Brasil é Brasil”, que exporta alegria, carnaval e futebol, passará ser o Brasil da exportação de vírus fortalecido na contaminação do agrotóxico do agronegócio; na fumaça do fogo dos incêndios das florestas e no negacionismo, de uma parcela da população que, em nome do “mito” contesta a  ciência e as orientações dos cientistas e sanitaristas.

            É tempo de inverter a tautologia negativa de que “brasileiro é brasileiro” e “brasileira é brasileira”, no sentido de que aceita tudo ou teme o poder da repressão. É a hora do Brasil contribuir com a humanidade, não como sempre fez sendo celeiro alimentício; fornecedor de matérias primas minerais e, alegria contagiante, mas como preservador da vida e da saúde da humanidade, combatendo as forças que alimentam a recriação do coronavírus.

            Desse modo, se o particular é o país, o universal é o mundo; se o particular é a comunidade interna o universal é a comunidade externa; se o particular é o negacionismo, o universal é a ciência; se o particular são as forças armadas, o universal é o povo. É este povo que precisa salvar e salvar-se. Vamos à luta.

                                                                                                                     Ademar Bogo