domingo, 11 de outubro de 2026

COISA AINDA INOMINADA

 

Desde a antiguidade até a contemporaneidade os conceitos políticos refletiram a realidade pelas denominações compreensíveis dos sistemas políticos. Para Aristóteles era fácil classificar a forma de governo de um governante atuando no poder supremo do Estado; podendo ele estar nas mãos de uma pessoa só (monarquia), com uma minoria (Aristocracia) ou com maioria (República). “Estas três formas podem degenerar: a monarquia em tirania; a aristocracia em oligarquia; a república em democracia”.[1] No modo de ver do filósofo, cada forma de governo representava os interesses de uma classe: a tirania ligada ao poder de um homem despótico agindo sobre o Estado e a sociedade; a oligarquia sendo a estruturação do governo dos mais ricos e, a democracia, constituiria o governo dos pobres.

As ideias aristotélicas influenciaram profundamente a cultura política do mundo Ocidental que, aparentemente passou a denominar os regimes políticos de acordo com a maneira de cada governo se relacionar com os cidadãos; identificados com a democracia, quando valeria a vontade da maioria; o autoritarismo, quando uma pessoa ou um grupo dominasse fortemente as instituições, impondo diretrizes culturais e educacionais com limites de participação da população e, o totalitarismo, caracterizado pelo controle absoluto da liberdade e dos direitos econômicos, sociais e políticos.

Por outro lado, se observarmos as implicações estruturais da engenharia política atual, veremos que os conceitos históricos também se cansam e ao tentarem explicar as situações concretas, a realidade escapa pelos vãos das contradições. Sigamos esta comparação. O primeiro reinado foi criado na Europa, antes de iniciar a Idade Média, no ano de 411na península ibérica onde atualmente situa-se a região Norte de Portugal. Durante toda Idade Média o poder político foi assim organizado pelos senhores feudais, o clero e os reis. No entanto, a Inglaterra, por volta do ano de 1212 foi obrigada a criar um grupo para aconselhar o rei; isso evoluiu ao ponto de, em 1688 quando ocorreu a Revolução Gloriosa, junto foi oficializada a “monarquia parlamentarista”, desfazendo as estruturas teóricas estanques de Aristóteles. Posteriormente, com a Revolução Francesa de 1789, ao ser criado o Estado capitalista e, o Direito positivo ter sido instituído, os três poderes: executivo, legislativo e judiciário, passaram ser as estruturas permanentes do Estado.

O que está ocorrendo na América Latina nessa última década, faz pensar se os conceitos republicanos conseguem dar conta das profundas transformações e arranjos políticos feitos, para garantir os interesses das corporações econômicas. Aparentemente, considerando a lógica funcional, todos os países elegem, por meio do sufrágio universal, os representantes do poder executivo e legislativo; logo, podemos concluir que vivemos em regimes democráticos?

A metáfora da expressão popular: “Mudar da água para o vinho” explica bem as nuances problemáticas que iremos explicar. Se tomarmos um copo com água e acrescentarmos umas gotas de vinho, diremos pela aparência que ainda é água. Da mesma forma, se tomarmos um copo com vinho e colocarmos umas gotas de água, diremos que ainda é vinho.  No entanto, se repartirmos metade por metade do conteúdo de cada líquido no mesmo copo, não podemos mais dizer que seja somente água ou somente vinho. Logo, a fórmula que compõe aquela substância é outra e a linguagem precisa encontrar uma denominação nova.

Vejamos dois exemplos. No ano de 2014 foi eleita democraticamente no Brasil a presidente Dilma Rousseff. Essa vitória representou a sentença de morte da direita, executada no dia 26 de outubro. No entanto, ela fez aflorar os instintos mais brutais e vingativos da política que passou a ser denominada de extrema-direita ou bolsonarista e, por esta razão, a “terceira via” nunca mais se levantou. Por outro lado, como caracterizar o impedimento em 2016 da presidenta eleita democraticamente, por um golpe jurídico institucional, sendo que foi comprovado que nenhum crime havia sido cometido? Que regime político é este que os cidadãos elegem mas não participam da deposição de um governante?

No mesmo extremo, mas ainda mais acentuado, em 2024 foi eleito, por meio de eleições diretas, o presidente Nicolas Maduro, na Venezuela e, no dia 03 de janeiro de 2026, as forças militares norte-americanos o sequestraram e o levaram preso para os Estados Unidos. Como se deveria classificar o regime de governo do país imperialista, com o presidente eleito pelo voto popular?

No Brasil, pelo voto popular viemos constituindo uma oligarquia de características familiar, que tem no sangue os germens do autoritarismo. Esse fenômeno, como já apontamos, tem origem na derrota das forças da direita que atuava como oligarquia democrática, e que, para resistir à inanição, associou-se aos trabalhadores aceitando ser vice ou coadjuvante para manter a mesma forma oligárquica de governar. Por outro lado, as massas jamais lutaram para implantar o regime democrático participativo, fomos educados a delegar para os representantes que, ao todo, com menos de mil pessoas, comandam o destino de toda a nação.

Na situação atual, obtendo a maioria dos deputados e senadores, a extrema-direita espera ainda eleger o presidente da república e, com isso, indicar pelo menos 4 ministros do Supremo Tribunal Federal, sendo que um deles poderá ser o membro da família Bolsonaro que se encontra fugitivo do país, garantindo assim, o controle dos três poderes da República. Esse poder concentrado e comandado por um clã familiar, terá o poder de reformar a Constituição Federal, extinguir a reeleição, mas prorrogar o tempo de mandato do presidente da República e, manter as eleições para que um membro do mesmo sangue, já que são denominados do número 1 até o 4, poderemos ter a sequência de: “familiciano primeiro”, segundo, terceiro e quarto; inaugurando assim a formação de um período oligárquico autoritário miliciano.

A todos esses agravantes destacados, soma-se o maior que é a entrega do país para o gerenciamento do império dos Estados Unidos, que fará de nosso país a base Latino americana para enfrentar a China, com a presença maciça de exploradores das riquezas naturais e a vigilância ostensiva das forças militares. Seria a perda da liberdade, dos direitos e da soberania, sob o comando da forma ainda inominada,que poderia ser: "república miliciana", "autoritarismo familiciano" ou "totalitarismo constitucional parlamentar".

As formas de amenizar, resistir e superar essa catástrofe política, começa por eleger o presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva e, de imediato, iniciar um processo de organização de classe que permita enfrentar a ideologia familiciana, com a formação da consciência social das massas populares. Diante dessa situação, como escreveu Bertold Brecht: “Nossos inimigos dizem: A luta terminou. Mas nos dizemos: Ela apenas começou”.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins fontes, 2006, p. 105.

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