Na
Filosofia da Linguagem as palavras são vistas, como em qualquer situação, mas
também pelas intenções que escondem. Por isso a linguística procura sempre
relacionar o signo significante e os seus significados, isto porque, um termo
pode dizer diversas coisas e todas elas verdadeiras.
A
impertinência segue o caminho oposto da linguagem verdadeira. Apear de também fazer
uso das palavras, registra-se pelas trilhas do inadequado, causa irritação,
desconforto e conflitos. São palavras e falas que instigam as desavenças pela
ignorância dos falantes que se colocam em posições cujo interesse é desfazer e
rebaixar os seus oponentes.
A
linguagem política é feita de semântica às avessas, não é como a literatura que
é propositalmente significativa e bela, como faz o escritor português Mia Couto,
ao explicar a sua escrita: “Escrevo como Deus: direito mas sem pauta. Quem me
ler que desentorte as palavras. Alinhada só a morte. O resto tem as duas
margens da dúvida. Como eu, feito de raças cruzadas”.[1] A linguagem do império é
traiçoeira, é feia e falsa. Os seus dizeres são mesquinhos e permeados de
interesses fixos que as palavras encobrem com disfarces.
No
fundo a linguagem imperialista deveria nos alertar, pois ela sempre aponta para
frente; somente se refere ao passado quando é para cobrar alguma conta inventada.
Sendo assim, quando não temos uma perspectiva segura a seguir, devemos observar
as palavras de nossos inimigos, elas, ao dizerem o que eles pretendem, nos
indicam a direção para onde devemos ir.
O
filósofo Lucius Annaeus Seneca, conhecido por nós como Sêneca, foi preso
por Nero e obrigado a cortar os pulsos suicidando-se na prisão para escapar aos
martírios impostos. Para ele a mesma ideia pode ser expressa em linguagem
diferente. “Você vê aqueles que elogiam sua eloquência, que cobiçam sua
riqueza, que cortejam seu favor ou que se gabam de seu poder? Todos os estes
são, ou, o que dá na mesma, podem ser seus inimigos”.[2] Confiar desconfiando deveria
ser um princípio obrigatório quando se trata da relação entre países.
O
ano de 2026 deverá passar para a história como sendo um dos mais irônicos já
vividos pela humanidade, isto porque, os diálogos entre as partes nunca dizem quais
são as verdadeiras intenções e, as intenções surgem sempre depois de uma ameaça
consumada. Somente quem aprendeu a ler chantagens pode verdadeiramente
organizar a própria autodefesa. Vejamos dois exemplos construídos de propósito:
a possibilidade de vir à tona as denúncias de pedofilia e tráfico sexual
envolvendo Donald Trump, conhecido como “Caso Epstein” custou a guerra contra o
Irã, no intuito de abafar a exposição pessoal do presidente dos Estados Unidos.
O outro mais recente, envolvendo os desvios financeiros do Banco Master, está
rendendo ao Brasil a inclusão na lista dos países terroristas, abrindo as
portas pela intervenção direta dos Estados Unidos, com claro objetivo de
preservar a família Bolsonaro.
Poderíamos
considerar que este ato irresponsável e covarde de fugir para a casa do inimigo
entregando-se em troca de que ele venha atacar o próprio país, seja apenas um
truque ou uma medida midiática que visa tirar o escândalo dos noticiários? A
curto prazo sim. No entanto, todos sabemos que o interesse do imperialismo não
se prende ao objetivo de matar traficantes, mas em saquear as riquezas naturais
dos países alheios. Vide o que ocorreu na Venezuela. Após sequestrarem o
presidente Maduro, e a deputada Cilia Flores, apossaram-se do petróleo e o
assunto sobre o tráfico de drogas foi encerrado.
O
Brasil está na rota da cobiça estrangeira. Mais dia menos dia o capital
imperialista exigirá mais do que o controle parcial das riquezas naturais,
desejará tomar posse delas para assegurar o futuro dos negócios do império. Por
isso, a linguagem tem que ser direta, sem meias palavras, nem visitas de
cortesia com recepções sobre tapetes vermelhos. A impertinência só respeita as mensagens
transmitidas pela resistência.
A
soberania de um país se alcança e mantém com a capacidade de luta permanente. Falar
alto nem tampouco manso sacia a fome do capital estrangeiro. Ele precisa de uma
força maior para contê-lo e, isso somente um povo organizado pode fazer.
Ademar
Bogo