domingo, 3 de maio de 2026

A CERCA DE BAMBU

 

            Toda vez que nos espantamos com algum fato, principalmente acontecido na política, desconhecemos que nada acontece repentinamente sem antes ter sido projetado, preparado e realizado com a ativa participação de determinadas forças e, com a indiferença que soa como autorização das outras forças inativas.

            O filósofo francês Etienne Balibar ao escrever sobre a alienação destacou que: “A alienação é obra do próprio homem: ela não se distingue do processo de sua atividade. Criando objetos, ou seja, expressando-se, realizando a si mesmo, o homem cria o instrumento de sua própria despossessão. É a atividade humana que é pervertida, alienada – alienante, e por conseguinte a alienação aparece primeiro ao homem como uma fatalidade natural”.[1]

            A desenvoltura dessa posição do autor é antecipada pela reminiscência do pensamento de Feuerbach, quando criticou a religião em 1841, em seu livro, A essência do cristianismo e, lá, intolerantemente revelou as bases da alienação religiosa. Balibar se serve disso para dizer que: “Deus criado pelo homem torna-se criador do homem, e se atribui sob forma de perfeições os atributos do homem. Por causa disso o homem é apenas a coisa de Deus: sua liberdade é aí perdida”.

            Longe de querer entrarmos em debate sobre a questão religiosa, devido ao pouco espaço desta escrita, não permitiria sustentar quando as seitas impõem, não apenas o conteúdo das crenças, como também os valores monetários para propagá-lo e praticá-lo. O que queremos é servir-nos da metáfora para aplicá-la na política e mostrar que em um determinado estágio da luta de classes, quando os processos se esgotam, o conteúdo das consciências em geral se modifica e passa a defender que as pessoas são filhas da mesma coisa.

            Para facilitar o entendimento da alienação, no lugar de Deus, disposto no parágrafo acima, coloquemos o Estado e logo perceberemos que o direito, o cidadão, o político, o eleitor etc., são coisas da criação do Estado. Mas quem criou o Estado que veio a criar essa diversidade de coisas? Os burgueses que passaram a atribuir a toda superestrutura a responsabilidade de manter a ordem social.

            De qualquer modo não escapamos de relacionar a alienação com a religião e a política. Na medida que o homem criou Deus na visão de Ludwig Feuerbach, para que a divindade atribuísse as suas características aos mesmos seres que o criaram, a criação do Estado visou os mesmos resultados. Para os burgueses, mais do que a igualdade da razão, como ensinava Kant, eles, como orientou Georg Hegel, queriam uma instituição capaz de reconhecê-los como proprietários legalmente livres para realizar os seus interesses.

            Se quisermos identificar uma diferença primeira, os burgueses ao contrário dos trabalhadores quando criaram o Estado nunca mais se alienaram dele. Ou seja, sempre souberam a sua função e como devem utilizá-lo para manterem a ordem dominante sobre os cidadãos obedientes e dominados.

            Quando voltamos à teoria revolucionária escrita desde a metade do século dezenove, não encontramos nenhum elogio ao Estado, muito pelo contrário, todas suas características são infernais que nenhum homem gostaria que a divindade lhe repassasse aquelas qualidades. Mas eis então que nos deparamos na atualidade com essa profissão de Fé ameaçando pôr abaixo o fantasioso mundo da liberdade criado na cabeça dos trabalhadores.

            Por que passamos a divinizar a criatura perversa criada pelos burgueses, que nos criou como cidadãos democratas e cumpridores das leis? Pelo fato de atribuirmos a ele a responsabilidade de nos levar ao mundo da felicidade, onde haveria comida e acesso aos bens de consumo para todos. Nesse sentido, ao invés de detratar o governo que aplica as Leis do Estado, passamos a elogiá-lo porque ele também nos elogia. No entanto, como criadores de um governo que nos criou como bolsistas, candidatos a subir no elevador do bem-estar, nos afastamos e alienamos da luta, isto porque, o nosso criador nos passou a ilusão que, para sermos o que somos precisamos apenas continuar fiéis para garantir a sua eternidade pelo voto. Com isso foi embora a consciência crítica, as capacidades organizativas, as metodologias dos cursos de formação de liderança, a prática das reuniões de núcleos, as mobilizações para ampliar e assegurar os direitos e a própria perspectiva de tomarmos, verdadeiramente o poder do Estado e transformá-lo, para que deixe de ser um instrumento de dominação de classe.

            Portanto, alienados das demais criaturas, assistimos as forças burguesas que criaram o Estado, aprovarem leis no parlamento que amenizam as penas dos criminosos políticos e, reprovarem as indicações e os vetos do poder  Executivo, ameaçando com novos golpes se o governo não satisfizer as suas vontades que, acima de tudo, é entregar o restante das riquezas naturais aos Estados Unidos.

            Podemos concluir. Em sociedades alienadas o poder político não é eterno. A obrigatoriedade em defender a democracia contra as posições totalitárias, serve também para garantir que as forças contrárias se organizem e disputem os mesmos espaços temporariamente ocupados pelos democratas que, em caso de demorar a se realizar o retorno ao poder, promovem golpes de Estado ou chamam o poder imperial para fazer invasões, sequestrar e matar os governantes como fizeram na Venezuela e no Irã.

            Portanto, a lição histórica nos ensina que, com pessoas alienadas não se faz política, apenas se disputa eleições andando sobre o fio da navalha. Política se faz com pessoas conscientes, mas para isso, voltando à metáfora, agora com um estímulo dialético, precisamos de criadores que criem as criaturas e, partidariamente não as deixe alienarem-se. A tática do voto, isoladamente, representa uma cerca de bambu diante de um tanque de guerra. Vamos continuar nos escondendo atrás dela?

                                                                                               Ademar Bogo



[1] BALIBAR, Etienne. caderno cemarx, nº 7 – 2014, p. 233. In. BALIBAR/Étienne%20Balibar%20-%20As%20Ideologias%20pseudomarxistas%20da%20alienação.pdf