Na obra, O capital de Karl Marx, encontramos passagens
belíssimas que fundem saberes econômicos, filosóficos, históricos e literários,
principalmente na parte que se refere ao dinheiro; isto porque, em qualquer
lugar onde exista produção capitalista, ele representa uma das formas de
expressão da riqueza. No entanto, esta forma encarnada na mercadoria desde o
início do capitalismo, com a evolução da concentração e a volatilização monetária
no processo já incontrolável, é digna de comparação, segundo o próprio Marx,
com a besta do Apocalipse.
Para
ressaltar o poder do dinheiro nas relações de troca, Marx recorreu ao
Apocalipse comparando-o com a besta para os capitalistas: “Todos eles têm um
mesmo desígnio, e entregarão sua força e seu poder à besta. E que só possa
comprar ou vender quem tiver o sinal, a saber, o nome da besta ou o número do
seu nome”.[1]
Nessa comparação, a besta exterminadora do
Apocalipse, no capitalismo, em grande medida, se movimenta com a força monetária.
É com essa força que os exterminadores dos direitos, da cultura e da própria
vida no planeta, controlam a economia e a política. A ameaça de intervenção
militar na América Latina prometida pelo presidente dos Estados Unidos, para
assegurar os interesses imperialistas, é a demonstração da profundidade da fome
que a besta está mergulhada.
Não
se trata de espiritualizar a análise, mas há momentos na história que se
colocam como marcos assinalando o “fim dos tempos”, principalmente quando
tomamos o sentido diacrônico, no qual a linguagem precisa caracterizar os
fenômenos das mudanças estruturais e culturais, conforme se desenvolveram no
tempo histórico. Concretamente, podemos visualizar que esse tempo das disputas
eleitorais em dois turnos, que sustentaram os discursos das garantias
democráticas, foi posto de cabeça para baixo e, por si só, já está sem
condições de responder às necessidades das mudanças revolucionárias.
As
tentativas de golpe de Estado são meras demonstrações grotescas do que
significa o poder apocalíptico do dinheiro e dos interesses do capital. Os
escândalos que ameaçam implodir as instituições, as quais sempre foram
sustentáculos da ordem e do Estado de Direito, representam a incorporação da
energia destrutiva do capital que, se preciso for, arrasará toda e qualquer
base de impedimento ao acesso às matérias primas que lhe garantam o controle
por alguns a anos a mais de sobrevivência.
Há
décadas estamos refreados nos processos de mudanças estruturais. Embora muitas conquistas
socializadoras tenham sido alcançadas, os representantes capitalistas da
democracia representativa impuseram, impunemente limites e derrotas à classe
trabalhadora, no que diz respeito ao avanço das conquistas sociais e da distribuição
da riqueza.
Os
conteúdos denuncistas entranhados nas campanhas eleitorais atuais, fazem
sobressair a corrupção como sendo o grande mal da política, descredibilizando
os bons candidatos, ao mesmo tempo que protegem os agentes econômicos e
financeiros que estão na base da corrupção. As instituições públicas ao invés
de aparecerem apenas como mediadoras dos desvios de verbas públicas, são postas
em evidência para proteger os verdadeiros corruptos e sonegadores de impostos.
Os
reclames empresariais contra a quantidade de impostos são expressões disfarçadas
para justificar o aumento dos preços ou amealhar, com os subsídios, ainda mais dinheiro.
Não precisa ser economista para saber que qualquer taxa de imposto é incluída
no custo da produção e circulação dos produtos. Quem paga o imposto não é o capitalista,
mas o consumidor; da mesma forma que quem paga o próprio salário é o
trabalhador, depois de produzi-lo nos trinta dias trabalhados antes do
recebimento.
Os
sinais do “apocalipse eleitoral” estão evidenciados no rumo que tomam as
disputas, envolvendo a desmoralização jurídica e as crenças religiosas. Em
relação à primeira, o objetivo é de desmoralizar quem julga para que a negação
das leis e da ordem democrática, instituídas no passado pelos próprios burgueses,
que sempre formam a maioria no parlamento, deixem de garantir às vitórias das
forças contrárias. Em relação às outras, o avanço das seitas neopentecostais,
criadas para combater, com a ajuda da própria hierarquia da Igreja católica nas
últimas décadas do século passado, as Comunidades Eclesiais de Base e a
Teologia da Libertação, chega ao auge com as práticas de intolerância religiosa,
contra os cultos afrodescendentes e o catolicismo.
Com
esses elementos implosivos da democracia representativa, somam-se as miliciais
armadas criadoras da própria ordem, contra o velho Estado Democrático de
Direito capitalista, asfixiado pela impotência e a conivência de parte das
forças policiais que colaboram com o crime organizado e favorecem, em última
instância, ao poder imperialista dos Estados Unidos, que almeja usurpar a soberania
dos países possuidores de riquezas naturais.
O
recente conflito brasileiro entre a oposição entre o candidato evangélico contra
o candidato católico, envolvendo a padroeira do Brasil, a Nossa Senhora da
Conceição Aparecida, tenderá, num curto espaço de tempo deslocar-se para os
5.570 (cinco mil quinhentos e setenta) municípios nos quais predomina um padroeiro
ou padroeira, eleitos pela tradição do catolicismo. Portanto, as disputas que
deveria ser entre as classes para exigir direitos e controle do capital, rumarão
para afirmarem-se como disputas religiosas de pobres contra pobres.
Portanto,
a identificação apocalíptica que numera os partidos e os caracteriza com as
cores adequadas, será substituída pelas insígnias como foram as do nazismo, a
estrela de Davi; o candelabro de sete braços; o chifre do carneiro, ou outro
mais atualizado, vinculado às cores do nacionalismo patriota. Por estas
simbologias, medir-se-ão quem são os amigos e os inimigos; enquanto as práticas
militantes, ao invés de voltarem-se contra os shoppings, Bancos, empresas
mineradoras estrangeiras etc., se resumirá em depredações de templos religiosos
e conflitos de rua.
Tudo
isso veio sendo planejado ideologicamente pela intervenção imperialista, para
doutrinar e alienar as massas no continente Latino-americano, como parte
antecipada da estratégia da intervenção militar da qual também fez parte os
processos eleitorais em dois turnos. As consequências são estarrecedoras do
ponto de vista revolucionário, pois, além de adestrar os partidos políticos,
fez as parcelas mais conscientes da classe trabalhadora deixarem de ser esquerda
para afirmarem-se como sociais liberais, fazendo assistência para as massas,
despolitizando-as e desorganizando-as totalmente.
Na
atualidade podemos dizer que os processos eleitorais mobilizam multidões, mas
não organizam resistência alguma, nem defendem as lideranças ofendidas, a
exemplo do que ocorreu com a cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff em
2016 e a prisão de Lula em 2028.
Em
síntese, não é de tudo ruim acreditar no “fim dos tempos”, porque de fato as
contradições, mesmo que sejam negativas se superam e, nessa transição
apresentam sinais da “boa-nova”, feita pelo aprendizado em toda a trajetória do
percurso. É provável que estamos mais fracos do que quando começamos. Por outro
lado, estamos muito mais sabidos. Isso nos ajudará a andar mais rápidos, no
entanto, é preciso querer renovar as próprias energias e encontrar as formas
eficientes de aplicá-las.
Ademar
Bogo
[1] MARX, Karl. O capital: Crítica da
economia política. Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 1996, p. 97.