domingo, 14 de junho de 2026

O COMPLEXO DE HERÓSTRATO

 

            Piromania é um termo usado para caracterizar um distúrbio existente em uma pessoa atraída por fogo e destruição. Ao ser identificado esse indivíduo passa a ser denominado de “piromaníaco”. Freud descreveu a situação aproximada por ocasião de nascimento de Alexandre Magno que, “Heróstrato ateou fogo ao venerado Templo de Artêmis, em Éfeso, por simples desejo de obter fama”.[1] O fogo, portanto, carrega consigo várias simbologias, mas, do ponto de vista de sua ofensividade serve para acarretar prejuízos quando se associa com as armas e, por outro lado, dá ao incendiário a sensação de poder ilimitado.

            O fascínio que a princípio representa o deslumbramento ou atração irresistível pela fama, levou Heróstrato, no 356 antes de Cristo, a incendiar uma das sete maravilhas do mundo antigo. O propósito para cometer esse crime hediondo foi unicamente o de ser lembrado eternamente. De imediato as autoridades de Éfeso descobriram o malfeitor e, após prendê-lo, torturá-lo e executá-lo emitiram um decreto que ficou conhecido como “Condenação da memória”; ou seja, ninguém poderia pronunciar o seu nome sob pena de ter o mesmo fim que ele. Não funcionou. O historiador grego Teopompo, arriscou-se e escreveu o acontecido e o seu intento chegou até nós perenizando a intenção de Heróstrato.

            Podemos considerar simbolicamente que o fogo que incendeia e destrói também ilumina e clareia ao redor para que possamos desvendar a verdade.  Na atualidade a tentativa de destruir com mísseis e bombas, mostra que a sedução pode levar à exaltação e fixar a memória eterna; mas também pode revelar que a resistência contrária, remetendo o fogo de volta ao inimigo, pode queimar a fama e, ao invés de relembrar os feitos como atos heroicos, fazer as futuras gerações conhecerem os verdadeiros covardes que, tomados pelo “Complexo de Heróstrato” pensam iluminaram-se através de ações criminosas.  Os motivos para surgir um incendiário pode vir de uma piromania individual como também coletiva.  Diante da derrocada de um micropoder ou de um império, as alternativas principais ancoram-se na violência e na guerra.

            O fascínio do império facínora que se alimenta da agressão das nações e da morte generalizada, não representa poder, mas insegurança e sensação real de descontrole. O Presidente dos Estados Unidos se assemelha a um velho bêbado que esbraveja na cozinha enquanto na varanda os filhos e netos se divertem às suas custas. A suposta capacidade de liderar e submeter os outros países aos seus anseios, poucos já o obedecem; basta lembrar a proposta feita para a formação de um “Concelho de Paz”, para reconstruir a “Nova Gaza”, na Palestina, apenas duas míseras dezenas de países apoiaram, porém nunca desembolsaram nenhum dólar e o plano desapareceu das discussões.

A pequenez da política internacional do imperialismo é tamanha que as atitudes estratégicas se atêm ao tarifaço, no entanto, a medida somente intimida governantes covardes que se ajoelham diante do imperador para oferecer as suas mercadorias, os que se respeitam, devolvem o ataque com as mesmas taxas alfandegárias. Imaginar que o imperador romano se preocuparia com a prisão de um sociopata como Bolsonaro ou atacar uma província porque havia criado uma moeda ou um Pix, ou ainda transformar grupos de narcotraficantes em terroristas quando quase em nada afetam a segurança econômica, é uma clara demonstração que o imperialismo está sem rumo.

As ameaças cotidianas de que irão invadir Cuba representa outra infantilidade política e a repetição de erros que se repetem a mais de seis décadas. Os permanentes bloqueios econômicos até o momento não fizeram surgir efeitos favoráveis ao imperialismo. Logo, uma estratégia que a mais de sessenta anos não funcionou, revela estar totalmente errada. A única esperança que os agressores poderiam alimentar para restabelecer relações capitalistas com Cuba, seria capitalizando e não asfixiando aquele país. O que impede que incendiários enxerguem isso é o Complexo de Heróstrato, formado pelos instintos de vingança misturados à ansiedade de obterem fama.

A força indestrutível contra as bombas e o fogo que carregam é a multipolaridade internacional. As nações de uma só vez se levantam para dizer que não querem mais ser reféns de um poder sanguinário, explorador, que passará para a História como sendo o sistema que, em curto período de dois séculos promoveu a barbárie mundial, mas foi contido e rebaixado. Isso acontecerá assim que a indústria armamentista perder a importância, transformará os Estados Unidos em uma das economias mais dependentes do mundo, isto porque, sem indústrias os Estados Unidos retornarão à produção primária. Quando isso acontecer, os imigrantes sairão de lá por conta própria e as cenas de humilhação das extradições deixarão de serem vistas.

Por trás das constantes bravatas se esconde o medo de perder a hegemonia sanguinária da política internacional. O único produto que pode surgir do medo são mais armas. No entanto, elas sozinhas não conseguem resolver os problemas da perda da capacidade competitiva econômica. O máximo que a tecnologia armamentista conseguirá será provocar estragos materiais, estes, porém, podem ser concertados com as reconstruções, o que as armas não conseguem fazer é derrubar a autoestima e a teimosia dos povos.

                                                                                               Ademar Bogo



[1] FREUD, Conferência XXXII, 1932. Vol. 22.

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