domingo, 30 de agosto de 2026

ORFANDADE POLÍTICA

                                                            

Sempre que iniciam as campanhas eleitorais as populações se agitam e as pessoas se posicionam influenciadas por diferentes fatores; no entanto, para a parte politizada dos eleitores, a escolha de um dos lados: direita ou esquerda, já vêm definidas antecipadamente.

Geralmente as posições pessoais ou grupais, nas disputas eleitorais, representam também as atitudes e os comportamentos em relação ao lado nos quais as pessoas estão envolvidas com a unidade dialética entre a luta das forças contrárias, para suplantarem a orfandade política. Freud (1921) ao tratar da Psicologia de massas, fez a interpretação da dependência psicológica, e percebeu que todas as pessoas têm a necessidade de um pai na família ou na religião e nas forças armadas. “O comandante-chefe é um pai que ama todos os soldados igualmente e, por essa razão, eles são camaradas entre si. O exército difere estruturalmente da Igreja por compor-se de uma série de tais grupos. Todo capitão é, por assim dizer, o comandante-chefe e o pai de sua companhia, e assim também todo oficial inferior o de sua unidade”.[1]

Na medida que, na política, as grandes massas sentem-se desamparadas, procuram por meio de pequenos grupos, buscar um substituto para suplantar a orfandade. Nesse sentido, o que importa é a capacidade de aglutinação que as pessoas de maior influência na sociedade, principalmente a classe média, incrustrada nas religiões e  na mídia, empenham-se em ganhar adeptos arrastando-os para uma mesma direção. Como rebanhos as massas são conduzidas na direção do pai. O apego a ele deve-se ao receio da repetição da perda ou da falta que ocorreu no passado quando o verdadeiro pai de cada um se ausentou.

Por outro lado, a orfandade daquilo que sempre se considerou o espectro mais crítico apropriado pelas forças de esquerda transformou-se profundamente. São sem dúvida os mesmos sintomas da atração, também pelo líder, porém, os mais afoitos, num passado não muito remoto apontavam para a transcendência utópica, quando a emancipação política, social e humana realizar-se-ia por meio dos esforços participativos. Portanto, a obra almejada seria edificada pelos construtores organizados.

Comparativamente, se as massas que seguem os candidatos de direita procuram suprir a carência paterna apegando-se a um líder exaltado, a outra parte repete o mesmo ritual de entregar um líder, o destino de seus anseios, com uma diferença, embora no Brasil já por quatro décadas o mesmo líder cumpre o papel psicológico do pai, os grupos mais conscientes sentem o desamparo pela perda da perspectiva transcendente de superação do capitalismo, isto porque, as disputas eleitorais foram sendo reduzidas a dois comandos: de extrema-direita e de centro-direita. Ou seja, a frustração da falta paterna que empurra as pessoas para os braços de um líder conservador, é a mesma carência e perda do projeto político de esquerda que motivava as forças a assumirem a defesa do Estado de direito da ordem capitalista.

As eleições de 2026 para presidente da República, remete a refletir sobre a semelhança dos programas de governo. Todos seguem os mesmos roteiros com destaque para a segurança pública, mas nenhum dos treze candidatos responde por que a violência aumenta ano a ano? Depois, a economia, todos prometem crescimento e geração de empregos; educação, com parcas referências aos professores e professoras, assim como também na saúde, como se essas áreas funcionassem sem força-de-trabalho, remuneração e infraestrutura adequada.

A proximidade do conteúdo dos textos dos programas de governo, não representa o que as circunstâncias reais permitirão fazer posteriormente. Para quem tem um pouco de conhecimento histórico, facilmente vinculará a situação atual com a Assembleia Constituinte de 1791, na França, quando teve origem a formação dos dois grupos de direita (Girondinos) e de esquerda (Jacobinos), que guerrearam e se mataram para saber quem faria as melhores propostas liberais para pôr em funcionamento o capitalismo.

“Dos males o menor” dizem os mais conscientes e, certamente devemos assim proceder para evitarmos que a satisfação de um desejo da extrema-direita se converta em um castigo para a maioria da população da nação. No entanto, é importante observar que, optando pelo “mal menor” por diversas vezes, vamos cada vez mais nos aproximando do “mal maior” e, quando isso vier a se configurar, teremos poucas possibilidades de defesa, porque, mesmo sendo menor,  estamos sendo impregnados pelo mal.

Diante das crises e avanços da destrutividade do capital, tratar a política com mansidão e passividade, achando que a recomposição da paternidade perdida substituirá a figura do pai por um líder que se impõe isoladamente, seria o máximo a fazer nesse momento, é conformar-se antecipadamente com a orfandade que fatalmente virá. Já é tempo das consciências reagirem e responderem por si mesmas aos problemas históricos e buscar superá-los. O oposto do mal menor é o bem maior, mas isto somente será visualizado quando as vontades revolucionárias se unirem para seguirem em outra direção.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e análise do Ego. Rio de Janeiro: Imago 2006, p. 58

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