A Filosofia do Esporte é um ramo da
filosofia que trata da arte, da estética e da ética esportiva. Desde a Grécia
antiga, quando lemos as obras de Platão e Aristóteles, vemos que, o primeiro
dava muita importância à música e a ginástica para equilibrar o corpo e a mente
e, o segundo via nas atividades esportivas, a possibilidade de desenvolver
virtudes e tornar as pessoas mais alegres, consequentemente mais festivas e eticamente
melhores como cidadãos.
Talvez o que conheçamos hoje como
esporte praticado em pequenos grupos ou com exibições individuais, já foi no
passado uma atividade comum e envolvente para todas as pessoas na produção da
própria cultura de todas as sociedades. Os diálogos constituídos por meio de
jogos de linguagem, sempre revelaram a arte da boa conversação em cerimônias
festivas, nas quais cada tribuno busca as mais adequadas palavras para deleitar
os ouvintes. As danças por simples divertimentos, serviram sempre como treinos
para os posteriores concursos. Da mesma forma as composições musicais que
elevaram em todas as épocas os gênios a patamares insuperáveis, nunca deixou de
ser uma boa companhia para os boêmios, os decepcionados com a fidelidade
matrimonial ou para as pessoas que aprenderam a inserir os cantos nas
atividades de trabalho.
O assunto sobre a arte esportiva participa
da História da humanidade que o historiador inglês Johan Huizinga, nascido no
final do século dezenove deu-se conta que não somos apenas homo sapiens,
mas evoluímos também para “homo ludens”, ou seja, pessoas lúdicas que
gostamos de jogar, brincar e nos divertir produzindo e usufruindo das formas artísticas.
O mais surpreendente no livro desse autor, Homo Ludens, publicado em
1938, é a sua defesa da ideia que os jogos e as brincadeiras foram criados antes
pelos animais. Basta observar as relações que eles desenvolvem coletivamente: “Convidam-se
uns aos outros para brincar mediante um certo ritual de atitudes e gestos.
Respeitam a regra que os proíbe morderem, ou pelo menos com violência, a orelha
do próximo. Fingem ficar zangados e, o que é mais importante, eles, em tudo
isto, experimentam evidentemente imenso prazer e divertimento”.[1] De modo que, podemos
considerar que a diversão é tão importante como a água e a comida para todas as
espécies vivermos nesta Terra.
Ficamos surpresos com algumas
atividades esportivas e suas potencialidades de mobilizarem multidões como é o
futebol. Como muitas outras expressões artísticas ele se diferencia das
brincadeiras espontâneas dos animais e entra para as atividades ensinadas pela
civilização. Um exemplo disso é o Japão. O futebol foi levado para aquele país
no final do século dezenove pelos britânicos e, mesmo assim, somente veio a
participar da Copa do Mundo em 1998. Atualmente apresenta-se com tamanha
capacidade que ameaça a passagem do Brasil para a segunda fase desse certame de
2026.
A Copa do Mundo é uma atividade
lúdica. Embora a participação direta seja efetuada com um grupo muito reduzido,
mobiliza bilhões de pessoas no mundo inteiro. É para esperar o momento do jogo
que as crianças pintam e os adultos enfeitam as ruas com bandeirolas e param
diante das telas no dia das disputas com outros concorrentes como se fosse dia
santo ou feriado.
Na Copa do Mundo a Pátria se faz
representar, cada qual exibindo o seu hino e sua bandeira. Os uniformes tendem
representar as cores nacionais e as multidões se comportam como forças
organizadas em defesa da ética, do respeito das normas, mas também criticam o
técnico e os jogadores que não desempenham a função na posição que ocupam.
Por outro lado, um grande evento
como a da Copa do Mundo coloca-se tão distante das brincadeiras espontâneas dos
animais que os jogos se tornaram irreconhecíveis. Os atletas são monitorados,
as regras são reguladas por aparelhos eletrônicos como é o caso do Var que, não
importa a beleza da jogada, basta que a tecnologia aponte que um pé do centroavante
esteja um pouco a frente da linha de impedimento, e o gol é anulado; dessa
forma a toda energia da comemoração fica desperdiçada.
De outro modo, os interesses
políticos aproveitam o momento para dificultar o bem-estar dos desafetos e, com
isso, muitas seleções são mal recepcionadas e mal alimentadas; no fundo,
utilizadas apenas para fazer a presença inicial e, logo na primeira ou no
máximo na segunda fase, serem despachada para que a verdadeira copa do
exibicionismo e da lucratividade tome conta.
Os ganhos econômicos são os que mais
se destacam. As grandes empresas desde o turismo até a oportunidade de fazer
negócios com a compra e venda de jogadores. Estes apesar de exibirem-se como celebridades
não passam de fantoches nas mãos dos proxenetas que gerenciam a antiética da
desumanização.
Em síntese aquilo que no cotidiano serve
como diversão para as crianças e os adultos em campo de terra, na Copa do Mundo
torna-se um evento para a elite, porque, no decorrer do evento ocorrem dois
tipos de eliminação: a primeira dos times que não possuem poder de investimento
na educação esportiva e os clubes sobrevivem em seus países com a venda dos
melhores jogadores e, a segunda é a eliminação dos torcedores com poder aquisitivo
mais baixo; isto porque, conforme as fases da copa evolui, os ingressos mudam
de valor. Portanto, apesar da grande comoção mundial, no final, sobram 22
jogadores, dois técnicos e um banco de reservas com pessoas auxiliares, com um
estádio lotado de torcedores da classe média e da lumpemburguesia vivendo como parasita
das habilidades alheias.
Apesar de tudo, a Filosofia do
Esporte continua viva. O cuidado com a estética do belo e dos sentimentos afetivos,
a confraternização e a unidade nacional, são características que a cartolagem
não pode destruir. Há, contudo que lutar contra a desumanização das atividades
esportivas, mantendo todas as modalidades como necessidades de divertimentos e
não como meio de enriquecimento de elites corrompidas.
Ademar
Bogo
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