domingo, 19 de julho de 2026

O NARCISISMO ESPORTIVO

 

            A Copa do Mundo de futebol de 2026 está acabando, mas deixa muitíssimas lições possíveis de serem captadas com um simples olhar sobre os comportamentos individuais. As telas têm-se tornado vitrines de exposições narcísicas, cujas imagens pessoais precisam ser colocadas acima da equidade competitiva. E não são apenas os arroubos narcísicos que espantam, a Copa também remexe com os instintos vingativos, as manifestações racistas, as discriminações das nações e as manipulações das vontades, transformando as catarses coletivas em alucinações.

            Freud em 1921 tratou das alucinações coletivas e nos revelou que: “A satisfação narcísica proporcionada pelo ideal cultural encontra-se também entre as forças que alcançam êxito no combate à hostilidade para com a cultura dentro da unidade cultural”.[1] O que quer nos dizer Freud? Certamente que as sociedades são compostas por culturas nas quais se partilham as satisfações entre as classes, ricas que desfrutam dos benefícios e, as classes pobres que se deixam influenciar tomando as reações como “direitos”, a desprezar, vilipendiar e rebaixar os adversários, do mesmo modo que os seus componentes são tratados no interior de suas próprias culturas.

            Esse comportamento abusivo das torcidas nacionais, impossibilitadas de irem aos estádios nos países que sediam os jogos, devido o alto preço a ser pago pelos ingressos, origina-se na identificação comportamental com as classes dominantes. Elas, apesar dos maus tratos e da capacidade de dominação, apesar de toda a hostilidade as classes exploradas nutrem pelos exploradores a vontade se imitá-los. Nesse período de sobrecarga emocional os desfavorecidos unem as vontades e passam a ver nos favorecidos, mesmo com comportamentos abusivos, os seus ideais de sucesso. Por isso xingam, maltratam o atleta e o rebaixam sempre que este não corresponde ao desejo imaginado.

            O verbo vencer presente na linguagem corriqueira de cada cultura pode significar uma disputa eleitoral, uma partida de futebol, uma guerra etc., como também um propósito pessoal de alcançar na realidade o que é e pode permanecer até o final da vida como uma fantasia. É nesse ponto que a Copa revela, não apenas atletas, como também personagens que se preocupam mais com imagem para vencerem o jogo do exibicionismo, antes e depois da partida disputada oficialmente em noventa minutos, dentro de um espaço cercado por holofotes.

            A mídia é uma grande aliada das posições narcisistas manifestadas pelos personagens criados para servirem de modelo para as imitações. A moçada que é induzida a maquiar-se e adornar-se antes de aparecerem em público, certamente nunca prestaram atenção nas características físicas do brasileiro Mané Garrinha que, além de possuir as pernas tortas, tinha um pé voltado para dentro e o outro para fora, como também, parece que a perna direita era 6 centímetros mais curta do que a outra. Basta fazer uma breve pesquisa na internet que irão aparecer dezenas de exemplos semelhantes, como é o caso do uruguaio Hector Castro que perdeu o antebraço num acidente com uma serra elétrica, mas foi o autor do primeiro gol das finais da Copa de 1930. Compare-se isso tudo com a extravagância, para citar uma, do ídolo Neymar que, aproveitando uma folga da seleção nos Estados Unidos, comprou um relógio no valor de 5,5 milhões de Reais. Isso representa a verdadeira posição narcísica, já que não pode brilhar dentro de campo,  a solução é marcar gols no exibicionismo consumista.

            É inegável que o futebol é um catalizador de emoções e, culturalmente tem servido para elevar a autoestima dos povos que, por trás de onze representantes, milhões de pessoas se vestem com as cores nacionais, ornamentam praças e ruas, abandonam os seus postos de trabalho e poderes oficiais para apreciarem e comemorarem cada pequena vantagem na competição. Por outro lado, a frustração da perda cumpre a função humilhadora de rebaixamento e inferiorização da grande maioria dos torcedores, esperançosos por uma vitória.

            O luto da perda leva a procurar as figuras incapazes que, no reverso da identificação comparam-se ao próprio identificador, por ser ele também um incapaz e um permanente perdedor. Ele provavelmente perdeu nas apostas feitas no cassino virtual da Bet, que ele levou para dentro de sua casa e nele mantém o acesso pelo aplicativo que instalou no seu aparelho celular.

            A Copa revelou os problemas culturais dos países. Os países do Norte global acostumados a explorar as riquezas dos países do Sul global, funcionam também narcisicamente como compradores de sonhos de crianças e adolescentes habilidosos, ao comprarem a preços exorbitantes, o direito sobre o uso do corpo do atleta que é obrigado a deixar o seu país e ir atuar em clubes estrangeiros. Quando mais tarde são convocados para comporem as seleções, já não possuem mais a identidade com a tradição futebolística do país de origem.

            A pergunta que todos fazem, é por que não surgem mais craques como antigamente? Talvez uma primeira resposta esteja no uso exagerado da tecnologia. Facilmente se compararmos com outras atividades artesanais, veremos que desde as Pirâmides do Egito existem coisas sem explicação, para tamanha habilidade construtora. O futebol é uma atividade artesanal que utiliza as habilidades musculares e a cognição do cérebro com os pés. Quando essas articulações são invadidas, seja por estilos, modelos, luxo, holofotes, dinheiro, sonegação, corrupção etc., a arte pede licença para se retirar e leva consigo toda a criatividade.

            Seria conveniente analisar também o desinteresse público nos investimentos em esportes. As empresas privadas ao cooptarem os clubes, fingem prestarem serviço àquilo que deveria ser patrimônio nacional, composto pela educação esportiva. O maior patrimônio de uma nação é a sua cultura. Na medida que as crises econômicas, políticas, ambientais, éticas e morais habitam o cotidiano dessas mesmas nações, em que base poderia a arte se sustentar para não sucumbir? Só há uma resposta: na garantia de que a vontade de vencer não suplante a criatividade e, as habilidades não sejam vendidas como mercadorias padronizadas.

                                                                       Ademar Bogo



[1] FREUD, Sigmund. Obras completas, volume XXI.

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