Em todas as épocas, existem jeitos e maneiras de fazer e
refazer o que se denomina de civilização. Na produção, inova-se com tecnologias;
na política, com programas de poder; nas religiões, com as novas exegeses dos
textos sagrados; na educação, com pedagogias voltadas para a atualização do
ensino, e assim por diante.
Para entender profundamente o que essas mudanças
significam precisaríamos escrever um ensaio sobre cada aspecto mencionado. No
entanto, a premente aceleração da situação política brasileira nos obriga a analisar
os meandros das mudanças no terreno político, no qual colocam-se e deslocam-se,
conforme as suas capacidades, as forças que se enfrentam.
As gerações mais velhas que viveram o período do golpe militar
da década de 1960 e viram a repressão em campo aberto (com soldados, tanques e
cães perseguindo, reprimindo multidões e lideranças que foram obrigadas a viver
clandestinamente; muitas foram presas, torturadas e banidas do país), querem
que os jovens do tempo presente assimilem essas imagens infernais daquela
experiência forçada. No entanto, ela não existe mais e, talvez, daquele modo,
nunca mais venha a existir. Como já foi dito, ensinar os jovens sobre o que é a
ditadura com tanques e cavalos atropelando pessoas em mobilizações, após a
repressão tomar com violência os poderes da república, não está posto no
cenário atual.
Eles mudaram. Aprenderam que a dominação pode ser menos
traumática. Tomar as estruturas de poder formadas pelas instituições do Estado
já não basta, é preciso que a maioria da população concorde e participe. Concretamente,
as estruturas de dominação autorizam a realizar todos os atos, se forem tomadas
com o apoio das massas, uma vez que estas estão convencidas de que o
autoritarismo cabe dentro da democracia (governo do povo). Afinal, nessa
concepção, há pessoas que “precisam ser punidas” para que cumpram as suas
funções sociais, de acordo com as ordens do lado vencedor.
Em
estudos dos clássicos encontramos a transmutação de um processo para outro, em
vários momentos históricos. Citamos aqui a experiência Alemã, a qual Friedrich
Engels descreveu em seu livro: Revolução e contrarrevolução na Alemanha,
mostrando como as lutas dos trabalhadores de 1848 e 1849, pelo triunfo da
revolução democrática, foram invertidas. Os grandes e pequenos capitalistas optaram
por ficar do lado da nobreza, contribuindo para que o totalitarismo de Bismark fosse
implantado desde o início da década de 1860.
Na atualidade brasileira, não estamos vivendo uma contrarrevolução,
mas um processo de contrademocratização, ou seja, a iminente negação dos direitos
adquiridos. Isto porque, com a facilitação ao acesso às políticas públicas (por
meio da implantação de sistemas unificados de assistência, como a saúde, educação,
moradia, créditos, bolsas etc.), fere de morte os princípios neoliberais, ao
impedir que esses serviços se tronem mercadorias. Além disso, a gradativa valorização
do salário-mínimo, obrigou a pequena-burguesia empregadora e setores pouco modernizados
a terem que arcar com os seus negócios, ano após ano, os reajustes salariais, inadmissíveis
para os empregadores. Soma-se a isso, além do preconceito racial, a obrigação
de assinar a carteira das empregadas domésticas e o fim da escala de trabalho
6x1.
As táticas inovadoras da contrademocratização têm apoio
na estratégia de dominação imperialista, originada nos princípios do
neoliberalismo que exigem ter um centro irradiador de comando conservador, ditado
por um programa universal. A humanidade já viveu períodos de dominações
assemelhadas, como foi a expansão do colonialismo quando impôs à força, a
língua, a religião e a cultura do colonizador, para, por meio da invasão e do
controle territorial, obrigar as nações a entregarem as suas riquezas e
produzirem sob as ordens dos sistemas dominantes.
Se houve avanços no século XXI com a democratização na
implementação institucional dos direitos, não foram criadas perspectivas revolucionárias
para avançar rumo à tomada do poder econômico e político e instalar, como se
dizia no passado, a “ditadura do proletariado”, que, traduzindo para a
linguagem atual, seria a imposição da vontade dos trabalhadores e das massas
populares pobres sobre a produção e a distribuição da riqueza. No entanto, ao manter
as disputas apenas no campo da institucionalidade, a revolta da classe média
encontrou ressonância na vontade da extrema-direita especuladora, violenta e
articulada com a dominação imperialista. Sendo assim, na medida em que não
encontram uma revolução em andamento para atacarem com a contrarrevolução,
avançam com a contrademocratização, valendo-se da maioria para impor a vontade
da minoria. A linha estratégica adotada
por eles é buscar a legitimidade por meio das práticas “democráticas”, tendo à
frente algumas pessoas que idolatram o império e são obedientes a ele.
No Brasil, as forças extremistas em ascensão, que formam a
maioria no Congresso Nacional e no Senado Federal, prometem escrever uma nova
Constituição para torná-la democrática. Ora, a Constituição atual, escrita pela
Assembleia Nacional Constituinte de 1988, é a mais progressista de todas as que
já existiram, tanto assim que foi apelidada de “Constituição Cidadã”. Reescrevê-la,
com esses representantes retrógrados, significa eliminar tudo o que as lutas
populares conquistaram na década de 1980 para superar a anterior promulgada
pelos militares em 1967.
Para garantir o convencimento e a imposição da dominação político
social, principalmente nos redutos em que vivem as massas empobrecidas, podemos
destacar três táticas controladoras. A primeira se afirma através das seitas
religiosas que têm a função de fazer a disputa moral para separar os “bons dos
maus”, segundo os preceitos conservadores, suprimindo a culpa dos exploradores
e responsabilizando as vítimas pela violência e pela pobreza. O conteúdo religioso
baseia-se no otimismo proposto pela Teologia da prosperidade, cujo sucesso
depende apenas do esforço individual. Por isso, basta ter o domínio técnico das
redes sociais; para eles, vale mais que qualquer curso universitário. É um
ataque à ciência e contra a formação de intelectuais e pesquisadores
independentes, o que contribui para esvaziar as universidades e acabar com o
ensino público. Quem quiser estudar terá à disposição as escolas privadas, que
venderão o conhecimento.
Em segundo lugar, estão as milícias, sejam elas físicas
ou digitais. Grupos armados começam a controlar as comunidades por dentro,
impondo a ordem segundo os seus interesses econômicos e políticos. Os
territórios são demarcados pelas competências dos grupos militarizados que
integram políticos e policiais, tornando o Estado um instrumento de articulação
de poder.
Em terceiro lugar, pesa a dominação cultural. A
universalização da internet não atinge somente os locais geográficos como
também todas as gerações independentemente da idade. Os algoritmos, como cães
farejadores procuram o internauta para recomendar acessos e ajudá-lo a ordenar
as suas interações. É por meio dessa tática que as forças imperialistas formam
imensas comunidades de seguidores que passam a cumprir funções partidárias sem
serem partidos, com poder de eleger para cargos públicos, pessoas completamente
nocivas para a política.
Do ponto de vista revolucionário, a manutenção das formas
institucionais de fazer política excluiu a juventude da própria política.
Primeiro, por esta não ter sido considerada pelos círculos tradicionais do
controle do poder, que transformaram os cargos públicos em profissão. Segundo,
porque a hegemonia institucionalizada inibiu a criatividade da juventude de
expressar a sua própria maneira de fazer política. Terceiro, porque não se
considerou que as conquistas da democratização deveriam ser a base material
para impulsionar a revolução socialista.
Com
o esgotamento do processo de democratização, em toda a América Latina, estamos
iniciando um novo tempo na política. Diante do avanço da contrademocratização (que
se confunde com aristocracia totalitária), tomara que a reação das massas venha
pela necessidade de manter as conquistas democráticas, e que essa resistência sirva
para organizar a estratégia da insurreição popular. Agora precisamos de
organizações que saibam ir além das disputas eleitorais para impor à
contrademocratização a derrota definitiva que nos leve à verdadeira superação
do capitalismo.
Ademar
Bogo
tenho feito a minha parte colocando vosso textos para a militância
ResponderExcluirmas creio que construir a organização que precisamos, será com ações e fatos , dai precisamos se colocar diante das massas que tem cede e falta dos que tem o conhecimento e a ciência...