domingo, 20 de setembro de 2026

DEMOCRACIA SUBSTITUTIVA


            Não há como negar que a referência do termo Democracia, nas últimas décadas, passou a ser utilizado para justificar as mais estranhas vontades no âmbito da política. Oscilando entre a representação de grupos que em nome do povo se apoderam das estruturas governamentais para implementarem políticas sociais como também outras facções e seitas visam o poder para extraírem do consentimento popular a autorização para assaltar o país, reduzir os direitos conquistados e garantirem o controle da ordem por meio da violência e da repressão.

            Se ninguém gosta de ser chamado de impostor, ditador ou usurpador é preciso que se encontrem termos na linguagem política que confundam as interações civilizatórias, seguidas pelos dois referenciais dialéticos: amor e temor, do jeito que nos explicou Nicolau Maquiavel: “É que o amor se mantém por meio de vínculo de dever, e este vínculo os homens o rompem, levados pela sua índole perversa, sempre que de tal lhes resulte proveito. Já o temor é mantido por medo ao castigo, e este medo jamais abandona os indivíduos”.[1]

            Essa estrutura estatal patriarcal sustenta o que podemos considerar na prática da “Democracia substitutiva”, o comportamento dos homens no recinto dos seus lares, ora servindo-se do consentimento coletivo para impor as ordens como deveres conjugais e filiais, ora utilizando-se de ameaças e diferentes formas de violência, para garantir-se enquanto sujeito da dominação. Por isso, a afetividade e o temor são duas manifestações psíquicas que contém e expandem as pulsões de acordo com as situações da convivência.

            Esse roteiro civilizatório traçado segundo os interesses formados nas circunstâncias das disputas conjunturais ou estruturais, divide as populações formando lados opostos, caracterizados pela aceitação ou pela repugnância. É nesse particular que residem os estranhamentos e as confusões conceituais entre aquilo que é certo ou errado. Tal qual ocorre na família quando uma parte se sente mais segura, quando a autoridade paterna se impõe com a firmeza suficiente para punir algum dos membros pela desarmonia comportamental, na esfera política, uma parte da população concorda com a imposição de medidas punitivas contra a outra parte insubordinada.

Desse modo, considerando a consonância entre o amor e o temor na interioridade do poder, não podem existir em qualquer sociedade, regimes democráticos ou totalitários sem o apoio e o consentimento individual e grupal. Para que isso ocorra é preciso situar os posicionamentos em torno do acordo ou dos desacordos. O “concordo” e o “discordo” se impõem pela avaliação sentimental individual, medidos pelos parâmetros opostos do “gosto” e do “desgosto”.  Esses movimentos oscilantes são operacionalmente produzidos segundo a capacidade substitutiva de cada oligarquia política.

A política não é um sentimento puro e natural. Ela precisa “ser feita” com intencionalidade, energia e determinação. Nesse fazer há diversas obrigações que poderíamos chamar de funções ou papeis, pois, esses movimentos são considerados uma arte expressa no cenário político. Nesse teatro há atores e atrizes principais e coadjuvantes; da mesma forma que há parte das plateias que se manifestam e, outras, expectadoras sem vontade de manifestarem-se; embora torça a favor ou contra.

A Democracia substitutiva intenta a mais renovada maneira de conduzir a política segundo os interesses de grupos, facções e seitas. Apesar de ainda vigorarem os partidos políticos, a descaracterização dos mesmos levou a confundir a posição de classe dos cidadãos que deixaram de ser, na grande maioria, sujeitos da política, em vista da defesa dos próprios direitos. A análise em geral dos discursos permite verificar que a corrupção e a violência se tornaram anseios principais dos candidatos que dão aos termos maior atenção. Com isso deixam passar sem nenhuma observação, a estrutura da sociedade desigual, a exploração humana e da natureza e, a decadência total da civilização.

Esses roteiros eleitorais cujos palanques viram palcos para os candidatos a representantes apresentarem intenções aos espectadores, que apenas gritam e batem palmas, servem mais às forças conduzidas pelas classes dominantes, porque, as verdadeiras contradições não educam as massas para se organizarem e defenderem os seus próprios interesses.

A perda do horizonte socialista levou também as forças contrárias ao capitalismo, esquecerem de todas as lutas pelas conquistas dos direitos sociais foram desenvolvidas. A perda da visão estratégica de que o socialismo é uma construção feita dentro do capitalismo, e que precisa aprofundar-se em todas as dimensões desta sociedade desigual, leva a colocar em risco os próprios avanços das melhorias sociais.

Quando qualificamos os aspectos substitutivos da Democracia, não estamos apenas olhando para os comportamentos das forças políticas de direita, se assim podemos chamar esses aglomerados que caminham para impor um regime totalitário, sem identifica-lo com este nome; devemos considerar também as forças contrárias que esvaziaram o conteúdo da Democracia participativa, e substituíram a organização de base; a formação política das  massas; a multiplicação de novas lideranças, como também a insurreição popular e a Revolução socialista, pela cômoda prática virtual de se fazer conhecer os candidatos e candidatas à distância, como se fossem extra sociais, de pele lisa, intocáveis e visíveis apenas nas campanhas eleitorais.

Considerando os avanços tecnológicos no âmbito da produção, os trabalhadores braçais foram diminuídos, ocasionando à extinção de algumas profissões artesanais. Ao se deixar de fazer política artesanalmente, as funções de militantes, coordenadores de núcleos e células partidárias e, as lideranças de bairro ou de outros locais de trabalho, bem como as formas de campanhas de rua, como as pichações, as pinturas e as colagens de materiais de propaganda, desapareceram.

Se substituirmos, o ótimo pelo bom, depois o bom pelo satisfatório e este pelo regular, saberemos porque o extraordinário desapareceu. Nossos olhos precisam levantar as pálpebras para enxergarmos mais além dos processos eleitorais. O socialismo é uma construção feita com superações de relações, elas e não as opiniões devem ser defendidas para que sirvam de acúmulo para impulsionar as novas vitórias.

Não existe transformação sem mudanças, como também o contrário é verdadeiro. Substituir pode ser necessário, mas nunca para adequar-se à ordem estabelecida pela superestrutura capitalista. As classes trabalhadoras e as massas populares encantam-se com as vitórias e desencantam-se facilmente com as frustrações, principalmente aquelas produzidas pela covardia de não querer lutar.

                                                                       Ademar Bogo      



[1] MAQUIAVÉL, Nicolau. O Príncipe. Mário e Celestino da Silva(tradução) Brasília, Senado Federal, 2019, p. 101.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O JOGO SUJO CONTRA A ESPERTEZA LIMPA


            O jogo da política entre as forças da extrema-direita e o centro-direita que engoliu a esquerda e todas as iniciativas de reações populares, tornou-se cada vez mais perigoso e terminal. Se fosse possível considerar um ciclo de nascimento e morte, poderíamos dizer que ele está se concluindo com uma profunda melancolia depressiva, no que diz respeito à paixão das mobilizações das massas e, profundamente marcado pelo envelhecimento do conjunto dos líderes, até mesmo para dar sequência à manutenção das disputas no interior da democracia liberal.

            As forças de direita, mesmo dentro dos processos democráticos liberais, sempre foram totalitárias no trato com a ordem, seja no mundo do trabalho ou no mundo da política. Até o final do século passado ela se mantinha no poder pelo uso das forças repressivas. Em qualquer situação de instabilidade, bastava acionar as forças policiais e fazer a violência afirmar a autoridade dos dominadores contra os dominados.

            No início deste século, no Brasil, logramos ganhar a presidência da República e triunfar eleitoralmente. Tudo ocorreu por mérito das lutas populares, mas também pela certeza do controle absoluto dos processos eleitorais pelas forças de direita, que na Assembleia Nacional Constituinte de 1988 concordaram em universalizar o voto. Basta lembrar que na primeira República, de 1889 a 1930, em média apenas 5% da população votava nas eleições. Havia um rígido controle eleitoral e institucional, depois, crentes que os trabalhadores nunca ousariam disputar os espaços de poder, foram liberalizando o voto, mas mantiveram o controle da democracia representativa selecionando os candidatos.

As vitórias eleitorais brasileiras alcançadas pelas forças partidárias de tradição progressista, com o apoio popular, emitiu um sinal trocado transformando os mandatos em conquistas, quando na verdade eram apenas um empréstimo para o uso de parte das instituições, que poderiam ser usadas, remuneradas com as concessões e devolvidas quando as forças conservadoras desejassem ter de volta o controle de toda a superestrutura.

Este jogo ilusório da democracia representativa, inventado para que as forças inimigas, por meio do voto, pudessem confrontar os interesses, foi calculado para, sempre depois dos pleitos os perdedores calarem-se para que os grupos oligárquicos pudessem governar. Sempre a presença do povo, essa prática tornou-se parte da cultura política capitalista. Por isso, a Democracia é entendida se houver ou não eleições presidenciais. Fora desse contexto, outros conceitos regulam a vida dos cidadãos, como estes por exemplo: Estado Democrático de Direito; meritocracia; racismo estrutural e cultural; SUS e Plano de Saúde; Sistema de cotas na educação, políticas públicas, juros etc.

            A manipulação do conceito de Democracia induziu as forças de esquerda do passado, para além do próprio esgotamento de suas forças a perderem a própria identidade com os conflitos de classe, com a revolução e o socialismo. A defesa da ordem passou a ser a principal bandeira de conscientização da população, para evitar que a extrema-direita tentasse tomar à força e, implantar em seu lugar, também na política o totalitarismo. Por que também politicamente? Pelo simples fato que, conforme as pesquisas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Brasil 69,1% dos trabalhadores ganham menos de dois salários-mínimos e, apenas 0,5% ganham mais de 20 salários, ou seja, apenas um milhão de pessoas ficam com a maior parte dos rendimentos e do trabalho alheio.  O aspecto econômico não é visto como totalitarismo, porque a renda não é relacionada com a liberdade e o direito de ir e vir, nem com a proibição de entrar em todos os lugares, devido à falta de uma etiqueta de luxo nas vestimentas, ou pelo baixo poder aquisitivo para comprar ingressos para assistir algum evento.

            Os capitalistas quando criaram o Estado capitalista com os três poderes e, o Direito Positivo portador das leis para manter a ordem dominante, tinham em mente construir um instrumento que fosse além da universalidade da razão, conforme havia pragmatizado o filósofo Immanuel Kant e se constituísse num instrumento de poder absoluto. O suposto “enfraquecimento das instituições”, longe de querer eliminar o Estado, contém os interesses da recomposição do poder hegemônico dentro delas. Portanto, se o capitalismo e o Estado capitalista representam a mesma coisa, como os capitalistas conseguiriam garantir as suas causas sem o Supremo Tribunal Federal? O que eles querem é substituir alguns juízes que não fazem tudo o que um poder totalitário deseja.

            Quando os burgueses aliados das forças armadas planejam e executam um golpe de Estado, não querem destruir o Estado, mas apenas fazê-lo funcionar totalmente a seu favor. Por outro lado, o equivalente a um golpe de Estado é a Revolução que almeja tomar o Estado e transformá-lo, mas também controlar o capital e distribuir a riqueza, eliminando, em alto grau, a diferença entre as classes. Optando pelos processos eleitorais pacíficos, sem manter as lutas populares em defesa dos direitos e contra a exploração do capital, os trabalhadores, mais dia menos dia, nos encontraremos com duas fatalidades: a primeira, mesmo que tenhamos ganhado pleitos por diversas vezes encadeadas, perdendo as eleições temos que entregar, pelo jogo democrático, os cargos e os palácios alugados; a segunda, é sofrer um golpe de Estado e vermos uma onda totalitária cair sobre as nossas cabeças.  

            Nesse campo da democracia representativa capitalista, não existe vitórias sem fim. Pode haver para as forças progressistas, um determinado equilíbrio que se situa no centro engenheirado pelo abocanhamento e a cooptação das forças de esquerda, até que as pressões e descômodos tomarem conta das forças da extrema-direita e ela querer recuperar alguns lugares perdidos no campo da institucionalidade. Ela sempre o faz com a conivência do outro lado que desaprendeu a resistir com os calcanhares enterrados no solo, acostumou-se apenas bater palmas para algum ministro do Supremo Tribunal que, se valendo da toga assegurou algum direito. No entanto, isto está cada vez mais fragilizado e, na precisão, os cultuadores da guilhotina não vacilam quando precisam cortar alguma cabeça, esteja ela onde estiver.

            O melancólico fechamento do ciclo institucional, com a vitória ou a derrota de Lula, será daqui a meses ou em quatro anos. Depois disso, todos os partidos brasileiros, sem exceção, estão aculturados e domesticados pela ordem legalista institucional, não terão mais o mesmo fulgor, pois desaprenderam tudo o que sabiam sobre a luta de classes e a revolução. As lideranças mais velhas, estão literalmente velhas, sem forças para recomeçar um novo ciclo e, as gerações mais novas, não sabem abrir o novo ciclo porque não foram ensinadas a lutar, nem tampouco possuem algum parâmetro que as possa motivar, pois, o horizonte utópico foi apagado com a esponja do pacifismo obediente. Mas terão de aprender por conta própria e assumirem o comando do próprio destino.

            Quando este ciclo político sindical iniciou no final da década de 1970 pouco ou quase nada havia sobrado das forças anteriores; a ditadura militar havia eliminado todas as resistências. As circunstâncias históricas empurraram todas as lutas seguintes para conquistar e garantir direitos, eles estão escritos na Constituição Federal, mas não estão seguros, porque as letras sem resistência política, podem ser apagadas. É preciso que as chamas que incendiaram aquelas vitórias permaneçam acesas para iluminarem o caminho das novas vitórias; no entanto, é preciso descobrir como fazer isso.

Portanto, a pergunta a ser feita é, como reavivar os ânimos para as novas lutas? As crises promovem sofrimentos, mas também provocam reações. Se temos consciência que a minoria exploradora da humanidade se vale do consentimento da maioria para continuar governando, explorando e depredando o planeta, devemos ter a esperteza de acreditar que, mesmo que o voto continue sendo exigido, as lutas não podem por ele serem substituídas. Talvez a conjugação mais simples a conjugar seja: votar e lutar, que é igual, voltar a lutar.

                                                                       Ademar Bogo

domingo, 30 de agosto de 2026

ORFANDADE POLÍTICA

                                                            

Sempre que iniciam as campanhas eleitorais as populações se agitam e as pessoas se posicionam influenciadas por diferentes fatores; no entanto, para a parte politizada dos eleitores, a escolha de um dos lados: direita ou esquerda, já vêm definidas antecipadamente.

Geralmente as posições pessoais ou grupais, nas disputas eleitorais, representam também as atitudes e os comportamentos em relação ao lado nos quais as pessoas estão envolvidas com a unidade dialética entre a luta das forças contrárias, para suplantarem a orfandade política. Freud (1921) ao tratar da Psicologia de massas, fez a interpretação da dependência psicológica, e percebeu que todas as pessoas têm a necessidade de um pai na família ou na religião e nas forças armadas. “O comandante-chefe é um pai que ama todos os soldados igualmente e, por essa razão, eles são camaradas entre si. O exército difere estruturalmente da Igreja por compor-se de uma série de tais grupos. Todo capitão é, por assim dizer, o comandante-chefe e o pai de sua companhia, e assim também todo oficial inferior o de sua unidade”.[1]

Na medida que, na política, as grandes massas sentem-se desamparadas, procuram por meio de pequenos grupos, buscar um substituto para suplantar a orfandade. Nesse sentido, o que importa é a capacidade de aglutinação que as pessoas de maior influência na sociedade, principalmente a classe média, incrustrada nas religiões e  na mídia, empenham-se em ganhar adeptos arrastando-os para uma mesma direção. Como rebanhos as massas são conduzidas na direção do pai. O apego a ele deve-se ao receio da repetição da perda ou da falta que ocorreu no passado quando o verdadeiro pai de cada um se ausentou.

Por outro lado, a orfandade daquilo que sempre se considerou o espectro mais crítico apropriado pelas forças de esquerda transformou-se profundamente. São sem dúvida os mesmos sintomas da atração, também pelo líder, porém, os mais afoitos, num passado não muito remoto apontavam para a transcendência utópica, quando a emancipação política, social e humana realizar-se-ia por meio dos esforços participativos. Portanto, a obra almejada seria edificada pelos construtores organizados.

Comparativamente, se as massas que seguem os candidatos de direita procuram suprir a carência paterna apegando-se a um líder exaltado, a outra parte repete o mesmo ritual de entregar um líder, o destino de seus anseios, com uma diferença, embora no Brasil já por quatro décadas o mesmo líder cumpre o papel psicológico do pai, os grupos mais conscientes sentem o desamparo pela perda da perspectiva transcendente de superação do capitalismo, isto porque, as disputas eleitorais foram sendo reduzidas a dois comandos: de extrema-direita e de centro-direita. Ou seja, a frustração da falta paterna que empurra as pessoas para os braços de um líder conservador, é a mesma carência e perda do projeto político de esquerda que motivava as forças a assumirem a defesa do Estado de direito da ordem capitalista.

As eleições de 2026 para presidente da República, remete a refletir sobre a semelhança dos programas de governo. Todos seguem os mesmos roteiros com destaque para a segurança pública, mas nenhum dos treze candidatos responde por que a violência aumenta ano a ano? Depois, a economia, todos prometem crescimento e geração de empregos; educação, com parcas referências aos professores e professoras, assim como também na saúde, como se essas áreas funcionassem sem força-de-trabalho, remuneração e infraestrutura adequada.

A proximidade do conteúdo dos textos dos programas de governo, não representa o que as circunstâncias reais permitirão fazer posteriormente. Para quem tem um pouco de conhecimento histórico, facilmente vinculará a situação atual com a Assembleia Constituinte de 1791, na França, quando teve origem a formação dos dois grupos de direita (Girondinos) e de esquerda (Jacobinos), que guerrearam e se mataram para saber quem faria as melhores propostas liberais para pôr em funcionamento o capitalismo.

“Dos males o menor” dizem os mais conscientes e, certamente devemos assim proceder para evitarmos que a satisfação de um desejo da extrema-direita se converta em um castigo para a maioria da população da nação. No entanto, é importante observar que, optando pelo “mal menor” por diversas vezes, vamos cada vez mais nos aproximando do “mal maior” e, quando isso vier a se configurar, teremos poucas possibilidades de defesa, porque, mesmo sendo menor,  estamos sendo impregnados pelo mal.

Diante das crises e avanços da destrutividade do capital, tratar a política com mansidão e passividade, achando que a recomposição da paternidade perdida substituirá a figura do pai por um líder que se impõe isoladamente, seria o máximo a fazer nesse momento, é conformar-se antecipadamente com a orfandade que fatalmente virá. Já é tempo das consciências reagirem e responderem por si mesmas aos problemas históricos e buscar superá-los. O oposto do mal menor é o bem maior, mas isto somente será visualizado quando as vontades revolucionárias se unirem para seguirem em outra direção.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e análise do Ego. Rio de Janeiro: Imago 2006, p. 58

domingo, 16 de agosto de 2026

INSTABILIDADES PROVOCADAS

 

            Que estamos vivendo um período de profunda decadência do imperialismo liberal, no modelo originário do colonialismo europeu e do militarismo dos Estados Unidos da América, já não se pode duvidar. A sustentação dos princípios republicanos postos pelos capitalistas logo após a Revolução Francesa, já não é um objetivo a ser preservado pela especulação, assim como a crença que as democracias podem funcionar simplesmente porque a votante da maioria encontrou um candidato adequado, é uma ingenuidade que somente as forças progressistas ou oriundas da velha referência de esquerda acreditam. Para as forças dominantes valem os interesses e, quando precisam ser impostos violentamente, o totalitarismo jeito utilizado a qualquer tempo e sob qualquer regime.

            Por outro lado, estamos presenciando outros movimentos devastadores que são nomeados como fenômenos climáticos e abalos sísmicos, estes também conhecidos como terremotos. Aparentemente são reações das forças da natureza, mas que, aos poucos vamos nos dando conta de que há uma grande parcela de contribuição humana.

            Sobre os fenômenos climáticos já temos bastante literatura explicativa mostrando que o aquecimento global, provocado pela emissão de gases, produzidos pela ação humana é uma realidade inquestionável. Em 2010 quando houve o terremoto catastrófico no Haiti, o então presidente da Venezuela, Hugo Chaves, denunciou que havia sido obra dos Estados Unidos. De lá para cá nada foi provado sobre essa capacidade humana de propositalmente provocar abalos sísmicos, no entanto, para quem pensa estabelecer bases militares na Lua, a 363 mil quilômetros, o que seria intervir a 10 quilômetros sobre o movimento das placas tectônicos localizadas na crosta e no manto da terra?

            Sem precisar ir tão longe, o Ministério de Minas e Energias do Brasil explica que: A crosta terrestre é formada por placas rígidas que se deslocam em diferentes direções, como se flutuassem sobre o manto, que é uma porção da Terra de consistência plástica. Esse movimento é vagaroso e se move apenas alguns centímetros por ano. Mas, as placas são massas colossais e quando duas delas se encontram, começa a haver uma compressão. Em dado momento, a tensão acumulada é tão grande que supera a resistência das rochas e ocorre uma ruptura, chamada falha geológica. Nesse momento ocorre o terremoto.[1]

            Em 2017 a Organização National Geographic, publicou matéria com explicações dando conta que a ação humana tem a capacidade de provocar terremotos, por meio da mineração, construção de barragens e perfuração por fraturamento hidráulico.[2] Traz essa matéria informações de outros estudos reveladores, que foram localizados 730 locais que provocaram terremotos nos últimos 150 anos. Esses abalos sísmicos ocorridos pela intervenção humana ocorrem sem terem ligação próxima com as placas tectônicas.

            Continua o mesmo texto destacando que a mineração causou o maior número de terremotos induzidos pelo homem; 271 dos 730 locais acima citados, devido a quantidade de remoção de terra e de rochas. 167 abalos sísmicos foram provocados pela construção de barragens. Nos Estados Unidos, os estudos comprovam que a origem dos terremotos advém da exploração de petróleo e gás. Foram comprovados que 29 locais abalados, induzidos por perfurações, 36 por eliminação de águas residuais pós-perfurações e 12 por eliminação de águas residuais de petróleo e gás.

            Deixemos de lado, por um momento, os dados, e fixemos a atenção na lógica da imaginação. Se a crosta terrestre na qual pisamos representa o assoalho da casa comum, ao retirarmos água, petróleo, minérios e gás do subsolo, é de fácil compreensão que no local ficam imensos vazios que buscarão ser preenchidos com os desmoronamentos de matéria, por isso, os terremotos provocados pela ação humana, têm essa origem.

            Dito de outro modo, se as queimadas e emissão de gases promovem o desiquilíbrio climático, a exploração de minerais no fundo do subsolo promove desiquilíbrios geológicos. No Brasil, segundo o IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração), estão instaladas atividades de mineração em dois mil e setecentos municípios, praticamente, a metade dos municípios brasileiros estão sendo minerados atualmente. Completam esses dados, o avanço da exploração de petróleo na Bacia da Foz do Rio Amazonas, sem nenhuma preocupação com o aquecimento global e, nem tampouco, com a sustentação do peso das águas sobre o vácuo da retirada do petróleo.

            Diante desses dados todos, podemos perguntar o que é a democracia no capitalismo, senão a liberdade de extravagar a ordem natural do Planeta? A corrida pelo progresso tem fascinado os governantes a darem concessões aos exploradores e devastadores da Terra. Acima desses, está a ganância imperialista que não aceita restrições para a liberdade destrutiva. Quando os países não cedem por bem, cedem por mal e, este último, a Venezuela e a Colômbia estão experimentando no tempo presente. Nós já tivemos os desastres de Mariana e Brumadinho, mas chegará também nossa vez de sofrermos os abalos sísmico. Quando será?

                                                                                                      Ademar Bogo

                                                          


[1] Ministério de Minas e Energias. Terremotos. https://www.sgb.gov.br/terremotos(2014).

[2]  Sarah Gibbens. Publicado 8 de nov. de 2017, 20:36 BRST, Atualizado 30 de jul. de 2025, 11:01 BRT. https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2017/10/estudo-comprova-que-atividades-humanas-causam-terremotos-mortais

 

domingo, 2 de agosto de 2026

SIMBOLOGIA E IDEOLOGIA


            O grande filósofo da linguagem russo, Valentin Nikoláievitch Volóchinov, cuja primeira ironia está no nome próprio nome, pois, devido a perseguição stalinista no final da década de 1920, ao invés de mostrar-se teve que identificar-se como Mikhail Bakhtin para esconder-se das perseguições dominantes. Para ele: “Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade que lhe é exterior”.[1]

            Esse pensamento é importante repeti-lo muitas vezes para compreendê-lo e aplicá-lo; isto porque, a ideologia não é uma mentira expressa por qualquer sujeito da classe dominante, muito pelo contrário, ela quer transmitir uma mensagem intencional que vai bastante além daquilo que é dito. Por isso, uma pessoa quando leva o seu corpo para malhar em uma academia para formar músculos avantajados, não está pensando somente em saúde, quer representar força, poder, exuberância, domínio etc. Da mesma forma quando alguém se dirige a uma clínica de estética, quer adquirir beleza para expandir-se sobre as demais pessoas que ela julga feias.

            Dito isto, vamos para as campanhas eleitorais. Estas, tomadas pelo Marketing montam verdadeiros espetáculos para que os candidatos apareçam muitíssimo mais simpáticos do que são. Com muito brilho e, cuidadosos com as palavras e os gestos, vão proliferando as intenções que, como muitas delas são ideológicas, deixam refletir apenas uma parte do que querem dizer. Por isso a ideologia é enganosa e traiçoeira, pois ela se utiliza das pessoas alienadas para refratar, como fazem os tijolos no forno para assar uma pizza, absorvem o calor para depois dirigi-lo sobre a massa que se contorce até chegar ao ponto desejado.

            Portanto, para o mesmo filósofo, para ser ideológico precisa ter um significado que remete a outra coisa. Um objeto pode ser visto e tomado como signo de acordo com cada interpretação e, também, pode avançar para se tornar um símbolo, que é quando a coisa desempenha um papel ou uma função consensuada. Dessa forma uma multidão passa a ver, sentir e repetir as mesmas sensações. O exemplo mais comum pode ser visto na bandeira de um país. A Bandeira do Brasil tem a cor verde que representa as florestas e o amarelo o ouro. Quando entoamos o Hino Nacional ficamos em pé, em posição de respeito e nem sequer lembramos da devastação das matas pelos capitalistas e a invasão dos territórios indígenas, poluindo as águas etc.

            Nos processos eleitorais os candidatos buscam identificações, algumas divertidas e outras minadas pela demagogia; mas querem representar o rumo de cada pretensão. Pela recompilação histórica na campanha de 1960 surgiu a vassoura. Com o slogan “Varre, varre, vassourinha”, simbolizava as intenções do candidato que era de varrer a corrupção, mas configurou-se na varredura da liberdade e da própria democracia com a preparação do terreno para o golpe militar de 1964.

            Em 1989 no retorno das disputas das eleições presidenciais, surgiu o “caçador de marajás”. Primeiramente configurava-se uma ideologia porque foi usada uma referência de uma figura que não existe em nossa cultura. A classe dominante por meio de um famoso canal de televisão exibia a novela “Que rei sou eu”; ela fortalecia o discurso do candidato, que ia para os debates com uma pilha de pastas de arquivos verdes e amarelas, mas todas vazias e, no discurso prometia combater a corrupção, altos salários de funcionários públicos. Após dois anos de mandato foi ele mesmo cassado por refratar com sua pessoa a expressão de um marajá corrupto.

            Mais recentemente em 2018, vimos o candidato instituir o gesto de um L deitado, representando uma arma de fogo que, apontando para frente significava combate, e para baixo, execução sumária dos inimigos. Ideologicamente, ao mesmo tempo que prometia combater a violência, instigava os aliados a adquirirem armas para a sustentação do futuro golpe de Estado que veio a se configurar em 8 de janeiro de 2023, porém, por incompetência estratégica, o comando foi preso, julgado e condenado.

            Para as eleições de 2026 surge a tesoura como símbolo aglutinador do mesmo grupo que adora as armas e promete fazer cortes. A primeira vista encanta a classe média e a burguesia especulativa, mas no fundo esconde as intenções de perseguição contra os trabalhadores em relação ao não aumento real do salário-mínimo, cortar direitos dos aposentados, reduzir as políticas públicas, descartar as leis que garantem a soberania nacional para entregar as riquezas naturais definitivamente aos Estados Unidos.

            Diante disso, as forças contrárias que envolve todos os setores progressistas e oportunistas, contrapõem a ideologia obscurantista com outra ideologia refletidora de ilusões, dando a entender que as vitórias eleitorais são suficientes para enfrentar os anseios burgueses, capitalistas e imperialistas. É importante ganhar eleições, mas elas apenas servem como um calço, que se pode colocar no pneu de um caminhão sem freio que ameaça falhar ao subir a ladeira.

Os acontecimentos mostram que o pacifismo e o comodismo das forças progressistas estão permitindo o fortalecimento da ideologia das forças de direita e de extrema-direita e, a razão está em que, nos exercitamos, treinamos e jogamos no campo deles. Na medida que as normas determinam a obrigação do perdedor entregar a taça para o ganhador, no final de cada pleito, simbolicamente entrega-se o direito dele fazer o que bem quiser que será respeitado porque venceu.

Na prática precisa deixar de ser assim. A democracia não é entregar para a maioria as conquistas e as vitórias anteriores. Elas precisam ser protegidas pois representam histórias de lutas contra os capitalistas. Sem luta e resistência não há democracia. Eleição é uma disputa passageira como as estações do ano, podem ser boas ou ruins. A organização é uma força permanente que permanece apesar de tudo.

                                                           Ademar Bogo



[1] BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999, p. 31.

domingo, 19 de julho de 2026

O NARCISISMO ESPORTIVO

 

            A Copa do Mundo de futebol de 2026 está acabando, mas deixa muitíssimas lições possíveis de serem captadas com um simples olhar sobre os comportamentos individuais. As telas têm-se tornado vitrines de exposições narcísicas, cujas imagens pessoais precisam ser colocadas acima da equidade competitiva. E não são apenas os arroubos narcísicos que espantam, a Copa também remexe com os instintos vingativos, as manifestações racistas, as discriminações das nações e as manipulações das vontades, transformando as catarses coletivas em alucinações.

            Freud em 1921 tratou das alucinações coletivas e nos revelou que: “A satisfação narcísica proporcionada pelo ideal cultural encontra-se também entre as forças que alcançam êxito no combate à hostilidade para com a cultura dentro da unidade cultural”.[1] O que quer nos dizer Freud? Certamente que as sociedades são compostas por culturas nas quais se partilham as satisfações entre as classes, ricas que desfrutam dos benefícios e, as classes pobres que se deixam influenciar tomando as reações como “direitos”, a desprezar, vilipendiar e rebaixar os adversários, do mesmo modo que os seus componentes são tratados no interior de suas próprias culturas.

            Esse comportamento abusivo das torcidas nacionais, impossibilitadas de irem aos estádios nos países que sediam os jogos, devido o alto preço a ser pago pelos ingressos, origina-se na identificação comportamental com as classes dominantes. Elas, apesar dos maus tratos e da capacidade de dominação, apesar de toda a hostilidade as classes exploradas nutrem pelos exploradores a vontade se imitá-los. Nesse período de sobrecarga emocional os desfavorecidos unem as vontades e passam a ver nos favorecidos, mesmo com comportamentos abusivos, os seus ideais de sucesso. Por isso xingam, maltratam o atleta e o rebaixam sempre que este não corresponde ao desejo imaginado.

            O verbo vencer presente na linguagem corriqueira de cada cultura pode significar uma disputa eleitoral, uma partida de futebol, uma guerra etc., como também um propósito pessoal de alcançar na realidade o que é e pode permanecer até o final da vida como uma fantasia. É nesse ponto que a Copa revela, não apenas atletas, como também personagens que se preocupam mais com imagem para vencerem o jogo do exibicionismo, antes e depois da partida disputada oficialmente em noventa minutos, dentro de um espaço cercado por holofotes.

            A mídia é uma grande aliada das posições narcisistas manifestadas pelos personagens criados para servirem de modelo para as imitações. A moçada que é induzida a maquiar-se e adornar-se antes de aparecerem em público, certamente nunca prestaram atenção nas características físicas do brasileiro Mané Garrinha que, além de possuir as pernas tortas, tinha um pé voltado para dentro e o outro para fora, como também, parece que a perna direita era 6 centímetros mais curta do que a outra. Basta fazer uma breve pesquisa na internet que irão aparecer dezenas de exemplos semelhantes, como é o caso do uruguaio Hector Castro que perdeu o antebraço num acidente com uma serra elétrica, mas foi o autor do primeiro gol das finais da Copa de 1930. Compare-se isso tudo com a extravagância, para citar uma, do ídolo Neymar que, aproveitando uma folga da seleção nos Estados Unidos, comprou um relógio no valor de 5,5 milhões de Reais. Isso representa a verdadeira posição narcísica, já que não pode brilhar dentro de campo,  a solução é marcar gols no exibicionismo consumista.

            É inegável que o futebol é um catalizador de emoções e, culturalmente tem servido para elevar a autoestima dos povos que, por trás de onze representantes, milhões de pessoas se vestem com as cores nacionais, ornamentam praças e ruas, abandonam os seus postos de trabalho e poderes oficiais para apreciarem e comemorarem cada pequena vantagem na competição. Por outro lado, a frustração da perda cumpre a função humilhadora de rebaixamento e inferiorização da grande maioria dos torcedores, esperançosos por uma vitória.

            O luto da perda leva a procurar as figuras incapazes que, no reverso da identificação comparam-se ao próprio identificador, por ser ele também um incapaz e um permanente perdedor. Ele provavelmente perdeu nas apostas feitas no cassino virtual da Bet, que ele levou para dentro de sua casa e nele mantém o acesso pelo aplicativo que instalou no seu aparelho celular.

            A Copa revelou os problemas culturais dos países. Os países do Norte global acostumados a explorar as riquezas dos países do Sul global, funcionam também narcisicamente como compradores de sonhos de crianças e adolescentes habilidosos, ao comprarem a preços exorbitantes, o direito sobre o uso do corpo do atleta que é obrigado a deixar o seu país e ir atuar em clubes estrangeiros. Quando mais tarde são convocados para comporem as seleções, já não possuem mais a identidade com a tradição futebolística do país de origem.

            A pergunta que todos fazem, é por que não surgem mais craques como antigamente? Talvez uma primeira resposta esteja no uso exagerado da tecnologia. Facilmente se compararmos com outras atividades artesanais, veremos que desde as Pirâmides do Egito existem coisas sem explicação, para tamanha habilidade construtora. O futebol é uma atividade artesanal que utiliza as habilidades musculares e a cognição do cérebro com os pés. Quando essas articulações são invadidas, seja por estilos, modelos, luxo, holofotes, dinheiro, sonegação, corrupção etc., a arte pede licença para se retirar e leva consigo toda a criatividade.

            Seria conveniente analisar também o desinteresse público nos investimentos em esportes. As empresas privadas ao cooptarem os clubes, fingem prestarem serviço àquilo que deveria ser patrimônio nacional, composto pela educação esportiva. O maior patrimônio de uma nação é a sua cultura. Na medida que as crises econômicas, políticas, ambientais, éticas e morais habitam o cotidiano dessas mesmas nações, em que base poderia a arte se sustentar para não sucumbir? Só há uma resposta: na garantia de que a vontade de vencer não suplante a criatividade e, as habilidades não sejam vendidas como mercadorias padronizadas.

                                                                       Ademar Bogo



[1] FREUD, Sigmund. Obras completas, volume XXI.

domingo, 28 de junho de 2026

FILOSOFIA DO ESPORTE


            A Filosofia do Esporte é um ramo da filosofia que trata da arte, da estética e da ética esportiva. Desde a Grécia antiga, quando lemos as obras de Platão e Aristóteles, vemos que, o primeiro dava muita importância à música e a ginástica para equilibrar o corpo e a mente e, o segundo via nas atividades esportivas, a possibilidade de desenvolver virtudes e tornar as pessoas mais alegres, consequentemente mais festivas e eticamente melhores como cidadãos.

            Talvez o que conheçamos hoje como esporte praticado em pequenos grupos ou com exibições individuais, já foi no passado uma atividade comum e envolvente para todas as pessoas na produção da própria cultura de todas as sociedades. Os diálogos constituídos por meio de jogos de linguagem, sempre revelaram a arte da boa conversação em cerimônias festivas, nas quais cada tribuno busca as mais adequadas palavras para deleitar os ouvintes. As danças por simples divertimentos, serviram sempre como treinos para os posteriores concursos. Da mesma forma as composições musicais que elevaram em todas as épocas os gênios a patamares insuperáveis, nunca deixou de ser uma boa companhia para os boêmios, os decepcionados com a fidelidade matrimonial ou para as pessoas que aprenderam a inserir os cantos nas atividades de trabalho.

            O assunto sobre a arte esportiva participa da História da humanidade que o historiador inglês Johan Huizinga, nascido no final do século dezenove deu-se conta que não somos apenas homo sapiens, mas evoluímos também para “homo ludens”, ou seja, pessoas lúdicas que gostamos de jogar, brincar e nos divertir produzindo e usufruindo das formas artísticas. O mais surpreendente no livro desse autor, Homo Ludens, publicado em 1938, é a sua defesa da ideia que os jogos e as brincadeiras foram criados antes pelos animais. Basta observar as relações que eles desenvolvem coletivamente: “Convidam-se uns aos outros para brincar mediante um certo ritual de atitudes e gestos. Respeitam a regra que os proíbe morderem, ou pelo menos com violência, a orelha do próximo. Fingem ficar zangados e, o que é mais importante, eles, em tudo isto, experimentam evidentemente imenso prazer e divertimento”.[1] De modo que, podemos considerar que a diversão é tão importante como a água e a comida para todas as espécies vivermos nesta Terra.

            Ficamos surpresos com algumas atividades esportivas e suas potencialidades de mobilizarem multidões como é o futebol. Como muitas outras expressões artísticas ele se diferencia das brincadeiras espontâneas dos animais e entra para as atividades ensinadas pela civilização. Um exemplo disso é o Japão. O futebol foi levado para aquele país no final do século dezenove pelos britânicos e, mesmo assim, somente veio a participar da Copa do Mundo em 1998. Atualmente apresenta-se com tamanha capacidade que ameaça a passagem do Brasil para a segunda fase desse certame de 2026.  

            A Copa do Mundo é uma atividade lúdica. Embora a participação direta seja efetuada com um grupo muito reduzido, mobiliza bilhões de pessoas no mundo inteiro. É para esperar o momento do jogo que as crianças pintam e os adultos enfeitam as ruas com bandeirolas e param diante das telas no dia das disputas com outros concorrentes como se fosse dia santo ou feriado.

            Na Copa do Mundo a Pátria se faz representar, cada qual exibindo o seu hino e sua bandeira. Os uniformes tendem representar as cores nacionais e as multidões se comportam como forças organizadas em defesa da ética, do respeito das normas, mas também criticam o técnico e os jogadores que não desempenham a função na posição que ocupam.

            Por outro lado, um grande evento como a da Copa do Mundo coloca-se tão distante das brincadeiras espontâneas dos animais que os jogos se tornaram irreconhecíveis. Os atletas são monitorados, as regras são reguladas por aparelhos eletrônicos como é o caso do Var que, não importa a beleza da jogada, basta que a tecnologia aponte que um pé do centroavante esteja um pouco a frente da linha de impedimento, e o gol é anulado; dessa forma a toda energia da comemoração fica desperdiçada.

            De outro modo, os interesses políticos aproveitam o momento para dificultar o bem-estar dos desafetos e, com isso, muitas seleções são mal recepcionadas e mal alimentadas; no fundo, utilizadas apenas para fazer a presença inicial e, logo na primeira ou no máximo na segunda fase, serem despachada para que a verdadeira copa do exibicionismo e da lucratividade tome conta.

            Os ganhos econômicos são os que mais se destacam. As grandes empresas desde o turismo até a oportunidade de fazer negócios com a compra e venda de jogadores. Estes apesar de exibirem-se como celebridades não passam de fantoches nas mãos dos proxenetas que gerenciam a antiética da desumanização.

            Em síntese aquilo que no cotidiano serve como diversão para as crianças e os adultos em campo de terra, na Copa do Mundo torna-se um evento para a elite, porque, no decorrer do evento ocorrem dois tipos de eliminação: a primeira dos times que não possuem poder de investimento na educação esportiva e os clubes sobrevivem em seus países com a venda dos melhores jogadores e, a segunda é a eliminação dos torcedores com poder aquisitivo mais baixo; isto porque, conforme as fases da copa evolui, os ingressos mudam de valor. Portanto, apesar da grande comoção mundial, no final, sobram 22 jogadores, dois técnicos e um banco de reservas com pessoas auxiliares, com um estádio lotado de torcedores da classe média e da lumpemburguesia vivendo como parasita das habilidades alheias.

            Apesar de tudo, a Filosofia do Esporte continua viva. O cuidado com a estética do belo e dos sentimentos afetivos, a confraternização e a unidade nacional, são características que a cartolagem não pode destruir. Há, contudo que lutar contra a desumanização das atividades esportivas, mantendo todas as modalidades como necessidades de divertimentos e não como meio de enriquecimento de elites corrompidas.

                                                                                               Ademar Bogo



[1] HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Editora Perspectiva S. A. 2000.