domingo, 10 de fevereiro de 2019

A VOLTA DO UTILITARISMO



            O filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1832), por contestar profundamente os “direitos naturais”, fundou uma doutrina conhecida como “utilitarista”, assegurando-a nas leis e na moral. Com o intuito de maximizar a felicidade empenhou-se em formular soluções para garantir a supremacia do prazer sobre a dor, em qualquer aspecto da convivência social.
            Para o filósofo, o conceito do que é certo ou errado nos é dado pelos sentimentos de prazer e dor. São eles quem nos governam e é evidente que gostamos mais de um e menos do outro. Acontece que, como somos governados também por autoridades, a maximização da felicidade depende das decisões que elas tomam.
            O ponto de partida do raciocínio desse pensador, para alcançar a felicidade, afirmou-se sobre a pergunta: “Somando todos os benefícios dessa diretriz e subtraindo todos os custos, ela produzirá mais felicidade do que outra qualquer decisão?”
             Para fazer a população acreditar na justeza da sua descoberta, tomou como exemplo a teoria da alavanca de Arquimedes, que havia expressado na Antiga Grécia, após terem transportado os barcos do estaleiro para o oceano: “Se me derem um ponto de apoio eu moverei a terra”; Bentham, também perguntou, se “era possível um homem mover a terra?” Após responder que “sim”, acrescentou: “Mas antes precisa encontrar outra terra como apoio”. Nesse sentido adaptou: no lugar da terra pôs os problemas sociais e, para alcançar a máxima felicidade, o ponto de apoio para movê-los colocou “o princípio da utilidade”.
            Bentham formulou vários projetos com o objetivo de tornar as leis mais duras e eficientes e denominou um deles de “Panopticon”, que significa, em português, “ver sem ser visto”. Na verdade, consistiu na construção de uma torre central em cada presídio, para supervisionar os detentos sem que eles percebessem. Cada torre foi apropriada por um empresário que passou a gerenciá-la para obter lucro com o trabalho dos presos.
            Fora dos presídios, o filósofo, em nome da felicidade máxima, voltou-se para os pobres e mendigos. O seu plano foi o de reduzir ao máximo a quantidade dos mesmos por meio do impedimento da convivência social. O entendimento era que, a presença de pobres e mendigos nas ruas reduzia a felicidade dos transeuntes, porque, o contato com eles produzia um sentimento de dor e repugnância. Sendo assim, propôs a remoção de todos colocando-os em um lugar de confinamento vigiados pelo sistema do panopticon.
            O autor de tamanha crueldade justificava as suas propostas observando o lado dos pobres também. Interrogava-se se os pobres e mendigos não seriam também felizes com o próprio modo de vida? Achava que sim, mas, por outro lado, eles faziam outras pessoas infelizes, porque se sentiam mal ao vê-los. Sendo assim, qualquer cidadão “incomodado” com um pobre na rua, poderia prendê-lo e levá-lo ao “abrigo”que receberia uma contribuição de 20 xelins do Estado pelo serviço prestado.
            De certo que não precisamos dizer mais nada para vincular essa teoria legalista e moralizante aos dias de hoje. No entanto, por exigência da conclusão deste raciocínio faremos algumas relações.
            Iniciamos pela “teoria da alavanca”. Desde o governo passado ouvimos falar que, no poder executivo estão procurando “um ponto de apoio” para mover a montanha do déficit público e fixam os olhos na previdência social. Para eles, ali está o ponto de apoio que leva à felicidade de todos. Fazem as contas, somam todos os benefícios para os mais ricos, políticos e militares e subtraem os custos com os mais pobres, uns ficam com o prazer enquanto que a maioria da população fica com a dor. Isto ocorreu também na Antiga Roma nos três primeiros séculos de nossa era, quanto os cristãos presos eram devorados pelos leões. A nobreza nas arquibancadas do Coliseu se divertia e alcançava o máximo de prazer.
            Por outro lado, veja que há o outro argumento de Bentham que, exigia para mover a terra, de “outra terra” como ponto de apoio. A outra terra hoje pode ser o planeta Marte. Ele se apresenta como as arquibancadas do Coliseu de onde aqueles que preparam para si o máximo do prazer, assistirão o extermínio dos pobres nesta terra de dor em que vivemos. É por esta razão que liberam a devastação das florestas, a poluição e contaminação do ambiente, causando o crescimento da desertificação, o aumento da fome, da miséria e da violência. Ou seja, não falam em dívida pública, em privilégios de políticos, juízes, militares, banqueiros, capitalistas em geral. É claro que estes já alcançaram a felicidade é preciso eliminar aqueles que sentem dor para não causar-lhes mal-estar.
            Para defenderem a maximização da felicidade para a minoria do planeta, utilizam um discurso moralista e aprovam leis que substituem outras leis e criminalizam inocentes ou estudiosos que defendem o contrário, dizendo que o aquecimento global “é invenção dos marxistas”.
            Entremos no aspecto da aprovação de leis mais rígidas e a vigilância "panóptica" por meio da tecnologia e o direcionamento das investigações. O espectro dos preceitos morais servem de fundamento para a formulação das leis, supostamente feitas para todos. No entanto, elas visam abarrotar os presídios que logo se tornarão empresas de produção capitalista, com a força de trabalho escrava, sem previdência, férias,décimo terceiro etc.
            Não esqueçamos também que a terra toda já imita os presídios com vigilância "panóptica". Por meio de satélites e tecnologias avançadas, nos veem sem que possamos vê-los. Sabem o que compramos, quanto ganhamos, quanto gastamos, que operação financeiras fazemos, com quem falamos e o que dizemos.
            Agrava ainda mais a situação dos pobres, com a aprovação de leis, como esta que visa assegurar a felicidade por meio da liberação da posse de armas e, a possibilidade do uso do argumento da “legitima defesa” para os policiais que matam. Essa prerrogativa vem de encontro ao slogam da campanha eleitoral passada, quando acentuava que, “Bandido bom é bandido morto”. Se, vivo, nenhum bandido é bom, depois de morto já é tarde para dizer que entre eles foram mortos inocentes. De certo modo ainda falta um passo para que o “utilitarismo” de hoje se iguale ao de ontem, que é o pagamento pelas prisões e assassinatos com R$ 20,00 por unidade. Já alcançamos o grau da “delação premiada”, cujo pagamento é a redução da pena e a recompensa para quem denunciar indivíduos foragidos. Falta muito pouco para, em nome da felicidade e do maior prazer, os “bons” eliminem com dor os que são malvisto,s pois, a disseminação das armas apontam para isto.
            Também, enquanto não exterminam imediatamente, querem reduzir os riscos do contato com os pobres, negros e índios, nos shoppings, universidades, aviões, elevadores etc. Para a minoria de viventes, enquanto não se mudam para Marte, isto causa repugnância e diminui o teor da felicidade que pretendem sentir. Então, o governo contribui com o convencimento de que “a universidade não é para todos” e que, “a formação técnica é suficiente para os pobres”. Por essa razão, a própria família pode fazer de sua casa uma escola.
É claro que, para aqueles que pretendem maximizar a felicidade, haverá universidade com laboratórios sofisticados e a presença das empresas que usarão do Estado para preparar os seus profissionais. Para estes, a educação em casa é prejuízo, porque, certamente se dão conta que o pai e a mãe, quando sabem bem matemática, não dominam totalmente, português, química, física, filosofia, história etc. Podem nos dizer que os pais poderão estudar e aprender para ensinar. Poderão, mas terão que inventar um dia com o dobro de horas, porque as de então já estão comprometidas.
            Por essa exposição compreendemos que eles “não são fascistas” como foram classificados. Eles são mais perversos. São utilitaristas que vincularam as leis à moral, em vista de possibilitarem, em tempos de profunda crise do capitalismo, o máximo de prazer para a minoria enquanto jogam à própria sorte as grandes maiorias.
            O princípio dialético nos mostra que, para cada ação há uma ou mais reações, nem sempre a nosso favor. No entanto, como os ingleses que iam buscar o sal na índia, e lá encontraram Ghandy e seu povo resistindo em nome da independência, por mais que os admiradores do planeta Marte, busquem a felicidade lá, terão que vir buscar o seu “sal de cozinha” aqui. E, aqui, apesar da dor, os que permanecerão saberão maximizar o prazer.  
     Os capitalistas e aqueles que os defendem não suportam viver sem privilégios.Com o agravamento da crise econômica mundial, para garantirem tais privilégios os capitalistas precisam de três coisas: exaurir a natureza, assaltar os direitos dos pobres e fazer guerras para abrir novos mercados. As reformas que prometem é para assegurar a própria felicidade por meio da dor da maioria da população.
      "Só o povo salva o povo"; para tanto terá de organizar-se para salvar-se. 

                                                                                                                               Ademar Bogo   
                                                                         

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

TRAGÉDIAS E PURGAÇÕES



            O filósofo Aristóteles definiu a tragédia como sendo a imitação de uma ação importante de grande extensão e que pode ser representada por atores que motivam o sentimento de compaixão e de terror, tendo como efeito, sobre os que assistem a purgação das culpas. Ou seja, a tragédia é um recurso pedagógico para fazer refletir sobre as culpas e os dilemas sociais e humanos.
            Assistir uma apresentação sob a forma de tragédia, em primeiro lugar, tem-se contato com o dilema humanitário e, em segundo lugar, o contato permite reconhecer as culpas e os culpados.
            A diferença entre as tragédias antigas e as atuais é que, as primeiras referenciavam-se nos comportamentos políticos e morais, como é o caso da tragédia em que envolveu Antígona em 406 a.C. As de hoje envolvem sujeitos sociais em grandes quantidades, nações imperiais e detentores do capital.
            Antígona era filha de Édipo (aquele que matou o pai e casou com a mãe tendo com ela 4 filhos, dois homens e duas mulheres). Na ocasião o rei Creonte havia publicado uma lei, impondo que, quem empreendesse qualquer ação contra a cidade, morrendo, não poderia ser sepultado dignamente. O irmão de Antígona teve este triste fim e, ela, noiva do filho do rei decidiu ir e enterrá-lo. Foi por isso perseguida, presa e condenada a morrer trancada numa tumba. O noivo interferiu, mas o rei não se convenceu. O rapaz envergonhado suicidou-se e levou ao suicídio também a sua mãe.
            Por ser uma peça lendária, os figurantes em cena imitavam o mito elaborado, nesse episódio por Sófocles. Na atualidade, as próprias tragédias imitam a si mesmas e, entre si se representam. Como se encenassem os acontecimentos em sequência, tendo o agravante de o último (como o de Brumadinho, no palco da mineração brasileira), ser ainda mais grave que os primeiros.
             As tragédias da mineração brasileira iniciaram ainda no século XVII, com as conhecidas “Entradas e Bandeiras”, que exploravam a força escrava  nos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. A busca enlouquecida pelo ouro, no século XVIII, criou conflitos como o da “Guerra dos Emboabas” nos anos de 1707-1709, quando paulistas lutaram contra os portugueses e os novos imigrantes europeus que vinham para estraçalhar o que encontrassem pela frente.
            No século XX, a partir de 1930, com a industrialização, as técnicas rudimentares começaram a ser substituídas e, a partir de 1990, com a globalização, as mineradoras norteamericanas e canadenses (as novas emboabas) apressaram-se em se apropriar do que tínhamos de mais rentável no setor, abocanhando por primeiro a Companhia Vale do Rio Doce fundada em 1942.
            A Vale foi privatizada pelo governo de Fernando Henrique Cardoso no ano de 1997 pelo valor de R$ 3,4 Bilhões de Reais. Na verdade, esse valor foi financiado pelo dinheiro brasileiro do BNDES. De lá para cá, antes da tragédia de Brumadinho, a empresa tinha, um valor de mercado de R$ 304.914 Bilhões de Reais e, só no ano de 2017, obteve um lucro para dividir entre os seus acionistas, de R$ 17,7 Bilhões de Reais.
Esses dados nos revelam, em primeira mão, o conteúdo do conceito obscurecido pela “globalização” daquilo que se chama pelo nome de “imperialismo”. No entanto, o imperialismo não é apenas um nome, é um processo exigido pelo capital quando cresce em um país e precisa de mais espaço para se desenvolver. Nasce no momento em que o capitalista cumpre o papel de levar o capital para outros países.
Para entrar em outros países, o capital exige que seja elaborada uma legislação que o favoreça. É nesse momento que entram em ação os representantes da tragédia política e relativizem tudo: liberam os investimento, as privatizações, os financiamentos, a redução de impostos, o licenciamento ambiental, a vigilância aos crimes ambientais etc.
Esse processo, que poderíamos chamá-lo de “intrometimento externo” é feito de forma “pacífica”, em países de governos subservientes. Em países com governos resistentes. o capital imperialista se comporta como o lobo que quer comer o cordeiro preso em uma jaula. Para fazê-lo ceder, vai arrancando-lhes os pedaços por meio de golpes ou, se necessário, com a própria guerra.  
            Para as populações que assistem a morte da soberania de seus países, no caso brasileiro, as famílias das vítimas de Brumadinho ficam na impossibilidade de enterrarem dignamente os seus mortos, justamente porque não conseguem ter acesso a eles.
            Quando ocorrem as encenações trágicas feitas pela própria natureza importunada, os capitalistas noticiam como sendo um acidente com vítimas. Lamentam mais pelos prejuízos do que pelas vidas assassinadas e prometem algumas modificações no sistema. É ignorando as tragédias permanentes que os defensores das relações com o imperialismo justificam que o “capitalismo dá certo”. É com a desorganização política que as populações nacionais permitem que outras tragédias voltem acontecer.
            Não nos iludamos, as brutalidades praticadas contra a natureza e as vidas humanas que iniciaram, com as Entradas e Bandeiras continuarão. A corrida em busca de minérios e petróleo, feita por milhares de empresas, preparam novas tragédias. Com as tragédias os exploradores nada aprendem porque, as lições e os ensinamentos são para aqueles que, assumindo a culpa se propõem a mudar. O capital não muda porque, as leis que regulam o seu crescimento precisam: do roubo, do saque, da exploração e dos crimes.
            O caminho é outro. Os “cordeiros”, que assistimos as tragédias e purgamos as culpas pelos passos mal dados pela civilização, precisamos acreditar que há outro destino para a humanidade que não este de ter que lutar apenas pelo direito de enterrar os mortos. A vida segue e com ela a luta confortará o luto.                                                                                                                           Ademar Bogo

domingo, 27 de janeiro de 2019

ALTO E BAIXO


               
            Quando estudamos a dialética descobrimos que, em qualquer movimento existem as polaridades, mas, ao tratarmos do movimento concreto no interior de um sujeito, o alto e o baixo não podem ser relacionados, porque são atributos inconciliáveis. Por exemplo, não podemos dizer que este ou aquele indivíduo é um “alto baixo” ou, da mesma forma, relacionar um prédio em si mesmo pelas mesmas polaridades. O movimento dialético somente pode ser compreendido se for estudado dentro das referências crescentes ou decrescentes.
            Para efetuarmos a análise dialética, devemos tomar como ponto de partida, a referência da avaliação no padrão desejado e observar o movimento interno na substância observada. Na política podemos partir das próprias preferências a favor ou contra que, se a compreensão for verdadeira, ambas as conclusões chegarão ao mesmo lugar.
            Considerando as categorias, “alto” e “baixo” na conjuntura atual, após três semanas de governo, o referencial deverá ser o de estabelecer alguma medida que nos permita assegurar, como ponto de partida, aquilo que significa o alto e o baixo. Se a preferência é pelo “alto”, a pergunta inicial deve ser: é o alto no máximo grau ou pode vir a ser ainda mais alto? E, do contrário, é um alto que pode decrescer e ficar menos alto? Da mesma forma, devemos proceder com o baixo; é um baixo que pode vir a ser um menos baixo ou é um baixo que pode ficar ainda mais baixo? As concepções conjunturais das preferências atuais podem ser articuladas por meio das expectativas altas: o “Elesim” e, do lado das expectativas baixas, o “Elenão”.
            O que temos de material que sedimenta o caminho das primeiras semanas de governo, para aqueles que tínhamos expectativas baixas ou negativas no período da campanha eleitoral, em poucos dias, as evidências trouxeram a surpresa de percebermos que o baixo ficou ainda mais baixo.
            Os fundamentos para essa regressão avaliativa, se deve às várias iniciativas expostas, como o rebaixamento do valor do salário mínimo; a entrega para o Ministério da Agricultura da responsabilidade pela demarcação da terras indígenas, o reconhecimento das áreas de quilombos e a realização da reforma agrária; a ameaça da autorização da instalação de uma base militar dos Estados Unidos no Brasil; apoiar a intervenção militar na Venezuela; prometer transferir a embaixada brasileira para Jerusalém; aprovar a posse de armas de fogo, até quatro unidades por pessoa; preparar a venda das estatais com a perspectiva da entrega total do petróleo para empresas estrangeiras; continuar com as investidas de efetuar reformas e cortar os direitos sociais adquiridos, dentre outros.
            Dois fatos, no entanto, desmascaram a figura “mitológica” do governo. A primeira diz respeito ao combate à corrupção. Como se ela estivesse distante das paredes da própria casa, as apurações mostram que não apenas a corrupção, como também a violência paramilitar é consanguínea, está dentro do corpo dos que assinam o mesmo sobrenome. O segundo fato é o exílio do Deputado Federal Jean Wyllys que, com seu gesto revela a falsidade demagógica do combate à violência no país. Ele será o embaixador das causas humanitárias no exterior, enfraquecendo ainda mais a política preconceituosa externa brasileira.
            O rompimento da barragem de Brumadinho, se “não é culpa do governo atual”, é uma demonstração real do risco de vermos as próximas tragédias pela frente. As declarações de irresponsabilidade governamental com o meio ambiente, demonstram a intenção de  flexibilizar as leis, para assegurar para as empresas ainda mais facilidades para agirem irresponsavelmente na extração de minérios. É evidente que, as barragens construídas no alto das montanhas com terra e o mesmo material dos rejeitos, seja, pelo peso, dilatação com o calor do material depositado ou por um pequeno tremor de terra que naturalmente ocorre, reeditarão de forma mais constante as tragédias que já conhecemos. 
            Mas o equívoco mais gritante que rebaixou ainda mais o rebaixado índice avaliativo, foi a primeira apresentação internacional, na qual o discurso do presidente em Davos, não apenas demonstrou que de fato o governo ainda não tem um programa, mas que o presidente tem ao seu redor um coletivo de indivíduos inexperientes para assessorá-lo nas tarefas internacionais.
            Por fim, a insistência desqualificada de dividir o mundo por ideologias, desconhecendo primeiramente que a visão marxista do conceito de ideologia é que ela é o “obscurecimento” da verdade, ou seja, as ideias são usadas com a finalidade de esconder, ludibriar, acobertar as intenções tramadas é uma demonstração de ignorância teórica. Dizer que as relações internacionais "não serão ideológicas" e, submeter a nação aos ditames dos Estados Unidos, exibindo o boné do presidente Trump, como quem pensa com a cabeça alheia, é a demonstração do alto teor ideológico dos gestos e dos discursos governamentais que acobertam as verdadeiras intenções. O presidente deveria se dar conta de que, os maiores inimigos estão situados no despreparo político que marca o seu governo e o não nos marxistas ou nos países socialistas que lutam por uma humanidade cada vez melhor.  
            De outra forma, aqueles que tomam a referência dialética do "alto", em busca do "mais alto", deverão encontrar razões para provar que algo foi feito de melhor. A considerar pela popularidade, as pesquisas mostram que ela já é mais baixa do que a porcentagem obtida nas urnas. Isso revela que a análise oposta seguirá o descenso da sequência dos degraus indo pelo caminho do “menos alto”, levando ao mesmo lugar alcançado pela análise dos degraus do cada vez “mais baixo”, decrescendo até chegar ao nível da repugnante e criminosa lama da barragem do feijão em Brumadinho.

                                                                                                                Ademar Bogo

domingo, 20 de janeiro de 2019

O APARELHAMENTO



            Há diferentes formas de conduzir-se individualmente pela história. O filósofo Kant nos premiou com a elaboração orientadora de dois imperativos condicionadores: o “categórico” e o “hipotético”. O primeiro funciona na intimidade do sujeito, nasce conosco como um atributo da natureza, como ocorre com a cor dos olhos e funciona como uma força capaz de nos orientar para o bem. Por isso, mesmo que estejamos sozinhos, tal qual acontece com os nossos olho, que podemos ver o que está ao nosso redor, podemos também manter os princípios morais porque eles são orientados pela razão.
O segundo imperativo é mais perigoso. Ele nos surpreende com a  rebeldia hipotética e nos leva a experimentar as sensações, dar vazão aos instintos e traçar planos benéficos e escabrosos; maquinar violências, abusos e praticar atos que nos emancipam como seres humanos ou nos condenam e desmoralizam vergonhosamente. Nesse sentido, os dois imperativos podem levar a confundir o que é o real com o ilusório ou aquilo que é moral com o imoral. É no controle deste imperativo que nos projetamos ou nos desgraçamos.
            Poderíamos aqui tecer amplos comentários sobre as revelações cotidianas da política sem rumo; da justiça sem pesos e medidas justas; os assédios e abusos em leitos de consultórios médicos transformados pela vontade dos machos, em quartos de motel e tantas outras expressões de um sistema destrutivo.
Essas expressões que, nos últimos tempos foram atribuídas à política para deslegitimar a forma partidária de organização, iniciou e ainda é alimentada pelo mercado. São práticas mesquinhas que sustentam as relações de troca levando quase sempre o vendedor iludir o comprador para que compre o produto, oferecendo-lhes “descontos” atrativos, prazos compensadores e juros supostamente favoráveis. O fiado comercial assemelha-se ao “débito de favor” cobrado na política. Portanto, em todas as relações que perdem a transparência, há por trás, intenções obscuras que sujeitam as pessoas às próprias relações que estabelecem, fazendo-as colaborar nas disputas por cargos, nas indicações para funções etc.
            Por ora, temos no tema das “ilusões políticas”, o motivo para um breve aprofundamento. No Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels de 1848, há um alerta dialético que leva a perceber que, “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Logo, desde Heráclito sabemos que tudo flui e nada é estático, inclusive as certezas.
            Todos aqueles e aquelas que militaram a partir da década de 1980 para cá devem lembrar dos profundos debates estabelecidos e, por meio do estudo sobre a "teoria da organização política" foram compreendidos alguns princípios, dentre eles, que a organização partidária é fundamental para se pensar e efetuar as transformações sociais.
            Durante toda a década de 1980, podemos dizer, que as diretrizes políticas, embora em meio a posições diferenciadas, tinham como certo, a orientação clássica de que o partido é a força dirigente e as demais forças, motrizes, fundamentais e auxiliares, convergiam para, por meio de suas ações, fortalecerem a estratégia política.
            No final da década de 1980 com a queda do muro de Berlim, tendo como consequência, em prejuízo do bloco socialista a junção das duas “alemanhas”  e, logo em seguida, ter ruído a composição da histórica República Soviética, ganhou ainda mais força o pensamento de que o partido político não podia ter a supremacia sobre as demais forças sociais e que o “aparelhamento” dos sindicatos e dos movimentos sociais era um erro, pois, eles se portavam como “correia de transmissão”.
            De fato, para quem defendia verdadeiramente o socialismo havia uma batalha gigantesca pela frente a ser enfrentada no “mundo das ideias”. É vidente que um grupo significativo de militantes de esquerda, baniram o socialismo de suas mentes e rebaixaram o conteúdo das ideias aceitando o receituário reformista e as opiniões das Organizações Não Governamentais (ONGs) que induziram a crer que “os paradigmas” haviam mudado e, por isso, havia que se mudar também as referências organizativas, colocando nas referências conceituais, não a classe, mas gênero, o território, as raças, religiões; enfim, os “novos movimentos sociais” e não mais o partido político. Com a devida consideração e respeito, muitos equívocos e desvios necessitavam de correção, mas o corte na concepção cerebral feriria profundamente a direção estratégica.
            Surgiram então as novas linguagens, que feriram as formas de tratamento do sujeito determinado; de “companheiros e companheiras” passou-se para o sujeito indeterminado “todos e todas”; do conceito ofensivo do “imperialismo” para o conceito conciliatório da “globalização”, tornando-o parte do conteúdo das palavras de ordem expressas em manifestações e, surgiram as ondas como a do “Fórum Social Mundial” que, nas suas diversas versões priorizou a livre iniciativa das ideias; exposições liberais, colocando-o como um instrumento de articulação de entidades, movimentos e partidos políticos de todo o planeta. No entanto, por falta de diretrizes reais pouco saldo organizativo restou.
            O movimento das contradições, presente em todos os sentidos, contribui para as mudanças históricas. Para nós, nesse item específico, a dialética foi deveras vingativa porque, enquanto os movimentos sociais em seu amplo sentido eram “desaparelhados dos partidos”, expressando gloriosamente a autonomia política, como se estivem emancipando-se de algo perverso e repressor, os partidos políticos foram aparelhados pelo Estado e induzidos a valorizarem as disputas institucionais como tarefa única.
            No entanto, na medida em que alguns partidos políticos tiveram êxito no intento de chegar ao governo, como relata Platão no mito de Er, quando as almas voltavam para terra e passavam pelo rio Letes, com sede, bebiam a água e esqueciam o que tinham vivenciado no período vivido no outro mundo, assim fizeram as nossas entidades partidárias e movimentos sociais: esqueceram tudo e entregaram-se à governabilidade como quem se entrega a um amante apaixonado vindo a formar o “novo aparelhamento conjugal” na casa que viria a aprisioná-los.
            Não é necessário discutir os retrocessos políticos e as derrotas, mesmo as institucionais sofridas, mas é importante verificar se aquelas posições que defendiam o protagonismo dos “novos movimentos sociais”, autônomos dos partidos, surtiu efeito? Onde estão agora aqueles movimentos, autônomos do partido político para procederem a reação organizativa e conduzirem a sociedade a um consenso de que o totalitarismo usurpador de direitos sociais está equivocado? Parece que o papel dos movimentos não era “desaparelharem-se” do partido, mas exigir que ele fosse o instrumento dirigente para a transformação social e não um mero farol para iluminar o caminho das políticas públicas.
            Diante da situação em que os paridos políticos foram domesticados pelo Estado, que ora sobrevivem do Fundo Partidário e que prezam pelas disputas eleitorais, é de se acreditar que tal aparelhamento continue direcionando as suas práticas. Por sua vez, os movimentos que já não encontram governos para aparelharem-se e os partidos políticos disponíveis oferecem apenas o aparelhamento para fazerem as disputas eleitorais, que destino darão para as suas autonomias?
            É conveniente pensar em mudar de estrada, mas não abandonar a roda ou perder tempo em reinventá-la. Permanentemente as teses socialistas nos mostram a importância do Partido Político como sendo o instrumento de organização e condução da luta pela transformação social. O partido não deve ser uma entidade burocrática, mas “a parte consciente” da sociedade que se propõe a lutar em favor do todo. Dentro desta parte há setores responsáveis; dentre as responsabilidades há aquelas da formulação dos planos, dirigir e distribuir tarefas.
            As tarefas também compreendem as lutas específicas que são desenvolvidas pelos movimentos e entidades que se orientam pelas diretrizes conscientes, formando assim, uma totalidade de forças que compõe esta parte que luta a favor do todo.
            Enquanto não nascer este instrumento dirigente, as forças tenderão a torcer que os inimigos se equivoquem e se desmoralizem. Cabe um alerta, um governo civil desmoralizado pode se arrastar e, mesmo desprezado ir até o fim previsto; um governo militar desmoralizado tende a usar o seu atributo principal que é a força. Em quaisquer circunstâncias, os trabalhadores sempre souberam qual é o seu papel na História e, os mais experientes descobriram com os próprios passos que: “quem acorda cedo faz o amanhecer”.
                                                                                                           Ademar Bogo