Sempre que perguntamos sobre um
convalescente e a resposta nos alcança com um, “continua na mesma”, duas
sensações tomam conta da consciência informada: a primeira situasse na
negatividade de que, “pelo menos não piorou” e, a segunda, mesmo que alimentada
por uma onda fraca de otimismo, indica que “poderá melhorar”.
Essa parece ser a situação da
conjuntura mundial atormentada pelas guerras localizada, as disputas pelo macro
mercado e pela apropriação das riquezas naturais. Quem aparentemente está
perdendo, continua sendo império e, o outro lado resistente, pelo simples fato
de não se deixar aniquilar, não pode dizer que ganhou porque as consequências
negativas, como as sequelas físicas teimam permanecer e incomodar.
As razões para termos esses supostos
“empates” bélicos após um período intenso de combates, se deve a instalação do
Estado de barbárie no interior do modo de produção capitalista, no qual, todos
os esforços empregados dificultam sair de tal situação. O motivo justificador disso
é porque parece faltar uma lei que determina a transformação pela ausência da
força de transição. Marx na década de 1850 havia se dado conta que: “Para
atingir o seu objetivo, basta provar a necessidade da ordem atual, e, ao mesmo
tempo, a necessidade de outra ordem na qual se transformará, inevitavelmente, a
primeira, acreditem ou não os seres humanos, tenham ou não consciência da
transformação”.[1]
As necessidades da ordem atual capitalista
parecem não ser de difícil compreensão. O capital somente poderá existir se
continuar expandindo as suas formas de reprodução e acumulação. Acontece que, diferentemente
do período colonial quando de algum modo as riquezas estavam disponíveis, agora,
além de serem escassas há muitíssimas pessoas interessas em usufruí-las. Para
impor os seus interesses, os capitalistas apelam para o uso da violência como o
faz qualquer gangue que dissemina o terror em um território controlado pelos
narcotraficantes. A barbárie, portanto, se estabelece quando não há mais nenhuma
garantia de ordem, não importa se isso ocorre em um bairro ou em disputas entre
países.
Por outro lado, não se apresenta claramente
como deverá ser a outra ordem que prometa levar-nos para além da transição. O
Estado capitalista que no período neoliberal parecia ter perdido um pouco de
seu potencial invasivo, recuperou, pelos interesses do capital, o seu poder de
uso. O enfraquecimento e desaparecimento das formas organizativas da sociedade
civil e principalmente das entidades de classe, as disputas passaram a ser em
campo aberto e institucional.
As esperanças já não estão mais depositadas
nas conquistas dos direitos, mas nos
regimes políticos se eles se caracterizam como “democracia” ou “ditadura”. A
jocosidade é que isso pode mudar de um pleito para outro e pôr abaixo acordos
bilaterais para estabelecer outros mais esdrúxulos, sem o mínimo de
concordância com a ética.
Passamos a conviver com a síndrome
da perda eleitoral. A decomposição dos planos táticos expressos por meio de ações
na cotidianidade, já não permite inserir ninguém nas formas orgânicas de luta e
resistência. O comodismo Ocidental cristianizado, levou a formular a crença de
que tudo se resolve em uma única batalha; nesse caso, na disputa eleitoral.
Houve um tempo a partir da Terceira
Associação Internacional, em 1919 que as forças de esquerda e revolucionárias,
além de combaterem as forças inimigas, combatiam-se entre si; cada uma querendo
impor o seu critério de verdade. Facções e tendências reproduziam-se com muita
facilidade, o que no fundo faltava era sentimento de unidade. Ultimamente vimos
sair de moda essas práticas conflitivas, mas seria porque houve o convencimento
de que aquelas disputas eram infantis, ou porque ninguém mais se dedica a
pensar a transição estratégica para a conquista de outra ordem política e
social?
Esse jogo institucionalizado entre
oposição e situação, indica que haverá alternância das forças políticas nos
governos. Essa norma é inerente à lógica das disputas de ganhar e perder. Isso
não é ruim. No entanto, ao longo dos anos as populações foram sendo educadas
que mudanças políticas funcionam como os fenômenos naturais, como ocorre com
El niño que retorna a cada 4 anos, desarruma tudo e depois passa, deixando
as pessoas com a sensação de que nada se pode fazer.
Devemos nos convencer que a política
é feita com ideias e ações pensadas e organizadas. Para que os resultados
aconteçam é preciso tempo de planejamento e execução. As exigências para
diferenciar a política os processos naturais é querer alcançar os resultados
programados. Mesmo assim podemos ficar aquém da realização de algo duradouro,
então, devemos pensar na transição da ordem atual para a outra ordem futura.
Isso não se faz com as disputas eleitorais apenas.
Ademar Bogo