domingo, 1 de fevereiro de 2026

A ERA DAS FALÊNCIAS


A Organização da Nações Unidas – ONU – divulgou em janeiro de 2026 um relatório que chama a atenção para a “falência hídrica”. Aos poucos a humanidade se convence que o capitalismo é um sistema adoentado. Basta um simples Rio-X para detectar um novo transtorno ou enfermidade incurável.

A falência é uma declaração de insolvência, feita por uma autoridade jurídica, pois o montante das dívidas é maior do que a capacidade de pagamento de alguém. Em relação a água não se trata de um processo judicial, mas a própria natureza anuncia que o uso cotidiano dela supera a capacidade da recuperação dos reservatórios, fazendo com que os lagos diminuam de tamanho, os rios sequem e os aquíferos guardados como precaução da própria Terra, além de estarem com seus níveis de reserva cada vez mais baixos, em muitos lugares, os solos afundam devido o vazio deixado pela retirada exagerada da água do subsolo.

Essa falência hídrica como todas as outras: ecológica, climática e preservação da biodiversidade dentre outras, provavelmente passará como o virar de página em busca de um novo assunto exposto em forma de matéria na sequência da leitura do jornal, com conteúdos voltados para as guerras, a violência, a poluição ambiental, a disputa pelos minérios mundiais, a manutenção ou não de uma moeda única para regular as trocas de mercadorias no mercado mundial, a taxa de juros elevado, a que ou a alta das bolsas de valores etc.

No cotidiano as pessoas não se dão conta de que o mundo mudou rapidamente, mas elas continuam preocupadas em buscar soluções para os seus problemas individuais. Ocorre que, com a falta da d´água não se brinca. Embora seja um elemento natural transformado em matéria prima, a água geralmente é esquecida como elemento fundamental partícipe do aumento da produtividade na agropecuária. Estudos apontam que, de toda água utiliza pelos seres humanos, 70% dela é gasta na agricultura. Para chegar à produção de uma arroba de carne bovina, exportada com grande euforia pelo agronegócio, considerando toda a cadeia alimentar, são necessários 225 mil litros de água doce; com suínos gasta-se um pouco menos, mas chega a 75 mil litros por arroba.

Quando estudamos os dados da superexploração ambiental, começamos a perceber porque, as reservas hídricas não conseguem recompor a parte da água retirada, espantosamente sem estudos e sem controles. Os governantes querem que a economia cresça para gerar emprego e, com isso, divulgarem cifras estatísticas refletindo a boa administração. Do mesmo lado, os capitalistas exigem menos cobranças de impostos e mais subsídios para transformarem os bens da natureza em mercadorias, nada dando em troca para a sociedade e para o meio ambiente.

Diante das falências naturais, as guerras, ameaças e chantagens serão problemas contínuos por causa do controle da água cada vez mais escassa. Estima-se que em 2050 a humanidade contabilizará 9,7 bilhões de pessoas, isso significa quase 30% a mais de água e de alimentos para o consumo. Embora as tecnologias possam facilitar muitas coisas elas não poderão corrigir a composição do corpo humano, composto de 70% de água, esta precisa ser reposta todos os dias para evitar desidratação e doenças renais.

Diante do tema das falências podemos ampliar as discussões baseadas na própria leitura da realidade feita pelos olhares atentos que se defrontam com córregos, rios e lagos extintos pela ação irregular dos homens. A propriedade privada tem servido de escudo para que cada indivíduo, “diante do que é seu”, se dê o direito de criar riscos de morte para toda a biodiversidade.

Cada vez mais torna-se importante pensar na superação do capitalismo, para que, mudando o sistema mudar-se também todas as relações. Nesse momento de transição do poder unipolar dos Estados Unidos, para o multipolar cooperado, nascido da articulação dos países emergentes do Sul Global, como a Rússia, a China, a índia e os mais de 40 países que compõe o Brics, com um Banco mundial de financiamento e, em breve com uma moeda própria, é animador, mas não o suficiente; se não considerarmos que é preciso mudar as relações sociais, de produção e com a natureza, isto porque, aquilo que foi denominado de “sustentabilidade” tornou-se insustentável e não há retorno dentro dos modelos em vigor.

Diante disso, tal qual é a cobrança da urgência de enfrentar a falência hídrica, precisamos atacar as demais falências organizativas, que conduziram as utopias das mudanças sociais para dentro das estruturas governamentais e as asfixiaram. A falência das forças de esquerda veio pelo abandono dos princípios revolucionários e com isso a defesa da ordem capitalista travestida de democracia, tornou-se uma tarefa vergonhosamente cotidiana.

As pautas particulares continuam sendo importante, no entanto, elas precisam incorporar os anseios universais. É importante conquistar a terra, mas é preciso defender a água e toda a natureza. As transformações estruturais exigem urgência, por isso as mobilizações locais precisam tornarem-se insurreições nacionais e internacionais. Reivindicar não basta, é preciso apropria-se das coisas e do poder, para deixar de pensar que os outros farão por nós.

A força principal das mudanças continua estando no número de pessoas organizadas. É preciso salvar a Terra do capital. Fazendo isto, poremos fim ao processo de exploração da força humana e das forças da natureza. Os capitalistas não entendem essa linguagem e nem farão por nós. A cada dia apresentam a descoberta de um aspecto vital ou a existência de um novo Planeta. Eles confiam que podem mudarem-se para lá. Nós não temos para onde ir, por isso precisamos enfrentar os destruidores do mundo com planos de ações comuns.

Se ninguém esperar pelos outros para começar as investidas contra o capital, muitos passos serão dados ao mesmo tempo e, ao se cruzarem uns com os outros, formaremos a grande marcha rumo à insurreição popular.

Terminamos com a mensagem do líder da insurreição vietnamita, quando convocou para “O fim da saída pacífica” em 1946. Pediu para os  compatriotas se colocassem de pé, fossem eles homens  e mulheres, jovens e velhos, sem distinção de credo, de partido, de nacionalidade: “Entrem na luta com todos os meios disponíveis. Que aquele que tem um fuzil, utilize seu fuzil, que aquele que tem uma espada, utilize a sua espada. Se não tiver espada, que tome picaretas e porretes! Que todos empenhem todas as suas forças para combater o colonialismo, para salvar a pátria”.[1] Nós dizemos, para salvar a Terra.

                                                           Ademar Bogo

                                                                                  

 



[1] ALVAREZ, Maria Elena e FERNANDES, Florestan. Ho Chi Minh: Política. São Paulo: Ática, 1984.

domingo, 25 de janeiro de 2026

DO PONTO AO ALVO


Duas aversões políticas, além do sequestro do presidente Nicolas Maduro e da Deputada Cilia Flores, sublinham as investidas inovadoras dos Estados Unidos nesse primeiro mês de 2026, que são: a criação do Conselho de Paz para atuar na Palestina e a ameaça de tomar à força a Groelândia.

Esses rompantes políticos não são de brincadeira; eles representam o início de uma escalada diferenciada para questionar e eliminar as poucas restrições que ainda restam da autoridade das instituições internacionais que, mal ou bem, no pós-Segunda Guerra serviram como instrumentos para muitas combinações entre os países do mundo. Agora, no governo atual, os dados mostram que os Estados Unidos já saíram de sessenta organizações internacionais. Portanto, a intenção é clara, o império não quer se deixar cercear em sua ampla liberdade de ser o poder unipolar do Planeta. A novidade estratégica está na tentativa de alçar, pelo poder militar norte-americano, ao grau de soberano universal, o presidente Donald Trump. O último a tentar fazer esse movimento para impor a ideologia nazista, foi Adolfo Hitler, que resultou, segundo reza a História, ter de suicidar-se em 30 de abril de 1945, alguns meses antes do final da Segunda Guerra Mundial.

A tentativa de formar um Conselho para reconstruir Gaza, vai nessa linha de substituir e renegar a autoridade da ONU, para colocar o poder de intervenção paralelo nas mãos do chefe do Conselho. Na verdade, o objetivo primeiro é dividir os gastos da reconstrução das ruínas marcadas pelo genocídio entre os países participantes, para construir uma miragem e esconder a vergonha da derrota do império e do sionismo contra o povo faminto da Palestina. Com certeza, esse gigantesco investimento do mercado imobiliário não será para beneficiar a população local, no máximo ela será força de trabalho altamente explorada, sem as mínimas condições de adquirir um imóvel de luxo. Por outro lado, nessa cidade constituir-se-á outra base militar do Estados Unidos para controlar definitivamente a região do Sudeste da Ásia.

A segunda ofensiva é ainda pior. Ao iniciar com a proposta de anexar a Groelândia aos Estados Unidos e ter percebido a desaprovação mundial, o soberano genocida optou pela compra da Ilha bem-posicionada geograficamente e riquíssima em minérios úteis aos Estados Unidos. Com a negativa da Europa, embora seja um velho continente em decadência, já sem forças para influenciar a política mundial, possui um significativo poder militar, basta lembrar que é com essa tecnologia que a Ucrania enfrenta a Rússia já a quatro anos. Supostamente acovardado, Trump percebeu que, com grosseria o estrago seria maior do esperado e, ao invés de punir os países contrários com altas tarifas comerciais, prontificou-se a negociar, sem desistir de ter o controle político e militar daquele cobiçado lugar.

Ninguém pode negar a dianteira que os Estados Unidos levam sobre os demais países no que diz respeito às tecnologias armamentistas e de comunicação. A Indústria bélica e as big techs possuem o poder de explodir o mundo e filmar essa façanha em tempo real. Mas isto é suficiente para manter a unipolaridade da dominação do Planeta?

Há diversos estudos mostrando que a China já é a maior economia do mundo e isso não tem mais volta. A indústria dos Estados Unidos, além de ter perdido a batalha econômica não terá mais como recolocar-se em primeiro lugar. Imaginemos um país como o Brasil, se quisesse disputar a produção industrial com a China, teria zero de possibilidades de ser um competidor à altura; o mesmo está acontecendo com a economia norte-americana. Por isso, a compulsão de controlar as maiores reservas de petróleo, embora seja uma das matrizes energéticas mais ameaçadas para ser descartada e, o assalto às reservas de minérios nobres, revela o desespero para garantir uma sobrevida econômica ao império com a velha matriz energética. O império irá competir na produção de componentes eletrônicos queimando petróleo, não porque quer, mas por não ter outra força tecnológica a altura para fazê-lo.

Então, se é nas armas, na informação e no dólar que o império se sustenta, ele pode defender-se de qualquer ameaça? De certo modo sim, mas por algum tempo. Tudo indica que esses instrumentos logo possam vir a ser obsoletos. Vimos pela experiência na faixa de gaza que os mísseis não fazem todo o trabalho nas frentes de batalhas; há lugares que precisa entrar com os próprios pés e com armas de curto alcance, e isso todos os povos podem ter. Essa batalha intervencionista Ronald Trump já perdeu pela própria desaprovação da opinião pública de seu país.

Por outro lado, é importante ler os dois sinais dos tempos. O primeiro, se a guerra econômica está perdida, as tarifas elevadas não surtirão efeitos, porque, aos poucos os países farão circular os seus produtos nos livres mercados entre si e, por essa razão utilizarão as próprias moedas ou criarão uma outra que sirva para os negócios comuns; mas o poder das armas continuará em evidência. Devemos prestar atenção e ver se se confirma a nova tendência inaugurada na Venezuela de tomar o produto e não o “poder”, no caso o petróleo, e deixar que a governança seja exercida pelas próprias forças locais. Isto evitaria confrontos maiores e os objetivos econômicos seriam alcançados sem se envolver tão profundamente com a troca de regime e de governo; ou seja, as democracias eleitorais podem eleger quem bem quiserem que o império garantirá os seus interesses por outras vias.

O segundo sinal vem da Ilha da Groelândia. Essa tendência aponta para, vamos chamar de “estratégia do domínio do ponto”, e indica que não é preciso guerrear com todo o Reino da Dinamarca nem com a Europa, basta ocupar a parte do território que interessa, ou seja, a ilha da Groelândia. Na Venezuela equivale o Lago de Maracaibo no noroeste do país, onde está situada a extração do petróleo; no Brasil o petróleo está na Foz do Amazonas e as terras raras em Tapira e Araxá em Minas Gerais; Catalão em Goiás e em Pitinga no Amazonas. O modo para os invasores estabelecerem-se poderá ser pela compra pacífica de áreas ou pela tomada do “ponto” violentamente, cercá-lo com sofisticadas tecnologias ou estabelecer uma base militar sobre a área da jazida.

A imagem do “domínio do ponto” é importante para fixar a ideia da repetição na política das práticas do crime organizado. O banditismo político igualou os métodos violentos em esfera internacional com o tráfico de drogas a nível local. Agem dessa forma por terem a certeza que nenhuma força superior terá o poder de destruí-los.

É nesse sentido que precisamos falar sério. As forças políticas e populares precisamos entender que nunca ficou tão evidente que há um grande inimigo da humanidade a ser derrotado. Para evitar surpresas, de pouco ou quase nada vale eleger um presidente que não possua uma base de combate organizada. A força humana é maior que a força das armas. Se eles têm a estratégia do “domínio do ponto” a nossa estratégia deve ser a do “domínio do alvo”.

 O problema crucial do império é econômico. É contra esse poder que devemos lutar na esfera nacional, como faz a China a nível universal. Há no Brasil mais de 4 mil empresas norte-americanas; no México existe basicamente o mesmo número; no Chile cerca de setecentas e assim segue, em todos os países da América Latina há uma quantidade significativa de investimentos a explorar e enviar dividendos para os Estados Unidos, que não podem se mover nem sair do lugar. A potência dos misseis não protegerá a vulnerabilidade desses alvos.

Portanto, se uma significativa parcela do poder econômico do império está em todos os países da América Latina, está próxima de nossas casas. Quando falamos em “poder popular”, precisamos incluir nessa ideia do controle da economia. Nenhum povo pode defender-se da agressão externa se não estiver organizado. Os grandes movimentos se sustentam porque possuem células, conselhos e núcleos de combate. Um alvo para ser acertado, precisa antes ser cercado, conhecido e mirado. Conscientemente ninguém acerta um alvo que não vê. Estudar, organizar para esses fins e combater, deveriam ser as nossas tarefas urgentes deste tempo.

                                                                                               Ademar Bogo

domingo, 18 de janeiro de 2026

O FRACASSO DA INTOLERÂNCIA LIBERAL DO IMPÉRIO

 

Nos últimos tempos duas palavras ganharam destaque na estratégia política do imperialismo: terrorismo e barbárie. Se a primeira se define pelo uso da violência e do amedrontamento, a segunda acompanha com o estabelecimento do caos, por meio do negacionismo, agora das leis e da ordem institucional, local e mundial.

O filósofo István Mészáros foi um dos últimos filósofos deste século, a tratar com seriedade a barbárie, atribuída à estratégia universal do imperialismo dos Estados Unidos. Para ele, a lógica do capital é absolutamente inseparável do imperativo da dominação do mais fraco pelo mais forte. “Mesmo quando se pensa no que geralmente se considera o constituinte mais positivo do sistema, a competição que leva à expansão e ao progresso, seu companheiro inseparável é o impulso para o monopólio e a subjugação e a exterminação dos competidores que se colocam como obstáculos ao monopólio que se afirma”.[1]

A título de esclarecimento, o primeiro estudo de fôlego sobre o imperialismo foi publicado pelo inglês John Atkinson Hobson em 1902. Esse autor tomou como referência a Inglaterra e associou a explosão expansionista do capital a partir de 1870 com o desenvolvimento econômico do capitalismo. O que presenciamos cem anos depois, em 1970, com a substituição daquele nome por “globalização”, com as mesmas características, porém com direcionamentos ideológicos neoliberais diferenciados, que podemos agora afirmar ter ele passado para a segunda e talvez última fase. A primeira, quando se buscou estabelecer diretrizes jurídicas para abrir as fronteiras ao capital e privatizar os investimentos públicos mais rentáveis e, a segunda, mais atual, é esta de que as leis perderam a importância pela supremacia da força militar.

Este segundo movimento adotado pelo imperialismo dos Estados Unidos, se deve a dois fatores: o primeiro, aproveitando-se das possibilidades de expansão de seus negócios, todos os países estabeleceram os seus vínculos cooperando ou explorando-se mutuamente, no entanto, na medida que essas relações passaram a ser coordenadas pela surpreendente capacidade econômica e tecnológica da China, os diversos monopólios entraram em disputa e, o outro, tendo em vista os diferentes matizes do neoliberalismo, como é o caso do neodesenvolvimentismo ou mesmo algumas iniciativas de teor nacionalista, parcelas do patrimônio público, rentáveis, não foram privatizas e, algumas, para citar um caso, foram reestatizados como aconteceu com o petróleo na Venezuela, a partir de 1992.

Por outro lado, se entramos na segunda fase do neoliberalismo, não saímos nenhum milímetro fora do domínio imperialista; porém, com certeza, como intuiu Lenin no início de 1916, quando publicou o livro: Imperialismo: fase superior do capitalismo, pode ser o último degrau na subida da dominação do capital. Portanto, essas obras acima citadas, são leituras obrigatórias para quem pretende entender a intolerância e a imposição da barbárie, pelas atitudes violentas e destrutivas dos Estados Unidos.

Muito já foi dito sobre a decadência econômica dos Estados Unidos e a perda de dois lugares fundamentais: o primeiro de já não ser mais a maior economia do mundo, atualmente este lugar pertence à china e, o segundo, também de não possuir a hegemonia política do planeta. O que o império tem e com muito mais destaque do que qualquer outro país, é o domínio da tecnologia militar. Essa dianteira se deve aos robustos e contínuos investimentos na Indústria militar que, em 2024, chegou a um trilhão de dólares. Isso permite desenvolverem ações, atentados, sequestros e transmitirem ao vivo para as autoridades em Washington, como aconteceu com o presidente da Venezuela em 03 de janeiro de 2026. Ação semelhante já havia sido realizada na prisão e morte de Osama Bin Laden, em 2011 no Afeganistão.

No entanto, apesar de toda a tecnologia bélica e possuir 800 bases militares distribuídas pelo mundo, o controle do poder do império foge pelos vãos dos dedos. Somente com o uso do terror e da barbárie está conseguindo tomar alguns pontos e reaver algumas reservas importantes de minérios e petróleo para, por meio da ilegalidade e do roubo, tentar recuperar a hegemonia econômica no mundo, mas esta já é uma causa perdida. É provável que, com esse poderio bélico e, desrespeitando todas as leis internacionais, a estratégia seja de ignorar os países e acampar para tomar à força os locais específicos dentro dos territórios que preservam as riquezas naturais e administrá-los como se fossem pequenas ilhas anexadas aos Estados Unidos.

Como não existe movimento sem contradição, três delas estão se encaminhando para enfrentar e promover as derrotas ao imperialismo: primeira, a população dos Estados Unidos começa a dar sinais de que desaprova a política intervencionista e expansionista do governo daquele país; segunda, as movimentações regionais de reações contra as pretensões norte-americanas, como está ocorrendo com a Europa em relação à Groelândia, deslocando tropas para proteger a ilha e, terceira, a mobilização popular e a resistência interna tornando o elevado poder militar inútil. Temos, nesta última, três referências vitoriosas em andamento: a) a Palestina; b) a Venezuela e, c) o Irã. Os mísseis e os drones teleguiados, nada podem contra o levante das multidões. Portanto, a tendência aponta para as belíssimas insurreições populares, é preciso pensar o destino político dos resultados.

Para as consciências críticas que prezam pela autodeterminação dos povos, chegou a hora de fazer valer o conhecido chamado de Florestan Fernandes: “Contra a intolerância dos ricos, a intransigência dos pobres”. As ações locais, continentais e mundiais devem ser constantes, conscientes e unitárias, bem como destacou Marx: “A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas”.[2]  Mobilizados e organizados, teremos a força e também as armas.

                                                                                   Ademar Bogo

  

 

 



[1] MÉSZÁROS, István. O século XXI: Socialismo ou barbárie: São Paulo: Boitempo, 2003.

[2] MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 151.

domingo, 11 de janeiro de 2026

A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL


            Há épocas que a sintonia é tão estreita entre a política e a História que tanto faz escrever sobre as perspectivas ou deixá-las acontecer, que os resultados sabidos serão os mesmos. Por isso não é preciso levantar considerações como: se vai haver a Terceira Guerra Mundial, porque ela já está acontecendo, ou se os Estados Unidos perderão a hegemonia do poder mundial, porque já perdeu.

            Para quem gosta de comparações, no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o mundo era divido e comandado por quatro poderes: Alemão, Austro-húngaro, Russo e Otomano. No final, ganharam a Guerra: a Inglaterra, a França e a Itália, com apoio dos Estados Unidos da América. A Alemanha foi responsabilizada pela guerra e obrigada a pagar os prejuízos.

            Embora as disputas entre as potências estivessem presas às questões econômicas e comerciais, o estopim foi um tiro disparado por um estudante sérvio, Gavrilo Princip, pertencente a um grupo armado, “Mão negra”, contra o herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando. A reação contra a Sérvia fez a Europa juntar as forças, com exceção da Alemanha, que já disputava com a Inglaterra os mercados mundiais.  

            A segunda Guerra Mundial iniciou com a invasão da Polônia pela Alemanha. O motivo foi o Incidente de Gleiwitz, cidade na época em território alemão. Fardados com uniformes do Exército polonês, um grupo de alemães tomou a estação de rádio e divulgou uma mensagem de xingamento contra a Alemanha e mataram um fazendeiro, Franz Honiok, simpatizante da causa alemã, o vestiram também com o uniforme militar polonês e o apresentaram à imprensa como um invasor. Esse e outros pequenos motivos, forjados deram a Hitler os motivos para invadir a Polônia.

            A terceira Guerra Mundial, pode ter sido simbolicamente iniciada, em 3 de janeiro de 2026 com o sequestro e a extradição ilegal do presidente da Venezuela Nicolás Maduro. O motivo foram as falsas denúncias do Presidente chefiar o Cartel de Los Soles, organizado para levar drogas para os Estados Unidos. Para efetuar essa façanha o governo dos Estados Unidos, deslocaram o maior navio de guerra, USS Gerald R. Ford (CVN-78), com 333 metros de comprimento para bombardear pequenas embarcações de pescadores, acusados de transportarem drogas pelo Mar do Caribe.

Na verdade, a Segunda Guerra Mundial, o objetivo era criar o corredor polonês para chegar ao Mar Báltico e iniciar a expansão do império alemão para o Leste da Europa, o que obrigou a Inglaterra e a França a declarem guerra a Alemanha. Ao terminar a Guerra, o mundo ficou dividido basicamente entre, Ocidente e Oriente. Os países do primeiro, vigiados e articulados pelos Estados Unidos e, o segundo, em grande medida, articulado pela União Soviética. Esse período de bipolaridade, sobreviveu de 1945-1991, quando, houve a derrocada das repúblicas soviéticas e, aparentemente o mundo teria se configurado com um poder unipolar, dominado pelo imperialismo norte-americano.

            Mas uma guerra, embora termine com vencedores e vencidos, não congela a política nem a história, por isso o poder sofre variações locais e universais. O capitalismo tem essa virtude de formar novas circunstâncias a cada instante. A confiança na unipolaridade causou um grande mal para o imperialismo norte-americano. Julgando-se senhor do universo, criou pelo menos 800 bases militares no mundo, as quais foram toleradas pelos países que militarmente não queriam briga.

            Mas a política não se faz o tempo inteiro usando armas; qualquer ofensiva militar prolongada chega a um ponto que esgota. Aos poucos, como as águas nas cheias dos remansos, mesmo com a unipolaridade, as articulações políticas foram se modificando e o mundo configurou a divisão entre o Norte e o Sul Global. A Globalização que incialmente teria salvado o capitalismo da crise mundial por meio do neoliberalismo, permitiu ao capital ir a todos os lugares. No entanto, essa liberdade de mercado e investimento passou a valer para todos os países, inclusive aqueles situados nos continentes mais pobres. Quando se imaginava que a Ásia seria dominada pelos “tigres asiáticos”, mais propriamente, o Japão e a Coreia do Sul, a China, silenciosamente, com toda a tranquilidade, fortaleceu-se com a tecnologia estrangeira e saiu para relacionar-se os países formando com eles a temerosa Nova Rota da Seda, deixando, justamente o “dono do mundo” com usa unipolaridade de fora.

            Esse movimento da unidade e luta dos contrários em disputas nos mesmos territórios, criado pela globalização, assemelha-se a um jogo de futebol, quando os times estão em campo unidos para realizarem a partida, no entanto, um quer derrotar o outro. Confiante nas armas, os Estados Unidos fracassaram na tecnologia industrial e começaram a sofrer perdas na indústria e no mercado mundial, com isso, surgiram novas articulações políticas que ameaçam romper com o dólar e com as instituições financeiras internacionais, substituindo-as pelo Banco dos Brics. Desesperados e sem poder disparar um tiro no coração do inimigo, justamente por ele estar em muitos lugares ao mesmo tempo, criado pela globalização, os Estados Unidos, com a desculpa do tráfico de droga, sequestraram o presidente Nicolás Maduro e iniciaram a Terceira Guerra Mundial, cuja pretensão é fazer uma nova divisão do mundo, garantindo que a América seja dos americanos.

            Ao sentir que o mundo comercialmente foi se dividindo por regiões e por potencial mineral e energético, o império que antes precipitava-se contra qualquer alvo para vender armas, deu-se conta que os inimigos estão invadindo o seu quintal e explorando as riquezas minerais responsáveis pela sustentação das disputas tecnológicas do futuro. Ao se dar conta que um míssil jogado sobre o Irã é insignificante, contra um porto marítimo construído pela China no Peru que ligará, por ferrovias, o atlântico ao pacífico, passando pela Amazônia brasileira. Ou que, 80% do petróleo venezuelano estava sendo exportado para a China, quando poderia servir à economia norte-americana, declarou a guerra sequestrando o presidente Nicolás Maduro e estabeleceu um cerco à Venezuela, atacando todo e qualquer navio de qualquer país que ouse transportar petróleo pela via marítima.

Por tanto, como as duas guerras mundiais anteriores duraram em média 5 anos, esta nova situação de conflito pode ser mais curta ou mais longa, depende de como as outras potências se comportam diante dessa proposta de divisão do mundo. Como ninguém virá imediatamente para disputar a América (nem a China e nem a Rússia reagiram militarmente contra a apreensão do seu petróleo saído da Venezuela), as riquezas naturais estarão sujeitas à exploração do império, mas isso não será suficiente para recuperar a hegemonia política e econômica mundial. A china já é a maior economia do mundo e, tecnicamente está mais bem qualificada para inundar os mercados com mercadorias de valor competitivo favoráveis. Mas outras duas vantagens beneficiam a China: a primeira é de ser um grande mercado consumidor com perspectiva de crescer continuamente e, todos os países terão interesse em comercializar com ela os seus produtos; a segunda, além de estar se tornando, tem a Rússia como retaguarda militar e isso inspira cuidado do império ianque.

As bravatas de tentar intervir na guerra entre a Rússia e a Ucrânia ou de iniciar um conflito bancando a independência de Taiwan da China, ou mesmo a compra da ilha da Groelândia, poderão vir a se transformar em fatos reais vantajosos para os Estados Unidos, no entanto, colocaria esse império contra o mundo e tornaria essa causa expansionista externamente insustentável, como também internamente, a população norte-americana já reage contra a essa estratégia fracassada. A tendência é o recolhimento para garantir o que sobrou.

De outro lado, embora as forças sociais latino-americanas estejam apáticas, não haverá alternativa, a não ser uma reação conjunta entre todos os países para prejudicar a presença ianque em nossos territórios. As mesmas medidas tomadas lá, devem ser pressionadas para serem tomadas aqui, seja na expulsão de seus imigrantes e empresas de capital norte-americana; o impedimento do funcionamento dos consulados e, principalmente, livrar-se das matrizes tecnológicas dos Estados Unidos. Portanto, a guerra deverá ser temporária e sem uso de bombas atômicas, mas a revolução terá de ser de natureza permanente. Pela solidariedade e o levante coletivo dos povos, deve ser a nossa linha de resistência.

                                                                       Ademar Bogo

domingo, 28 de dezembro de 2025

BALANÇO DO BALANÇO


            Todos os finais de ano, costumeiramente, empresas, movimentos, entidades e partidos fazem o balanço para compararem os pontos positivos e negativos e, geralmente, as conclusões apontam alguns avanços, aqui e ali; coisas não tão boas, mas no final uma dose de otimismo, reanima as forças para o ano vindouro.

            É importante avaliar. Porém, há que ter algum parâmetro. Nesse caso as empresas estabelecem metas e os movimentos sociais e partidos políticos deveriam considerar alguns objetivos. Quando não há vínculo com nenhum desses dois referenciais, não se tem uma medida de tamanho para saber se de fato houve algum avanço considerável.

            Por outro lado, os apontamentos na política são menos consistentes do que na economia, isto porque, na primeira os resultados podem ser abstratos, sem matéria concreta, por isso, aquilo que na conjuntura parece ser um avanço, no real concreto, não criou nenhuma mudança estrutural, por isso não há nenhuma garantia de que um acordo ou a medida permaneça.

            Façamos aqui um comparativo nas relações tumultuadas com os Estados Unidos, em parte do ano de 2025. De repente surgiu, sem explicação uma elevada taxa de exportação e junto dela a aplicação da lei Magnitski, aquela que o imperialismo aplica contra qualquer cidadão do mundo e, por isso, enquadrou algumas autoridades brasileiras por estarem “desrespeitando os direitos humanos”. Havia de fato algumas exigências para que ambas as medidas fossem anuladas e, uma delas era anistiar os golpistas das ações de janeiro de 2023 que estavam no banco dos réus.

            Mas, eis que em meio as tensões, os Estados Unidos publicaram em 5 de Dezembro de 2025, o Plano para a América Latina e reafirmaram a mesma Doutrina Monroe, de 2 dezembro de 1823, que em síntese consiste na pregação do conteúdo: “América para os americanos”. Em síntese, isto significa, na linguagem popular, dizer: “Tudo nosso”; ou um recado aos países do Sul Global, como à China e à Rússia, que o território das três américas está sob o comando do imperialismo norte-americano. De imediato vimos as forças militares do Império tomarem o Mar do Caribe e cercear a liberdade de comércio internacional da Venezuela.

            Mas também, eis que de repente as taxas de exportação contra o Brasil foram reduzidas, e a Lei Magnitski, mesmo com a condenação dos golpistas, como se nada houvesse acontecido, perdeu os seus efeitos e as autoridades brasileiras foram ou serão ainda beneficiadas. O sucesso foi atribuído à capacidade da diplomacia brasileira que sabe negociar. No entanto, até o momento nada foi informado sobre o que precisou dar em troca para que tudo voltasse ao “normal”. Inicialmente os EUA demonstraram interesse nas terras raras e nas reservas de lítio presentes em várias regiões do Brasil, depois silenciaram. Será que excluíram o Brasil da doutrina Monroe que exige a “América para os Americanos?”. Claro que não. O primeiro argumento para esse “recuo” é não mexer com todos os formigueiros ao mesmo tempo. E, o segundo, é mais inteligente ainda, por que transformar alguém em inimigo se o que queremos dele, podemos obter sem briga? Portanto, momentaneamente comemoram-se os avanços, mas quais? Poder exportar suco de laranja, soja e carne bovina com as mesmas taxas cobradas anteriormente?

            A nível interno, também como demonstrativo de balaços sem profundidade, diz respeito aos que foram feitos pelos movimentos sociais do campo. Dizem que a reforma agrária está parada porque o orçamento disponível é limitado. Por outro lado, os avanços se referem à produção de alimentos agroecológicos e ao plantio de árvores, numa grande contribuição para reduzir o aquecimento global. Também são apontadas as ações de solidariedade no apoio à população afetada pelas catástrofes naturais e a distribuição de alimentos. Nas perspectivas, o único ponto posto como objetivo futuro a ser alcançado é o envolvimento na campanha eleitoral para a reeleição do presidente da República.

            Esses indicadores já confirmam em 80% o conteúdo do balanço do ano de 2026, isto porque, a reforma agrária continuará estacionada, os órgãos responsáveis continuarão inativos e, o montante maior de recursos serão destinados, como foi neste ano de 2025, para o agronegócio. Restará para os trabalhadores, a produção agroecológica em escala reduzida para contribuir com a merenda escolar, o plantio de árvores e a campanha eleitoral.

            Há no Brasil, nas últimas duas décadas, pelo menos, uma ignorância total na compreensão entre a diferenciação da estrutura do Estado e de governo, agravada por um terceiro elemento que é a figura do presidente Lula. Na política, que não separa afetividade e amizade com o presidente, personificam nele a superestrutura, por isso: “Se bater no governo, vai doer no presidente”. Quando uma coisa nada tem a ver com a outra.

            Todos sabem que o governo é composto por quase todas as forças políticas e representantes de todas as classes, logo, elas operam no interior dos ministérios. Diante disso, o raciocínio deveria se orientar pelas questões: o que tem a ver a elevada taxa de juros do Banco Central com a reforma agrária? O que tem a ver os R$ 516 bilhões de Reais destinados ao agronegócio com a reforma agrária? O que tem a ver o baixo orçamento do INCRA com a reforma agrária? E, em todas elas colocar um complemento: “É o presidente quem define?” Assim dezenas de questões deveriam ser formuladas para ajudar a direcionar as ações contra os inimigos. Aparentemente, entre o Estado e a classe dominante, que controla os cargos no governo e os trabalhadores, está o presidente Lula que impede uns de tocarem ou brigarem com os outros. Por essa razão, a luta de classes saiu da agenda.

            Por fim, podemos dizer que, se não há objetivos consistentes a serem alcançados, não haverá metas para serem avaliadas, logo, as vitórias se equiparam às conquistas dos movimentos dos agricultores europeus que ignoram a luta de classes e miram nos próprios interesses econômicos. Foi assim que impediram o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Não ganharam nem acumularam nada, mas o balanço foi positivo, porque impediram a entrada de produtos estrangeiros para competirem com os deles.

            Que o ano de 2026 seja prospero para a formação da consciência crítica, para que possamos enxergar a nova onda de dominação, vinda dos Estados Unidos, que se aproxima, com o propósito de tomar de assalto as riquezas naturais e escravizar os pobres, pretos, brancos e indígenas. “América para os americanos” deve soar como ameaça e não como orgulho.

                                                                                   Ademar Bogo     

domingo, 14 de dezembro de 2025

O ESDRÚXULO ESDRULUXADO


Como não há mais palavras na língua portuguesa para explicar a política brasileira, temos que inventá-las para dar algum sentido para a pouca inteligência que forma a irracionalidade dos parlamentares que dirigirem nação. A sensação nas ruas é que o parlamento foi tomado por uma maioria de mentecaptos que não reconhecem os sinais apontadores da ética política.

            O filósofo e advogado Marco Túlio Cícero (63.a. C), perguntou: “Quem dará o título de homem a um monstro que não reconhece comunidade de direitos para com os outros homens, nem laços que o unam à humanidade?”.[1] O mesmo poderíamos fazer hoje, quem chamaria de homens honestos aos deputados que fazem as leis em defesa causas particulares? Se antes eram conhecidos como corruptos, já é pouco chama-los assim, mas outros termos, como: clientelistas e favoritistas parece que ofendem ainda menos. Talvez “monstros do Congresso”, identifique uma espécie de mamíferos que só existe lá.

            As coisas estão de fato desreguladas. O certo parece que é o errado e o avesso o lado certo, ou, de fato, já não temos mais referências. Imagine se em qualquer país, no futuro, dois deputados abandonarem o parlamento porque cometeram crimes e fugiram do País e, os seus pares ao invés de cassá-los e exigirem a prisão imediata, aprovassem que eles poderão legislar de onde estiverem escondidos, recebendo os altos salários, como se nada tivesse acontecido? O que dirão aquelas gerações? Da mesma forma se uma deputada, fugitiva, julgada e condenada e presa na Itália, também continuasse sendo sustentada pelas verbas públicas? Esta pelo menos foi punida pelo Supremo Tribunal Federal com a declaração da perda do mandato.

            Por outro lado, entra em cena no linguajar político a “Dosimetria”. Poderíamos chamar de sistema de medida que mede as penas. Ou seja, seria a Trena que mede a altura de um cidadão. Quando encostado na parede, não há como negar, o que é, é. Mas no caso dos crimes, a metragem é diferente: o que é pode não ser. O sistema agora inaugurado é tomar o réu julgado e condenado e medi-lo duas vezes: a primeira em pé e a segunda acocorado. Valeria a segunda, porque a primeira serviu apenas para identificar o malfeitor.

            Essa medida “Dosimétrica”, poderia ser associada à infelicidade. Primeiro porque os infelizes seriam os condenados que recebem a pena e, segundo a população que torceu para que permanecessem presos, mas, de repente os “dosimetrados”, voltam às ruas para cometerem outros crimes no mesmo ramo da profissão do golpismo. Mas, calma, isto não ocorre com todos os presos, a revisão dosimétrica é um direito adquirido por aqueles que não aceitam os resultados das eleições, quebram e destroem as instituições públicas depois, é claro, de ficarem um tempo acampados em frente aos quarteis.

            Os livros de História do Brasil registram que Sebastião Ferreira de Paula, foi o preso político que mais tempo ficou na cadeia, 18 anos. Isto aconteceu porque ele não foi anistiado em 1979, por isso ficou 4 anos a mais que os outros que foram presos, torturados e julgados e amargaram uma dezena de anos ou foram exilados. Agora, o chefe da quadrilha militar que pegou 27 anos e três meses de prisão, em regime fechado, no passar a régua da Dosimétrica, sairá em menos de três anos. Ou seja, quem resiste a um golpe de Estado, tem a pena maior do que qualquer um que tenta dar o golpe e fracassa. E nem adianta olhar para a cara do juiz que foi chamado de canalha em praça pública, porque ele está junto para refazer as medidas.

            Mas isto ainda é insuficiente para os desmiolados fazedores de leis.  Avançaram também na aprovação ode outros benefícios escandalosos. Para evitar o trabalho de prender e julgar um deputado que comete um crime, aplicar uma pena e depois, pela Dosimetria desaplicar, estão preparando a emenda à Constituição, apelidada de PEC da Blindagem ou da bandidagem, que vem a dar no mesmo. No que consiste? Em poucas palavras, significa que um juiz pode mandar prender um deputado criminoso, mas ele só será preso se os colegas dele concordarem. Caso contrário, continuará no parlamento fazendo o que sempre fez: defender os próprios interesses.

            A Democracia Representativa é de fato o corredor que leva ao totalitarismo. Depois de depositado o voto em favor de um deputado, é como dinheiro perdido, quem achou finge que é dele e gastará onde bem quiser.

            Por outro lado, de fato entre a Democracia e a ditadura é melhor ficar com a primeira, por que, sendo branco, estudado, cabo eleitoral e amigo de políticos, com ela o sujeito pode desarrumar a ordem, mas não apanha da policia e, se for preso, sai com o pagamento de uma fiança; no entanto, se for preto, pobre, transgênero ou favelado, aí tanto faz votar ou ser proibido de fazê-lo, pois os resultados são os mesmos.

            Para terminar, na mesma noite em que aprovaram a redução das penas para os golpistas, mantiveram os mandatos dos dois deputados fugitivos do país, aprovaram a punição de seis meses de suspensão ao Deputado do PSOL, Glauber Braga, por ter empurrado um provocador nas imediações do Congresso Nacional”. Muitos consideram uma vitória e festejaram a conquista. De certo pensaram; “fazer o que?”, a floresta foi incendiada, mas a minha arvorezinha de estimação foi possível salvar.

            Então é isso, continuemos disputando o joio enquanto eles levam o trigo, os minérios e o petróleo embora. O império ameaça invadir a Venezuela e não se ouve uma palavra daqueles que elogiam o terrorista chefe maior do império, por ter recuado e tirado o Ministro Alexandre de Moraes e a esposa da Lei Magnitski. É o agrado para que se mantenha o silêncio e a neutralidade sobre a iminente invasão do país vizinho.

                                                                       Ademar Bogo          



[1] https://sumateologica.wordpress.com/wp-content/uploads/2009/09/cicero_da_republica.pdf

domingo, 7 de dezembro de 2025

A FÚRIA CONTRA O PORRETE


No dia cinco de dezembro de 2025, o império norte-americano publicou a renovação de sua estratégia político-militar para a América Latina. Pouco ou quase nada há de novo, se considerarmos o lema da Doutrina Monroe: “América para os americanos”, em vigor desde 1823.

Para quem tem acompanhado nos últimos tempos os movimentos geopolíticos, não terá muitas dificuldades em entender as manifestações desrespeitosas dos representantes do império que, diante da falência do modelo neoliberal, afunda-se na decadência capitalista, mas ao olhar-se mais demoradamente no espelho, viu, primeiramente, que a sua imagem se parece com a face envelhecida da Europa já sem forças para reagir e percebeu que lhes sobra uma única solução, que  é a defesa da invasão dos “bárbaros” imigrantes.

No entanto, ao permanecer, um pouco mais diante do espelho, o império também se vê invadido pelos bárbaros do mundo, por isso, como antigamente, ergue muralhas para defender-se e, por deter ainda um poderio militar satisfatório, decide atacar os que estão desarmados para submetê-los e dominá-los. Por quê republicam a estratégia Monroe de 1823? Porque há um movimento real de desprendimento dos países latino-americanos e do Caribe, que se voltam para estabelecer relações vantajosas com a China e a Rússia.

Essas aparentes recaídas para a repetição de comportamentos invasivos, são resultados dos reflexos do espelho, revelando ao observador enquanto se observa, que as suas forças de controle sobre o continente, esvaiu-se e, agora precisa atacar para se defender. “América para os americanos”, repete o que foi: “Roma para os romanos”, quando Nero, para disfarçar a decadência própria e do império, incendiou Roma e culpou os miseráveis cristãos que rezavam e faziam penitência para alcançarem dias melhores. Agora o Trumpnero culpa os miseráveis pescadores que navegam no Mar do Caribe, como se fossem traficantes e, para combatê-los, como não pode incendiar as águas do oceano, embora produza labaredas e fumaça, desloca o maior navio de guerra do mundo para manter a sua autoridade.

Não são apenas os slogans históricos que se repetem, as práticas também. Quando Pedro Alvares Cabral chegou ao Brasil em 1500 e avistou uma população estranha para os critérios europeus, buscou cativar a amizade, oferecendo, uvas, figos, pão, vinho, chapéus, espelhos e outras bugigangas, mas, para intimidar os mais curiosos pôs fogo em uma bacia de aguardente no intuito de mostrar que poderiam, se quisessem, incendiar as águas do Mar. Depois, já instalados no território alheio, cumpriram as suas intenções, que foi, com armas de fogo e incêndios nas florestas, exterminar os povos nativos resistentes e força-los a entregarem os seus bens naturais.

Como já vimos, desde 1823, ou seja, um ano após a declaração da independência do Brasil e, de quase todos os países da América Latina, realizadas entre 1804 a 1838, dando margem à formulação da expressão: “América para os americanos” e, depois, durante o século XX, o endurecimento foi ainda maior, quando o presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que governou o país, entre 1901 a 1909, baseado aplicou na política externa, o dito popular: “Fale mansamente, mas leve na mão um porrete”, criando assim a estratégia do Big Stik (Grande porrete), para intervir em nosso continente.

Com esse “porrete” na mão, os governos do império impuseram a aceitação de empréstimos, que depois se transformaram em dívidas externas impagáveis, mantendo as nações sob a chantagem dos especuladores por quase um século. Somado a isso, interferiram diretamente na política, financiando golpes de Estado para instalarem ditaduras sanguinárias por diversos países. Tendo essas medidas sido desgastadas, voltam à estratégia do “porrete” para obrigar os governos de nações soberanas a se curvarem aos interesses do império, cedendo-lhes os minérios, o petróleo e demais riquezas, em vista de sustentarem a base econômica dos criadores do lema: “América para os americanos”.

Tal qual o incêndio em Roma foi uma fantasia criminosa imposta por Nero, o problema do narcotráfico representa o mesmo para Trump. O fundamental é entender que não há sustentação argumentativa para proceder dessa forma, em cercear a liberdade dos países, isto porque: sabemos que todos os países possuem as suas fronteiras e devem lutar para preservá-las, este é um princípio da soberania. Por esse princípio e pelas leis comerciais, cada país tem um sistema de controle nas alfandegas, mas não há notícias de que algum, das quase duas centenas de países do mundo, tente controlar a exportação ou o tráfico de drogas na fronteira do país alheio. Conscientemente podemos intuir que é muito mais barato para os Estados Unidos, monitorarem as suas fronteiras e deixar em casa os seus soldados, ao invés de espalhá-los pelos oceanos.

É também inacreditável que, com toda a tecnologia bélica que direciona os ataques com altíssima precisão para atingir um alvo a milhares de quilômetros, sem causar vítimas, ou defender com escudos antimíssil impedindo os inimigos de alcançarem os seus objetivos,  os Estados Unidos ainda não possuiria condições de controlar a entrada de drogas em seu país?

Por outro lado, as principais fábricas de armas do mundo se localizam nos Estados Unidos, por que não vigiam a própria fronteira e impedem as exportações delas, sendo que a maioria delas cai na mão dos traficantes?

Enfim, a estratégia do imperialismo é manter as nações latino-americanas submissas e impossibilitadas de estabelecerem relações econômicas e políticas com outras potências do mundo. Evidentemente, esse movimento na atual correlação de forças não volta atrás. A decadência europeia assusta os Estados Unidos, pois, vê nela o seu amanhã. Por outro lado, nessa engenharia política, as próximas décadas apontam para a elevação das desestabilizações dos governos locais e de ocupações territoriais em pontos que o império precisa assaltar as riquezas naturais para sustentar, em algum grau, a concorrência na economia mundial.

As novas gerações terão de reagir ou viverão em sistemas análogos à escravidão do passado, vigiadas por satélites e combatidas antes mesmo de provocarem alguma reação. Os conflitos serão tecnológicos, e lado que estiver mais equipado perderá menos. As reações, porém, não serão coordenadas por partidos e governos pacifistas, negociadores de taxas menores para a exportação de suco de laranja, mas pela fúria libertadora dos povos em luta unificada contra o imperialismo. Bem do jeito que expressou Ernesto Che Guevara, em sua Mensagem aos povos do mundo, em 1967: “Crear dos, tres, muchos Vietnam".

                                                                       Ademar Bogo