Todos sabemos que a política não se
faz só com política, há outras áreas que se envolvem com suas especialidades
para ajudar a pensar, planejar e executar os planos táticos e estratégicos. O
filósofo Michel Foucault ao fazer as suas elaborações filosóficas sore a
política, percebeu o problema contemporâneo da seguinte forma: "O que
acontece atualmente e o que somos nós, nós que talvez não sejamos nada mais e
nada além daquilo que acontece atualmente?" A questão da filosofia é a questão
presente que é o que somos. Daí a filosofia hoje ser inteiramente política e
inteiramente indispensável à política”.[1]
Quando colocamos a filosofia à
disposição da política começamos a perceber que somos nós os fazedores dos
acontecimentos atuais e, como consequência, somos lembrados e conhecidos por
eles. A civilização embora se utilize das forças da natureza, é humana. Assim
também são humanas a violência, a ignorância e a corrupção.
Sobre a corrupção há diversas
elaborações confirmando as suas origens. Basta observar um pouco mais
atentamente que no cenário ao fundo das fotografias de muitos processos
políticos, aparecem as empresas nacionais e multinacionais, os Bancos e o
Estado. Por isso, aquilo que nos acostumamos a chamar de “democracia” que
emerge das urnas, é uma versão ingênua da dominação e do totalitarismo, chamado
por Max Weber de “patrimonialismo”, pois, pouco ou quase nada há para
diferenciar entre o que é público e o que é privado.
Diante dessa promiscuidade, as mãos
que abraçam e carregam o dinheiro público para distribuí-lo entre as forças
aliadas dos grupos políticos, são as mãos do capital privado. Para que isso
aconteça é preciso dar às transações certos requintes de legalidade e, enquanto
não estourar um escândalo, as grandes multidões comportam-se como torcidas
organizadas diante de dois times que disputam um campeonato em um campo de
futebol. Mal sabem elas que os custos para um dos times se sagar campeão, não
serão pagos pela arrecadação dos ingressos; outras formas de investimentos serão
realizadas em vista das facções obterem vantagens posteriores.
As constatações são transparentes. O
crime organizado e o capital especulativo deram-se as mãos e passaram a constituir
facções políticas visando tomar o Estado e transformá-lo no meio principal para
a realização das transações criminosas e protegerem-se da repressão. Já não se
pode chamar essas excrecências de “máfias” porque estas têm como tradição,
agirem secretamente com normas rigorosas, como é o caso da “lei do silêncio”. Os
negócios e investimentos das atuais milícias são públicos e os líderes das
mesmas atuam em duas frentes: uma que permite reduzir as penas com as delações
e, a outra, se a primeira ocorrer, articulam-se para mudar as leis que os condenaram,
impondo ao poder judiciário a recontagem dos anos de prisão, com o objetivo de reduzir
as dozes, pela medida imposta da “Dosimetria”.
Por outro lado, os acontecimentos
moldaram a polarização das opiniões político eleitorais no Brasil. Já não se
pensa mais na qualidade das ideias, apenas quem elas representam. Nesse
sentido, situação e oposição empatam em todas as pesquisas. Os “fiéis da
balança” são agora os indiferentes. Se considerarmos que um dos princípios
democráticos é contabilizar a vantagem numérica da maioria sobre a minoria,
certamente estamos a perceber que, a indiferença tornou-se uma nova força política,
que pode estar alheia ou revoltada, mas é ela quem decidirá as próximas
eleições para presidente da República do Brasil, em 2026.
Não é difícil de chegar a essa constatação,
basta observar os últimos pleitos as pequenas diferenças que ficaram em torno
de 1% e, as pesquisas de opinião para o segundo turno entre o candidato do PT e qualquer um, de
qualquer outro partido, e teremos o denominado “empate técnico”.
Agora podemos continuar o raciocínio
filosófico iniciado acima por Foucault, não sem antes perguntar quem somos nós
na atualidade política? De certo podem aparecer muitas opiniões classificatórias,
no entanto, a grande maioria dos cidadãos, não somos mais do que eleitores.
Quem éramos e quem somos?; a resposta a essa pergunta está no curso dos
acontecimentos. Eles, ao longo do tempo levaram à aceitação daquilo que não era
aceito e à passividade ao que era radicalidade.
Os protestos converteram-se em
mensagens nas redes sociais; a solidariedade em doações no pix e, o conteúdo da
formação da consciência tornaram-se áudios curtos, porque ninguém aguenta ouvir
alguém por mais de um minuto. Sendo assim, os totalmente indiferentes e analfabetos
da política eleitoral, fora da polaridade, podem não estar com a razão, mas
estão com a última palavra. O triste fim de um período histórico é constatado
quando os sem opinião detém o poder de decisão. Então, quem somos nós?
Ademar
Bogo