Há passagens na filosofia de Karl Marx que de
ora em quando precisam ser repetidas: “Os homens fazem sua própria história,
mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e
sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo
passado.”[1] E, entendido dessa forma,
sob tais circunstâncias aplica-se o complemento, exposto em outro momento, pelo
mesmo autor: “É por isso que a humanidade só se propõe as tarefas que pode
resolver, pois, se se considera atentamente, se chegará à conclusão de que a
própria tarefa só aparece onde as condições materiais de sua solução já
existem, ou, pelo menos, são captadas no processo de seu devir...”.[2]
As
eleições presidenciais brasileiras, principalmente o segundo turno de 2026, expressaram
a aplicabilidade dessas suposições postas acima. As circunstâncias legadas pelo
passado, em um curto espaço de tempo, tornaram-se ameaças iminentes a virem a se
repetir no tempo presente. Na rememoração das gerações mais velhas vieram à
tona, em primeiro lugar, as atrocidades do Nazismo alemão, imposto contra a
humanidade na primeira metade do século passado e, revivido no Brasil entre os
anos 2018 a 2022, quando no governo Bolsonaro, repetindo os métodos
neonazistas levou à morte quase um milhão de pessoas, vítimas da Covid-19. Em
segundo lugar, as gerações idosas que vivenciaram vinte anos da ditadura
militar, implantada no Brasil, desde 1964 e, reavivada com a tentativa de golpe
contra as instituições em janeiro de 2023, desejaram livrar os seus
descendentes do retorno a ela, agora pelo reconhecimento das multidões.
Para
as circunstâncias postas faltavam as tarefas; estas foram definidas pela
juventude. Avós e netos passaram para a fileira da frente e puxaram as
multidões para usarem a arma do voto contra o alvo das ameaças contra todos os
direitos sociais e políticos alcançados pela democratização do país desde 1988,
quando se logrou escrever a Constituição Federal. Mas seria apenas essa única tarefa
para enfrentarmos as atuais circunstâncias?
Como
sabemos, entre o ano de 1990 a 2002, os dois presidentes eleitos implementaram
as políticas neoliberais e impuseram à nação as flexibilizações para que o
capital imperialista e as forças econômicas da iniciativa privada se apropriassem, por meio das privatizações e das concessões, dilacerando o patrimônio
público. Feito o trabalho sujo pelas forças de direita, por mérito da luta
política e popular, as forças progressistas assumiram por vários mandatos a
condução do país. Se por um lado a “esperança venceu o medo”, por outro, os
capitalistas estavam seguros de que os futuros governantes, com um Estado
limitado, pouco poderiam fazer para atrapalhar os seus planos, tanto no Brasil,
como em outros países da América Latina, que haviam elegido governos
progressistas.
O
novo modelo neodesenvolvimentista implementado pelas forças de esquerda, inicialmente
agradou aos capitalistas, porém, sempre vigilantes, reclamaram do excesso de
gastos com as políticas públicas e os investimentos estatais em infraestrutura.
Popularmente podemos considerar que estava sendo implantada a política na qual
todos ganham, isto porque, os juros altos e os subsídios favoreciam os Bancos e
o capital produtivo, e, as políticas sociais socorriam os mais pobres e criavam
oportunidades para a ascensão social, por meio da valorizado do piso salarial e do acesso à educação. No entanto, a classe média empregada nos serviços e
obrigada a pagar imposto de renda, comprometendo quase um terço do salário, somou-se
com o descontentamento dos profissionais liberais, pequenos comerciantes, artesãos e empresas de
pequeno porte, com capacidade de empregarem alguns trabalhadores, não viram
vantagens, mesmo após tendo sido aprovadas algumas reformulações, o ódio já estava instalado, por isso sempre reclamaram do pagamento dos múltiplos impostos e da
valorização do salário-mínimo.
O
que para as forças de esquerda mais críticas, os avanços governamentais
representavam pouco, para os capitalistas especuladores, credores da dívida
pública e a classe média empregadora, representava muito. Foram esses setores
que, vendo a maioria das forças de direita sendo aniquiladas ou absorvidas pelo
governo neodesenvolvimentista, começaram a reagir e, com a influência imperialista,
a formar uma base política de natureza golpista e totalitária. No entanto, o
governo progressista, em nome da justiça social, implementou a democratização
ou se quisermos, podemos chamar de “Revolução democrática”, garantindo o acesso
aos serviços públicos e a subsistências das classes populares mais pobre e
também formou uma base muito representativa.
Com
a diluição das forças da direita, abriu-se a possibilidade para a
extrema-direita aconchegar-se nesse vácuo e instituir um movimento de massas com slogans nacionais e moralistas, como: “Deus, Pátria, Família e Liberdade”,
arrebanhando para essas fileiras, seitas religiosas, forças armadas, setores da
grande mídia, setores da classe média e outras, mas, por trás desse leque de
representações, sempre estiveram os interesses econômicos e políticos dos
Estados Unidos, principalmente dos Bancos e setores que desejam apropriarem-se
das riquezas naturais do Brasil e de outros países.
Essa
disputa de interesses e desejos culminou no segundo turno das eleições
presidenciais de 2026. Não foi pouca coisa a vitória de Lula. Este nome já se
tornou sigla internacional de luta: Luta Unificada pela Liberdade Antifascista,
mas isso significa a derrota definitiva do bolsonarismo?
No sentido amplo, podemos afirmar que o clã bolsonarista foi enfraquecido e, possivelmente personalidades menos extremistas começarão a se mover para ficarem com o espólio do acúmulo da ideologia patriótica. Mas, há duas razões para duvidar: a primeira diz respeito à presença das forças incontroláveis dos capitais financeiro e especulativo que resistem para não serem enquadrados por nenhum governo. A segunda, é a manutenção dos setores descontentes, liderados pela classe média do Sudeste e Sul do Brasil, mais as ramificações preconceituosas por todo o país. Quais as razões para duvidar da derrota bolsonarista nazistóide?
O
racismo cultural que se transformou numa ferida narcísica em setores de renda média,
que não aceitam um subalterno ou pessoa rebaixada historicamente pela origem
racial, étnica ou regional, ocupar os mesmos lugares na sociedade. Esses setores
supremacistas colocam-se acima dos povos nativos e afrodescendentes, vítimas dos
350 anos de escravização como se tivessem menos direitos a exercer. Isso não
será eliminado com a eleição de um candidato a presidente da República, porque,
o narcisismo branco não aceita o fracasso e nenhuma derrota imposta por pessoas
vistas como inferiores. Por isso, para eles não a vitória, ela precisa
tornar-se vingança e punição. Exemplos não faltam: a lista dos comerciantes,
dos médicos, dentistas e outros, a serem perseguidos; a demissão sumária de trabalhadores
que votaram contra o candidato do patrão; a violência contra os povos indígenas
etc.
A
pressão dos Bancos estrangeiros para que o governo faça ajustes fiscais e nas
políticas públicas, evitando de fazer investimentos, seguirá sendo uma pressão
constante, por meio de chantagens, boicotes, exigências, agitação e especulação
com valor do dólar para desgastar e enfraquecer o governo, se constitui numa ameaça real contra a democracia.
A
existência da classe média trabalhadora, investidora e possuidora de
dificuldades em elevar seus investimentos ou de progredir em sua capitalização,
diante do salário-mínimo valorizado, não aceita ver prejudicada a sua realidade
lucrativa. Soma-se a isso a escassez da força de trabalho braçal, devido à não
renovação do contingente de cada profissão disponível e, isso rebate sobre a economia
familiar cuja taxa de fecundidade foi reduzida, em média, para 1,6 filho por
casal que, na maioria sua maioria saem para estudar com poucas chances de retornarem
para gerirem os negócios dos pais.
A crise
estrutural do capitalismo que aponta para o não equilíbrio. Resta a esse modelo
apenas o caminho do controle destrutivo da natureza, garantido pelo domínio das
guerras para tomar à força os territórios que possuem as matérias primas desejadas.
Esses limites dependem de forças locais aliadas que professam a mesma filosofia
da exploração e acumulação da riqueza facilitada para as grandes potências.
Por
fim, várias revelações foram expressas nesse último pleito eleitoral: O primeiro
é de que a implantação do totalitarismo pela via democrática pode acontecer, mesmo pelo voto; basta que as mesmas forças controlem, os três poderes da
república. O segundo, é que a ideologia neonazista continua a crescer em uma
parte significativa da população que, insuflada se alimenta do ódio racial e
manipula parcelas significativas das massas mais pobres. Em terceiro lugar, é
que as forças de esquerda perderam a capacidade de liderar um processo mais radicalizado
e, os partidos políticos existentes estão desadequados para conduzirem um
processo profundo de mudanças estruturais. Em quarto lugar, o processo eleitoral
tido como referência para a legitimação da ordem democrática mostra-se cada vez
mais fragilizado, ao ponto dos eleitores indecisos e os que costumeiramente se
abstém, no último momento, decidirem-se e formarem a maioria para um dos lados.
E, por último, sem uma finalidade clara, as massas não se movimentam. Essa última eleição
mostrou que a insurreição é possível, no entanto, é preciso que uma força
dirigente a coloque como tarefa a ser cumprida.
Todos falam que é hora de avançar, mas para onde? O certo é que sem o controle do capital e do Estado, não existe certeza alguma de poder. O modo definitivo de avançar é com a insurreição popular.
Ademar
Bogo