sexta-feira, 23 de outubro de 2026

O NAZISMO DO BOLSONARISMO


Muito terá a História para contar sobre os tempos incivilizados que estamos vivendo. “Há males que vêm para o bem” - dizem uns que ideologicamente também acreditam que “há bem que vem para o mal”. As posições das forças até o momento parecem estarem bem equilibradas que, se um dos lados cochilar, o outro lado vence.

Quando tratamos eleições as paixões já não deixam ver a diferença entre segurança e perigo. Com a morte política das forças de direita, ocorrida na primeira década deste século, o ar de civilidade das disputas deixou de ser respirado. A esquerda bondosa abriu os braços para abrigar a todos, principalmente os mais pobres, dando-lhes comida, direitos, proteção, assistência à saúde, moradia digna e espaços no sistema educacional de ensino para a promoção profissional. A extrema-direita, nascida dos resíduos da direita raivosa, oriunda da especulação capitalista e do crime organizado, buscou formar uma base executora do sentimento de rejeição contra quem precisa das políticas públicas para se levantar das rasteiras dadas por mais de quinhentos anos de colonização.

Quando olhamos para os números vemos que os valores investidos para as diversas assistências, pouco influenciam no montante do Produto Interno Bruto (PIB). Veja, para o Programa do Bolsa Família não chega a 1%; para o financiamento de moradia para pessoas de baixa renda, Minha Casa, Minha Vida, chega a 1,7%; a Farmácia Popular consome 0,03%; o PROUNI e FIES consomem 0,2% e, o Seguro Desemprego chega a 0,5% do PIB. Com os 82% das aposentadorias com até um salário mínimo, são gastos 3,5% do PIB. De tal modo que, se fôssemos somar tudo fica bem abaixo de 8% de tudo o que se produz em um ano no Brasil e é distribuído em benefícios sociais. Corresponde ao valor de um único item que são os juros da dívida pública que, em um ano, chega a 9% do PIB.

            Portanto, se o problema não está no montante de dinheiro destinado aos mais pobres, o que explica tamanha reação da classe média e da elite dominante, que inflamam o ódio de setores pobres e evangélicos da sociedade?

            Não é fácil encontrar o ponto certo da verdade, no entanto, apesar de já termos bastante literatura sobre o assunto, vejamos uma explicação de foro mais íntimo.

            O filósofo Michel Foucault ao tratar da ostentação dos suplícios antes do iluminismo, destacou que o castigo era também uma maneira de buscar uma vingança pessoal e pública. “O suplício tem então uma função jurídico-política”.[1] No entanto, nas cerimônias  do suplício que envolvia uma série de atos, envolvendo desde a pena de morte pela forca, ter a mão e a língua cortada ou furada; quebra de membros quando puxados por quatro cavalos; pessoas queimadas ainda vivas ou tendo a cabeça decepada, o povo era chamado para assistir  cada espetáculo para sentir o efeito do terror, mas que, em certo ponto, deveria tomar parte das execuções, chegando a protestar quando, no último instante, a vitima era escondida dos olhares dos espectadores.

            O encontro dos desejos de vingança do governante e da população que torcia para que a vítima sofresse imensamente antes de morrer, não se extinguiram ao longo das épocas. No final do século XVIII deu-se a passagem para a detenção penal, estruturada sob o princípio da privação da liberdade. Essa estrutura culturalmente punitiva, se por um lado retira o delinquente da convivência social, por outro lado, produz a sensação de que na prisão sofrerá os suplícios das carências e dos desconfortos. Os familiares do apenado, diante da pena estabelecida, sentem alívio por ele não ser sentenciado à morte, são os únicos que desejam a sua reeducação. Pelo instinto selvagem da sociedade, ele deveria permanecer preso pelo resto da vida, sem gozar de nenhum privilégio e trabalhar produtivamente para recompensar os gastos de sua manutenção.

            O trabalho embora no âmbito civilizatório é visto como a única possibilidade de ascensão social, nunca perdeu o estigma da condenação original, surgida como penalização do ser humano, por ele ter de sobreviver com o suor do rosto. Por isso, na civilização capitalista, culturalmente há a possibilidade de escolher o ofício dentro da divisão social das ocupações, mas a ociosidade é totalmente rejeitada. A questão a ser respondida é, por que a elite dominante e seus seguidores odeiam tanto os trabalhadores que produziram toda a riqueza que possuem?

            O ressurgimento público do nazismo coordenado pelo bolsonarismo no Brasil, somente está sendo possível por duas razões: primeiramente porque a visão de hierarquia racial sempre esteve presente em setores adeptos aos suplícios vingativos, desde o período da escravização e, de outro lado, o curto período histórico iniciado em 1988 com a elaboração da Constituição Federal, que assegura os direitos sociais e a democracia participativa ter permito eleger pelo menos dois governantes, Lula e Dilma Rousseff, que minimamente os implementaram.

            A classe média, composta por setores de pequenos comerciantes; pequenos agricultores acostumados a contratar serviços temporários; profissionais liberais, como empreiteiros da construção civil, empregadores domésticos etc., é o setor que mais encarna as razões do ódio de natureza discriminatórias. Culpam o Programa da Bolsa Família por não encontrarem mais pessoas disponíveis para prestarem-lhes serviços, quando na verdade esquecem das mudanças estruturais e culturais ocorridas na modernização do capitalismo.

            Quando olhamos para os números não é difícil perceber que, em 1970 a média de filhos por família era de 5,76; essas pessoas estão na atualidade, próximas dos 60 anos, encerrando as suas atividades laborais. Considerando que no ano 2000 essa média caiu para 2,38 filhos por família (não significa que reduziu o número de pessoas, pois, a população em 30 anos saltou de 93 para 169 milhões de pessoas); no entanto, em busca de dar uma vida melhor para os filhos, na divisão social do trabalho, os agricultores não formaram novos agricultores, os pedreiros, carpinteiros e em quase todos os serviços artesanais, não formaram novos profissionais sucessores. De modo que, se as políticas públicas possuem alguma culpa, foi a de ter melhorado a vida de uma parcela de pessoas, que conseguiram estudar e renovar a força de trabalho na educação, na saúde, no comércio etc., sem contar as novas oportunidades criadas pela própria tecnologia.

            A revolta de natureza punitiva de setores empregadores atrasados que não progrediram, nem tampouco elevaram significativamente os seus ganhos, concentram-se em dois pilares: o primeiro é porque em certas áreas, desapareceu o exército de reserva e por isso não há mais concorrência entre as pessoas empregadas e as que querem os seus empregos e, a segunda, se refere ao aumento real do salário, que obriga ao pequeno e médio  empregador a ter que desembolsar e reduzir os seus lucros, por isso reclama também dos impostos.

            Nessas fileiras é fácil de instalar o sentimento de ódio e de vingança. Diante das dificuldades de gerirem os seus negócios, em meio às inovações tecnológicas e, tendo de trabalhar ainda mais para evitar a falência, invejam os necessitados que recebem os benefícios de sobrevivência; logo, o suplício do trabalho é absorvido como impróprio para quem sempre se ancorou na força de trabalho alheia. Portanto, dessa energia vem o acordo da mutilação pela proposta da castração química ao apenado, tal qual os nazistas fizeram na década de 1930 com os judeus que, além de diversos experimentos, procederam com a esterilização em massa através de injeções.

            Na História da filosofia raramente se encontra a defesa da mutilação. São Tomás de Aqui é enfático quando diz: “Ao passo que sempre podemos promover a saúde espiritual sem fazer essa amputação; porque o pecado depende da vontade. Logo, em nenhum caso é lícito amputar um membro, para evitar seja que pecado for”.[2] Os processos malignos sabemos como começam, nunca sabemos com antecedência como terminam. Despois da castração, pode vir a exigência da pena de morte, assim como veio a defesa da menor idade penal que, por oportunismo eleitoral, as forças progressistas se colocaram a favor e as igrejas moralistas se calaram.

            O nazismo age de maneira convincente para ter a seu lado uma quantidade significativa da população para legitimar o totalitarismo confundindo-o com democracia. As massas são levadas a adesão por meio do convencimento de satisfação, em algum grau, mesmo que venham a ter alguma perda, oferecem-na aos suplícios necessários para punir vingativamente os que não aceitam as desigualdades e as perversidades civilizatórias.

            Estamos próximos de saber em 25 de outubro de 2026, se o nazibolsonarismo se afirma definitivamente como a ideologia do açoite, contra a visão humanista dos direitos sociais, ou se ela será protelada para mais um mandato de 4 anos. O fato é que, sem uma ofensiva de resistência e combate, a versão atualizada do nazismo, imporá pelo menos duas décadas de totalitarismo com repressão, miséria social, devastação das florestas e extermínio dos povos nativos. Lutar contra é a única saída.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Editora Vozes: Petrópolis, 1997, p. 49.

[2] SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. In. https://sumateologica.wordpress.com/wp-content/uploads/2017/04/suma-teolc3b3gica.dfp. p.2156

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