segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O JOGO SUJO CONTRA A ESPERTEZA LIMPA


            O jogo da política entre as forças da extrema-direita e o centro-direita que engoliu a esquerda e todas as iniciativas de reações populares, tornou-se cada vez mais perigoso e terminal. Se fosse possível considerar um ciclo de nascimento e morte, poderíamos dizer que ele está se concluindo com uma profunda melancolia depressiva, no que diz respeito à paixão das mobilizações das massas e, profundamente marcado pelo envelhecimento do conjunto dos líderes, até mesmo para dar sequência à manutenção das disputas no interior da democracia liberal.

            As forças de direita, mesmo dentro dos processos democráticos liberais, sempre foram totalitárias no trato com a ordem, seja no mundo do trabalho ou no mundo da política. Até o final do século passado ela se mantinha no poder pelo uso das forças repressivas. Em qualquer situação de instabilidade, bastava acionar as forças policiais e fazer a violência afirmar a autoridade dos dominadores contra os dominados.

            No início deste século, no Brasil, logramos ganhar a presidência da República e triunfar eleitoralmente. Tudo ocorreu por mérito das lutas populares, mas também pela certeza do controle absoluto dos processos eleitorais pelas forças de direita, que na Assembleia Nacional Constituinte de 1988 concordaram em universalizar o voto. Basta lembrar que na primeira República, de 1889 a 1930, em média apenas 5% da população votava nas eleições. Havia um rígido controle eleitoral e institucional, depois, crentes que os trabalhadores nunca ousariam disputar os espaços de poder, foram liberalizando o voto, mas mantiveram o controle da democracia representativa selecionando os candidatos.

As vitórias eleitorais brasileiras alcançadas pelas forças partidárias de tradição progressista, com o apoio popular, emitiu um sinal trocado transformando os mandatos em conquistas, quando na verdade eram apenas um empréstimo para o uso de parte das instituições, que poderiam ser usadas, remuneradas com as concessões e devolvidas quando as forças conservadoras desejassem ter de volta o controle de toda a superestrutura.

Este jogo ilusório da democracia representativa, inventado para que as forças inimigas, por meio do voto, pudessem confrontar os interesses, foi calculado para, sempre depois dos pleitos os perdedores calarem-se para que os grupos oligárquicos pudessem governar. Sempre a presença do povo, essa prática tornou-se parte da cultura política capitalista. Por isso, a Democracia é entendida se houver ou não eleições presidenciais. Fora desse contexto, outros conceitos regulam a vida dos cidadãos, como estes por exemplo: Estado Democrático de Direito; meritocracia; racismo estrutural e cultural; SUS e Plano de Saúde; Sistema de cotas na educação, políticas públicas, juros etc.

            A manipulação do conceito de Democracia induziu as forças de esquerda do passado, para além do próprio esgotamento de suas forças a perderem a própria identidade com os conflitos de classe, com a revolução e o socialismo. A defesa da ordem passou a ser a principal bandeira de conscientização da população, para evitar que a extrema-direita tentasse tomar à força e, implantar em seu lugar, também na política o totalitarismo. Por que também politicamente? Pelo simples fato que, conforme as pesquisas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Brasil 69,1% dos trabalhadores ganham menos de dois salários-mínimos e, apenas 0,5% ganham mais de 20 salários, ou seja, apenas um milhão de pessoas ficam com a maior parte dos rendimentos e do trabalho alheio.  O aspecto econômico não é visto como totalitarismo, porque a renda não é relacionada com a liberdade e o direito de ir e vir, nem com a proibição de entrar em todos os lugares, devido à falta de uma etiqueta de luxo nas vestimentas, ou pelo baixo poder aquisitivo para comprar ingressos para assistir algum evento.

            Os capitalistas quando criaram o Estado capitalista com os três poderes e, o Direito Positivo portador das leis para manter a ordem dominante, tinham em mente construir um instrumento que fosse além da universalidade da razão, conforme havia pragmatizado o filósofo Immanuel Kant e se constituísse num instrumento de poder absoluto. O suposto “enfraquecimento das instituições”, longe de querer eliminar o Estado, contém os interesses da recomposição do poder hegemônico dentro delas. Portanto, se o capitalismo e o Estado capitalista representam a mesma coisa, como os capitalistas conseguiriam garantir as suas causas sem o Supremo Tribunal Federal? O que eles querem é substituir alguns juízes que não fazem tudo o que um poder totalitário deseja.

            Quando os burgueses aliados das forças armadas planejam e executam um golpe de Estado, não querem destruir o Estado, mas apenas fazê-lo funcionar totalmente a seu favor. Por outro lado, o equivalente a um golpe de Estado é a Revolução que almeja tomar o Estado e transformá-lo, mas também controlar o capital e distribuir a riqueza, eliminando, em alto grau, a diferença entre as classes. Optando pelos processos eleitorais pacíficos, sem manter as lutas populares em defesa dos direitos e contra a exploração do capital, os trabalhadores, mais dia menos dia, nos encontraremos com duas fatalidades: a primeira, mesmo que tenhamos ganhado pleitos por diversas vezes encadeadas, perdendo as eleições temos que entregar, pelo jogo democrático, os cargos e os palácios alugados; a segunda, é sofrer um golpe de Estado e vermos uma onda totalitária cair sobre as nossas cabeças.  

            Nesse campo da democracia representativa capitalista, não existe vitórias sem fim. Pode haver para as forças progressistas, um determinado equilíbrio que se situa no centro engenheirado pelo abocanhamento e a cooptação das forças de esquerda, até que as pressões e descômodos tomarem conta das forças da extrema-direita e ela querer recuperar alguns lugares perdidos no campo da institucionalidade. Ela sempre o faz com a conivência do outro lado que desaprendeu a resistir com os calcanhares enterrados no solo, acostumou-se apenas bater palmas para algum ministro do Supremo Tribunal que, se valendo da toga assegurou algum direito. No entanto, isto está cada vez mais fragilizado e, na precisão, os cultuadores da guilhotina não vacilam quando precisam cortar alguma cabeça, esteja ela onde estiver.

            O melancólico fechamento do ciclo institucional, com a vitória ou a derrota de Lula, será daqui a meses ou em quatro anos. Depois disso, todos os partidos brasileiros, sem exceção, estão aculturados e domesticados pela ordem legalista institucional, não terão mais o mesmo fulgor, pois desaprenderam tudo o que sabiam sobre a luta de classes e a revolução. As lideranças mais velhas, estão literalmente velhas, sem forças para recomeçar um novo ciclo e, as gerações mais novas, não sabem abrir o novo ciclo porque não foram ensinadas a lutar, nem tampouco possuem algum parâmetro que as possa motivar, pois, o horizonte utópico foi apagado com a esponja do pacifismo obediente. Mas terão de aprender por conta própria e assumirem o comando do próprio destino.

            Quando este ciclo político sindical iniciou no final da década de 1970 pouco ou quase nada havia sobrado das forças anteriores; a ditadura militar havia eliminado todas as resistências. As circunstâncias históricas empurraram todas as lutas seguintes para conquistar e garantir direitos, eles estão escritos na Constituição Federal, mas não estão seguros, porque as letras sem resistência política, podem ser apagadas. É preciso que as chamas que incendiaram aquelas vitórias permaneçam acesas para iluminarem o caminho das novas vitórias; no entanto, é preciso descobrir como fazer isso.

Portanto, a pergunta a ser feita é, como reavivar os ânimos para as novas lutas? As crises promovem sofrimentos, mas também provocam reações. Se temos consciência que a minoria exploradora da humanidade se vale do consentimento da maioria para continuar governando, explorando e depredando o planeta, devemos ter a esperteza de acreditar que, mesmo que o voto continue sendo exigido, as lutas não podem por ele serem substituídas. Talvez a conjugação mais simples a conjugar seja: votar e lutar, que é igual, voltar a lutar.

                                                                       Ademar Bogo