domingo, 28 de junho de 2026

FILOSOFIA DO ESPORTE


            A Filosofia do Esporte é um ramo da filosofia que trata da arte, da estética e da ética esportiva. Desde a Grécia antiga, quando lemos as obras de Platão e Aristóteles, vemos que, o primeiro dava muita importância à música e a ginástica para equilibrar o corpo e a mente e, o segundo via nas atividades esportivas, a possibilidade de desenvolver virtudes e tornar as pessoas mais alegres, consequentemente mais festivas e eticamente melhores como cidadãos.

            Talvez o que conheçamos hoje como esporte praticado em pequenos grupos ou com exibições individuais, já foi no passado uma atividade comum e envolvente para todas as pessoas na produção da própria cultura de todas as sociedades. Os diálogos constituídos por meio de jogos de linguagem, sempre revelaram a arte da boa conversação em cerimônias festivas, nas quais cada tribuno busca as mais adequadas palavras para deleitar os ouvintes. As danças por simples divertimentos, serviram sempre como treinos para os posteriores concursos. Da mesma forma as composições musicais que elevaram em todas as épocas os gênios a patamares insuperáveis, nunca deixou de ser uma boa companhia para os boêmios, os decepcionados com a fidelidade matrimonial ou para as pessoas que aprenderam a inserir os cantos nas atividades de trabalho.

            O assunto sobre a arte esportiva participa da História da humanidade que o historiador inglês Johan Huizinga, nascido no final do século dezenove deu-se conta que não somos apenas homo sapiens, mas evoluímos também para “homo ludens”, ou seja, pessoas lúdicas que gostamos de jogar, brincar e nos divertir produzindo e usufruindo das formas artísticas. O mais surpreendente no livro desse autor, Homo Ludens, publicado em 1938, é a sua defesa da ideia que os jogos e as brincadeiras foram criados antes pelos animais. Basta observar as relações que eles desenvolvem coletivamente: “Convidam-se uns aos outros para brincar mediante um certo ritual de atitudes e gestos. Respeitam a regra que os proíbe morderem, ou pelo menos com violência, a orelha do próximo. Fingem ficar zangados e, o que é mais importante, eles, em tudo isto, experimentam evidentemente imenso prazer e divertimento”.[1] De modo que, podemos considerar que a diversão é tão importante como a água e a comida para todas as espécies vivermos nesta Terra.

            Ficamos surpresos com algumas atividades esportivas e suas potencialidades de mobilizarem multidões como é o futebol. Como muitas outras expressões artísticas ele se diferencia das brincadeiras espontâneas dos animais e entra para as atividades ensinadas pela civilização. Um exemplo disso é o Japão. O futebol foi levado para aquele país no final do século dezenove pelos britânicos e, mesmo assim, somente veio a participar da Copa do Mundo em 1998. Atualmente apresenta-se com tamanha capacidade que ameaça a passagem do Brasil para a segunda fase desse certame de 2026.  

            A Copa do Mundo é uma atividade lúdica. Embora a participação direta seja efetuada com um grupo muito reduzido, mobiliza bilhões de pessoas no mundo inteiro. É para esperar o momento do jogo que as crianças pintam e os adultos enfeitam as ruas com bandeirolas e param diante das telas no dia das disputas com outros concorrentes como se fosse dia santo ou feriado.

            Na Copa do Mundo a Pátria se faz representar, cada qual exibindo o seu hino e sua bandeira. Os uniformes tendem representar as cores nacionais e as multidões se comportam como forças organizadas em defesa da ética, do respeito das normas, mas também criticam o técnico e os jogadores que não desempenham a função na posição que ocupam.

            Por outro lado, um grande evento como a da Copa do Mundo coloca-se tão distante das brincadeiras espontâneas dos animais que os jogos se tornaram irreconhecíveis. Os atletas são monitorados, as regras são reguladas por aparelhos eletrônicos como é o caso do Var que, não importa a beleza da jogada, basta que a tecnologia aponte que um pé do centroavante esteja um pouco a frente da linha de impedimento, e o gol é anulado; dessa forma a toda energia da comemoração fica desperdiçada.

            De outro modo, os interesses políticos aproveitam o momento para dificultar o bem-estar dos desafetos e, com isso, muitas seleções são mal recepcionadas e mal alimentadas; no fundo, utilizadas apenas para fazer a presença inicial e, logo na primeira ou no máximo na segunda fase, serem despachada para que a verdadeira copa do exibicionismo e da lucratividade tome conta.

            Os ganhos econômicos são os que mais se destacam. As grandes empresas desde o turismo até a oportunidade de fazer negócios com a compra e venda de jogadores. Estes apesar de exibirem-se como celebridades não passam de fantoches nas mãos dos proxenetas que gerenciam a antiética da desumanização.

            Em síntese aquilo que no cotidiano serve como diversão para as crianças e os adultos em campo de terra, na Copa do Mundo torna-se um evento para a elite, porque, no decorrer do evento ocorrem dois tipos de eliminação: a primeira dos times que não possuem poder de investimento na educação esportiva e os clubes sobrevivem em seus países com a venda dos melhores jogadores e, a segunda é a eliminação dos torcedores com poder aquisitivo mais baixo; isto porque, conforme as fases da copa evolui, os ingressos mudam de valor. Portanto, apesar da grande comoção mundial, no final, sobram 22 jogadores, dois técnicos e um banco de reservas com pessoas auxiliares, com um estádio lotado de torcedores da classe média e da lumpemburguesia vivendo como parasita das habilidades alheias.

            Apesar de tudo, a Filosofia do Esporte continua viva. O cuidado com a estética do belo e dos sentimentos afetivos, a confraternização e a unidade nacional, são características que a cartolagem não pode destruir. Há, contudo que lutar contra a desumanização das atividades esportivas, mantendo todas as modalidades como necessidades de divertimentos e não como meio de enriquecimento de elites corrompidas.

                                                                                               Ademar Bogo



[1] HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Editora Perspectiva S. A. 2000.

domingo, 14 de junho de 2026

O COMPLEXO DE HERÓSTRATO

 

            Piromania é um termo usado para caracterizar um distúrbio existente em uma pessoa atraída por fogo e destruição. Ao ser identificado esse indivíduo passa a ser denominado de “piromaníaco”. Freud descreveu a situação aproximada por ocasião de nascimento de Alexandre Magno que, “Heróstrato ateou fogo ao venerado Templo de Artêmis, em Éfeso, por simples desejo de obter fama”.[1] O fogo, portanto, carrega consigo várias simbologias, mas, do ponto de vista de sua ofensividade serve para acarretar prejuízos quando se associa com as armas e, por outro lado, dá ao incendiário a sensação de poder ilimitado.

            O fascínio que a princípio representa o deslumbramento ou atração irresistível pela fama, levou Heróstrato, no 356 antes de Cristo, a incendiar uma das sete maravilhas do mundo antigo. O propósito para cometer esse crime hediondo foi unicamente o de ser lembrado eternamente. De imediato as autoridades de Éfeso descobriram o malfeitor e, após prendê-lo, torturá-lo e executá-lo emitiram um decreto que ficou conhecido como “Condenação da memória”; ou seja, ninguém poderia pronunciar o seu nome sob pena de ter o mesmo fim que ele. Não funcionou. O historiador grego Teopompo, arriscou-se e escreveu o acontecido e o seu intento chegou até nós perenizando a intenção de Heróstrato.

            Podemos considerar simbolicamente que o fogo que incendeia e destrói também ilumina e clareia ao redor para que possamos desvendar a verdade.  Na atualidade a tentativa de destruir com mísseis e bombas, mostra que a sedução pode levar à exaltação e fixar a memória eterna; mas também pode revelar que a resistência contrária, remetendo o fogo de volta ao inimigo, pode queimar a fama e, ao invés de relembrar os feitos como atos heroicos, fazer as futuras gerações conhecerem os verdadeiros covardes que, tomados pelo “Complexo de Heróstrato” pensam iluminaram-se através de ações criminosas.  Os motivos para surgir um incendiário pode vir de uma piromania individual como também coletiva.  Diante da derrocada de um micropoder ou de um império, as alternativas principais ancoram-se na violência e na guerra.

            O fascínio do império facínora que se alimenta da agressão das nações e da morte generalizada, não representa poder, mas insegurança e sensação real de descontrole. O Presidente dos Estados Unidos se assemelha a um velho bêbado que esbraveja na cozinha enquanto na varanda os filhos e netos se divertem às suas custas. A suposta capacidade de liderar e submeter os outros países aos seus anseios, poucos já o obedecem; basta lembrar a proposta feita para a formação de um “Concelho de Paz”, para reconstruir a “Nova Gaza”, na Palestina, apenas duas míseras dezenas de países apoiaram, porém nunca desembolsaram nenhum dólar e o plano desapareceu das discussões.

A pequenez da política internacional do imperialismo é tamanha que as atitudes estratégicas se atêm ao tarifaço, no entanto, a medida somente intimida governantes covardes que se ajoelham diante do imperador para oferecer as suas mercadorias, os que se respeitam, devolvem o ataque com as mesmas taxas alfandegárias. Imaginar que o imperador romano se preocuparia com a prisão de um sociopata como Bolsonaro ou atacar uma província porque havia criado uma moeda ou um Pix, ou ainda transformar grupos de narcotraficantes em terroristas quando quase em nada afetam a segurança econômica, é uma clara demonstração que o imperialismo está sem rumo.

As ameaças cotidianas de que irão invadir Cuba representa outra infantilidade política e a repetição de erros que se repetem a mais de seis décadas. Os permanentes bloqueios econômicos até o momento não fizeram surgir efeitos favoráveis ao imperialismo. Logo, uma estratégia que a mais de sessenta anos não funcionou, revela estar totalmente errada. A única esperança que os agressores poderiam alimentar para restabelecer relações capitalistas com Cuba, seria capitalizando e não asfixiando aquele país. O que impede que incendiários enxerguem isso é o Complexo de Heróstrato, formado pelos instintos de vingança misturados à ansiedade de obterem fama.

A força indestrutível contra as bombas e o fogo que carregam é a multipolaridade internacional. As nações de uma só vez se levantam para dizer que não querem mais ser reféns de um poder sanguinário, explorador, que passará para a História como sendo o sistema que, em curto período de dois séculos promoveu a barbárie mundial, mas foi contido e rebaixado. Isso acontecerá assim que a indústria armamentista perder a importância, transformará os Estados Unidos em uma das economias mais dependentes do mundo, isto porque, sem indústrias os Estados Unidos retornarão à produção primária. Quando isso acontecer, os imigrantes sairão de lá por conta própria e as cenas de humilhação das extradições deixarão de serem vistas.

Por trás das constantes bravatas se esconde o medo de perder a hegemonia sanguinária da política internacional. O único produto que pode surgir do medo são mais armas. No entanto, elas sozinhas não conseguem resolver os problemas da perda da capacidade competitiva econômica. O máximo que a tecnologia armamentista conseguirá será provocar estragos materiais, estes, porém, podem ser concertados com as reconstruções, o que as armas não conseguem fazer é derrubar a autoestima e a teimosia dos povos.

                                                                                               Ademar Bogo



[1] FREUD, Conferência XXXII, 1932. Vol. 22.