Sempre
que iniciam as campanhas eleitorais as populações se agitam e as pessoas se
posicionam influenciadas por diferentes fatores; no entanto, para a parte
politizada dos eleitores, a escolha de um dos lados: direita ou esquerda, já vêm
definidas antecipadamente.
Geralmente
as posições pessoais ou grupais, nas disputas eleitorais, representam também as
atitudes e os comportamentos em relação ao lado nos quais as pessoas estão envolvidas
com a unidade dialética entre a luta das forças contrárias, para suplantarem a
orfandade política. Freud (1921) ao tratar da Psicologia de massas, fez a
interpretação da dependência psicológica, e percebeu que todas as pessoas têm a
necessidade de um pai na família ou na religião e nas forças armadas. “O comandante-chefe é um pai que ama todos os
soldados igualmente e, por essa razão, eles são camaradas entre si. O exército
difere estruturalmente da Igreja por compor-se de uma série de tais grupos.
Todo capitão é, por assim dizer, o comandante-chefe e o pai de sua companhia, e
assim também todo oficial inferior o de sua unidade”.[1]
Na medida que, na política, as grandes massas sentem-se
desamparadas, procuram por meio de pequenos grupos, buscar um substituto para
suplantar a orfandade. Nesse sentido, o que importa é a capacidade de
aglutinação que as pessoas de maior influência na sociedade, principalmente a classe
média, incrustrada nas religiões e na
mídia, empenham-se em ganhar adeptos arrastando-os para uma mesma direção. Como
rebanhos as massas são conduzidas na direção do pai. O apego a ele deve-se ao
receio da repetição da perda ou da falta que ocorreu no passado quando o
verdadeiro pai de cada um se ausentou.
Por outro lado, a orfandade daquilo que sempre se
considerou o espectro mais crítico apropriado pelas forças de esquerda
transformou-se profundamente. São sem dúvida os mesmos sintomas da atração,
também pelo líder, porém, os mais afoitos, num passado não muito remoto
apontavam para a transcendência utópica, quando a emancipação política, social
e humana realizar-se-ia por meio dos esforços participativos. Portanto, a obra
almejada seria edificada pelos construtores organizados.
Comparativamente, se as massas que seguem os candidatos
de direita procuram suprir a carência paterna apegando-se a um líder exaltado,
a outra parte repete o mesmo ritual de entregar um líder, o destino de seus
anseios, com uma diferença, embora no Brasil já por quatro décadas o mesmo
líder cumpre o papel psicológico do pai, os grupos mais conscientes sentem o
desamparo pela perda da perspectiva transcendente de superação do capitalismo,
isto porque, as disputas eleitorais foram sendo reduzidas a dois comandos: de
extrema-direita e de centro-direita. Ou seja, a frustração da falta paterna que
empurra as pessoas para os braços de um líder conservador, é a mesma carência e
perda do projeto político de esquerda que motivava as forças a assumirem a
defesa do Estado de direito da ordem capitalista.
As eleições de 2026 para presidente da República, remete
a refletir sobre a semelhança dos programas de governo. Todos seguem os mesmos
roteiros com destaque para a segurança pública, mas nenhum dos treze candidatos
responde por que a violência aumenta ano a ano? Depois, a economia, todos
prometem crescimento e geração de empregos; educação, com parcas referências
aos professores e professoras, assim como também na saúde, como se essas áreas
funcionassem sem força-de-trabalho, remuneração e infraestrutura adequada.
A proximidade do conteúdo dos textos dos programas de governo,
não representa o que as circunstâncias reais permitirão fazer posteriormente.
Para quem tem um pouco de conhecimento histórico, facilmente vinculará a
situação atual com a Assembleia Constituinte de 1791, na França, quando teve
origem a formação dos dois grupos de direita (Girondinos) e de esquerda
(Jacobinos), que guerrearam e se mataram para saber quem faria as melhores
propostas liberais para pôr em funcionamento o capitalismo.
“Dos males o menor” dizem os mais conscientes e, certamente
devemos assim proceder para evitarmos que a satisfação de um desejo da
extrema-direita se converta em um castigo para a maioria da população da nação.
No entanto, é importante observar que, optando pelo “mal menor” por diversas
vezes, vamos cada vez mais nos aproximando do “mal maior” e, quando isso vier a
se configurar, teremos poucas possibilidades de defesa, porque, mesmo sendo
menor, estamos sendo impregnados pelo
mal.
Diante das crises e avanços da destrutividade do capital,
tratar a política com mansidão e passividade, achando que a recomposição da
paternidade perdida substituirá a figura do pai por um líder que se impõe
isoladamente, seria o máximo a fazer nesse momento, é conformar-se antecipadamente
com a orfandade que fatalmente virá. Já é tempo das consciências reagirem e
responderem por si mesmas aos problemas históricos e buscar superá-los. O
oposto do mal menor é o bem maior, mas isto somente será visualizado quando as
vontades revolucionárias se unirem para seguirem em outra direção.
Ademar
Bogo
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