Não há como negar que a referência
do termo Democracia, nas últimas décadas, passou a ser utilizado para
justificar as mais estranhas vontades no âmbito da política. Oscilando entre a
representação de grupos que em nome do povo se apoderam das estruturas
governamentais para implementarem políticas sociais como também outras facções
e seitas visam o poder para extraírem do consentimento popular a autorização
para assaltar o país, reduzir os direitos conquistados e garantirem o controle
da ordem por meio da violência e da repressão.
Se ninguém gosta de ser chamado de
impostor, ditador ou usurpador é preciso que se encontrem termos na linguagem
política que confundam as interações civilizatórias, seguidas pelos dois
referenciais dialéticos: amor e temor, do jeito que nos explicou Nicolau
Maquiavel: “É que o amor se mantém por meio de vínculo de dever, e este vínculo
os homens o rompem, levados pela sua índole perversa, sempre que de tal lhes
resulte proveito. Já o temor é mantido por medo ao castigo, e este medo jamais
abandona os indivíduos”.[1]
Essa estrutura estatal patriarcal
sustenta o que podemos considerar na prática da “Democracia substitutiva”, o
comportamento dos homens no recinto dos seus lares, ora servindo-se do
consentimento coletivo para impor as ordens como deveres conjugais e filiais,
ora utilizando-se de ameaças e diferentes formas de violência, para garantir-se
enquanto sujeito da dominação. Por isso, a afetividade e o temor são duas
manifestações psíquicas que contém e expandem as pulsões de acordo com as
situações da convivência.
Esse roteiro civilizatório traçado
segundo os interesses formados nas circunstâncias das disputas conjunturais ou
estruturais, divide as populações formando lados opostos, caracterizados pela
aceitação ou pela repugnância. É nesse particular que residem os estranhamentos
e as confusões conceituais entre aquilo que é certo ou errado. Tal qual ocorre
na família quando uma parte se sente mais segura, quando a autoridade paterna
se impõe com a firmeza suficiente para punir algum dos membros pela desarmonia
comportamental, na esfera política, uma parte da população concorda com a
imposição de medidas punitivas contra a outra parte insubordinada.
Desse
modo, considerando a consonância entre o amor e o temor na interioridade do
poder, não podem existir em qualquer sociedade, regimes democráticos ou totalitários
sem o apoio e o consentimento individual e grupal. Para que isso ocorra é
preciso situar os posicionamentos em torno do acordo ou dos desacordos. O
“concordo” e o “discordo” se impõem pela avaliação sentimental individual,
medidos pelos parâmetros opostos do “gosto” e do “desgosto”. Esses movimentos oscilantes são
operacionalmente produzidos segundo a capacidade substitutiva de cada
oligarquia política.
A
política não é um sentimento puro e natural. Ela precisa “ser feita” com
intencionalidade, energia e determinação. Nesse fazer há diversas obrigações
que poderíamos chamar de funções ou papeis, pois, esses movimentos são
considerados uma arte expressa no cenário político. Nesse teatro há atores e
atrizes principais e coadjuvantes; da mesma forma que há parte das plateias que
se manifestam e, outras, expectadoras sem vontade de manifestarem-se; embora
torça a favor ou contra.
A
Democracia substitutiva intenta a mais renovada maneira de conduzir a política
segundo os interesses de grupos, facções e seitas. Apesar de ainda vigorarem os
partidos políticos, a descaracterização dos mesmos levou a confundir a posição
de classe dos cidadãos que deixaram de ser, na grande maioria, sujeitos da
política, em vista da defesa dos próprios direitos. A análise em geral dos
discursos permite verificar que a corrupção e a violência se tornaram anseios
principais dos candidatos que dão aos termos maior atenção. Com isso deixam
passar sem nenhuma observação, a estrutura da sociedade desigual, a exploração
humana e da natureza e, a decadência total da civilização.
Esses
roteiros eleitorais cujos palanques viram palcos para os candidatos a
representantes apresentarem intenções aos espectadores, que apenas gritam e
batem palmas, servem mais às forças conduzidas pelas classes dominantes, porque,
as verdadeiras contradições não educam as massas para se organizarem e
defenderem os seus próprios interesses.
A
perda do horizonte socialista levou também as forças contrárias ao capitalismo,
esquecerem de todas as lutas pelas conquistas dos direitos sociais foram
desenvolvidas. A perda da visão estratégica de que o socialismo é uma
construção feita dentro do capitalismo, e que precisa aprofundar-se em todas as
dimensões desta sociedade desigual, leva a colocar em risco os próprios avanços
das melhorias sociais.
Quando
qualificamos os aspectos substitutivos da Democracia, não estamos apenas
olhando para os comportamentos das forças políticas de direita, se assim
podemos chamar esses aglomerados que caminham para impor um regime totalitário,
sem identifica-lo com este nome; devemos considerar também as forças contrárias
que esvaziaram o conteúdo da Democracia participativa, e substituíram a
organização de base; a formação política das
massas; a multiplicação de novas lideranças, como também a insurreição
popular e a Revolução socialista, pela cômoda prática virtual de se fazer
conhecer os candidatos e candidatas à distância, como se fossem extra sociais,
de pele lisa, intocáveis e visíveis apenas nas campanhas eleitorais.
Considerando
os avanços tecnológicos no âmbito da produção, os trabalhadores braçais foram
diminuídos, ocasionando à extinção de algumas profissões artesanais. Ao se
deixar de fazer política artesanalmente, as funções de militantes,
coordenadores de núcleos e células partidárias e, as lideranças de bairro ou de
outros locais de trabalho, bem como as formas de campanhas de rua, como as
pichações, as pinturas e as colagens de materiais de propaganda, desapareceram.
Se
substituirmos, o ótimo pelo bom, depois o bom pelo satisfatório e este pelo
regular, saberemos porque o extraordinário desapareceu. Nossos olhos precisam
levantar as pálpebras para enxergarmos mais além dos processos eleitorais. O socialismo
é uma construção feita com superações de relações, elas e não as opiniões devem
ser defendidas para que sirvam de acúmulo para impulsionar as novas vitórias.
Não
existe transformação sem mudanças, como também o contrário é verdadeiro.
Substituir pode ser necessário, mas nunca para adequar-se à ordem estabelecida
pela superestrutura capitalista. As classes trabalhadoras e as massas populares
encantam-se com as vitórias e desencantam-se facilmente com as frustrações,
principalmente aquelas produzidas pela covardia de não querer lutar.
Ademar
Bogo
[1] MAQUIAVÉL, Nicolau. O Príncipe.
Mário e Celestino da Silva(tradução) Brasília, Senado Federal, 2019, p. 101.