domingo, 1 de agosto de 2021

A POLÍTICA DA FORÇA E A FORÇA DA POLÍTICA

                Remanescem dos poderes imperiais antigos, dos reinados e da tradição absolutista, a vontade e o poder do soberano, não importa se alimentados por um indivíduo, um partido ou um exército partidarizado. Marcus Tullius Cícero, imperador romano até o ano 43 antes de Cristo, afirmou que: “carrego em mim três pessoas; a mim mesmo, meus adversários e os juízes”.

            É de suma importância perceber que muitas verdades permanecem como foram elaboradas na História, mudam apenas os personagens. Se para Thomas Hobbes, quando o soberano agisse desrespeitando a lei não era ele a estar errado, mas a lei, por isso revogavam a mesma, na atualidade, quando o arremedo de soberano erra, ou a lei não está de acordo com os seus interesses, ele ameaça com golpe e intervenção militar contra as instituições que ele mesmo jurou defender.

            Evidentemente, seja na antiguidade ou no capitalismo, o poder e o Estado são instrumentos de manejo da classe dominante. Essa mesma classe ao estabelecer a legalidade do poder representativo, não importa o tamanho da população de um país, importa apenas a busca da formação da maioria para atentar contra o país e as forças de oposição. Para assegurar as manobras políticas os mensageiros do capital colocam na retaguarda de seus passos, as forças armadas. Estas últimas entram em ação quando a coerção das leis tornou-se insuficiente para garantir os interesses burgueses, por isso, como arautos do mal, não prometem o melhor, apenas anunciam: “O que virá será ainda pior”.

            De todo o visto, vivido e ameaçado não podem ficar apenas as lições históricas. A ingenuidade também é uma força inimiga que atenta contra a própria consciência. Ter ilusões que no capitalismo a justiça, a liberdade e a igualdade serão garantidas pelos poderes da República, equivale acreditar também na bondade do capital e na fidelidade das forças armadas ao povo. O simples fato de existir o Estado capitalista nos dá a certeza de vivermos em uma sociedade injusta e desigual.

            A “inconsciência” nos diz Georg Lukács em seu livro, “História e consciência de classe”, é um sinal de imaturidade do movimento. Por imaturos, devemos entender indivíduos ou um partido que agem sem levarem em consideração as consequências de seus próprios atos. Significa, no caso da luta de classes, agirmos comprometendo o nosso próprio futuro. Como? Ignorando que a permanência da desigualdade social tem para a classe dominante, a mesma importância da igualdade para os trabalhadores. A existência da primeira e à condição primordial para nunca deixar que a realização da segunda aconteça.

            Por outro lado, há equivalência entre a imaturidade do movimento de organização dos trabalhadores e a dominação burguesa. Os capitalistas são assim denominados por encarnarem o capital e o Estado. Estas duas formas de poder não existiriam sem as instituições e as pessoas leais para representá-los. Ou seja, não é apenas a intransigência do capitalista     colocada a favor dos rendimentos financeiros a fazer mal aos trabalhadores, mas as próprias leis de produção e reprodução do capital, sustentadas pelas práticas econômicas cotidianas. Da mesma forma, não é o político capitalista apenas, culpado por não agir democraticamente, mas a própria estrutura do Estado a impedir qualquer movimento em outra direção. 

            Os trabalhadores ao acreditarem na honra burguesa, em vistas de levarem a cabo determinadas “vitórias”, como defensores da ordem, também encarnam a defesa do capital e do Estado. No entanto, antes desta encarnação os representantes partidários incorporam  o espírito pacifista, a ingenuidade e a domesticação à ordem estabelecida. Isto porque, em nome da liberdade de formulação de políticas públicas, para favorecer temporariamente os mais pobres, obriga a garantir a liberdade do capital de ir a todos os lugares, inclusive nas entranhas do orçamento público, além de  permitir a exploração da força de trabalho e agir de acordo com as leis coercitivas garantidoras do funcionamento da sociedade desigual, caso contrário são  derrubados pela política da força.

            Vivemos um tempo controverso. Ele nos convida a tomarmos posições mais incisivas. Contra as ameaças da política da força devemos contrapor com a força da política, mas isto significa deixar transparente qual é o objetivo final a ser alcançado. Objetivos parciais conciliadores, alimentam a ingenuidade de, “no longo prazo”, irmos definindo onde queremos chegar. No entanto, a cada década, diante das crises, os capitalistas sob pressão do capital, desmancham as combinações e impõem, pelas leis ou pela intervenção militar, a ordem que lhes interessa.

            Quando não se tem objetivos definidos, quem dirige a política são as pautas da classe dominante ou dos pregadores do caos. Observe e veja, pelo que lutamos hoje? Por vacina, auxilio emergencial, contra o voto impresso e outras poucas coisas semelhantes. E tudo por quê? Por quê houve um golpe em 2016? Por quê perdemos a disputa eleitoral de 2018? Não. Porque antes disso, a ingenuidade política permitiu que os capitalistas agissem com total liberdade na acumulação do capital; as forças armadas se educassem para defender o capitalismo, ao ponto de contestarem o comunismo sem que haja qualquer vestígio de ameaça e, mais ainda, por não termos como preocupação a verdadeira conquista do poder.  

            A definição do objetivo final impede os retrocessos ingênuos. Os processos revolucionários admitem derrotas, mas nunca a mudança da direção da finalidade. O alcance do objetivo final se assemelha ao alcance do objetivo parcial, com uma diferença, se o objetivo parcial é alcançado dentro da ordem, é porque esse objetivo é suportável pelos capitalistas, por isso, até se somam ao movimento para efetivá-lo. Se o objetivo final é contestado pela classe dominante, é porque ele é insuportável por ela. Logo, em primeiro lugar, devemos ter claro qual é o objetivo final a ser alcançado, a partir disso sim, devemos definir os objetivos particulares que sigam naquela direção.

            Insistimos, que a organização política, a formação de militantes e a elaboração dos métodos de trabalho, dependem da definição do objetivo final. A força política contra a política da força, somente pode vigorar se houver uma verdadeira “direção política”. Quando isto ocorre, todas as forças progressistas e revolucionárias são chamadas a darem um passo à frente. Este é o primeiro compromisso para combater a ingenuidade alimentada pelo senso comum, na atualidade formado pelas seitas religiosas e pelas inverdades publicadas nas redes sociais.

            A organização partidária é a força mediadora entre a elaboração teórica e a realização das tarefas. Ela é responsável para medir o ritmo da marcha em direção ao objetivo final e, principalmente, por quais lugares devemos conduzir o movimento. Ao mesmo tempo em que assegura a linha política, combate o fatalismo e a ingenuidade e evita que se tenha de sempre começar de novo pelo degrau mais baixo da luta de classes, formado pelas mais simplórias reinvindicações.

            A força da política se impõe quando a política da força é não apenas derrotada, mas definitivamente impedida que se jamais se volte contra o povo e os interesses do país.

                                                                                                                      Ademar Bogo

domingo, 18 de julho de 2021

FALSA CONSCIÊNCIA E IMITAÇÃO

O filósofo Georg Lukács, considerou as revoluções liberais de 1830 e, principalmente as de 1848, referências determinantes para entendermos que a burguesia como força política hegemônica, junto com a perda do seu lugar à frente do progresso social, principiou a viver também a decomposição da filosofia clássica, sustentadora até então dos seus anseios revolucionários.

Com o fortalecimento do proletariado, a Filosofia passou a ser produzida pelos críticos e não mais pelos defensores do capitalismo. A superação desse modo de produção constituiu a base do estímulo para se buscar a unidade mundial dos trabalhadores, como a nova força revolucionária, por meio das formas de organização sindical e partidária, tendo a sua expressão primeira na Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864.

Se a filosofia liberal burguesa a partir das revoluções de 1848 principiou a sua decomposição, em qual campo passou a ser sustentado o pensamento burguês? Ao valorizar a ciência e a tecnologia, a busca pela produção de novas mercadorias, incluído a indústria bélica, grande parte dos capitalistas orientou-se pelas leis tendências da economia e, outra parte, adepta dos ganhos rápidos, encarnou o capital especulativo, estreitamente ligado ao poder político do Estado capitalista. No entanto, em termos de pensamento filosófico, produzido por Thomas Hobbes, John Locke, Adam Smith, Immanuel Kant, Georg Hegel, para citar alguns deles, houve um total apagão e em seu lugar os burgueses passaram a atuar, principalmente na política com a ideologia.

Qual é a diferença entre Filosofia e Ideologia? Grosso modo, podemos dizer que a Filosofia empenha-se num processo constante de revelação da verdade, enquanto que, a ideologia, segue o caminho inverso, ocupa-se de obscurecer a verdade. Inicialmente a ideologia não chega a ser uma “mentira”, porque os elementos reunidos nas justificativas são reais. E, se por um lado os burgueses unificam as justificativas com os interesses, por outro lado esperam que as suas ideias enganosas sejam tomadas como verdade. Marx e Engels em 1845 denominaram essa forma de ser da ideologia, de “falsa consciência”. Ou seja, os ideólogos enganados pelas próprias formulações, pensam levar as suas ideias como verdades para serem assimiladas pela sociedade em geral.

Há diversos exemplos na História demonstradores desse entendimento. Quando na Idade Média as pregações defendiam que no universo a terra era centro e, baseados nas Sagradas Escrituras consideravam herege quem pensasse o contrário, não era uma mentira, apenas um engano mais tarde esclarecido. Quando Adam Smith em seu livro, “A riqueza das nações” atribuiu ao equilíbrio das relações entre produção, circulação e consumo à força de “uma mão invisível” ou ao próprio mercado, estava concretizando o pensamento liberal e, para a época, as mais puras verdades econômicas. Mentiras são as justificativas neoliberais de nosso tempo, isto porque já existindo elaborações contestadoras das formulações da economia política formuladas no passado, tentam ainda fazer crer nos enganos já debelados.

Mas a ideologia pode também vir a ganhar a forma de mentira e desenvolver-se por meio de uma segunda forma de “falsa consciência”, fazendo com que falsas ideias ganhem credibilidade na consciência das massas. Vimos isto muito nitidamente na “Operação Lava” Jato ao propor-se combater a corrupção quando o objetivo era interferir no processo eleitoral; as reformas da previdência e trabalhista que prometia mais empregos e segurança previdenciária; a eleição de um “antipolitico” para implantar uma “nova política”; a liberação da venda de armas para “combater a violência”; o tratamento precoce como prevenção da contaminação do coronavírus, quando por trás era para as empresas farmacêuticas triplicarem os lucros; a eficiência do funcionamento da máquina pública, com a presença de militares que se revelam ainda mais corruptos;  o negacionismo da ciência em nome da contaminação e imunização natural e tantas outras mentiras.

Mas porque então sendo mentiras comprovadas uma parcela da população continua acreditando serem verdades? Pela simples razão de que a “falsa consciência” é alimentada em todos os seus momentos e as justificativas atuam basicamente em três sentidos: emoção, imaginação e vontade. Ou seja, a vitimização afeta diretamente as emoções mantendo-as em um nível elevado de revolta, porque, por trás da “falsa vítima” há indicações de culpados reais, seja como instituições, leis ou autoridades. Imaginariamente o comunismo é apresentado como um terror emergente vindo pelas mãos de inimigos portadores de símbolos, como as bandeiras vermelhas, por isso, “eles” devem vestir-se com verde e amarelo e irem aos templos evangélicos orarem para que o pior não aconteça. Tudo isso desperta a vontade de fazer alguma coisa, nem que seja replicar nas redes sociais as mentiras contadas, pelos agiotas do capital especulativo em sintonia com o “gabinete do ódio” e o banditismo institucionalizado.

 Dito isso, não podemos festejar, porque descobrimos que as forças burguesas desde 1848 atuam com total ignorância filosófica. Muito pelo contrário, se assim o fazem é porque, essa classe, ao deixar de ser revolucionária, passou a se guiar pelos interesses privados e, mesmo sem renovar os fundamentos teóricos, atua obedecendo as ondas e as crises, enquanto a decadência do modo de produção capitalista permitir. Portanto, mais do que festejar devemos temer o avanço da barbárie que essas formas falsas de consciência induzem a não perceber.

De outro modo, poderíamos pensar que a Filosofia do proletariado, iniciada pela teoria social de Karl Marx e Friedrich Engels, nos ajudaria a combater as formas de “falsa consciência” proliferadas pela ideologia burguesa. Mas não é bem assim, por duas razões: a primeira é que a própria “filosofia proletária” sofre de certos transtornos e atrofias intelectuais, concentrando em si enormes limitações para se impor como a única Filosofia possível de evolução e, a segunda, é que o perigo de reproduzirmos as duas formas de “falsa consciência” é iminente e, por isso, as proposições de saídas para a superação do capitalismo, assemelham-se às falsas formas de entendimento para mantê-lo.

Se observarmos atentamente ao movimento das contradições políticas, perceberemos os limites. Em primeiro lugar, a humanidade acostumou-se a diferenciar quem está a favor ou contra na política, pelas categorias de “situação” e “oposição” ou “direita” e “esquerda”. Essas categorias tiveram as suas origens nas disputas entre as forças da Revolução Francesa, que nem partidos políticos ainda possuíam, mas se dividiam em partes denominadas por “Girondinos”, direita, e “Jacobinos”, esquerda. No entanto, essa esquerda jacobina, legalista, que havia dirigido a Revolução, não queria destruir o capitalismo, mas fortalecê-lo tornando eficiente também o Estado capitalista e o Direito positivo

Entre a esquerda jacobina, de 1789 orientada pela Filosofia clássica e liberal burguesa, e a nova classe proletária criadora da nova Filosofia escrita por Marx, existe grande diferença: nos princípios, forma organizativa, moral revolucionária etc. Mas isto pouco ou quase nada poderia nos interessar por representarem resquícios de um passado distante. Mas não. Tanto a esquerda Jacobina da Revolução Francesa continua presente em nossos dias, quanto o proletariado, eleito por Marx como a classe em ascensão para a superação do capitalismo. No entanto, principalmente os “jacobinos” que atua nos partidos comprometidos com as disputas eleitorais apenas, buscam melhorar o funcionamento do capitalismo e do Estado, orientando-se pela enganosa de “falsa consciência”.

 Podemos agora questionar, se as forças de direita e de esquerda utilizam os mesmos recursos da “falsa consciência”, possuiriam os mesmos objetivos? Sem muitas delongas respondemos que não. As forças de direita são enganadoras e mentirosas. Agem dessa forma, mesmo sabendo que existem explicações para as crises e para a decadência do capitalismo, por isso, não estão enganadas, mas consciente. Nesse sentido, elas atuam sustentando a ideologia como mentira. Ao contrário, do ponto de vista da “esquerda jacobina”, a sua atuação se sustenta na primeira forma de “falta consciência”. Age de boa vontade, mas está enganada porque que não consegue conciliar a visão utópica com a realidade. E, por sua vez, ao ignorar a Filosofia do proletariado formulada não consegue formular as verdadeiras questões que desvendem as contradições, por isso enganada engana os trabalhadores, fazendo-os acreditar que, se “substituir os governantes”, o capitalismo funcionará melhor. Mas podem ter um ponto em comum de agirem sem Filosofia: a direita por não tê-la e a esquerda por desleixo de não estudá-la e conhecê-la.

Essa forma de ideologia adotada pela esquerda governista, mesmo que não mentirosa, mas enganosa, compromete profundamente a definição das táticas e estratégias no que diz respeito a seus alcances; a formulação das tarefas e dos métodos de ação, bem como as escolhas das leituras e temas de formação da militância.

Voltar a ler Marx não significa abandonar tudo que foi elaborado filosoficamente de útil depois dele, mas, acima de tudo, é voltar ao ponto em que a filosofia burguesa se exauriu e entender que de lá para cá, o que a classe dominante fez, foi governar o mundo por meio da “falsa consciência”, transformando as mentiras em crenças e as crenças em alienação.

           As batalhas são múltiplas, mas esta das ideias torna-se fundamental para que o domínio filosófico ilumine os passos por onde devemos andar para chegarmos, conscientes e vitoriosos no futuro.                                                          
                                                                                                           Ademar Bogo     

domingo, 11 de julho de 2021

A QUESTÃO DA ORGANIZAÇÃO

A questão da organização política é o tema pouco elaborado no Brasil. O que se fez ao longo do tempo nos setores de esquerda foi falar mal dos partidos comunistas como se os arremedos construídos fossem melhores.

Toda confusão e mergulhos nos limites devem-se à falta consciente, primeiro da existência da pergunta, para que queremos um partido político? E, segundo, à qualidade das respostas, porque elas podem ser múltiplas. Uns podem achar que o partido serve para governar e resolver problemas sociais e, por isso empenham-se em fazer das alianças necessárias para dividirem, depois da vitória, os cargos do Estado entre todos os partidos por eles criticados.

Quando o partido não é visto como a referência de organização para elevar a consciência das massas em vista de incluí-las no processo da insurreição, os debates tendem a escalonar as avaliações: “depois de nós” quem são os melhores? Se no nível rebaixado da luta de classes um partido escolhe-se como “o melhor”, comete o primeiro erro, pois, acha que já está pronto e, mesmo estando no primeiro degrau da escada, quer olhar o mundo de cima para baixo, mas não vê além de algumas cabeças confusas que se debatem, sem teoria, saídas diferenciadas e propostas de transformação e superação das estruturas sociais.

O austríaco Georg Luckács nos disse que tudo é questão de maturidade e imaturidade. As duas situações somente podem ser medidas, “quando a compreensão ou a atitude a respeito do que pode ser feito, existe para a consciência da classe e ação de seu partido dirigente sob uma forma abstrata imediata ou concreta mediata”. O que mais vemos são partidos velhos imaturos, sem classe, e por isso desclassificados para assumirem tarefas mediatas ou que sirvam de mediações para a realização da causa concreta da superação do capitalismo e não da causa abstrata de assumir  o Estado e com ele o propósito de superar as crises.

Por que então se investe mais na inconsciência do que na formação da consciência? Porque uma classe consciente não aceita assumir as causas abstratas que apenas ilusoriamente provocarão mudanças. E é pela ausência da organização de classe, não ampliada pela consciência de classe que não atraímos para o nosso lado as massas exploradas e empobrecidas em geral. De longe e de perto os partidos respeitadores da ordem capitalista, são muito parecidos. Formar consciência é trabalhoso e, ao mesmo tempo incômodo, porque, um indivíduo consciente é também um fiscal da coerência e do comportamento de seus dirigentes.

Um partido tem a função de dirigir, por isso a qualidade da consciência dos seus componentes deve estar acima do senso comum em geral. Isso somente se consegue pelo estudo e pela prática desburocratizada. A prática não significa a atuação para solucionar problemas para melhorar o funcionamento do capitalismo, mas apontar para atingir o objetivo de superá-lo. Agindo com o propósito apenas de solucionar problemas, não vamos além do ponto de partida; estacionamos ao redor deles sem nunca iniciarmos a marcha, em vista de fazer o percurso verdadeiramente revolucionário.

O abandono do estudo das contradições também contribui para a manutenção dos propósitos das classes dominantes. Elas não sabem o que fazer para enfrentar as crises, mas se sentem mais seguras porque as denúncias feitas não revelam as verdadeiras causas dos problemas sociais. Por outro lado, ao não serem reveladas as verdadeiras causas das contradições, as massas e os trabalhadores mal organizados acreditam que as saídas para ambos os lados são as mesmas, basta mudar apenas os indivíduos que governam. Assim esconde-se que no governo Lula por trás, como força determinante esteve o capital produtivo, no governo Bolsonaro, está o capital especulativo.

Ignorando as forças determinadoras do processo político, ignora-se também as medidas a serem tomadas para enfrentá-las.  Nesse sentido, passa-se a acreditar que a superação de todos os males sociais, virá pela delegação ou aceitação da salvação proposta, como bem educa o cristianismo,  para alcançá-la basta continuar acreditando ou no máximo, basta  arrepender-se dos erros anteriores e mudar o comportamento diante da urna eletrônica, objeto sagrado como foi o bezerro de ouro, para os adoradores desta tática.

Com a acelerada decadência do capitalismo esgotam-se as possibilidades e com elas as esperanças de haver solução para os problemas sociais. Dessa forma, fica evidente que as propostas populistas, governistas e direitistas, igualam-se entre si. Surge então a preocupação de estamos atrasados, por isso tornam-se urgentes às mudanças estruturais. Contudo antes delas são necessárias as mudanças organizativas, propostas e métodos de atuação para elevarmos o nível de consciência, de elaboração e execução das táticas. Isso tudo não se dará sem resistências e teimosia para permanecer na ordem vigente agindo educadamente para sermos aceitos pelas forças do capital. Por isso, as primeiras rupturas devem ser com moral burguesa, a literatura reformista, as formas de organizações legalistas e burocráticas e, com os objetivos limitados á ordem de dominação capitalista.

O amplo movimento de massas nos interessa. Ele, formado pelo fortalecimento da agitação vinda da verdadeira propaganda das ideias indicadoras da nova perspectiva. É claro que a palavra “pão” e “trabalho” continuarão sendo expressas, mas junto virão as explicações porque eles desapareceram e o que faremos para que nunca mais venham a faltar?

As tarefas das lutas devem surgir das perguntas formuladas. Perguntar e persuadir são os dois verbos a serem conjugados pela militância neste tempo mal desejado. No entanto, antes de tudo é preciso perguntar-nos e persuadir-nos a nós mesmos. Ou seja, queremos insurgir-nos ou acomodar-nos dentro da institucionalidade? Essa resposta nos dará o conteúdo para persuadirmos as massas e para que devemos organizar-nos.

A insurgência precisa de uma organização insurgente. A sua estrutura acompanha a firmeza do discurso e a eficiência das tarefas. Os esforços mais simples contribuem para empurrar o movimento para frente,  quando a organização, mais do que pensar em ser a melhor deseja ir um passo à frente. Por isso, a questão da organização é o assunto da pauta. Não significa menosprezo ao que existe, mas um esforço para fazer existir algo novo, capaz de propor e afirmar novos propósitos.

                                                                                                                                                                                                                                            Ademar Bogo

 

domingo, 4 de julho de 2021

DEMOCRACIA E DECADÊNCIA

               O historiador Eric Hobsbawm ao estabelecer o período, “A era das revoluções” (1789-1848), confirmou o que já havia declarado Karl Marx que a burguesia foi a primeira classe revolucionária da História e nos mostrou que, a certa altura da década de 1780  com a revolução foram retirados os grilhões do poder produtivo das sociedades humanas que daí em diante se tornaram capazes de multiplicação rápida, constante, de homens, mercadorias e serviços.

            Essa tese da “retirada dos grilhões produtivos” pelas revoluções, para muitos leitores do texto escrito na segunda metade do século vinte, passa como uma informação irrelevante, no entanto, se atualizarmos o seu entendimento veremos que aquele processo sedutor alcançou, no nosso tempo, um profundo esgotamento e os “grilhões” voltaram a cumprir as funções de aprisionamento das sociedades humanas.

            As duas revoluções, a industrial e a francesa, foram de fato realizações provocadas pelas forças burguesas e proletárias que vinham sendo oprimidas pelo poder feudal desde o século dez. A perseguição à burguesia se deu pelo simples fato de querer se formar entremeio as duas classes existentes: os senhores feudais e os servos, legitimadas pelo clero. Indiferente a tudo, a burguesia criou a si mesma e também ao proletariado para servir-se dele. Conduziu as duas revoluções à vitória, mas elas foram insuficiente e precisou-se de uma terceira insurreição mais ampla, para afirmar o capitalismo, denominada de “Revolução liberal”.

            Com a terceira revolução a burguesia pode afirmar-se verdadeiramente como força política hegemônica por toda a Europa. Com sua ascensão foi possível criar um poder centralizado no Estado capitalista, pondo fim ao poder dos senhores feudais; elaborar e impor o Direito Positivo suplantando o do Direito Natural e a afirmar a República. O primeiro prejuízo político dessas mudanças foi desaparecimento da “Democracia participativa” posta razoavelmente em prática em Atenas até o final do século quatro antes de cristo.

            Sem os “grilhões produtivos”, os burgueses, ocupados em produzir e comercializar, sem tempo de participarem cotidianamente da política criaram, juntamente com os três poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, a forma de democracia representativa, com direito ao sufrágio universal apenas para os proprietários e, desse modo, nasceu a “Democracia Liberal” tida como a mais adequada para satisfazer os anseios dos cidadãos.

            Na atualidade fala-se da “democracia em crise”, mas pouco se aprofunda porque ela chegou a este ponto e se os processos eleitorais podem tirá-la dessa situação. Isso tem limitado o alcance das ações de protestos e enfrentamentos com as forças dominantes, pelo fato de serem atados os efeitos e não as causas da crise.

            Inicialmente, observando mais detalhadamente o movimento das contradições, percebemos que o modo de produção capitalista está em acelerada decadência, dessa forma, todas as demais invenções estão decaindo com ele. Sendo assim, como não se pode concertar um avião em queda livre, impedir que o capitalismo se deteriore com ações voltadas para a ordem democrática é praticamente impossível.

            Observando mais atentamente perceberemos que, se a democracia liberal está em crise é porque os criadores do liberalismo também estão. Aqui parece estar o ponto central do entendimento. Se a burguesia ao realizar as três revoluções deu-se conta de que deveria instituir uma estrutura de poder centralizado e fazê-la funcionar por meio de seus representantes, em grande medida de pequenos burgueses, enquanto isso eles ocupar-se-iam da indústria e do comércio  para acumularem capital.

            No entanto, se observarmos mais detalhadamente perceberemos que essa força burguesa produtiva começou a perder a sua hegemonia nas últimas décadas do século passado quando o capitali especulativo insurgiu-se como uma força incontrolável e, para além de dinamizar as relações financeiras seqüestrou também o Estado criado para dar garantia de funcionamento ao capital produtivo e, como haviam apontado Marx e Engels levá-lo por meio do comércio, das leis e da força militar certamente,  para todos os lugares do globo.

            A decadência do capitalismo causada por diversos fatores, impossíveis de serem comentados aqui, levou também à decadência a civilização e, enquanto o Estado oficial passou a ser controlado pelo capital especulativo, ao seu lado passaram a vigorar outras formas de poder, podemos chamá-las de “estado paralelo” ou “banditismo político”. Entram nessa composição, as forças regulares das milícias, do narcotráfico, das seitas religiosas, dos devastadores rurais e a grande parte dos meios de comunicação que, não satisfeitas com o controle social e territorial, decidiram atuar também por dentro da política estatal.

            Essa ligação é de fácil percepção, basta contar o número de deputados e senadores integrantes das bancadas do boi, da bala, dos Bancos, e da bíblia, eleitos nas últimas eleições e contabilizaremos quase 80% do total dos parlamentares. Ou seja, as forças do capital produtivo que no passado soltaram os grilhões impostos pelos senhores feudais, voltaram a ser aprisionadas pelo capital especulativo possuidor de força política dez vezes maior.

            Quando ouvimos falar que as forças de “centro direita” não conseguem achar um candidato para formar a “terceira via” para despolarizar a disputa entre Bolsonaro e Lula, e vemos que ela tarda a aparecer, é porque essa classe produtiva perdeu a disputa política com o capital especulativo e este se dirige por conta própria. Se burguesia produtiva criadora do Estado perdeu o poder sobre a criatura, a sua força política entrou em decadência. A solução restante, para não ficar de fora é tentar aliar-se com um dos lados para tentar sobreviver. Esse processo, talvez sem ser ainda consciente já vem ocorrendo desde o inicio deste século. Quando Lula, em 2002 convidou o empresário José de Alencar para ser o seu vice, de algum modo remontou a união das forças participantes das revoluções burguesas do passado, quando a burguesia reuniu-se com o proletariado e juntos asseguram as diversas vitórias.

            Essa união, neste século, foi rompida com o golpe institucional de 2016 e a coroação se deu em 2018 quando, junto com o banditismo político foi grande parte desta burguesia produtiva e também as forças armadas e o poder judiciário. Essa reunião de forças levou o estado paralelo para dentro do Estado oficial, dando força ao aprofundamento da barbárie social.

            Esse indicador do avanço do poder do capital especulativo e o banditismo político, mostrou-se presente nas eleições passada nos Estado Unidos da América, quando o presidente por pouco não se reelegeu, e o vencedor, logo início de seu governo, contradizendo os princípios do neoliberalismo, de posse da máquina de fabricar dólares, investiu pesadamente no setor produtivo. Isto não significa que o poder das milícias, grupos armados, narcopolítica, seitas etc. tenham sido derrotadas definitivamente. Se universalmente o capitalismo está em decadência, o próprio movimento interno das contradições, alimenta esses fenômenos destrutivos. 

            O grande problema do Brasil e também de outros países, é que a esquerda deste século encarnou o espírito da “esquerda jacobina” oriunda revolução francesa e, apesar de ser oposição aos girondinos, não quer destruir o capitalismo, mas sim edificá-lo. Sendo assim, a visão de todas as forças políticas em atuação é chegar ao governo e aparelhá-lo para os seus objetivos, porque ele de fato é o lugar de abrigo para quem quer usufruir do “poder representativo” praticando a democracia liberal.

            As diversas críticas já feitas, somadas aos fracassos governamentais, embora que, temporariamente as vitorias eleitorais aliviem certas tensões, para a grande maioria da população, a “democracia representativa” de natureza liberal não contribui com a luta pela emancipação política. As grandes massas não experimentam as mesmas sensações que experimenta a classe media, respeitada e preservada da repressão do Estado.

É democracia liberal é cômoda e confortável para setores privilegiados da sociedade.  Saber que na segunda-feira cedo as ruas estarão livres para, em 5 minutos deixar o filho na escola e de lá rumar para o trabalho que inicia pontualmente às 8 horas; no final da manhã ou do dia, retornar, pegar o filho na escola, ir para casa sem passar por nenhuma perturbação, no máximo uma blitz que só faz parar os carro de uma só marca. Para os trabalhadores das favelas, a mesma segunda-feira é diferente. Poderá não ter dormido à noite porque na madrugada as forças policiais arrombaram a porta e entraram, interrogaram, ameaçaram e dispararam tiros. Na ida e na vinda, as sacolas são revistadas e os filhos nem sempre voltam vivos da escola. Mas, a partir de 1985 com a aprovação do voto do analfabeto, ninguém é desprezado a participar da “festa” eleitoral que elege os representantes legitimadores da democracia liberal.

A superação disso tudo não acontece de imediato. Mas é preciso ter clareza que a salvação das forças do capital produtivo depende dos trabalhadores, não somente para produzir capital como também para que elas se mantenham no comando do Estado, com um nome vindo de suas fileiras ou das fileiras dos trabalhadores componentes de organizações da atual “esquerda jacobina” defensora da mesma democracia liberal.

Nesse sentido, o problema maior pode não estar no tipo de ações que se pratica, mas na utilidade dessas ações. Para que uma ação específica tenha um alcance estratégico é preciso que seja estabelecido o objetivo a ser alcançado em um certo período. Não existindo este objetivo, cada ação terá um fim em si mesma e nunca terá força para romper com as barreiras do imediato.

Se para os setores reformistas o socialismo não está na ordem do dia, para ser colocado com o objetivo estratégico, para o qual deveriam se voltar todas as ações e disputas, a decadência do capitalismo é muito presente. Devido isso, as tendências destrutivas são acompanhas da perda de capacidade de todas as forças que querem reconstruir o capitalismo. Por outro lado, quanto mais se acentuam as decadências, mais vigor ganham as forças da anti-política adeptas da violência e do crime institucionalizado. Não há luz no fim do túnel para quem não se apressar em passar por ele para encontrar o raiar do novo dia.

                                                                                              Ademar Bogo

 

 

    

domingo, 27 de junho de 2021

DEMOCRACIA DIRETA

     Desde 1600 quando o inglês Francis Bacon cunhou o termo composto do grego “Eutanásia”, que significa “boa morte” ou “morte desejada” a Filosofia passou a ter uma referência a mais para discutir o direito à vida. Daí descende a formulação do conceito “Mistanásia”, formado também pela junção de dois termos “mis”, miserável, infeliz ou omisso e, “thanatos”, morte. Ou seja, “Mistanásia” é provocar a morte miserável por omissão.

            Na atualidade já passamos longe de 500 mil mortes oficiadas, tendo como causa a COVID-19 e, o mandatário do poder Executivo finge que nada está acontecendo; pior, o seu comportamento leva acreditar na hipótese de que haverá a imunização pela contaminação natural da maioria da população ainda é possível.  

            Argumentos de acusação para depor, prender e condenar o chefe da nação, não faltam. Encontramos em Aristóteles, em sua “Ética a Nicômaco” que, “Quando uma pessoa , violando a lei, causa dano a um outro voluntariamente... ela age injustamente; e um agente voluntário é aquele  que conhece tanto a pessoa a quem  atinge com o seu ato como o instrumento que está usando”. As pessoas que morrem são conhecidas do homicida, por serem seus próprios eleitores ou adversários e, o instrumento também lhe é muito conhecido como coronavírus, aliado do descaso, do negacionismo e da corrupção.

            Por outro lado, atentar contra a vida é um crime contra os direitos fundamentais e leis não faltam para responsabilizar os responsáveis. No artigo 5º da Constituição Federal está expresso a  “inviolabilidade do direito à vida”; no artigo 6º, temos a obrigação da “assistência aos desamparados”, neste caso, de vacinas e leitos nos hospitais e, assim poderíamos ir passando toda Carta Magna relacionando obrigações do poder Executivo deixadas de lado. No entanto, como a punição não se ancora inicialmente em leis, mas em pressão popular, este parece ser o caminho a ser trilhado para se chegar lá adiante ao resultado que já se anuncia: cassar o mandato e punir o homicida.

            Em sua essência, a política é um movimento que contempla todas as forças e, estas se reúnem em torno de alguns indivíduos de bom ou mau caráter. Sendo assim, é evidente que o culpado pelas mais de 500 mil mortes não pode ser apenas um indivíduo. Há outros responsáveis e instituições que conduziram o morticida até o poder e o sustentaram até agora. Não basta mudar de lado, passar da situação para a oposição ou recolher-se à neutralidade para minimizar a participação no feitio de uma obra assustadora, erguida como uma pirâmide de corpos mortos. 

            Há, portanto, responsáveis por todos os cantos da República que se aproveitaram e ainda se aproveitam do engodo do “combate à corrupção” para cometerem crimes ou ampliarem os privilégios, todos garantidos pela tão admirada “democracia representativa” que poderia ser também apelidada a partir deste governo, de “passagem da boiada”.

            Sejamos justos com a justiça, com a política e com a ética, mas, imaginar que votar e delegar responsabilidades a representantes que não possuem formação humanitária para dedicarem-se à busca do bem-comum, é como pedir ao estuprador que cuide trate dos transtornos mentais da vitima.

            As forças de direita e todos os seus colaboradores sabem que erraram na sucessão política, mas conseguiram os ganhos que queriam, seja na entrega do petróleo aos investidores internacionais, seja na retomada das privatizações, na destruição da floresta amazônica e na garantia de outros privilégios. Como sempre fizeram, imaginam que um erro na política, concerta-se com um simples movimento de peças e tudo volta ao “normal”.

            Se para derrubar o governo da presidenta em 2016 utilizaram das mobilizações de rua financiadas pelo imperialismo e pelas forças de direita, agora, para derrubar o carniceiro alucinado, buscam reforço nas mobilizações de esquerda. E a política de estratégia pacifista não pode recusar. Não pode porque o seu compromisso segue os interesses semelhantes da direita, que é manter a ordem para alçar ao governo com outros representantes e, com isso as massas populares, iludidas de que, quando os seus candidatos ganham, são vitoriosas, novamente ficarão de fora a espera que alguém algum milagre aconteça.

            A inexistência de um partido capaz de compreender que essas ondas criadas pelas contradições que se formam no processo de exploração, são também controladas pelas forças do capital, condena sempre os trabalhadores e as massas populares a ficarem submissas. Isto porque, nos momentos de disputas as classes aparecem e se digladiam, mas logo em seguida, nos momentos de concertar os erros dos errados, as classes desaparecem e os trabalhadores são chamados para ajudarem a resolverem as crises que ele nunca criaram.

            Dessa forma, é importante responsabilizar e condenar os responsáveis pela mistanásia e outros tantos crimes cometidos, mas não para achar uma saída para a tão sonhada “terceira via” para as forças de direita oportunistas que, devido à polarização entre esquerda e extrema-direita perderam o espaço, mas sim para fazer avançar a luta pelo poder em direção ao socialismo.

            A democracia terá que reconstituir o conteúdo do conceito e deixar de significar delegação ingênua de poder. A democracia direta é aquela que ninguém pode abrir mão de sua responsabilidade de representar a si mesmo. Esta alternativa precisa ser construída se quisermos que seja verdadeiro o grito: Pátria livre! Caso contrário todos os esforços não levam o movimento além a próxima esquina da História.

                                                                                                          Ademar Bogo

             

           

domingo, 13 de junho de 2021

O QUE É NÃO VEM A SER O QUE É

    No livro, “Marx e a superação do Estado” que publicamos em 2018, pela Expressão Popular, procuramos mostrar que Marx e Engels para defenderem o processo de transição socialista tiveram de enfrentar as forças conservadores de direita e as ideias confusas do movimento operário da Europa. A primeira explicação mais organizada deu-se com a publicação do Manifesto do Partido Comunista, em janeiro de 1848. Apontaram ali três visões equivocadas do socialismo. A primeira, a mais atrasada, foi denominada de “socialismo feudal”; a segunda, “socialismo burguês” e, a terceira alimentava a perspectiva do “socialismo utópico”.

            A critica às posições equivocadas sobre o socialismo vinha sendo apresentadas pelos dois autores desde 1845, quando haviam escrito, “A ideologia Alemã” e lá indicaram que, “O comunismo distingue-se de todos os movimentos anteriores por transformar radicalmente o fundamento de todas as relações de produção e de intercâmbio anteriores e por tratar conscientemente, pela primeira vez, todos os pressupostos naturais como criação dos homens anteriores, por despi-las da sua naturalidade e submetê-las ao poder dos indivíduos associados”.  Demonstraram assim, que um processo de transformação somente se afirma se for capaz de se diferenciar dos que não são e, para tanto, até mesmo o conceito precisa ser diferenciado. Por tanto, mesmo sabendo que a transição seria socialista afirmaram o comunismo como a referência estratégica.

            Definir-se como socialista ou comunista, naquela época, fazia muita diferença, como ainda hoje faz, embora sem as mesmas convicções. Mal comparando os socialistas do passado comparam-se aos que defendem hoje as mudanças pela via institucional e, os comunistas, aos que defendem a ruptura pela via revolucionária.

            Por que foi e ainda é importante a diferenciação entre as concepções políticas? Pelo simples fato que muitas posições não visam conduzir os processos para onde indicam as palavras. Dizer-se socialista na época de Marx, como agora, não é uma posição a favor da superação do capitalismo e nem tampouco significa provocar ruptura com a ordem estabelecida e mantida pelo poder do capital. A defesa do comunismo por Marx e Engels afirmava o processo constituído em três momentos: pré-revolucionário, no qual se desenvolveriam todas as formas de luta; a tomada do poder pela insurreição das forças sociais e a organização da “ditadura do proletariado” vista como a “associação dos indivíduos” em torno de interesses revolucionários. No entanto, o socialismo era visto como uma passagem; uma transição obrigatória; um tempo necessário para fazer as “superações naturais” ou naturalizadas, tidas como normais na sociedade capitalista.

            Atualizando a hermenêutica conceitual, gritar hoje: “Viva o socialismo!”, seria o mesmo que gritar: “Viva a transição!”. No entanto, essas palavras deveriam fazer entender que elas resumem os três momentos: processo de lutas, insurreição e organização das novas relações sociais e políticas, rumo ao comunismo.

            Se observarmos detalhadamente as proposições das concepções socialistas: “feudal”, “burguês” e “utópica”, elas estão presente nas forças políticas partidárias atuais, ocupadas com o pêndulo institucional, o qual, para se mover  deve ser empurrado por duas forças de oposição: direita e esquerda. Ou seja, quando a direita governa, faz de tudo, mas acaba empurrando o pêndulo para o lado oposto; o mesmo ocorre com as forças de esquerda, quando governam empurram o pêndulo para a antiga situação. Essa naturalização da política é a expressão da adorada “democracia representativa” que legitima as inversões por meio do processo eleitoral avesso à revolução.

            O pêndulo político da “democracia representativa” no Brasil, sem ser preciso, mas iniciado mais claramente em 2016, está indo do centro esquerda para a extrema-direita que antes era oposição e ora é situação. O movimento do pêndulo é importante simbolicamente porque ele nos indica que, se o impulso de saída da esquerda com destino à extrema direita, iniciou-e com um golpe, este já foi dado e por isso não cabe mais o discurso de que “o governo prepara um golpe”, já vivemos nele. O que é não vem a ser  o que é.          

            Para melhor entender e despertar para os posicionamento, lembremos que o golpe de 1964 ocorreu com um assalto, a destituição dos poderes e a intervenção das forças armadas em praticamente um dia de manobras. Em 2016 o golpe foi desferido gradativamente sem destituição dos poderes e em nome da legalidade. Aparentemente foi empossado o vice presidente para evitar o desgaste da militarização. No entanto, para a “assessoria” do presidente do STF foi destinado um general e outro para o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. O Congresso Nacional renovado, nunca ofereceu perigo, com mais de uma centena de pedidos para abertura de processo contra o presidente da República, nada é feito.

            Mas, para além da comparação para a quebra e a manutenção da legalidade do regime, há o processo gradativo e de método totalitário. Mesmo na década de 1960, o processo de fechamento foi lento e levou praticamente cinco anos (1964-1969), quando os Atos Institucionais impuseram a ordem desejada. Deveu-se esse endurecimento às reações sociais e armadas. Na atualidade a correlação de forças tornou-se favorável à extrema-direita e, por essa razão, o processo de desconstrução da democracia institucional e representativa, endeusada pela pequena-burguesia e concepções socialistas reformistas, conforme já descritas, é mais lento, mas o golpe está em vigência, assegurado pelas forças armadas, policias e milícias; como também, legitimada socialmente por cerca de 25% da população favorável a um regime mais totalitário, capaz de enfraquecer e punir a oposição.

            Favoravelmente à autodefesa da institucionalidade, temos a derrota de Ronald Trump e de Benjamin Netanyahu, bem como, algumas vitórias eleitorais, mesmo que apertadas, em países vizinho, dando indicações de que o Brasil seria “uma ilha” antidemocrática, se algo mais radicalizado venha ocorrer no golpe iniciado em 1916. Mas o Brasil também é um continente e muitos interesses externos precisam ser assegurados. Se aqui já foi o último reduto oficial para abolir o trabalho escravo, porque não poderia ser uma exceção a mais para um regime nazifascista, pinochista e totalitário?

            De outro lado, a dispersão e confusão mental da militância é enorme. Não há um ponto de apoio que seja comum para a iniciação da construção do processo de transição verdadeiro. Isso se deve primeiramente à tradição alimentada pelas posições socialistas conservadoras e institucionalizadas da classe média. Qualquer iniciativa que aponte para além do processo eleitoral é desmoralizada e pejorativamente qualificada como “socialismo já”. Se fôssemos apenas socialistas, poderíamos classificar esses detratores de “socialismo nunca”.

            Fica evidente que, enquanto as forças de esquerda tiverem chance de ganharem os governos não deixarão de seguir a linha das disputas eleitorais dissociadas de outras formas de lutas que levem a questionar a ordem capitalista. E, mais grave ainda, enquanto os partidos políticos forem dirigidos pela classe média, não surgirá por meio deles o sujeito da revolução e a forma de organização partidária não será atrativa para as novas gerações.

            E a alternativa? Sempre nos perguntamos. A juventude precisa ser educada para o comunismo para que se distancie das ilusões e soluções conciliatórias. Ela própria terá de tomar em suas mãos o comando da reação que preveja o mesmo processo de superação do capitalismo descoberto por Marx, que se compõe dos três momentos interligados: Lutas de todas as formas; insurreição e organização da transição socialista. Esses momentos precisam ser tornados objetivos a serem alcançados.

            Se o objetivo estiver estabelecido, todos os atos e ações são válidos para alcançá-lo. Se o objetivo está claro, como diziam os antepassados: “Todos os caminhos levam a Roma”, o principal é que se queira lá chegar em um período estimado. Sabemos que reações virão. Já vemos que os povos se levantarão. Só nos falta ver o horizonte.

                                                                                           Ademar Bogo

domingo, 6 de junho de 2021

RETIFICAÇÃO

No conceito de retificação podemos encontrar diferentes ideias e significados. Retificar, de modo geral, significa corrigir o que está errado. O filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962) em seu livro, “A formação do espírito científico” (1996) trata com profundidade a relação entre objetivo e subjetivo quando, o primeiro tem a responsabilidade de corrigir o segundo. Disse Ele, “Uma descoberta objetiva é logo uma retificação subjetiva. Se o objeto me instrui, ele me modifica”.

            Temos em nós “verdades aprendidas” socialmente que se tornam saberes superficiais formadores do “senso comum” ou do entendimento mais rasteiro, misturando, superstições, crenças, informações, alucinações, medos e, raramente, esclarecimentos.

            As diversas áreas do conhecimento científico são responsáveis para retificar em nós os entendimentos equivocados, é quando a objetividade atua sobre a subjetividade e, na intimidade humana, na qual guardamos as nossas compreensões erradas ou insuficientes, ocorre uma ruptura. Para isso precisamos que o consciente assuma a liderança sobre o ilusório para proceder à retificação das ideias equivocadas. Há, portanto, que proceder por meio da ciência essa “ruptura” com as ideias erradas e enfrentar todas as dificuldades decorrentes. Todos nós sabemos da luta de Nicolau Copérnico (1473-1543) para defender o sistema heliocêntrico mostrando que era a terra que girava ao redor do Sol e não o contrário.

            Na Psicanálise esse fenômeno se dá pela força do consciente agindo sobre o inconsciente, retificando neste, aquilo que ele registrou como trauma, recalque, pulsões, luto etc. Enquanto isso não for alcançado, os transtornos do inconsciente dirigem a vida do indivíduo transtornado.

            Os diversos transtornos e traumas criados pelas relações que estabelecemos com o mundo objetivo criam efeitos e consequências em nossa subjetividade. Essas relações podem ser, familiares, escolares, religiosas, culturais, políticas etc. Nascemos e crescemos pressionados para adotarmos os comportamentos indicados pela civilização. Quando agimos “errado” por acharmos certo, nos condenam e nos fazem voltar a praticar o “certo” que conscientemente é completamente errado.

            Por outro lado, os traumas têm origem em diferentes fontes e ocorrem a qualquer tempo. Nos interessa, aqui, para voltarmos ao conceito de “retificação”, observarmos a infância da nossa última fase política, tida como “democrática”, iniciada após muita luta em 1985, quando foi debelada a ditadura militar no Brasil.

            Na década seguinte, ainda dentro do século passado, apesar das reações populares aparentemente de revoltas conscientes, confrontamos os desejos por mudanças com o medo da volta da ditadura. Os avisos para “tomar cuidado” eram constantes que, falar em armas, mesmo em eventos fechados era motivo de retratação posterior às instâncias partidárias, tiradas por menos, como se aquilo fosse apenas uma expressão ocasional. Esse exemplo de agir “errado” contra a ordem, era o certo, mas para aqueles que objetivavam governar o país por meio da via pacífica era o totalmente errado.

            Isso nos mostra que a política também efetua terapias. Com o passar dos anos, as constantes mobilizações empurraram o medo consciente para o inconsciente coletivo e, com as repetições constantes de, “Sem medo de ser feliz” e “A esperança venceu o medo”, esquecemos das armas e dos militares ou, mais propriamente, foram as primeiras por uma política de desarmamento, recolhidas e, os últimos “controlados”, chegando a ser alçado como ministros da defesa um “comunista” e depois um “ex-comunista”. Mal comparando, essa situação, deu a impressão aos pardais, de que a águia havia se tornado uma galinha.

            Se o consciente político retificara o inconsciente traumatizado, retirando dele a preocupação do medo, no outro aspecto das relações objetivas, levou-nos a criar falsas ideias que levaram a subjetividade coletiva a acreditar que o “senso comum” passara a ser o oráculo das verdades. E eis que, de um momento para outro, nos sentimos como se tivéssemos voltado à infância e reencontrado os medos, principalmente aquele mais violento e sanguinário, o da ditadura militar. E, as armas tão temidas pela esquerda, passaram, como o lema de, “Povo armado jamais será dominado”, a ter o uso incentivado pela extrema-direita. Não teria sido certo então, termos feito o mesmo?

            Voltamos à infância psíquica e os transtornos inconscientes voltaram a abalar os comportamentos dos adultos dirigentes que, por serem os próprios terapeutas, aplicam os mesmos métodos em busca das mesmas soluções. E eis que se pretende fazer valer o senso comum, como fazem os negacionistas sobrepondo-o à ciência; estes últimos porque a negam, os outros porque não recorrem a ela e atém-se à necessidade do “projeto nacional”, como se fosse a planta da construção a ser realizada pacificamente com o trabalho das segundas às sextas-feiras. 

            Quando falamos em política, é verdade, nem sempre é possível pensar e agir cientificamente. Há medidas emergenciais e táticas a escolher que nem sempre foram comprovadas. Isso tudo é normal. Anormal é tentar reparar um mal, não pela elaboração consciente, mas com terapias que levam às crenças do senso comum a obscurecerem as reais contradições.

            A retificação consciente exige que haja a superação de todas as ideias equivocadas, consideradas verdadeiras, principalmente aquelas que ignoraram as classes e a função coercitiva e dominadora do Estado. Se a ferida foi redescoberta e o medo de um novo golpe voltou a assombrar, é certo que os mesmos erros serão cometidos ao se forem preservadas as causas daquele ferimento.

            Retificar os erros exige que as ideias sejam corrigidas e as medidas sejam reelaboradas. Se compararmos o Estado a uma jaula, dentro dela, os trabalhadores continuam sendo trabalhadores. Não ameaçam porque não sabem fazer o mal. Tornam-se tão mansos que um dia podem ser tirados para fora e largados nas ruas. Mas, os leões, na mesma jaula, continuam sendo leões. Perigosos e, quando soltos, tornam-se ainda mais violentos em busca de condições de voltarem para dentro de onde foram tirados.

            De fato, as forças da direita são muito mais pragmáticas quando lhes interessa. Quem diria que elas viessem um dia escancarar a licença para a aquisição de armas sendo que a maioria dos explorados são seus inimigos mortais? Por outro lado, de que valeu as forças da esquerda institucional temer o golpe militar no final do século passado, se foi a sua própria ingenuidade que o fez recolocar-se como uma possibilidade real nos dias atuais?

            Retificar é o conceito a ser posto em discussão. Sem isto, o alvo estratégico não vai além da porta da jaula dos leões, local onde são trancadas e amansadas todas as potencialidades de rupturas e são alimentadas as condições para futuros golpes.   

                                                                                                                Ademar Bogo