A Copa do Mundo de futebol de 2026 está acabando, mas
deixa muitíssimas lições possíveis de serem captadas com um simples olhar sobre
os comportamentos individuais. As telas têm-se tornado vitrines de exposições narcísicas,
cujas imagens pessoais precisam ser colocadas acima da equidade competitiva. E
não são apenas os arroubos narcísicos que espantam, a Copa também remexe com os
instintos vingativos, as manifestações racistas, as discriminações das nações e
as manipulações das vontades, transformando as catarses coletivas em
alucinações.
Freud em 1921 tratou das alucinações coletivas e nos
revelou que: “A satisfação narcísica proporcionada pelo ideal cultural
encontra-se também entre as forças que alcançam êxito no combate à hostilidade
para com a cultura dentro da unidade cultural”.[1] O que quer nos dizer
Freud? Certamente que as sociedades são compostas por culturas nas quais se partilham
as satisfações entre as classes, ricas que desfrutam dos benefícios e, as
classes pobres que se deixam influenciar tomando as reações como “direitos”, a
desprezar, vilipendiar e rebaixar os adversários, do mesmo modo que os seus
componentes são tratados no interior de suas próprias culturas.
Esse comportamento abusivo das torcidas nacionais, impossibilitadas
de irem aos estádios nos países que sediam os jogos, devido o alto preço a ser
pago pelos ingressos, origina-se na identificação comportamental com as classes
dominantes. Elas, apesar dos maus tratos e da capacidade de dominação, apesar de
toda a hostilidade as classes exploradas nutrem pelos exploradores a vontade se
imitá-los. Nesse período de sobrecarga emocional os desfavorecidos unem as
vontades e passam a ver nos favorecidos, mesmo com comportamentos abusivos, os
seus ideais de sucesso. Por isso xingam, maltratam o atleta e o rebaixam sempre
que este não corresponde ao desejo imaginado.
O verbo vencer presente na linguagem corriqueira de cada
cultura pode significar uma disputa eleitoral, uma partida de futebol, uma
guerra etc., como também um propósito pessoal de alcançar na realidade o que é
e pode permanecer até o final da vida como uma fantasia. É nesse ponto que a Copa
revela, não apenas atletas, como também personagens que se preocupam mais com
imagem para vencerem o jogo do exibicionismo, antes e depois da partida disputada
oficialmente em noventa minutos, dentro de um espaço cercado por holofotes.
A mídia é uma grande aliada das posições narcisistas
manifestadas pelos personagens criados para servirem de modelo para as
imitações. A moçada que é induzida a maquiar-se e adornar-se antes de
aparecerem em público, certamente nunca prestaram atenção nas características físicas
do brasileiro Mané Garrinha que, além de possuir as pernas tortas, tinha um pé
voltado para dentro e o outro para fora, como também, parece que a perna
direita era 6 centímetros mais curta do que a outra. Basta fazer uma breve pesquisa
na internet que irão aparecer dezenas de exemplos semelhantes, como é o caso do
uruguaio Hector Castro que perdeu o antebraço num acidente com uma serra
elétrica, mas foi o autor do primeiro gol das finais da Copa de 1930.
Compare-se isso tudo com a extravagância, para citar uma, do ídolo Neymar que,
aproveitando uma folga da seleção nos Estados Unidos, comprou um relógio no
valor de 5,5 milhões de Reais. Isso representa a verdadeira posição narcísica,
já que não pode brilhar dentro de campo, a solução é marcar gols no exibicionismo
consumista.
É inegável que o futebol é um catalizador de emoções e,
culturalmente tem servido para elevar a autoestima dos povos que, por trás de onze
representantes, milhões de pessoas se vestem com as cores nacionais, ornamentam
praças e ruas, abandonam os seus postos de trabalho e poderes oficiais para
apreciarem e comemorarem cada pequena vantagem na competição. Por outro lado, a
frustração da perda cumpre a função humilhadora de rebaixamento e
inferiorização da grande maioria dos torcedores, esperançosos por uma vitória.
O luto da perda leva a procurar as figuras incapazes que,
no reverso da identificação comparam-se ao próprio identificador, por ser ele
também um incapaz e um permanente perdedor. Ele provavelmente perdeu nas
apostas feitas no cassino virtual da Bet, que ele levou para dentro de sua casa
e nele mantém o acesso pelo aplicativo que instalou no seu aparelho celular.
A Copa revelou os problemas culturais dos países. Os
países do Norte global acostumados a explorar as riquezas dos países do Sul
global, funcionam também narcisicamente como compradores de sonhos de crianças
e adolescentes habilidosos, ao comprarem a preços exorbitantes, o direito sobre
o uso do corpo do atleta que é obrigado a deixar o seu país e ir atuar em
clubes estrangeiros. Quando mais tarde são convocados para comporem as seleções,
já não possuem mais a identidade com a tradição futebolística do país de
origem.
A pergunta que todos fazem, é por que não surgem mais
craques como antigamente? Talvez uma primeira resposta esteja no uso exagerado
da tecnologia. Facilmente se compararmos com outras atividades artesanais,
veremos que desde as Pirâmides do Egito existem coisas sem explicação, para
tamanha habilidade construtora. O futebol é uma atividade artesanal que utiliza
as habilidades musculares e a cognição do cérebro com os pés. Quando essas
articulações são invadidas, seja por estilos, modelos, luxo, holofotes,
dinheiro, sonegação, corrupção etc., a arte pede licença para se retirar e leva
consigo toda a criatividade.
Seria conveniente analisar também o desinteresse público nos
investimentos em esportes. As empresas privadas ao cooptarem os clubes, fingem
prestarem serviço àquilo que deveria ser patrimônio nacional, composto pela
educação esportiva. O maior patrimônio de uma nação é a sua cultura. Na medida
que as crises econômicas, políticas, ambientais, éticas e morais habitam o
cotidiano dessas mesmas nações, em que base poderia a arte se sustentar para
não sucumbir? Só há uma resposta: na garantia de que a vontade de vencer não
suplante a criatividade e, as habilidades não sejam vendidas como mercadorias
padronizadas.
Ademar
Bogo