domingo, 28 de fevereiro de 2021

A POLÍTICA E AS VISÕES DE MUNDO


            O psicanalista Sigmund Freud, em 1933, ao escrever sobre “A questão de uma visão do mundo” procurou nos mostrar que cada visão tem seus fundamentos; os que mais se destacam são aqueles vinculados às religiões e, também em grande medida são inimigas da visão científica.

            Historicamente, na convivência social, a religião cumpre algumas funções que as demais áreas do conhecimento não cumpririam. Ela procura sustentar a forma de conhecimento abstrato como a de confirmar a origem do universo pela via criacionista; promete proteção divina, acalmando o medo dos perigos da vida, como também ensina a suportar os sofrimentos, justificando-os como sendo um merecimento, caso não sejam cumpridos os preceitos e a orientações a seguir.

            A competição entre religião e ciência para alguns setores da sociedade, sempre foi intensa. Aparentemente, mal comparando, a religião seria o meio de transporte e a ciência a oficina procurada apenas quando o veículo já não se sustenta em movimento. Naturalmente, como um proprietário de um meio de transporte recorre muito pouco à oficina, a influência para formar a sua visão de mundo, vem de outras áreas que não a ciência.

A concorrência entre os tipos de visões é bastante desvantajosa para a ciência e muitíssimo vantajosa para as religiões, isto porque, o consciente e também o inconsciente de cada pessoa são influenciados desde os primeiros meses de vida. A educação religiosa é feita no ambiente família é continuada nas igrejas. O contato do indivíduo com a ciência dar-se-á com restrições, no ensino fundamental e médio e, com um pouco mais de vigor, sem muito senso critico, na universidade, quando o indivíduo já está indo para o final da adolescência, considerando a idade natural do processo educativo.

            Na medida que passamos a observar o processo que forma as visão de mundo, vamos considerar que ela influencia, em muito, todas as relações que estabelecemos na vida, principalmente aquelas que se voltam para a sustentação econômica, participação política, envolvimento com a arte etc., mas, em grande medida, as religiões e as ciências polarizam as disputas, senão diretamente, mas na intimidade de cada juízo.

            Dentre os argumentos convincentes que influenciam para induzir à formação da hegemonia religiosa, está este que diz serem as “verdades religiosas” eternas e as “verdades científicas” temporárias. Seja praticante ou não, a pessoa comum, só conhece a “verdade religiosa” e dela não se separa jamais. Mesmo na universidade, algumas verdades científicas, esbarram nas crenças religiosas e sofrem rejeição. Desconstruir a visão religiosa ingênua é quase impossível quando não há um processo de evolução de outra visão de mundo em andamento.

            Por outro lado, a força que pode fazer diferença e, sem negar a religião como parte da consciência social, mas impondo-se para elevar o nível de consciência do ser social em direção a ciência é a política. Esse investimento poderia ser empreendido pela organização partidária no âmbito da formação política de seus membros, como também por meio da participação em diferentes formas associativas em busca do bem comum.

            No entanto, vivemos um contraposto: as religiões funcionam, mas os partidos não. Esse fenômeno não é gratuito e vem de um longo processo de preparação e intervenção imperialista.

            Sem prolongar as explicações, lembramos já em outros estudos, que desde a década de 1980, as forças intervencionistas dos Estados Unidos, com a desculpa de defenderem as democracias e os direitos humanos, equipararam ao grau de inimizade, os governos de oposição, a lutas revolucionárias, o narcotráfico e a teologia da libertação. De lá para cá, as seitas religiosas pentecostais tornaram-se grandes empresas de comunicação e passaram a participar efetivamente dos processos eleitorais, formando bancadas de parlamentares e participando diretamente dos governos que ajudaram eleger. O último intento a galga para chegar no topo, são os degrau do poder judiciário.

            Por um lado, esse fenômeno que alastrou-se por todas as periferias urbanas e assentamentos de trabalhadores rurais, passou a constituir a base para que a “visão de mundo” religiosa, passasse a ser usada pelo núcleo dominante negacionista da verdade científica, como mote para a revolta odiosa sustentadora das reinvindicações das reformas que retiram os direitos sociais e facilitam a entrega das riquezas naturais ao capital internacional. Por isso não resta dúvida que o “negacionismo” mais do que a ideologia do ódio é um projeto de poder.

            Por outro lado, o mesmo fenômeno construído sobre o consciente e o inconsciente de cada indivíduo, foi favorecido pelo recuo das forças de esquerda e revolucionárias que deixaram um grande vazio na arte de fazer disputas. Os acordos feitos nos países da América Latina para as guerrilhas deporem as armas e o envolvimento cada vez mais apaixonado nas disputas eleitorais, aproximou as forças de esquerda e de direita nas disputas ordeiras cada vez mais engessadas pela legislação eleitoral e, identificou as mesmas nas formas de fazer política apenas nos meios de comunicação. O resultado, depois de algumas décadas, tirando a extrema-direita, os eleitores se deparam com as mesmas “visões de mundo” voltadas para o mesmo objetivo que é o desenvolvimento do capitalismo.

            Do ponto de vista da análise filosófica, sempre tivemos, no campo da politica os quatro setores: a) extrema esquerda, formada pelas forças revolucionárias; b) esquerda reunida em torno da tática eleitoral; c) centro-direita, ligada ao capital produtivo e c) extrema- direita formada por parcelas da burguesia, pequena burguesia, setor da financeirização e de indivíduos de posição nazifascista que, não por serem forças hegemônicas abrigavam-se nas entranhas dos projetos das forças de direita.

            Com a derrocada do bloco socialista, o desarmamento das forças revolucionárias e a domesticação da esquerda, institucionalizando-a que, não somente abandonou a sua visão de mundo e de combate, como também assumiu a visão desenvolvimentista do capitalismo, é como se tivesse ficado em funcionamento apenas o pólo da direita. Livre das ameaças, a extrema-direita burguesa, aliada às seitas religiosas, forças armadas e parte da pequena burguesia, apresenta-se para fazer a própria História, enfrentando, quando preciso for, as próprias forças de direita.

            O fim do pólo de “visão de mundo socialista”, pouco importando se era correta ou não, trouxe para a humanidade este vazio, como se o porta voz da utopia socialista tivesse se suicidado e, o seu lugar dele fora ocupado, em parte, pelas seitas religiosas e, em outra parte, pelo individualismo profissionalizante que busca nas tecnologias as respostas para os dilemas do rebaixamento dos valores humanitários.

            Não resta dúvida que é necessário e urgente reconstruir a “visão de mundo socialista”. Sem ela não existe horizonte, mas apenas o ódio imediato. Para que a extrema-direita seja derrotada é necessário que ressurjam as forças revolucionárias e recoloquem a visão de mundo socialista na pauta do dia. Caso contrário, o que teremos serão arranjos eleitorais que manterão em evidência as visões religiosas e nazifascistas como forças legitimas de disputas, comportando-se como canais de cooptação das massas que cultuam as verdades eternas e o negacionismo das verdades científicas.

            As iniciativas populares que lutam para manterem-se ou busca formas de reorganização no campo e na cidade, desligadas da “visão de mundo socialista”, não conseguirão combater a visão das seitas religiosas que já se entranharam nessas bases e nem tampouco irradiar uma esperança de que o capitalismo deverá ser superado. E, por usa vez, enquanto os “partidos de esquerda” continuarem insistindo na tática puramente eleitoral, teremos cada vez menos esquerda e sempre mais defensores da ordem capitalista.

                                                                                   Ademar Bogo       

           

 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

O TERCEIRO REICH

 Calígula, na tradução do termo, “botinha”, apelido do  imperador romano Caio César, por desde pequeno gostar de usar esse calçado de tipo militar. Era possuidor de natureza extravagante e pervertida, tido historicamente como o mais cruel dentre os imperadores. Teve um governo curto. Reinou entre anos 37-41 quando foi assassinado pela própria guarda. Por não confiar bastante e ter restrições à fidelidade dos aliados, nomeou o próprio cavalo “Incitatus” como cônsul romano. Foi o terceiro imperador romano e teve um governo marcado por erros que provocaram diferentes crises, motivando-o a realizar reformas que levaram ao esvaziamento dos cofres públicos, obrigando-o, no final, pedir dinheiro ao povo para se manter. Na Alemanha também, o terceiro império (Reich), foi marcante e instalou-se entre os anos de 1933-1945 e foi governado por um verdadeiro carrasco, Adolfo Hitler.

No Brasil, no último triênio não tivemos um terceiro governo, mas três governos em um mesmo mandato que mistura muitas características dos reinados, romano e alemão. No entanto, invertendo a ordem, aqui nenhum cavalo foi nomeado ministro, mas muitos cavaleiros, calçados de “botinhas” integram a governança e não param de fazer extravagâncias, com leite condensado, chicletes e bacalhau; esvaziando os cofres públicos e praticarem perversões com o descaso da saúde pública.

Este governo, iniciado em 2018 no Brasil, sem abandonar a ideologia nazi-fascista, inaugura já o terceiro tipo. Primeiramente organizou-se para combater o comunismo, por se tratar, na ótica nazistóide de uma sombra ameaçadora de não deixar o “sol da mediocridade” brilhar e governar. Como as forças comunistas e socialistas foram desmanchadas como a gordura em brasas, nos governos anteriores e, por respeito ao princípio educativo de respeito à ordem em qualquer circunstância, as forças de oposição foram silenciadas; sem resistência, o “butinada” refluiu o ataque aos intelectuais, às universidades, a Paulo Freire e também, em certo grau, aos comunists.  

Em meio à crise econômica e com a chegada do exterior do coronavírus, foi preciso encontrar um novo inimigo, já que os comunistas não foram localizados e com o isolamento físico, as reações populares foram inibidas e reduzidas a alguns panelaços. No segundo governo, devido ao comprometimento do núcleo familiar e desavenças internas forjadas por não ter o controle sobre os órgãos repressivos, somado com o protagonismo dos governadores no combate a Covid-19, as instituições sustentadoras da ordem tornaram-se o alvo de perseguição. Os poderes Legislativo e Judiciário foram colocados na alça de mira com claras ameaças de serem abatidos. No fundo, como a causa para um golpe de Estado era pessoal criada por escândalos familiares, o presidente optou por mover algumas peças, desfazendo-se de aliados, retomou o controle dos focos ameaçadores e, também alguns governadores foram atingidos e recuaram.

No presente momento, inicia-se o terceiro mandato. Frustrado com as políticas neoliberais que não destravam os freios da economia, nem arrecadam dinheiro para o Estado,  inicia com o controle do Congresso Nacional, dando aos partidos aliados alguns cargos ambicionados e afagos às instâncias superiores do poder judiciário, mas volta-se para tentar controlar as empresas públicas produtoras de capital, contradizendo totalmente as diretrizes neoliberais, o que lhe valeu ser ele agora chamado de “comunista” pelo PSDB.

Os pilares estruturadores do terceiro governo, que durará provavelmente também um ano, embasam-se em três fundamentos: o controle do Congresso nacional, o incentivo ao agronegócio e a interferência nas empresas públicas, principalmente a Petrobrás. Nesta última a manobra pode favorecer os consumidores de petróleo, acalmar os caminhoneiros e, talvez contribuir para reeditar o auxílio emergencial às vítimas da pandemia, prevendo a manutenção de índices razoáveis de popularidade.

Esse conjunto de articulações permite dar aos aliados alguma satisfação e ajudar a diminuir os ataques inimigos. Para os deputados, cargos e liberação de emendas a cada votação; para o agronegócio, incentivos e armas para assegurarem as propriedades rurais; para a população em geral, a vacina, entendida agora como a única solução para amenizar a crise econômica e, para os miseráveis, o auxílio que garante a popularidade e cacifa o presidente como nome imbatível para a reeleição em 2022, ano que, provavelmente, se iniciará um quarto tipo de governo no mesmo mandato, com a volta dos ataques às instituições, às urnas eletrônicas com incentivo à desobediência à aceitação, se o resultado das urnas não for favorável ao partido militar.

Para as esquerdas, como um paciente sem senha para ser atendido, com essa tática legalista, sobra circular pelos ambientes a procura de um assento que ninguém quer ceder. Aparentemente está em pé, mas, como o paciente contaminado pelo vírus, está sem energia nem inspiração para sair fora do eixo do atendimento tradicional, por isso espera que alguém ou um acaso venha salvá-la.

Essa espera, porém, denuncia que a crença da relação entre “Esquerda” e “Estado” já não é mais nenhum mistério, isto porque, para chegar ao governo, a esquerda precisa aliar-se com as forças de direita, aliando-se torna-se força auxiliar para a implementação dos projetos dos capitalistas; se discordar, em nome da democracia, o governo é interrompido com golpes e rasteiras.

A situação política atual é semelhante à intuição de um paciente em dúvida se está contaminado pelo vírus ou não. Para saber se está, precisa ir ao hospital, mas, se não está, indo ao hospital, é quase certo que irá contaminar-se. Neste sentido, as forças de esquerda sem nada a oferecer nem a propor, defendem unicamente a volta do auxílio emergencial, mas sabem que, se for aprovado, quem ganhará com isso é o presidente da república e torna-se forte para disputar a reeleição.

Resta encontrar outras soluções. As ditaduras dão indicadores para as democracias agirem. Enquanto as primeiras enfrentam os descontentamentos com golpes dados pelas forças militares, as segundas enfrentam os desmandos com as forças populares. Por isso, se para as forças golpistas, as eleições só são válidas quando elas saem vencedoras, porque seriam as mesmas eleições vantajosas para os revolucionários quando vencem e são impedidos de governar?

O descompasso é tão grande que enquanto as forças de esquerda preparam-se para as próximas eleições, as massas preparam as mortalhas e enterram os seus mortos a espera de um auxílio que as compre para ficarem caladas. E não agem errado. Cumprem temporariamente com as suas obrigações. Nós que ainda comemos e escrevemos, pensamos como Jean-Jaques Rousseau quando declarou que: “quando um povo é obrigado a obedecer e o faz, age acertadamente; assim que pode sacudir esse jugo e o faz, age melhor ainda...”.

Torçamos para que as forças partidárias, movimentos sindicais e sociais se dêem conta que o povo agirá melhor ainda, mas só estará com ele quem achar que consciência é consciência e não uma mercadoria, e que, democracia não é votar e delegar o poder, mas assumi-lo, destruindo e superando todas as estruturas e mediações que asseguram a exploração, a desigualdade e as injustiças.

                                                           Ademar Bogo

   

 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

A MORTE MILITANTE


            Um indivíduo dado como morto é um defunto. Deve ser enterrado e pode ser esquecido ou não, depende da causa de sua morte. Se por homicídio, será lembrado nos tribunais; por acidente, na perícia; por genocídio, nas lutas. Temos, portanto, no tempo presente duas causas que nos motivo: a causa de morte e a causa política.

            O morto possui pelo menos duas funções sociais: a primeira, alertar que ele é você amanhã e, a segunda é permanecer entre os vivos pressionando os juízos para que a causa da morte não seja esquecida. É nessa combinação que a morte entra na militância e instiga os vivos a se posicionarem a favor das lembranças e não do esquecimento. Foi assim que o filósofo Karl Marx descobriu e escreveu no “18 Brumário” que, “a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”.

            Quando os mortos lembrados aparecem, tornam-se pesadelos para os inimigos vivos. Quem são as gerações mortas? São aquelas pertencentes aos indígenas massacrados desde o início da colonização; são as gerações primeiras dos escravizados mortos nos porões fétidos dos navios que traziam homens e mulheres para serem usadas, violentadas e mortas nas lavouras, nas senzalas, troncos e pelourinhos; são os imigrantes pobres, colonos, famintos deslocados para povoarem o território sem qualquer tipo de assistência. São gerações que sucederam gerações e trouxeram no corpo as marcas da crueldade civilizatória em busca de um futuro melhor; são as gerações asfixiadas pela pandemia, mortas sem oxigênio em regiões de florestas por desleixo e pouco caso das autoridades que já estão desautorizadas a governar.

            Como as gerações mortas voltam? Na vida de seus descendentes. As gerações atuais são conseqüências das causas que maltrataram as gerações passadas. Se tais causas não foram eliminadas, continuam a fazer vítimas. Nesse sentido, descendem das gerações mortas, os exploradores e os explorados.

            Os mortos anunciam que o futuro chegou. Os que estamos vivos e explorados, somos o resultado da História nacional, sem nunca termos conseguido edificar uma nação respeitada por si mesma. Somos as etnias miscigenadas que nunca conseguimos eliminar o preconceito, o racismo e o machismo. Somos os herdeiros e herdeiras da pobreza e da miséria evoluída ao lado da riqueza construída com as nossas mãos. Somos os democratas, anarquistas, socialistas, comunistas que nunca experimentamos a verdadeira democracia econômica, social e política. Somos aquilo que Marighella, Prestes, Florestan Fernandes e tantos outros disseram, que seríamos as” gerações futuras”, mas que pioramos em muito o nosso destino.

            A pergunta que nos fazem os mortos do passado e do presente é, de que valeu tanto esforço, dedicação e militância se as causas das mortes não se tornam uma causa política?

            Os mortos do passado e do presente nos pressionam. Eles nos alertam para lutarmos contra os mitos. Eles nos dizem que a globalização é a continuidade da colonização. Agora com legitimidade jurídica, saqueiam as riquezas e cobram em dinheiro o pagamento das dívidas públicas acumuladas e por isso o Estado é a instituição do capital. Eles nos alertam que não devemos temer as ditaduras porque elas sempre existiram travestidas de “democracia representativa”, que centraliza as decisões nas mãos de um presidente da república, de um um presidente do Congresso Nacional que, diante de 60 pedidos de impedimento nega o início do processo de cassação do chefe do executivo. A “democracia representativa” é uma composição por delegação que segue o lema: “Saiba pedir, que saberei não dar”.

            Os mortos pressionam os cérebros dos vivos porque nos querem vivos. Viver nesta época de presença da morte é lutar, denunciar, responsabilizar e exigir. Um país não é um presidente, um exército ou um sistema financeiro. Um país, acima de tudo é o seu povo. Se o poder dele emana é preciso que por ele também seja exercido. Representantes são servidores que servem enquanto servem; deixando de servir devem ser desalojados dos cargos.

            Os mortos também nos alertam que há saídas e permanências. Querer sair é enfrentar para superar as causas estruturais da morte. Querer permanecer é agarrar-se no “pau do galinheiro” eleitoral, para prometer mais hospitais, mais auxílio, mais emprego, mais escolas ... até que uma nova invenção de falsas pedaladas coloque tudo a perder, principalmente o tempo e a ilusões. O tempo já mostrou que o legal para os capitalistas é válido enquanto eles ganham, quando começam a perder, mudam as leis.

            Os mortos nos alertam que, se queremos o capitalismo devemos formar frentes amplas, disputar eleições e governar para todos, conforme prega a ordem estabelecida ou o “Estado Democrático de Direito”. Assim, reuniremos esforços para favorecer o capital: descobriremos mais reservas de petróleo, ampliaremos a produção agrícola, aqueceremos o mercado de massas, subsidiaremos as indústrias; manteremos as taxas de juros elevadas para agradar os Bancos, pagaremos em dia os juros da dívida pública e seremos respeitados no G20.

            Os mortos nos ensinam que, militância é feita com incômodo e perturbação. O pesadelo dos políticos é o povo revoltado. Apesar das dificuldades temos duas razões fundamentais para lutarmos: estamos vivos e somos amigos das gerações mortas. Eles nos dizem que o final é um começo. E, começar é não repetir. É não se iludir. É não se prostrar. É não errar. Mas,  o que vemos? A esquerda burocrática, sem organização nem mobilização, domesticada pelas práticas assistencialistas, exigindo a volta do auxilio emergencial. Sabem esses burocratas da política,  porque já estiveram no governo, que as massas votam em que lhe estende a mão. Veja a contradição, lançam um candidato a presidente, sem mobilização, enquanto articulam para que seja aprovado o auxílio emergencial. Quem elegerá então o próximo presidente da república?  

            Os mortos querem o paraíso, ao contrário dos que vivem e defendem o capitalismo, que querem o inferno. Como os mortos, militamos pelo paraíso que é o socialismo. Eles, desapegados de tudo, até do próprio corpo, nos mostram que o futuro será melhor se quisermos e planejamos o melhor.

            Os cúmplices dos governantes genocidas são genocidas também. Os cúmplices dos projetos burgueses, geradores de fome, pobreza e violência, são matadores também. Os mortos, os pobres os trabalhadores, nada temos a perder, como disse Marx, “mas um mundo a ganhar”. Só a luta enfrenta a morte e os matadores. É tempo de exigir rápida vacinação, para que se inicie o novo tempo da revolução.

                                                                                  Ademar Bogo

domingo, 24 de janeiro de 2021

OBRIGATORIEDADE E LUTA

        Vivemos em uma sociedade em permanente conflito entre a obrigatoriedade e o desrespeito. Se a primeira nos coage o segundo nos tenta a agirmos inversamente. Há, no entanto, pelo menos duas linhas de obrigações coercitivas: as que constam em leis e, as recomendações das normas morais.

            Freud ao tratar da civilização percebeu que há pessoas defensoras da mesma e outras que a hostilizam porque precisam renunciar aos próprios instintos em respeito às proibições postas. O raciocínio do autor de “O futuro de uma ilusão” sugere a imaginar que, se cada indivíduo pudesse tomar a mulher que quisesse como objeto sexual; matar sem hesitação o rival ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho que leva à pessoa amada, e se, também se pudesse tomar qualquer dos pertences de outro sem pedir licença, que sucessão de satisfações seria a vida!

             Por outro lado, se assim ocorre-se de imediato perceberíamos que todas as pessoas com as quais convivemos teriam os mesmos desejos e poderiam fazer conosco o mesmo feito por nós e, viver seria algo muito perigoso como já foi no passado quando a humanidade ainda vivia no “estado de natureza” e lá imperava a “guerra de todos contra todos”, conforme descreveu Thomas Hobbes.

            O filósofo Aristóteles não ignorou o tema da obrigatoriedade, mas a sua argumentação se ateve à classe dos “atos justos”; eles sempre estão em consonância com alguma virtude e também prescritos pelas leis. Aqui nos deparamos com mais uma restrição aos instintos, isto porque, não basta seguir a prescrição da lei, mas considerar que, se ela “não permite expressamente, ela proíbe”.

            Aristóteles ilustra a sua explicação com o suicídio. Poderíamos cada um de nós pensarmos dessa forma: ‘a lei pode me proibir de matar o meu semelhante, mas não pode proibir que eu mate a mim mesmo.’ A resposta já foi dada acima: se a lei não autoriza, mesmo sem expressar por escrito, ela proíbe. O raciocínio é bastante simples: se alguém viola a lei, causa voluntariamente um crime, porque ele conhece tanto a pessoa quanto o instrumento usado para causar o dano a outrem e por isso age injustamente.O mesmo princípio da voluntariedade é usado para avaliar um indivíduo que conhece a si mesmo, mas se apunhala atentando contra a própria vida. Como a lei não permite a prática desse ato, o sujeito age injustamente.

            Poderíamos argumentar: ‘mas o indivíduo é livre e pode fazer de sua vida o que bem quiser.’ Se assim argumentássemos estaríamos deixando de lado o principal elemento da análise. Qualquer indivíduo faz parte de uma coletividade e, mesmo querendo retirar-se dela, apunhalando-se, não age apenas contra si, mas também contra a sua comunidade. Quando isso ocorria na sociedade ateniense, sem a aprovação da lei e o consentimento da comunidade, o suicida deveria ser punido com a perda dos direitos civis. Esse princípio foi trazido para os códigos contemporâneos, conforme vemos no art. 12 do Código Civil brasileiro, quando diz que o morto poderá sofrer violação aos direitos à sua personalidade: “à honra, “à privacidade, à imagem”.

            Já temos o suficiente para relacionar a rejeição à vacina contra a obrigatoriedade de tomá-la. O desrespeito às medidas de segurança que levam o indivíduo a se expor e a contrair a Covid-19, significa, no primeiro aspecto, à prática de atos injustos pela contrariedade das orientações emitidas pelas autoridades da saúde. Conhecendo a si e ao vírus, o indivíduo também atenta contra si, como se fizesse uso de um punhal para tirar a própria vida; considerando que o indivíduo é membro de uma coletividade e convive com ela, comete outros atos injustos: atenta contra a coletividade, podendo repassar o vírus ou vir a ocupar um leito no hospital que poderia ser utilizado por outro paciente vitimado por outra doença e, eleva os gastos com o atendimento no sistema de saúde com uma enfermidade que poderia ter sido evitada.

            O negacionismo em relação à pandemia do coronavírus e a rejeição pela vacina, expressam o grau de ignorância existente na civilização capitalista e, representam, junto com outras, tentativas para destruí-la. Os atentados partem de cidadãos comuns como também de autoridades governamentais. Agem movidos pelos instintos e fazem a sociedade retroceder, não para o “estado de natureza”, mas para a barbárie que também se guia pela violência e a “guerra de todos contra todos”.

            A perda dos direitos civis do suicida defendida por Aristóteles, combinada com a “perda dos direitos do morto”, constante do Código Civil brasileiro, devem ser consideradas para alertar os vivos, que os direitos individuais do cidadão não garantem a liberdade de atentar contra a vida alheia e, se a lei não obriga a todos a tomar a vacina, ela também não permite expressamente a não tomá-la, logo, ela proíbe de não tomar, portanto, todos os cidadãos que vivem em sociedade são obrigados a tomá-la.

            Qualquer suicida, seja por qualquer motivo, atenta contra a sociedade. Primeiro, ele é parte desse coletivo que o incluiu quando nasceu, logo, ao se retirar, por um ato egoísta, comete uma injustiça. Por outro lado, considerando o número de habitantes, a sociedade e o Estado investiram em infra-estrutura e em políticas públicas, no caso da saúde no Sistema Único de Saúde para atender a todos. Nesse sentido, o negacionista ao negar a realidade para esconder a verdade, comete dois crimes: o primeiro de suicídio por atentar contra a própria vida e, o segundo, por vir contrair a doença, é também um homicida, por contaminar propositalmente mais de uma centena de pessoas e muitas delas evoluem para óbito.

            A civilização guiada pela ciência e orientada pelas leis constitucionais, juntamente com as normas morais, por mais que as contradições agravem os conflitos e destruam os laços fraternais na convivência social, precisa se impor sobre as reações negacionistas e destrutivas, empregando medidas que restrinjam as vontades e controlem os instintos dos suicidas e dos homicidas, impingindo a eles, ainda vivos, as medidas da violação dos direitos do morto inerentes à sua personalidade – direito à honra, à privacidade, à imagem e, podemos acrescentar à liberdade de fequentar lugares aonde circulam pessoas; ao direito de serem atendidos gratuitamente no SUS caso contraiam o vírus e precisem de atendimento após o termino da vacinação; o direito a tirarem passaporte para evitar que circulem em comunidades formadas por outras culturas não negacionistas; o direito de matricularem-se em escolas e universidades para assistirem aulas presenciais; mas, principalmente, impedir que governem o país pois, como se movem por instintos e não por consciência; os princípios éticos são ignorados e tudo o que aponta para  o bem-comum é desconsiderado.  

            O divisionismo negacionista buscou no vácuo do enfraquecimento da luta de classes, misturar os sujeitos para obscurecer as contradições econômicas, sociais e políticas e, como isso a minoria dominante adestra parcelas das massas populares e as põem a seu favor.

            O caminho é a recolocação no cenário mundial do objetivo da superação do capitalismo somente alcançado se na utopia do horizonte também for colocada para ser construída a transição para o socialismo, caso contrário, as disputas pontuais servem apenas para que os capitalistas ganhem tempo e rebaixem ainda mais os níveis de entendimento, do bom senso e da combatividade dos trabalhadores. Só a luta salva os bons avanços civilizatórios.

                                                                                  Ademar Bogo

                                               Autor do livro: Organização política e política de quadros.

                 

domingo, 17 de janeiro de 2021

CONTRA A TIRANIA DA ASFIXIA

            A humanidade tem conhecimento do conceito de tirania, desde à Grécia antiga, principalmente quando ocorreu a “Guerra do Peloponeso” pela reunião dos Estados para destruir a República ateniense e instalar, no ano de 404 a. C. o ‘Governo dos 30 tiranos”.

            A tirania, às vezes, confunde-se com um regime totalitário, quando um poder ilimitado é imposto sobre a população e todos os direitos e garantias são suspensas. Mas podemos encontrar práticas tirânicas em qualquer outro regime, principalmente nesses em que a democracia se reduz à participação no processo eleitoral.

            John Locke (1632-1704) o filósofo contratualista Inglês, escreveu um capítulo no livro “Segundo tratado sobre o governo civil”, mostrando que a tirania se instala, “quando o governante, mesmo legítimo, não governa de acordo com a lei, mas segundo a sua vontade; e suas ordens e seus atos não visam à preservação das propriedades do povo que o elegeu, mas em vez disso, à satisfação de sua própria ambição, vingança, cobiça, ou qualquer outro desejo irregular”. Ou seja, a tirania está mais no comportamento do governante do que na oficialidade de um regime.

            Tirano é, portanto, um governante que abusa do poder, ignora os problemas do povo; mente para justificar os seus atos; impõe ideias para serem repetidas como verdades; ameaça quem se opõe às suas vontades; transgride a lei para fazer o mal e, acima de tudo, se compraz ao ver a desgraça alheia.

            As tiranias contemporâneas, para além dos golpes de Estado e as instalações dos regimes totalitários, têm a última edição por volta de 1970 com a aprovação da globalização e dos modelos administrativos neoliberais. Com esses dois recursos o imperialismo econômico com apoio político, militar e jurídico ganhou autorização para impor aos países dependentes, políticas que obrigam os governos locais a colocarem o Estado a serviço dessa ordem interventora.

            Vista desse modo a tirania econômica determina o que cada nação deve fazer para satisfazer as necessidades e manutenção do crescimento do grande capital implementando o receituário elaborado como sendo lições de uma cartilha única. Sabemos como funcionam os acordos das dívidas externas e internas e a imposição do controle dos gastos para garantir esses pagamentos.

            Mas ocorre que, em certos momentos, a tirania pode ficar ainda pior e expandir-se da dominação econômica para outras formas de dominação inventadas pelo próprio tirano que, para agradar os tiranos superiores, desfecha declarações afetuosas e aproveita para manifestar os seus instintos cruéis contra a população indefesa.

            A situação em que vivemos hoje no Brasil é o resultado da asfixia da soberania do país que perdeu a sua capacidade respiratória como nação e, essa política atingiu agora os cidadãos vitimas do coronavírus que não encontram um leito para internação com um cilindro de oxigênio à disposição.

            A crueldade tirânica imposta ao sistema de saúde, incluindo a redução de verbas e a estruturação física, e que, na atualidade leva as pessoas à morte mesmo estando nos hospitais, sem oxigênio e sem médicos, iniciou em 14 de Novembro de 2018 quando 8.332 médicos cubanos que prestavam serviço ao sistema público de saúde foram obrigados a retornar a Cuba, devido à posição do presidente eleito contra o socialismo.

            Numa outra frente do desdém e da supremacia ignorante, reveladora da postura tirânica e perversa do governante, veio junto com a disseminação do vírus a partir de março de 2019, quando a orientação indicava que a melhor maneira para evitar a proliferação da doença e o colapso no sistema de saúde era o isolamento físico. Não satisfeito, o tirano esperneou, contradisse a ciência e, não só receitou a cloroquina sem ter autoridade para isso, como também autorizou a fabricação do produto em grande quantidade. E, para agravar ainda mais, enquanto os governantes de outros países interagiam com os laboratórios em busca de uma vacina, aqui se fazia pouco caso, com uma carga de preconceito contra a China, a Rússia, o uso da máscara e o isolamento.

            O que temos agora, no pico da Pandemia? Um tirano feliz porque o sofrimento humano aumenta descontroladamente e, pelos seus méritos, nenhuma dose de vacina existe à disposição para iniciar a imunização da população. Completa tudo isso, o caos na economia e o aumento da miséria por falta de competência e boa vontade para prolongar o auxilio emergencial para que as camadas mais pobres possam, pelo menos, comprar alimentos.

            A situação é caótica e não tem, pela via da tirania, perspectiva de melhorar. Muito pelo contrário, os indicadores apontam que a economia não terá poder de recuperação no curto prazo, e a política, com o fortalecimento das milícias, juntamente com a cooptação das policiais estaduais e a presença das forças armadas no governo federal, é claro e evidente que a tirania avulsa avançará para um regime ditatorial tirânico, engendrado nas próprias concepções perversas dos ocupantes do atual governo.

            A defesa da vida e da democracia, ainda numa perspectiva capitalista, começa pela defesa do direito à internação, a exigência da vacina pública e a volta do auxilio emergencial, combinando com a luta pela deposição do tirano para que ele não se beneficie demagogicamente dos resultados de algumas medidas que, obrigatoriamente terá de adotar.

    Neste país, a fome, a violência, os acidentes e as doenças já matavam mais de 1,3 milhão de pessoas por ano, esse número será ainda maior agora, pela falta de oxigênio.Considerando que asfixia não é doença, mas fruto da posição de um governo tirano, é homicídio doloso, porque o descaso representa intenção de matar.  

            A dominação tirânica tem um só caminho, o uso da força. A luta contra ela tem o caminho político, jurídico e social que podem ser combinados e articulados, tornando um processo com várias frentes, mas é preciso agir antes que a força amordace as bocas e as armas impeçam os movimentos dos corpos. Contra o poder tirânico e das armas, a força da solidariedade e da luta.

                                                                                                                     Ademar Bogo

              

domingo, 10 de janeiro de 2021

A VOLTA DA REVOLTA DA VACINA

    Tivemos no Brasil, no ano de 1904, uma revolta significativa no Rio de Janeiro contra a obrigatoriedade da vacina responsável para combater a varíola e a febre amarela. Em grande medida essa resistência ocorreu porque o governo de Rodrigues Alves preocupado com a epidemia ordenou que a limpeza púbica removesse inclusive as moradias desordenadas e, a população mais pobre fosse obrigada a retirar-se das proximidades do centro da cidade. Insuflada por políticos, imprensa e militares que tinham como objetivo empreender um golpe de Estado, essa população mobilizou-se contra a vacina e, entre os dias 10 a 16 de novembro promoveu grandes mobilizações, tendo como vitória a mudança da lei, que tornou a vacina não obrigatória.

            Essa intervenção contra a população mostra, desde sempre, que Estado no capitalismo tem a função primordial de ser coercitivo. Segundo Max Weber o Estado funciona como uma comunidade legitima que reinvindica o monopólio da força para usá-la em um determinado território; sendo assim, ele é a única fonte do Direito que pode fazer uso da violência para sustentar a ordem social formada por homens que dominam outros homens.

Por mais que a civilização tenha evoluído, as velhas diretrizes filosóficas e sociológicas permanecem válidas. Auguste Conte, criador do positivismo é uma referência remanescente sustentada por dois fundamentos estruturantes, “dinâmico e estático” em vistas de funcionalizar o Estado e a economia, cuja simplificação converteu-se no comprometimento do lema: “ordem e progresso”, parâmetros que enraizaram o liberalismo como o espírito movimentador do capital, encharcado de crises constantes, mas exigente com a estabilidade.

            A estabilidade beneficia os burgueses e a classe média, por fazer fluir e realizar os seus interesses na ordem social “harmonizada”. Evidentemente, junto com a ordem vem o progresso favorecedor da acumulação da renda e da riqueza. Por outro lado, a instabilidade, pode ser impulsionada pelos dois lados. Quando provocada pelas massas populares, a classe dominante exige a intervenção do Estado e se empenha em produzir novas leis coercitivas; quando impulsionada pela própria classe dominante ela exige a colaboração do estado e põe abaixo todas as leis que garantam os direitos sociais. Isso mostra que o Estado nunca está a favor das grandes massas exploradas.

            Conhecemos um tradicional tipo de instabilidade política criado pelas lutas sociais. De um dia para outro a classe dominante sente-se pressionada e, imediatamente recorre ao Estado para que ele atue no sentido de reparar a ordem. Nesse sentido, costumeiramente, no capitalismo, a manutenção da ordem, na ótica dominante, é fazer o Estado agir contra os pobres mobilizados e organizados para que não coloquem em risco a propriedade privada. Diante disso, as expressões intelectuais de natureza socialista consideram que o Estado é tão inimigo dos trabalhadores quanto o capital e, ambos, cada qual segundo as circunstâncias, precisam ser superados.

            Por outro lado, em situações adversas, mesmo que temporárias, quando a ordem está sendo ameaçada pela própria classe dominante e sua auxiliar, a classe média, as massas populares e trabalhadoras em geral, passam a perder os direitos, antes garantidos e a desordem instalada traz, não apenas insegurança aos mais pobres, como também, aumenta a possibilidade de aniquilamento e extermínio de grandes contingentes populacionais. Nesses momentos, somente a mobilização e a reorganização coletiva podem obrigar os governantes restabelecer a ordem, impedir o acesso aos privilégios dos mais abastados e assegurar as garantias de vida e saúde dos mais pobres.

            Toda essa introdução é para compreendermos o imbróglio que enfrentaremos em relação à vacinação contra o Covid -19, em nosso caso, propositalmente em atraso, indicando que, no ano de 2021, não serão atendidas todas as pessoas do país, principalmente se for oficializado o agravante de tornar a vacina uma mercadoria vendida nas clinicas particulares como está sendo a venda dos testes de contaminação.

Em primeiro lugar é preciso deixar claro que a vacina é de extrema importância para toda a população, mas, principalmente para as massas populares e trabalhadoras que estão em situação de vulnerabilidade social. Por isso, a luta é para que a vacina seja gratuita e chegue a todos os lugares e em tempo igual também nos interiores do país.

            Em segundo lugar, a vacina como um bem de uso social não pode ser transformada em uma mercadoria, isto porque, sendo uma necessidade coletiva ela deve ser garantida pelos recursos públicos e, a iniciativa privada deve ser proibida de transformar a doença em um grande negócio; poderá colaborar se se dispuser distribuir e aplicar a vacina gratuitamente para a população em geral, por isso, a vacina não pode ser paga por nenhum cidadão e, para o acesso, todos devem seguir e respeitar as faixas de prioridade.

            A justificativa da primeira hipótese é que, se a vacina for pública e a sua aplicação for feita segundo os critérios de faixas, descartam-se os critérios de classe e de condição social para recebê-la, logo, a pressão para que a vacinação seja massiva e aplicada no mais curto espaço de tempo possível, virá de todos os segmentos sociais que acreditam ser o imunizante a forma mais eficiente de enfrentar e debelar a pandemia.

            A negação da justificativa para a venda da vacina por intermédio da iniciativa privada, apega-se à negação de direitos, principalmente para as massas populares pobres, significará liberar que o Estado se comprometa em garantir a vida dos mais abastados e, principalmente, dessa parcela governista que se nega usar máscara e não respeita as normas de isolamento. Essa postura desordenadora, anti-social, anti-humanitária, anti-ética e de consciência pseudo fascista, buscará imunizar-se nas clinicas particulares e alavancará o movimento de protesto contra o distanciamento físico, atraindo para essa prática as pessoas ingênuas e indefesas. Como o governo federal é adepto do não cumprimento de medidas protetoras, não coagirá nem reprimirá essas iniciativas, tornando-se conivente com a desordem e com a política direcionada para a continuação do extermínio da população. Com um agravante, essa parcela ignorante e desvairada, adepta da política do armamento da população que, não sendo coagida, passará a fazer uso também dessa alternativa para intimidar a reação da popular contra o governo e a mercantilização da vacina.

            Na medida em que a política de vacinação do governo se demonstrar inócua, retardada e insuficiente e o Estado não assegurar as garantias de vida da população mais pobre, por estar assegurando a vacinação da classe dominante nas clinicas particulares, a reação deve ser em defesa da vacinação pública ao mesmo tempo que se lute para impedir que ela seja oferecida como mercadoria.

            A revolta da vacina, agora a favor da sua aplicação, agirá contra as clinicas privadas, obrigando-as a prestarem serviço voluntário e seguirem as prioridades da imunização estabelecida pelo poder público. Se já de início o governo liberar para iniciativa privada para comercializar a vacina, grande parte da população, principalmente a mais pobre, ficará sem ser imunizada ou será muito tardiamente, fazendo com que a tragédia da contaminação eleve também as estatísticas das mortes causadas pelo Covid-19.

                O ano começa com esse desafio de obrigar o governo e o Estado a intervirem e coagirem a desordem que favorece os privilegiados. A vacina deve ser urgente, massiva, gratuita e ser controlada e distribuída pelo poder público. Ao contrário de 1904, as grandes massas hoje são favoráveis à vacina e, junto com a defesa da mesma, devemos incluir a defesa dos direitos sociais, a volta do auxílio emergencial e todas as políticas públicas que favoreçam os trabalhadores e populações mais pobres.

                                                                                                             Ademar Bogo

domingo, 3 de janeiro de 2021

DESFAZER-SE DAS TROUXAS


E eis que findamos a segunda década do século 21. Elas representam a sequência de um processo político iniciado nas duas décadas finais do século 20, quando as lutas sociais e políticas ganharam forma e conteúdo próprio, deixando para trás: o regime totalitário, implantado pelo golpe militar de 1964, as experiências dos partidos comunistas e os métodos de confronto por meio da luta armada para ingressar e sustentar o processo que durou quatro décadas centrado nas lutas reinvindicatórias e nas disputas eleitorais.   

            O feito histórico de unificar todas as forças sindicais, populares, religiosas, estudantis, artística, intelectuais e partidárias para lutar contra a ditadura militar, eleger democraticamente o presidente da república e escrever a nova Constituição Federal, garantiu a superação dos limites das formas anteriores de fazer política e inovou no envolvimento das massas como sujeito coletivo, em busca das garantias, vistas como “direitos sociais”.

            O acerto na aplicação das táticas reinvindicatórias durante os últimos quarenta anos é indiscutível; no entanto, aquilo que parecia ser a maior das virtudes, com o tempo veio a ser o grande defeito. Quem viveu na década de 1980 tem na lembrança que, naquela época praticamente tudo convergia para o institucional com as exigências voltadas para a aplicação das leis existentes ou para serem elaboradas novas leis, dentre elas a própria Constituição Federal. As massas sensíveis às demandas conjunturais atendiam as convocações e se somavam às grandes mobilizações. As categorias específicas assumiam tarefas de enfrentamento por meio da realização de greves, ocupações de terra, no campo e na cidade; saques coletivos na região nordeste que era afetada pela seca; lutas por educação, saúde etc. As ações fluíam coordenadas ou espontaneamente. Grupos localizados, movimentos, sindicatos e entidades em geral, em busca de solução dos problemas sociais, rumavam na mesma direção de encerrá-las nas mesas de negociações com os patrões, governadores, autoridades e instituições estatais.

            O fortalecimento da estratégia da “ação para a negociação” para garantir os resultados, incentivava novas mobilizações com um número ainda maior de integrantes. Esse aprendizado tático de “atacar e negociar” forjou a consciência dos dirigentes de todas as organizações de natureza sindical, popular e partidária, que retomaram de comum acordo o clássico princípio do “contrato social” firmado entre o Estado e as forças sociais mobilizadas.

            A estratégia da “ação para a negociação” cumpria duas funções: a primeira levava a ação a um desfecho quase sempre vitorioso e, a segunda, legitimava a existência do movimento ou entidade organizadora de cada ação. Por outro lado, respeitando o princípio contratualista, os proprietários privados das fábricas e das terras, os governantes e o próprio Estado, também ganhavam reconhecimento e afirmação superior por receberem as forças que reinvindicavam soluções, isto porque, as audiências fluíam segundo os critérios jurídicos e políticos da ordem dominante.

O uso das forças policiais e a inoperância dos governantes reconhecidos como representantes das classes dominantes, despertou, já no início da década de 1980, a motivação das forças sociais mobilizadas a tomar os governos, na ilusão de que os “contratos” pudessem ser firmados entre as duas partes, com um grau mais acentuado de amizade e tolerância. Esse parâmetro complementador da estratégia reinvindicatória, perpassou as quatro décadas unificando os objetivos das ações sindicais, populares e partidárias. O discurso da “moralização da administração pública”, o “fortalecimento do estado mediante o combate ao neoliberalismo” e a “participação ativa nas eleições em todos os níveis” atrelou-se ao discurso da “distribuição de renda”, do “emprego”, “moradia”, “educação pública de qualidade” etc. Ou seja, a identidade e a complementariedade das proposições, populares, sindicais e partidárias, adequaram as reações ao limite da ordem capitalista à mesma perspectiva programática do modelo desenvolvimentista capaz de, ao mesmo tempo, beneficiar os mais ricos, garantindo-lhes os tradicionais privilégios e lucros, como também os mais pobres, por meio das políticas públicas.

            Conscientes devemos estar desse processo que durou quatro décadas, numa ascensão, em grande medida, sustentada pela pressão social reinvindicatória que levou à vitória a estratégia respeitosa do limite da legalidade, por isso não contribuiu para que os trabalhadores cumprissem com o papel histórico, como foi o papel da burguesia na transição para o capitalismo quando impulsionou as revoluções: industrial, francesa e liberais na Europa, para afirmar o sistema e o Estado capitalista.

            Em fim, após quatro décadas é hora de observar que a relação histórica descrita pelo filósofo Hegel entre o “senhor e o escravo” não foi superada nos meandros da política, isto porque, da existência de um depende a existência e o reconhecimento do outro. Considerando que em certos momentos os escravos puderam elevar a pressão sobre o senhor, a concordância em manter a estrutura de dominação permaneceu a mesma. Os senhores mantiveram a supremacia colocando-se a favor e alguns aspectos contra a ordem, para impor as medidas coercitivas de controle das forças organizadas e das massas populares.

            Para que os trabalhadores cumpram com o seu papel histórico, considerando o processo construído em quatro décadas, firmado basicamente sobre a estratégia da negociação com tendência à institucionalização das relações políticas, é preciso, como disse Mao Tse-tung em 1944, para os integrantes do partido, “que nos desfaçamos de todas as trouxas”. Segundo ele, “para conquistar novas vitórias devemos apelar para que os quadros se desembarecem das trouxas e ponham a máquina a andar. “Desembararçar-se das trouxas” significa libertar o espírito daquilo que o atravanca”.

            As “trouxas” podem ser entendidas como sendo as coisas desnecessárias ou pouco úteis trazidas ao longo do tempo, mas que impedem os movimentos ou as tomadas de decisões por causa do peso que elas acarretam. A título de apreciação vejamos algumas, pois, se levamos a sério, em quarenta anos de práticas corretas e equivocadas, há muitas coisas desnecessárias que precisamos deixar para trás.

            Se levarmos em conta que nos últimos quarenta anos a sociedade capitalista se polarizou nos extremos formando duas minorias: os capitalistas e os trabalhadores categorizados conforme preza a tradição, veremos que, no meio dos dois pólos está a grande maioria da população, desorganizada e deserdada das formas tradicionais sindicais e dos movimentos populares renomados. É importante compreender que a força de ação e de transformação está fora dessas formas que implementaram o princípio da “democracia representativa parlamentar” também na representação social e de classe. As entidades tradicionais burocratizadas tornaram-se redutos corporativos e se ocupam em carregar suas próprias trouxas, sem considerar ou considerando apenas para fins eleitorais, os grandes contingentes de massa inutilizados e vinculados à política oficial pelos créditos emergenciais e bolsas que garantem a eleição e reeleição dos governantes, isto porque, para as massas necessitadas, o benefício é um favor que deve ser retribuído com o voto e o último que beneficia ganha o seu respeito.

            Por outro lado, a militância mais consciente formada durante as últimas quatro décadas, principalmente, a mais recente que chegou a ser denominada de “lutadores e lutadoras do povo” não está ligada oficialmente a nenhum partido político, mas os carregam como sendo velhas trouxas, seguindo e assumindo para si as agendas alienadoras dos mesmos, seja no que diz respeito ao calendário eleitoral; na defesa das pautas que remetem à rotina parlamentar; na reprodução dos discursos extraídos das disputas nos julgamentos tendenciosos do poder judiciário ou nas disputas polarizadas na eleição do presidente do Congresso Nacional, como está ocorrendo, como se fossem os dilemas mais expressivos da sociedade.

            Desfazer-se das trouxas, não deverá significar jogar tudo fora para ficar apenas com a roupa do corpo, mas é importante considerar aquilo que não deixa pôr a “máquina da luta de classes” para andar, e que, por causa da “trouxa” gastamos toda a energia para fazer discursos sem sujeitos organizados. Vamos a um exemplo: com o fim do crédito emergencial os partidos e a militância acoplada, ao invés de propor mobilizar e organizar os necessitados, procura costurar pelo alto, para obrigar o governo a voltar a garantir o auxílio. Essa prática das bolsas, abonos e auxílios etc., têm servido desde a década de 1990 para eleger e reeleger presidentes da república. Logo, a “trouxa” do auxílio oferecido e negociado entre os poderes executivo e legislativo, deu ao governo, no início da pandemia, credibilidade e aprovação. Desse modo, quem supostamente se coloca contra a reeleição do atual presidente, mas por outro lado insiste em manter o auxílio por meio de acordos no Congresso Nacional sem que haja o mínimo de esforço para organizar os necessitados, não estaria colaborativamente em campanha para reelegê-lo?

            É nesse sentido que as novas gerações de militantes precisam decidir se assume para si as “trouxas’ do processo anterior ou iniciam uma nova história. Quais são as trouxas do processo anterior? Vejamos algumas: a) partidos políticos institucionalizados que miram os governos e agem para afirmar o Estado e o capital e tornam reféns de suas táticas a militância social;b) a estratégica da “ação para a negociação” sem uma perspectiva política para enfraquecer e derrotar os inimigos que ao dificultarem as conquistas esvaziam e derrotam os movimentos; c) atrelar-se aos governos e ao Estado com o objetivo de garantir a auto sustentação econômica e, por meio do  dinheiro público garantir o funcionamento das estruturas burocráticas; d) considerar que as plataformas de governo como sendo o programa estratégico de superação do capitalismo quando na verdade todos os governos estão a serviço da ordem capitalista; e) confiar que a formação das frentes amplas ultrapassam os limites da imposição impostos pelo “Estado de direito” e se o Estado capitalista for governado por pessoas amigas ele pode ser útil aos trabalhadores.

Essas trouxas começarão a ficar pelo caminho, no momento em que a revindincação for substituída pela imposição e a democracia representativa for substituída pela presença da democracia popular.     

                                                                                                                    Ademar Bogo

                                                                                                        Autor do livro: Organização                                                                                                                              politica e politica de quadros.