Muito
terá a História para contar sobre os tempos incivilizados que estamos vivendo.
“Há males que vêm para o bem” - dizem uns que ideologicamente também acreditam
que “há bem que vem para o mal”. As posições das forças até o momento parecem
estarem bem equilibradas que, se um dos lados cochilar, o outro lado vence.
Quando
tratamos eleições as paixões já não deixam ver a diferença entre segurança e
perigo. Com a morte política das forças de direita, ocorrida na primeira década
deste século, o ar de civilidade das disputas deixou de ser respirado. A
esquerda bondosa abriu os braços para abrigar a todos, principalmente os mais
pobres, dando-lhes comida, direitos, proteção, assistência à saúde, moradia
digna e espaços no sistema educacional de ensino para a promoção profissional.
A extrema-direita, nascida dos resíduos da direita raivosa, oriunda da
especulação capitalista e do crime organizado, buscou formar uma base executora
do sentimento de rejeição contra quem precisa das políticas públicas para se
levantar das rasteiras dadas por mais de quinhentos anos de colonização.
Quando
olhamos para os números vemos que os valores investidos para as diversas
assistências, pouco influenciam no montante do Produto Interno Bruto (PIB).
Veja, para o Programa do Bolsa Família não chega a 1%; para o financiamento de
moradia para pessoas de baixa renda, Minha Casa, Minha Vida, chega a 1,7%; a Farmácia
Popular consome 0,03%; o PROUNI e FIES consomem 0,2% e, o Seguro Desemprego
chega a 0,5% do PIB. Com os 82% das aposentadorias com até um salário mínimo,
são gastos 3,5% do PIB. De tal modo que, se fôssemos somar tudo fica bem abaixo
de 8% de tudo o que se produz em um ano no Brasil e é distribuído em benefícios
sociais. Corresponde ao valor de um único item que são os juros da dívida
pública que, em um ano, chega a 9% do PIB.
Portanto, se o problema não está no montante de dinheiro
destinado aos mais pobres, o que explica tamanha reação da classe média e da
elite dominante, que inflamam o ódio de setores pobres e evangélicos da
sociedade?
Não é fácil encontrar o ponto certo da verdade, no
entanto, apesar de já termos bastante literatura sobre o assunto, vejamos uma
explicação de foro mais íntimo.
O filósofo Michel Foucault ao tratar da ostentação dos
suplícios antes do iluminismo, destacou que o castigo era também uma maneira de
buscar uma vingança pessoal e pública. “O suplício tem então uma função
jurídico-política”.[1]
No entanto, nas cerimônias do suplício
que envolvia uma série de atos, envolvendo desde a pena de morte pela forca,
ter a mão e a língua cortada ou furada; quebra de membros quando puxados por
quatro cavalos; pessoas queimadas ainda vivas ou tendo a cabeça decepada, o
povo era chamado para assistir cada
espetáculo para sentir o efeito do terror, mas que, em certo ponto, deveria
tomar parte das execuções, chegando a protestar quando, no último instante, a
vitima era escondida dos olhares dos espectadores.
O encontro dos desejos de vingança do governante e da
população que torcia para que a vítima sofresse imensamente antes de morrer,
não se extinguiram ao longo das épocas. No final do século XVIII deu-se a
passagem para a detenção penal, estruturada sob o princípio da privação da
liberdade. Essa estrutura culturalmente punitiva, se por um lado retira o
delinquente da convivência social, por outro lado, produz a sensação de que na
prisão sofrerá os suplícios das carências e dos desconfortos. Os familiares do
apenado, diante da pena estabelecida, sentem alívio por ele não ser sentenciado
à morte, são os únicos que desejam a sua reeducação. Pelo instinto selvagem da
sociedade, ele deveria permanecer preso pelo resto da vida, sem gozar de nenhum
privilégio e trabalhar produtivamente para recompensar os gastos de sua manutenção.
O trabalho embora no âmbito civilizatório é visto como a
única possibilidade de ascensão social, nunca perdeu o estigma da condenação
original, surgida como penalização do ser humano, por ele ter de sobreviver com
o suor do rosto. Por isso, na civilização capitalista, culturalmente há a
possibilidade de escolher o ofício dentro da divisão social das ocupações, mas
a ociosidade é totalmente rejeitada. A questão a ser respondida é, por que a
elite dominante e seus seguidores odeiam tanto os trabalhadores que produziram
toda a riqueza que possuem?
O ressurgimento público do nazismo coordenado pelo
bolsonarismo no Brasil, somente está sendo possível por duas razões:
primeiramente porque a visão de hierarquia racial sempre esteve presente em
setores adeptos aos suplícios vingativos, desde o período da escravização e, de
outro lado, o curto período histórico iniciado em 1988 com a elaboração da Constituição
Federal, que assegura os direitos sociais e a democracia participativa ter
permito eleger pelo menos dois governantes, Lula e Dilma Rousseff, que
minimamente os implementaram.
A classe média, composta por setores de pequenos
comerciantes; pequenos agricultores acostumados a contratar serviços
temporários; profissionais liberais, como empreiteiros da construção civil, empregadores
domésticos etc., é o setor que mais encarna as razões do ódio de natureza discriminatórias.
Culpam o Programa da Bolsa Família por não encontrarem mais pessoas disponíveis
para prestarem-lhes serviços, quando na verdade esquecem das mudanças
estruturais e culturais ocorridas na modernização do capitalismo.
Quando olhamos para os números não é difícil perceber
que, em 1970 a média de filhos por família era de 5,76; essas pessoas estão na
atualidade, próximas dos 60 anos, encerrando as suas atividades laborais.
Considerando que no ano 2000 essa média caiu para 2,38 filhos por família (não
significa que reduziu o número de pessoas, pois, a população em 30 anos saltou
de 93 para 169 milhões de pessoas); no entanto, em busca de dar uma vida melhor
para os filhos, na divisão social do trabalho, os agricultores não formaram
novos agricultores, os pedreiros, carpinteiros e em quase todos os serviços
artesanais, não formaram novos profissionais sucessores. De modo que, se as
políticas públicas possuem alguma culpa, foi a de ter melhorado a vida de uma
parcela de pessoas, que conseguiram estudar e renovar a força de trabalho na
educação, na saúde, no comércio etc., sem contar as novas oportunidades criadas
pela própria tecnologia.
A revolta de natureza punitiva de setores empregadores
atrasados que não progrediram, nem tampouco elevaram significativamente os seus
ganhos, concentram-se em dois pilares: o primeiro é porque em certas áreas,
desapareceu o exército de reserva e por isso não há mais concorrência entre as
pessoas empregadas e as que querem os seus empregos e, a segunda, se refere ao aumento
real do salário, que obriga ao pequeno e médio empregador a ter que desembolsar e reduzir os
seus lucros, por isso reclama também dos impostos.
Nessas fileiras é fácil de instalar o sentimento de ódio
e de vingança. Diante das dificuldades de gerirem os seus negócios, em meio às
inovações tecnológicas e, tendo de trabalhar ainda mais para evitar a falência,
invejam os necessitados que recebem os benefícios de sobrevivência; logo, o suplício
do trabalho é absorvido como impróprio para quem sempre se ancorou na força de
trabalho alheia. Portanto, dessa energia vem o acordo da mutilação pela
proposta da castração química ao apenado, tal qual os nazistas fizeram na
década de 1930 com os judeus que, além de diversos experimentos, procederam com
a esterilização em massa através de injeções.
Na História da filosofia raramente se encontra a defesa da
mutilação. São Tomás de Aqui é enfático quando diz: “Ao passo que sempre
podemos promover a saúde espiritual sem fazer essa amputação; porque o pecado
depende da vontade. Logo, em nenhum caso é lícito amputar um membro, para
evitar seja que pecado for”.[2] Os processos malignos
sabemos como começam, nunca sabemos com antecedência como terminam. Despois da
castração, pode vir a exigência da pena de morte, assim como veio a defesa da
menor idade penal que, por oportunismo eleitoral, as forças progressistas se
colocaram a favor e as igrejas moralistas se calaram.
O nazismo age de maneira convincente para ter a seu lado
uma quantidade significativa da população para legitimar o totalitarismo
confundindo-o com democracia. As massas são levadas a adesão por meio do
convencimento de satisfação, em algum grau, mesmo que venham a ter alguma perda,
oferecem-na aos suplícios necessários para punir vingativamente os que não
aceitam as desigualdades e as perversidades civilizatórias.
Estamos próximos de saber em 25 de outubro de 2026, se o
nazibolsonarismo se afirma definitivamente como a ideologia do açoite, contra a
visão humanista dos direitos sociais, ou se ela será protelada para mais um mandato
de 4 anos. O fato é que, sem uma ofensiva de resistência e combate, a versão
atualizada do nazismo, imporá pelo menos duas décadas de totalitarismo com
repressão, miséria social, devastação das florestas e extermínio dos povos
nativos. Lutar contra é a única saída.
Ademar
Bogo
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