O jogo da política entre as forças
da extrema-direita e o centro-direita que engoliu a esquerda e todas as
iniciativas de reações populares, tornou-se cada vez mais perigoso e terminal.
Se fosse possível considerar um ciclo de nascimento e morte, poderíamos dizer
que ele está se concluindo com uma profunda melancolia depressiva, no que diz
respeito à paixão das mobilizações das massas e, profundamente marcado pelo
envelhecimento do conjunto dos líderes, até mesmo para dar sequência à manutenção
das disputas no interior da democracia liberal.
As forças de direita, mesmo dentro dos
processos democráticos liberais, sempre foram totalitárias no trato com a ordem,
seja no mundo do trabalho ou no mundo da política. Até o final do século
passado ela se mantinha no poder pelo uso das forças repressivas. Em qualquer
situação de instabilidade, bastava acionar as forças policiais e fazer a
violência afirmar a autoridade dos dominadores contra os dominados.
No início deste século, no Brasil,
logramos ganhar a presidência da República e triunfar eleitoralmente. Tudo ocorreu
por mérito das lutas populares, mas também pela certeza do controle absoluto dos
processos eleitorais pelas forças de direita, que na Assembleia Nacional
Constituinte de 1988 concordaram em universalizar o voto. Basta lembrar que na
primeira República, de 1889 a 1930, em média apenas 5% da população votava nas
eleições. Havia um rígido controle eleitoral e institucional, depois, crentes
que os trabalhadores nunca ousariam disputar os espaços de poder, foram
liberalizando o voto, mas mantiveram o controle da democracia representativa
selecionando os candidatos.
As
vitórias eleitorais brasileiras alcançadas pelas forças partidárias de tradição
progressista, com o apoio popular, emitiu um sinal trocado transformando os
mandatos em conquistas, quando na verdade eram apenas um empréstimo para o uso de
parte das instituições, que poderiam ser usadas, remuneradas com as concessões
e devolvidas quando as forças conservadoras desejassem ter de volta o controle
de toda a superestrutura.
Este
jogo ilusório da democracia representativa, inventado para que as forças
inimigas, por meio do voto, pudessem confrontar os interesses, foi calculado
para, sempre depois dos pleitos os perdedores calarem-se para que os grupos
oligárquicos pudessem governar. Sempre a presença do povo, essa prática tornou-se
parte da cultura política capitalista. Por isso, a Democracia é entendida se houver
ou não eleições presidenciais. Fora desse contexto, outros conceitos regulam a
vida dos cidadãos, como estes por exemplo: Estado Democrático de Direito;
meritocracia; racismo estrutural e cultural; SUS e Plano de Saúde; Sistema de
cotas na educação, políticas públicas, juros etc.
A manipulação do conceito de
Democracia induziu as forças de esquerda do passado, para além do próprio
esgotamento de suas forças a perderem a própria identidade com os conflitos de
classe, com a revolução e o socialismo. A defesa da ordem passou a ser a
principal bandeira de conscientização da população, para evitar que a
extrema-direita tentasse tomar à força e, implantar em seu lugar, também na
política o totalitarismo. Por que também politicamente? Pelo simples fato que,
conforme as pesquisas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) no Brasil 69,1% dos trabalhadores ganham menos de dois salários-mínimos
e, apenas 0,5% ganham mais de 20 salários, ou seja, apenas um milhão de pessoas
ficam com a maior parte dos rendimentos e do trabalho alheio. O aspecto econômico não é visto como
totalitarismo, porque a renda não é relacionada com a liberdade e o direito de
ir e vir, nem com a proibição de entrar em todos os lugares, devido à falta de
uma etiqueta de luxo nas vestimentas, ou pelo baixo poder aquisitivo para
comprar ingressos para assistir algum evento.
Os capitalistas quando criaram o
Estado capitalista com os três poderes e, o Direito Positivo portador das leis
para manter a ordem dominante, tinham em mente construir um instrumento que
fosse além da universalidade da razão, conforme havia pragmatizado o filósofo
Immanuel Kant e se constituísse num instrumento de poder absoluto. O suposto
“enfraquecimento das instituições”, longe de querer eliminar o Estado, contém os
interesses da recomposição do poder hegemônico dentro delas. Portanto, se o capitalismo
e o Estado capitalista representam a mesma coisa, como os capitalistas
conseguiriam garantir as suas causas sem o Supremo Tribunal Federal? O que eles
querem é substituir alguns juízes que não fazem tudo o que um poder totalitário
deseja.
Quando os burgueses aliados das
forças armadas planejam e executam um golpe de Estado, não querem destruir o
Estado, mas apenas fazê-lo funcionar totalmente a seu favor. Por outro lado, o equivalente
a um golpe de Estado é a Revolução que almeja tomar o Estado e transformá-lo,
mas também controlar o capital e distribuir a riqueza, eliminando, em alto grau,
a diferença entre as classes. Optando pelos processos eleitorais pacíficos, sem
manter as lutas populares em defesa dos direitos e contra a exploração do
capital, os trabalhadores, mais dia menos dia, nos encontraremos com duas
fatalidades: a primeira, mesmo que tenhamos ganhado pleitos por diversas vezes
encadeadas, perdendo as eleições temos que entregar, pelo jogo democrático, os
cargos e os palácios alugados; a segunda, é sofrer um golpe de Estado e vermos
uma onda totalitária cair sobre as nossas cabeças.
Nesse campo da democracia
representativa capitalista, não existe vitórias sem fim. Pode haver para as
forças progressistas, um determinado equilíbrio que se situa no centro
engenheirado pelo abocanhamento e a cooptação das forças de esquerda, até que
as pressões e descômodos tomarem conta das forças da extrema-direita e ela querer
recuperar alguns lugares perdidos no campo da institucionalidade. Ela sempre o
faz com a conivência do outro lado que desaprendeu a resistir com os
calcanhares enterrados no solo, acostumou-se apenas bater palmas para algum
ministro do Supremo Tribunal que, se valendo da toga assegurou algum direito.
No entanto, isto está cada vez mais fragilizado e, na precisão, os cultuadores
da guilhotina não vacilam quando precisam cortar alguma cabeça, esteja ela onde
estiver.
O melancólico fechamento do ciclo
institucional, com a vitória ou a derrota de Lula, será daqui a meses ou em
quatro anos. Depois disso, todos os partidos brasileiros, sem exceção, estão
aculturados e domesticados pela ordem legalista institucional, não terão mais o
mesmo fulgor, pois desaprenderam tudo o que sabiam sobre a luta de classes e a
revolução. As lideranças mais velhas, estão literalmente velhas, sem forças
para recomeçar um novo ciclo e, as gerações mais novas, não sabem abrir o novo
ciclo porque não foram ensinadas a lutar, nem tampouco possuem algum parâmetro
que as possa motivar, pois, o horizonte utópico foi apagado com a esponja do
pacifismo obediente. Mas terão de aprender por conta própria e assumirem o
comando do próprio destino.
Quando este ciclo político sindical
iniciou no final da década de 1970 pouco ou quase nada havia sobrado das forças
anteriores; a ditadura militar havia eliminado todas as resistências. As
circunstâncias históricas empurraram todas as lutas seguintes para conquistar e
garantir direitos, eles estão escritos na Constituição Federal, mas não estão
seguros, porque as letras sem resistência política, podem ser apagadas. É
preciso que as chamas que incendiaram aquelas vitórias permaneçam acesas para
iluminarem o caminho das novas vitórias; no entanto, é preciso descobrir como
fazer isso.
Portanto,
a pergunta a ser feita é, como reavivar os ânimos para as novas lutas? As
crises promovem sofrimentos, mas também provocam reações. Se temos consciência que
a minoria exploradora da humanidade se vale do consentimento da maioria para
continuar governando, explorando e depredando o planeta, devemos ter a esperteza de acreditar que,
mesmo que o voto continue sendo exigido, as lutas não podem por ele serem
substituídas. Talvez a conjugação mais simples a conjugar seja: votar e lutar, que é igual,
voltar a lutar.
Ademar
Bogo
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