domingo, 19 de abril de 2026

SEM TRANSIÇÃO NÃO HÁ TRANSFORMAÇÃO

 

            Sempre que perguntamos sobre um convalescente e a resposta nos alcança com um, “continua na mesma”, duas sensações tomam conta da consciência informada: a primeira situasse na negatividade de que, “pelo menos não piorou” e, a segunda, mesmo que alimentada por uma onda fraca de otimismo, indica que “poderá melhorar”.

            Essa parece ser a situação da conjuntura mundial atormentada pelas guerras localizada, as disputas pelo macro mercado e pela apropriação das riquezas naturais. Quem aparentemente está perdendo, continua sendo império e, o outro lado resistente, pelo simples fato de não se deixar aniquilar, não pode dizer que ganhou porque as consequências negativas, como as sequelas físicas teimam permanecer e incomodar.

            As razões para termos esses supostos “empates” bélicos após um período intenso de combates, se deve a instalação do Estado de barbárie no interior do modo de produção capitalista, no qual, todos os esforços empregados dificultam sair de tal situação. O motivo justificador disso é porque parece faltar uma lei que determina a transformação pela ausência da força de transição. Marx na década de 1850 havia se dado conta que: “Para atingir o seu objetivo, basta provar a necessidade da ordem atual, e, ao mesmo tempo, a necessidade de outra ordem na qual se transformará, inevitavelmente, a primeira, acreditem ou não os seres humanos, tenham ou não consciência da transformação”.[1]

            As necessidades da ordem atual capitalista parecem não ser de difícil compreensão. O capital somente poderá existir se continuar expandindo as suas formas de reprodução e acumulação. Acontece que, diferentemente do período colonial quando de algum modo as riquezas estavam disponíveis, agora, além de serem escassas há muitíssimas pessoas interessas em usufruí-las. Para impor os seus interesses, os capitalistas apelam para o uso da violência como o faz qualquer gangue que dissemina o terror em um território controlado pelos narcotraficantes. A barbárie, portanto, se estabelece quando não há mais nenhuma garantia de ordem, não importa se isso ocorre em um bairro ou em disputas entre países.

            Por outro lado, não se apresenta claramente como deverá ser a outra ordem que prometa levar-nos para além da transição. O Estado capitalista que no período neoliberal parecia ter perdido um pouco de seu potencial invasivo, recuperou, pelos interesses do capital, o seu poder de uso. O enfraquecimento e desaparecimento das formas organizativas da sociedade civil e principalmente das entidades de classe, as disputas passaram a ser em campo aberto e institucional.

            As esperanças já não estão mais depositadas nas conquistas dos direitos, mas  nos regimes políticos se eles se caracterizam como “democracia” ou “ditadura”. A jocosidade é que isso pode mudar de um pleito para outro e pôr abaixo acordos bilaterais para estabelecer outros mais esdrúxulos, sem o mínimo de concordância com a ética.

            Passamos a conviver com a síndrome da perda eleitoral. A decomposição dos planos táticos expressos por meio de ações na cotidianidade, já não permite inserir ninguém nas formas orgânicas de luta e resistência. O comodismo Ocidental cristianizado, levou a formular a crença de que tudo se resolve em uma única batalha; nesse caso, na disputa eleitoral.

            Houve um tempo a partir da Terceira Associação Internacional, em 1919 que as forças de esquerda e revolucionárias, além de combaterem as forças inimigas, combatiam-se entre si; cada uma querendo impor o seu critério de verdade. Facções e tendências reproduziam-se com muita facilidade, o que no fundo faltava era sentimento de unidade. Ultimamente vimos sair de moda essas práticas conflitivas, mas seria porque houve o convencimento de que aquelas disputas eram infantis, ou porque ninguém mais se dedica a pensar a transição estratégica para a conquista de outra ordem política e social?

            Esse jogo institucionalizado entre oposição e situação, indica que haverá alternância das forças políticas nos governos. Essa norma é inerente à lógica das disputas de ganhar e perder. Isso não é ruim. No entanto, ao longo dos anos as populações foram sendo educadas que mudanças políticas funcionam como os fenômenos naturais, como ocorre com El niño que retorna a cada 4 anos, desarruma tudo e depois passa, deixando as pessoas com a sensação de que nada se pode fazer.

            Devemos nos convencer que a política é feita com ideias e ações pensadas e organizadas. Para que os resultados aconteçam é preciso tempo de planejamento e execução. As exigências para diferenciar a política os processos naturais é querer alcançar os resultados programados. Mesmo assim podemos ficar aquém da realização de algo duradouro, então, devemos pensar na transição da ordem atual para a outra ordem futura. Isso não se faz com as disputas eleitorais apenas.

                                                                                                                                                                                                                                   Ademar Bogo

               

    



[1] MARX,  Karl. O mensageiro Europeu O capital, Vol 1. 1996.

sexta-feira, 27 de março de 2026

OS OVOS DA SERPENTE

  

Sigmund Freud em 1930 no nascedouro do nazismo alemão, sem saber o que viria pela frente, faleceu antes, em 1939, quando iniciou a Segunda Guerra Mundial, ele escreveu o belo texto com o título: O futuro de uma ilusão e o Mal-estar da civilização. Antes de chegar a esse título vários outros foram considerados como a “infelicidade” e “desconforto” da civilização. Mas, após discutir as influências da civilização e o poder dos líderes sobre as massas, Freud revelou-se um tanto pessimista com a possibilidade do fim da coerção civilizatória: “A experiência ainda não foi feita. Provavelmente uma certa percentagem da humanidade (devido a uma disposição patológica ou a um excesso de força instintual) permanecerá sempre associal”.[1] Poderíamos dizer, incapaz de viver em sociedade.

Quando tomamos a referência de seres não sociais, ou mais propriamente indiferentes ao sofrimento humano, causado pelo simples interesse de expandir e controlar o poder, vem-nos a imagem o comando do império sanguinário dos Estados Unidos, exibindo-se nos meios de comunicação, como a oferecer cenas de filmes de horrores que os seus autores produzem, à espera de prêmios e aplausos.

É evidente, bem como discorreu Freud, as massas precisam, desejam e querem um líder que unifique as diferentes energias em um único estado de condensação. No entanto, na atualidade civilizatória, os instrumentos induzem uma certa quantidade de pessoas quererem o que os seus líderes querem.

Por outro lado, não conseguimos perceber que o domínio do querer, possuí, pelo menos duas faces. A primeira é a expressão pública exposta com superioridade, para que ninguém ouse contestar. Essa figura se mune de algumas habilidades e expressões cotidianamente repetidas, até que se tornem fixações na memória recente dos seus liderados. A segunda face não é de toda aparente e, por isso, pouco referenciada, mas é muito perigosa, porque ela age nas sombras escondendo todas as emoções e, por isso, tem a liberdade para criar efeitos amedrontadores

O que estamos dizendo é que, quando analisarmos a violência e a destrutividade espalhadas pelo mundo, pelos Estados Unidos da América, não devemos entender que isso seja expressão do poder pessoal de Donald Trump, mal comparando ele é o alto-falante que repercute a voz de outros perversos capitalistas, que se revezam ao microfone como porta-vozes do capital.

A eleição para o segundo mandato daquele presidente adequado à reprodução da carnificina imperialista, veio associada de novas articulações e interesses perversos da direita que estava sendo chocada como os ovos da serpente em situações anteriores. Sem detalhar os nomes que estão por trás dessa figura terminal, há um conjunto de figuras mais jovens que permanecerão por décadas, mesmo que algumas matizes na politica mudem de cor. Fazem parte desse grupo seleto de homicidas, algumas fundações, empoderadas mais do que os partidos políticos; proprietários da indústria armamentista; o capital especulativo; as big Tesch que controlam o sistema de comunicação e informação local e mundial; o Serviço de Informação e Alfândega (ICE) que adquiriu um poder particular para perseguir e deportar imigrantes e, as novas forças a serviço da reedição da Inquisição, que são as  seitas evangélicas.

Dito assim fica mais claro para entender que o projeto de dominação, principalmente sobre a América Latina e Caribe, reestabelecida com operações relâmpagos, com as maldades desferidas todas de uma só vez, devem se dar até o final do segundo ano do mandato do atual presidente. Para esses grupos aparelhadores do imperialismo pouco importa se haverá um terceiro mandato para esse mandatário, importa sim, é que os sistemas de dominação implantados nos pontos de interesses econômicos e simbólicos, sejam duradores.

A confiança é tanta no poderio armamentista que as ameaças não são veladas, mas ditas e registradas por escrito. Mas nem tudo corre como o esperado. A estratégia cirúrgica com resultados rápidos como a que foi usada na Venezuela, deverá ser empregada muito em breve na Colômbia e no Brasil; pouco importando quem esteja no governo, se forças de direta ou de esquerda, importa que fique documentado que certos domínios estarão garantidos por um prazo a se perder de vista. O modelo de controle do petróleo brasileiro é o ideal para implantarem na Venezuela, mas aqui ainda falta dominar os minérios nobres. Para tanto, nem é preciso que uma empresa Norte americana seja proprietária de todas as reservas petrolíferas e minerais, basta que detenham parte considerável do controle acionário, já é suficiente para regularem os preços e canalizarem o produto para a base do império.

O petróleo brasileiro é controlado pelo capital estrangeiro com tamanha expertise que, mesmo a Petrobrás mantendo o controle de 50,26% das ações, é incapaz de enviar um barril do produto em solidariedade a Cuba que, no rol das prioridades de invasão é um país a ser imediatamente atacado, não pelo potencial econômico que possui, mas pela simbologia desobediente que sustenta há mais de 60 anos. Por isso, são de pouca valia os argumentos de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, em dizer que não possui relação com os narcotraficantes, o império atacará propondo o mesmo fim que teve Nicolás Maduro. Da mesma forma pouca importância têm as declarações de Lula afirmando que o Comando Vermelho e o PCC não são terroristas, que o império virá nos atacar dizendo que são.

Na história sempre que houve a exaustão dos poderes dos impérios, também foram momentos propícios para a realização de avanços políticos, o problema é que, nessas situações os inimigos, mesmo decadentes aproveitam para cobrar as dívidas. Sendo assim, agora ouviremos os lamentos e os porquês? Não vem ao caso passar em revista os outros países que deveriam ter equipado melhor as suas defesas, falemos de nós. Qual o poder de resistência de nossas forças armadas que nesse ano de 2026 detém um orçamento de R$ 142 bilhões, e que, em 375 anos de existência, mais serviram para dar golpes e massacrar os levantes populares nacionais do que combater os inimigos colonialistas e imperialistas?

De outro modo, no campo político surgirão outras dívidas e nos perguntaremos: como conseguimos permanecer por tantas décadas sem ter um partido revolucionário capaz de organizar a população para defender os direitos e a soberania nacional? Como pudemos acreditar que todas as conquistas viriam pelas disputas eleitorais, levando os movimentos sociais e forças populares a se tornarem bases passivas do poder institucional? Como pudemos deixar cair tão baixo o nível de consciência da população, que se orienta mais pelas fantasias do que pela concreticidade da política?

Baseemo-nos nas resistências palestina e iraniana. Elas nos mostram que os impérios podem ser derrotados. A estratégia do cerco e aniquilamento contra esses países deu errado. O cálculo de eliminar a liderança maior no primeiro dia de guerra, a espera que a população se levantasse e tomasse o poder, pela tamanha covardia, fez a opiniões se voltarem contra o império. No Irã o poder não está em um aiatolá, mas na cultura persa milenar que sempre viu a guerra com naturalidade política.

Como já afirmamos em outra ocasião, a Terceira Guerra mundial está em andamento, poderá não ser usada nenhuma arma nuclear, talvez a vergonhosa derrota contra o Irã obrigue o império fazer uso de um artefato desse tipo, como o fez no Japão, em 1945, mas ninguém se importará em revidar. Por quê? Mesmo que não esteja ainda escrito, a divisão do mundo está sendo efetivada em três pedaços e, a nós coube a submissão ao slogan: “América para os americanos”. Tudo depende de nós, latino-americanos aceitarmos ou não essa determinação.

                                                                       Ademar Bogo



[1] FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos, Vol. 21, p. 06

domingo, 15 de março de 2026

AS DESFAÇATEZES DOS IMPÉRIOS

                                          

            No século XIX o Império da Grã-Bretanha transportava o ópio da Índia e o vendia na China, transformando aquela droga em um grande negócio, principalmente porque o tráfico facilitava ter acesso aos minérios chineses. Em 1839, o imperador da dinastia Qing, proibiu a entrada desse produto, o que resultou em uma guerra de quatro anos. Entre os anos de 1839-1842, desencadeou-se um acirrado conflito que culminou no “Tratado de Nanquim”, do qual consta a obrigatoriedade da abertura do porto de Hon Kong para quaisquer produtos circularem livremente.

            Em 14 de julho de 1853, Karl Marx escreveu e publicou em um jornal dos Estados Unidos da América, uma matéria com o título: “A revolução na China e na Europa”. Iniciou considerando a unidade e luta dos contrários, fazendo menção ao princípio de que os “polos opostos se atraem” e, na sequência destacou que: “Pode parecer muito estranho e paradoxal afirmar que o próximo levantamento dos povos europeus em favor da liberdade republicana dependerá provavelmente mais do que se passa no Celeste Império – no polo oposto da Europa”. Ou seja, as contradições com a China causariam tremores na Europa e, obrigaria a  população a se revoltar.

            As coisas não ocorreram tão linearmente conforme essa previsão, primeiro porque os europeus haviam se revoltado e estavam concluindo a realização das Revoluções Liberais, que implantou verdadeiramente o liberalismo no mundo Ocidental, naquele período. Por isso, a segunda guerra da Grã-Bretanha e a França contra a China, se deu entre 1856-1860, quando houve a obrigatoriedade da legalização do ópio, oficializado pela Convenção de Pequim.

            O ópio é uma droga extraída da papoula com diferentes potencialidades, elas vão desde a produção de analgésicos até a droga conhecida pelo nome de heroína, produzida na atualidade legalmente na Austrália, França, Turquia e Espanha, para fins medicinais e, ilegalmente, principalmente o Afeganistão que trafica o produto como droga.

            Para Marx, as revoltas em andamento na china tinham a sua causa principal nos interesses europeus, nisso reside a importância da análise da categoria dos “polos” posta no início do artigo, para entender que o princípio dialético da unidade e luta dos contrários, obrigatoriamente leva aos enfrentamentos decisivos, quando as contradições chegam às necessárias superações.

            Situação semelhante ocorreu com o imperialismo norte-americano. No final da década de 1970 quando os blocos econômicos passaram ser uma saída vantajosa para implantar o modelo do neoliberalismo, paralelamente aos acordos entre os países, apesar de, nas américas, somente o bloco do NAFTA firmando pelos Estados Unidos, México e Canadá foi assinado no ano de 1994. Nos demais países permaneceu o mesmo modus operandi, baseado na Doutrina Monroe de 1823, da “América para os americanos”.  

            A vigilância aparentemente displicente dos Estados Unidos sobre os países latino-americanos, após as aberturas políticas na década de 1980, levou as forças progressistas a crerem que, por exemplo, a soberania nacional seria um princípio fundamental que impediria as intervenções e ingerências. No entanto, as imposições passaram a ser construídas de diversas maneiras, impostas ou acordadas, como foi o caso do Consenso de Washington em 1989, que aprovou de comum acordo entre os governos, os dez princípios implementadores do neoliberalismo, dentre eles consta o controle dos gastos públicos, a liberalização das taxas de juro e a segurança jurídica. De repente as taxas elevadas de inflação foram controladas; no Brasil tudo iniciou com o Plano Real de 1994; as dívidas externas começaram a ser negociadas com os credores estrangeiros; as eleições livres, porém em dois turnos, apontavam, para quem viveu a perseguição totalitária das ditaduras militares, para um grande avanço civilizatório.

            Paralelamente ao Consenso de Washington, outras diretrizes foram produzidas e com certa facilidade todos tivemos acesso, aos famigerados Documentos de Santa Fé (I e II), nestes continham os alertas dos perigos políticos existentes na América Latina que precisariam ser combatidos, dentre eles e, mais específicamente: A teologia da libertação por ter influencia marxista; o narcotráfico e o combate ao estatismo sob a influência da União Soviética.

            Passadas mais de três décadas, o balanço é desanimador. Em primeiro lugar a Teologia da Libertação foi totalmente desmantelada e as Comunidades Eclesiais de Base - CEBs – que haviam demonstrado a sua eficiência orgânica na Revolução nicaraguense de 1979, foram enfraquecidas e substituídas pelos Movimentos de Renovação Carismática e, por meio das religiões evangélicas, foram criadas as seitas pentecostais. Na política, o enveredamento das esquerdas para dentro da institucionalidade, levou a desprezar o radicalismo armado e as medidas neoliberais, com algum acento nas políticas sociais. Restou sem solução e em pleno crescimento, o narcotráfico.

            Por que das três prioridades apenas uma não foi possível resolvê-la? Pelo mesmo motivo que a Grã-Bretanha negociava o ópio na China. Se observarmos o assunto em quaisquer estudos, os Estados Unidos são os maiores consumidores de drogas do Planeta. Interessa ao império esse mercado que é alimentado com armas e, por meio do narcotráfico torna-se possível promover a ingerência política nos países inibindo a organização popular.

            No início de 2026, os Estados Unidos invadiram a Venezuela e sequestram o presidente Nicolas Maduro e a Deputada, Cilia Flores, com a desculpa de que estaria buscando prender os narcotraficantes. Por que isso foi possível? Pelo simples fato que na sede do império aprovaram-se leis de Jurisdição Extraterritorial, elas permitem prender pessoas fora do país e leva-las a julgamento nas cortes Norte-americanas.

            Está escancaradamente expresso que o narcotráfico não é um problema para os Estados Unidos, muito pelo contrário, ele é um benefício para a indústria de armas, ao capital destrutivo que busca saquear as riquezas, como o petróleo e os minérios nobres, escassos naquele país. O Brasil está na mira, ou cede as riquezas naturais pretendidas ou a desculpa de combater o Comando Vermelho e o PCC fará com que as forças armadas norte-americanas se desloquem para dentro do nosso território e tomem à força os bens que lhes interessa.

            Como bem alertou Marx no artigo supracitado, sobre a possibilidade de revoltas, “(...) ninguém duvida que o seu motor são os canhões ingleses, que impõem à China a droga soporífera chamada ópio”. Esse fenômeno poderá acontecer nos diversos países perseguidos, como também no interior dos Estados Unidos.

            Diante de tudo isso, apesar das acusações do império serem mentirosas, as suas ameaças são verdadeiras. Por outro lado, não nos espantemos se, após terem alcançado os seus objetivos econômicos, os Estados Unidos promovam a legalização das drogas e, passem a controlar com as suas empresas, as exportações desse rentável produto. Portanto, os métodos de intervenção dos impérios sobre as colônias, tanto os do passado como os do presente, continuam os mesmos, cabe a nós aceitá-los ou não.

                                                                                   Ademar Bogo

 

domingo, 1 de março de 2026

A UNIDADE INTERNACIONAL É A PRINCIPAL ARMA

 

Embora a cibernética tenha se tornado um fenômeno diferenciado de uso militar desde a Segunda Guerra Mundial, a dependência da tecnologia, incluindo a inteligência artificial, nunca foi tão profunda quanto agora que, para qualquer movimento que se faça, as exigências remetem a ter de entrar em sistemas virtuais e digitais e, lá, manejar as coordenadas submetendo-se aos programas que indicarão o que e como fazer.

Ontologicamente podemos dizer que depois da mecânica que permitiu ao corpo humano  ampliar a sua força física pelo uso de máquinas fabricadas para carregar peso, mais do que o corpo humano suportava, a cibernética é a engenharia mais completa de associação entre o homem e os instrumentos inteligentes.

É evidente que precisamos admitir, sem sermos fundamentalistas, que a ciência e a tecnologia se prestam a qualquer tipo de solicitação, tanto para o bem quanto para o mal. Provavelmente a indústria bélica lidera a corrida das inovações. O desejo dos promotores das guerras é que elas tenham cada vez menos a participação de grandes contingentes de tropas humanas e sejam de curta duração.

É nesse ponto que já não se pode diferenciar tão nitidamente o que é uma guerra declarada e o terrorismo de Estado, que elege, monitora e persegue alvos com total precisão. Por meio do uso de sensores, os mantém à distância durante horas, dias e meses na mira até o momento que decidem se atacam ou não, eliminando o inimigo, como acontece em um jogo eletrônico no qual as crianças se distraem explodindo os alvos indesejados.

No ano de 2026 já tivemos duas demonstrações do poder tecnológico do imperialismo dos Estados Unidos. A primeira ocorreu na Venezuela quando, em uma ação de uma hora e trinta minutos, o presidente da República e sua esposa foram sequestrados como se estivessem passeando vulneravelmente em uma praça. A segunda é recente e aconteceu a menos de dois meses depois, em 28 de fevereiro, quando o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, apesar de todas as proteções e precauções, foi morto com artefatos disparados à distância.

Aparentemente essas demonstrações querem revelar que a capacidade militar dos Estados Unidos tornou-se imbatível e ninguém escapa às suas intervenções cirúrgicas. Não há como negar o uso inteligente da tecnologia que, associada à decisão política, leva a produzir resultados pontuais que favorecem o domínio imperial. No entanto, isso é possível devido a apatia mundial. A legitimidade das ações criminosas praticadas pelo imperialismo, está se dando pela falta de autoridade dos organismos internacionais que nada faz além de reuniões para dizer que desaprova tais atitudes; tudo isso depois que os crimes foram praticados.

Por outro lado, em muito colabora para que a sequência de crimes contra as nações continue, a postura das forças políticas, sindicais e populares locais. Está se tornando hábito apoiar as vítimas dos atentados praticados pelo terrorismo político do imperialismo, fazer notas de repúdio que certamente quem as lê são as pessoas das próprias fileiras das mesmas entidades.

O enfraquecimento das resistências e das posições ofensivas, não vêm da falta de domínio cibernético, mas do abandono do uso das soluções mais simples que todas as culturas milenarmente utilizam; são as ações físicas praticadas pelas organizações das populações em luta. Houve épocas em que os tanques de guerra eram temidos e quem os tivesse em maior quantidade detinha a supremacia nas invasões. Mas a espontaneidade das pessoas, ao perceberem que eles deveriam passar pelas mesmas ruas por onde os carros transitavam, toda potencialidade daquela máquina, poderia ser destruída e anulada por um coquetel Molotov, uma simples arma caseira feita com uma garrafa de vidro.

Quando a superioridade das forças contrárias se torna inalcançável, a história ensina que é preciso apelar para o convencional. Embora o imperialismo tenha a sua sede nos Estados Unidos e geralmente não sofra nenhum prejuízo, os seus interesses e investimentos estão espalhados pelo mundo. Por isso, se trata de dar um passo a frente e eleger aquele país como inimigo da humanidade e ser combatido conjuntamente e ao mesmo tempo em todas as partes do mundo.

É preciso combater a ideia de que as guerras são bilaterais porque ocorrem entre dois países apenas e, por isso, os demais países nada tem a ver com o conflito. Os ataques podem ser particulares, mas os interesses são universais; portanto, não há necessidade de que um incêndio queime toda uma floresta para ser classificado como incêndio. Quando são estabelecidas as tarifas comuns dos produtos de exportação para todos os países é ou não é uma declaração de guerra comercial universal? Qual é a resposta dada? Apenas negociar para continuar subservientes ao mesmo império ou impedir que ele tenha acesso a todos os produtos? No dia em que os habitantes dos Estados Unidos forem aos supermercados e não encontrarem os produtos de primeira necessidade, como ocorre em Cuba, com a falta de alimentos, combustível e remédios, imposto pelo bloqueio econômico, deverão derrubar o seu próprio governo e lutarão para que aquele Estado jamais venha oprimir ninguém.   

No passado tínhamos as Associações Internacionais que, por divergências no campo da própria esquerda, foram aniquilando-se e uma a uma perderam a finalidade. Se não como entidade, mas, pelo menos como articulação de forças continentais e universais, é preciso unificar as reações para evitar que as ações do imperialismo se tornem normalidades na política.

                                               Ademar Bogo

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O BUROCRATISMO BRILHOSO


As reações mais veementes contra o burocratismo na América Latina e Caribe, encontramos expressas nas palavras em diferentes textos, escritos por Ernesto Che Guevara. Em 1962, quando falou para a juventude, sobre o tema: “O que deve ser um jovem comunista”, desafiou a criatividade: “Um jovem tem de criar. Uma juventude que não cria é, realmente uma anomalia”.[1] Em 1963, discorreu abertamente contra o burocratismo: “Devido ao peso dos “pecados originais” existentes nos antigos aparatos administrativos e a situações criadas depois do triunfo da revolução, o mal do burocratismo começou a se desenvolver com força”.[2]

Ao tomarmos como referência a categoria da “anomalia”, vemos que o anômalo não é um sujeito que se desviou da linha correta da política, senão que, ignorou a linha revolucionária e a própria estrutura que permitiria a politização. Por isso, aqui, devemos entender a anomalia como despolitização e alienação das massas do processo de transformação de uma sociedade.

A outra expressão categórica encaixa-se no âmbito do “pecado original”, que é próprio dos aparatos administrativos, e aí nasce a luta do mal contra o bem, no sentido de que, o primeiro representa uma doença que levará à enfermidade da causa revolucionária, movida apenas pela alegria da apresentação de resultados. É o resultado das enquetes que consolam os burocratas quando se põem a comparar os dados. Um ponto a mais na avaliação regular já é motivo de festejos e de infinitos comentários nas redes sociais, as quais carregam a euforia do encantamento porque as políticas liberais estão “dando certo”.

Evidentemente, Che Guevara não estava contestando a importância da eficiência administrativa de todas as instituições, no entanto, elas deveriam estar a serviço da estratégia política e não ao contrário, como fazem as forças burocráticas progressistas, cada vez menos original e cada vez com mais pecados, para ficarmos na metáfora posta acima.

Estamos no ano de 2026, o primeiro depois do encerramento do primeiro quarto do século XXI. Ou seja, só faltam três quartos para que o século se encerre. Pela indicação da vontade dos burocratas, o segundo quarto que se encerra em 2050, repetirá o passo lento do primeiro. Nada de criatividade e nem de incentivo para que a juventude saia do comodismo apático e individualista dos “pés-de-meia”, e volte a calçar as botinas das ações.

Para a elite progressistas que chegou ao governo, o Estado tornou-se o maior aliado para forjar as medidas conciliatórias que evita os enfrentamentos de rua e a tomada do capital para, de fato, dar os primeiros passos na construção do processo político revolucionário. O Estado traz consigo a simbologia da ordem conformista da conciliação. É a política do “ganha-ganha”. Para os adeptos dessa tese, os ricos ganham porque o capital atua com total segurança alimentando-se da mais-valia, dos juros elevados e dos subsídios estatais; os pobres também ganham, porque, graças ao badalado crescimento econômico, não falta dinheiro para as diversas bolsas alimentícias e, o governo ganha porque, mantém-se na sucessão dos mandatos.

A faceta simbólica do contentamento, com o andamento da burocratização política, pode ser vista, nas luzes e cores brilhosas do carnaval. Com o pretexto de que o “carnaval é uma festa popular”, as homenagens, nas luxuosas Escolas de Samba levam a confundir, capacidade com popularidade. Não percebem os timoneiros das derrotas futuras que o carnaval das elites funciona com fantasias e alegorias, e que, o carnaval das massas é brincado no trabalho e de cara limpa, sem máscaras.

O ano promete ser promissor para o processo eleitoral. Por isso os anseios começaram a buscar votos bem no início do processo sem lutas e sem conflitos. As poucas reações vindas dos povos indígenas, são abafadas e atropeladas com os holofotes dos festejos carnavalescos.

Che Guevara havia se dado conta muito cedo que o burocratismo é mais do que comodismo político, é uma onda ofensiva que arrasta todas as resistências para dentro de si e, com boa ou má vontade, todos são obrigados a dançar as mesmas músicas e suportar a poluição sonora e visual.

O burocratismo brilhoso pode ser o último degrau do ilusionismo daquilo que antes entendia-se como política de esquerda. Neste campo, os reis são coroados nos desfiles das Escolas de Samba e ilusionam que, esses holofotes se convertem em consciência e base política. O filósofo Leandro Konder costumava contar essa anedota, que numa ocasião do século passado, um russo teve a oportunidade de participar do carnaval brasileiro e vibrou com a desordem temporária, imaginando que havia iniciado a insurreição pela tomada do poder. Parece que a história se repete e, de anedotas a anedotas, vemos a política cada vez mais sufocada pelo burocratismo administrativo. Os dirigentes políticos como vagalumes, iluminam as barrigas e movimentam mais as nádegas do que a cabeça.

Enganados com a força do carnaval, enganam a si mesmos que os brilhos e os batuques já anunciam a nova aurora, ela virá no despertar do sono, como um pesadelo a confirmar as ruínas dos desejos burocráticos. Tomará que sobre elas possamos desfilar conscientemente rumo à verdadeira comemoração da superação do capitalismo.

                                                           Ademar Bogo   



[1] GUEVARA, Che. Textos revolucionários. FON, Aton (Trad) São Paulo: Global, 1986, p. 53

[2] GUEVARA, Che. Política. São Paulo: Expressão Popular, 2011, p. 227.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

FEMINICÍDIO: A FACE MASCULINA DO CAPITALISMO

 

            Muito já foi e ainda será dito sobre o feminicídio. As preocupações com o assunto vêm aumentando. Em 16 de agosto de 2023, por iniciativa do poder executivo brasileiro foi lançado o “Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios”, fortalecido depois pelo Decreto nº 11.640/2023. O objetivo deste era antecipar-se e prevenir as discriminações misóginas e, investir o poder judiciário de poder para combater a violência de gênero contra mulheres, jovens e adolescentes. No início deste mês de fevereiro de 2026, o governo retomou o assunto e, como o lema: “Todos por todas”, o “pacto” foi recolocado para acelerar o cumprimento das medidas protetivas e punir os agressores; isto porque, segundo dados do Ministério da Justiça, considerando apenas os registros oficiais, são assassinadas 4 mulheres por dia no Brasil.

            Os dados revelam números que de início assustam, depois vão sendo assimilados como tem acontecido todos os dias, com a matança de jovens pretos e pobres pelas polícias militares, com destaque para os Estados do Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo. Mais grave ainda que a prática do feminicídio, são as intenções ocultas que espantam. Um dado tirado de uma das principais Big Techs do mundo, revelam que, no ano de 2025 foram feitas 163 milhões de consultas sobre o tema: “Como matar uma mulher sem deixar vestígios”.

            Os políticos e as autoridades diante desses dados, aproveitam para convencer a população de que é preciso dar mais poder para o Estado agir e punir com rigor os praticantes da violência. No entanto, pouco ou quase nada é feito para atacar as causas estruturais dela, que no capitalismo têm se agravado pela própria dinâmica do liberalismo.

            Pela análise marxista podemos facilmente detectar algumas das causas do feminicídio, basta consultar rapidamente o “Manifesto do Partido Comunista” escrito por Marx e Engels é lá encontraremos a primeira indicação de que: “O homem burguês tem em sua mulher um mero instrumento de produção”.[1] Portanto, a serventia desse “instrumento” depende do interesse de cada utilizador, pobre ou rico. Mas por que esse “uso” está cada vez mais agravado?

            Para que não pareça uma análise de indução marxista, recorremos primeiramente ao sociólogo alemão, Max Weber. Podemos encontrar em sua obra, “Economia e Sociedade” (2012), os princípios estruturais pré-burocráticos de dominação no estabelecimento do binômio por ele denominado de “patriarcal” e “patrimonial”. Em relação ao primeiro, o germe do poder masculino encontra-se na autoridade do “chefe da comunidade doméstica”. “A posição autoritária pessoal deste tem em comum com a dominação burocrática, que está a serviço de finalidades objetivas, a continuidade de sua existência, o “caráter cotidiano”.[2] Ao indivíduo submetido, cabe acatar as normas burocráticas, racionalmente criadas que, se fundamentam sobre a tradição e na inviolabilidade cultural anterior. Nesse sentido, a aceitação da submissão ao “senhor” é quem garante a legitimidade das normas e do poder do dominador.

            Por outro lado, segue argumentado o mesmo autor, que o poder paterno e a piedade filial, inicialmente não se baseiam em vínculos de sangue. “A primitiva concepção patriarcal trata... das relações entre procriação e nascimento – o poder doméstico sob o aspecto da propriedade...”.[3] O fenômeno social de estruturação da família vinculada estreitamente com a propriedade privada das pessoas escravizadas ou não, tornou-se em todas as épocas o fator determinante para enquadrar os indivíduos à estrutura moral e cultural.

É na família, instituída pelo casamento monogâmico que a mulher, em lares ricos e pobres, é vista, jurídica e religiosamente como propriedade privada do homem. É com essa base psicológica que o feminicídio, para o pesquisador de como “matar uma mulher sem deixar rastro”, e o praticante real do ato, tendem a caracterizar como sendo, “um conflito conjugal particular”, um “crime passional” ou, como era antes, “a defesa da honra”.

 Diante dessa interpretação, não estaria nos dizendo Weber que, os crimes de feminicídio, cometidos por ciúme ou mesmo por vingança do homem contra a mulher, antes de tudo, estão enraizados na ideia de que a mulher continua sendo, como qualquer objeto, propriedade privada do homem? Se assim o é, o marido não aceitando “perdê-la”, nem tampouco vê-la feliz com a realização de um novo casamento, sente-se no direito de eliminá-la.

            Embora toda essa explicação tenha fundamentos coesos, a pergunta a ser respondida é: porque o número de feminicídios está aumentando? Os mais condescendentes responderão que os crimes não estão aumentando, são os fatos que estão sendo mais divulgados. Se concordamos, estaremos ignorando que, é próprio da decadência do capitalismo promover a barbárie social. Com isso, a visão rasa dos pacifistas defensores da democracia no capitalismo, perde espaço para a violência destrutiva do liberalismo masculino patriarcal em crise. Por isso, não vemos coletivos de mulheres cometendo crimes, como por exemplo, matando cães a pauladas.

            Está na hora de apelar e compreender o psiquismo comportamental. O falocentrismo, presente na natureza masculina na primeira infância, veio antes do patriarcalismo e do escravismo patrimonial. A conquista dos direitos sociais pelas mulheres; a diminuição da quantidade de filhos; a conquista da renda própria que dá a elas a condição de se manterem por conta própria, cumpre a mesma função do medo da castração descrita por Freud no complexo de Édipo, quando o filho é convencido que a mãe não é a sua esposa e o pai não é o seu rival. Nessa fase: “O menino encara a mãe como sua propriedade, mas um dia descobre que ela transferiu o amor e sua solicitude para um recém-chegado”.[4]

            Decididamente são outras as questões que precisamos discutir. Elas vão muito além de qualquer pacto que repete os mesmos desvios de outros anseios pretendidos, sem ferir o capitalismo. O burocratismo político, sempre que surge um problema social, recorre à solução das leis. Sabemos que não é o aumento de leis que controla os crimes, mas o controle das pulsões de morte existentes na supremacia da masculinidade cultural. Estando o poder do falo ameaçado, a tendência é que cada vez mais, os homens se revoltem e busquem na força a defesa da indefensável derrocada do patriarcalismo.

            As relações pessoais não mudam pelo enrijecimento das leis nem pelos aconselhamentos morais, mas juntamente com as relações sociais e de produção, ocupação e função social das pessoas. Quanto maior a ignorância sobre esse movimento, maiores serão as manifestações de resistência e de violência nas sociedades decadentes do capitalismo. A solução é superar este modo de produção e avançar rumo ao socialismo, no qual teremos espaço, tempo e liberdade para superarmos as velhas e mofadas contradições.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] MARX e ENGELS. Manifesto do Partido comunista. São Paulo: Global, 1984, p. 33.

[2] WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília, UNB, 2012, Vol. 2, p. 234.

[3] Idem. p. 34.

[4] FREUD, Sigmund. A dissolução do complexo de Édipo (1924). In. obras completas, Vol. XIX. Rio de Janeiro: mago, 2006.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A ERA DAS FALÊNCIAS


A Organização da Nações Unidas – ONU – divulgou em janeiro de 2026 um relatório que chama a atenção para a “falência hídrica”. Aos poucos a humanidade se convence que o capitalismo é um sistema adoentado. Basta um simples Rio-X para detectar um novo transtorno ou enfermidade incurável.

A falência é uma declaração de insolvência, feita por uma autoridade jurídica, pois o montante das dívidas é maior do que a capacidade de pagamento de alguém. Em relação a água não se trata de um processo judicial, mas a própria natureza anuncia que o uso cotidiano dela supera a capacidade da recuperação dos reservatórios, fazendo com que os lagos diminuam de tamanho, os rios sequem e os aquíferos guardados como precaução da própria Terra, além de estarem com seus níveis de reserva cada vez mais baixos, em muitos lugares, os solos afundam devido o vazio deixado pela retirada exagerada da água do subsolo.

Essa falência hídrica como todas as outras: ecológica, climática e preservação da biodiversidade dentre outras, provavelmente passará como o virar de página em busca de um novo assunto exposto em forma de matéria na sequência da leitura do jornal, com conteúdos voltados para as guerras, a violência, a poluição ambiental, a disputa pelos minérios mundiais, a manutenção ou não de uma moeda única para regular as trocas de mercadorias no mercado mundial, a taxa de juros elevado, a que ou a alta das bolsas de valores etc.

No cotidiano as pessoas não se dão conta de que o mundo mudou rapidamente, mas elas continuam preocupadas em buscar soluções para os seus problemas individuais. Ocorre que, com a falta da d´água não se brinca. Embora seja um elemento natural transformado em matéria prima, a água geralmente é esquecida como elemento fundamental partícipe do aumento da produtividade na agropecuária. Estudos apontam que, de toda água utiliza pelos seres humanos, 70% dela é gasta na agricultura. Para chegar à produção de uma arroba de carne bovina, exportada com grande euforia pelo agronegócio, considerando toda a cadeia alimentar, são necessários 225 mil litros de água doce; com suínos gasta-se um pouco menos, mas chega a 75 mil litros por arroba.

Quando estudamos os dados da superexploração ambiental, começamos a perceber porque, as reservas hídricas não conseguem recompor a parte da água retirada, espantosamente sem estudos e sem controles. Os governantes querem que a economia cresça para gerar emprego e, com isso, divulgarem cifras estatísticas refletindo a boa administração. Do mesmo lado, os capitalistas exigem menos cobranças de impostos e mais subsídios para transformarem os bens da natureza em mercadorias, nada dando em troca para a sociedade e para o meio ambiente.

Diante das falências naturais, as guerras, ameaças e chantagens serão problemas contínuos por causa do controle da água cada vez mais escassa. Estima-se que em 2050 a humanidade contabilizará 9,7 bilhões de pessoas, isso significa quase 30% a mais de água e de alimentos para o consumo. Embora as tecnologias possam facilitar muitas coisas elas não poderão corrigir a composição do corpo humano, composto de 70% de água, esta precisa ser reposta todos os dias para evitar desidratação e doenças renais.

Diante do tema das falências podemos ampliar as discussões baseadas na própria leitura da realidade feita pelos olhares atentos que se defrontam com córregos, rios e lagos extintos pela ação irregular dos homens. A propriedade privada tem servido de escudo para que cada indivíduo, “diante do que é seu”, se dê o direito de criar riscos de morte para toda a biodiversidade.

Cada vez mais torna-se importante pensar na superação do capitalismo, para que, mudando o sistema mudar-se também todas as relações. Nesse momento de transição do poder unipolar dos Estados Unidos, para o multipolar cooperado, nascido da articulação dos países emergentes do Sul Global, como a Rússia, a China, a índia e os mais de 40 países que compõe o Brics, com um Banco mundial de financiamento e, em breve com uma moeda própria, é animador, mas não o suficiente; se não considerarmos que é preciso mudar as relações sociais, de produção e com a natureza, isto porque, aquilo que foi denominado de “sustentabilidade” tornou-se insustentável e não há retorno dentro dos modelos em vigor.

Diante disso, tal qual é a cobrança da urgência de enfrentar a falência hídrica, precisamos atacar as demais falências organizativas, que conduziram as utopias das mudanças sociais para dentro das estruturas governamentais e as asfixiaram. A falência das forças de esquerda veio pelo abandono dos princípios revolucionários e com isso a defesa da ordem capitalista travestida de democracia, tornou-se uma tarefa vergonhosamente cotidiana.

As pautas particulares continuam sendo importante, no entanto, elas precisam incorporar os anseios universais. É importante conquistar a terra, mas é preciso defender a água e toda a natureza. As transformações estruturais exigem urgência, por isso as mobilizações locais precisam tornarem-se insurreições nacionais e internacionais. Reivindicar não basta, é preciso apropria-se das coisas e do poder, para deixar de pensar que os outros farão por nós.

A força principal das mudanças continua estando no número de pessoas organizadas. É preciso salvar a Terra do capital. Fazendo isto, poremos fim ao processo de exploração da força humana e das forças da natureza. Os capitalistas não entendem essa linguagem e nem farão por nós. A cada dia apresentam a descoberta de um aspecto vital ou a existência de um novo Planeta. Eles confiam que podem mudarem-se para lá. Nós não temos para onde ir, por isso precisamos enfrentar os destruidores do mundo com planos de ações comuns.

Se ninguém esperar pelos outros para começar as investidas contra o capital, muitos passos serão dados ao mesmo tempo e, ao se cruzarem uns com os outros, formaremos a grande marcha rumo à insurreição popular.

Terminamos com a mensagem do líder da insurreição vietnamita, quando convocou para “O fim da saída pacífica” em 1946. Pediu para os  compatriotas se colocassem de pé, fossem eles homens  e mulheres, jovens e velhos, sem distinção de credo, de partido, de nacionalidade: “Entrem na luta com todos os meios disponíveis. Que aquele que tem um fuzil, utilize seu fuzil, que aquele que tem uma espada, utilize a sua espada. Se não tiver espada, que tome picaretas e porretes! Que todos empenhem todas as suas forças para combater o colonialismo, para salvar a pátria”.[1] Nós dizemos, para salvar a Terra.

                                                           Ademar Bogo

                                                                                  

 



[1] ALVAREZ, Maria Elena e FERNANDES, Florestan. Ho Chi Minh: Política. São Paulo: Ática, 1984.