domingo, 28 de dezembro de 2025

BALANÇO DO BALANÇO


            Todos os finais de ano, costumeiramente, empresas, movimentos, entidades e partidos fazem o balanço para compararem os pontos positivos e negativos e, geralmente, as conclusões apontam alguns avanços, aqui e ali; coisas não tão boas, mas no final uma dose de otimismo, reanima as forças para o ano vindouro.

            É importante avaliar. Porém, há que ter algum parâmetro. Nesse caso as empresas estabelecem metas e os movimentos sociais e partidos políticos deveriam considerar alguns objetivos. Quando não há vínculo com nenhum desses dois referenciais, não se tem uma medida de tamanho para saber se de fato houve algum avanço considerável.

            Por outro lado, os apontamentos na política são menos consistentes do que na economia, isto porque, na primeira os resultados podem ser abstratos, sem matéria concreta, por isso, aquilo que na conjuntura parece ser um avanço, no real concreto, não criou nenhuma mudança estrutural, por isso não há nenhuma garantia de que um acordo ou a medida permaneça.

            Façamos aqui um comparativo nas relações tumultuadas com os Estados Unidos, em parte do ano de 2025. De repente surgiu, sem explicação uma elevada taxa de exportação e junto dela a aplicação da lei Magnitski, aquela que o imperialismo aplica contra qualquer cidadão do mundo e, por isso, enquadrou algumas autoridades brasileiras por estarem “desrespeitando os direitos humanos”. Havia de fato algumas exigências para que ambas as medidas fossem anuladas e, uma delas era anistiar os golpistas das ações de janeiro de 2023 que estavam no banco dos réus.

            Mas, eis que em meio as tensões, os Estados Unidos publicaram em 5 de Dezembro de 2025, o Plano para a América Latina e reafirmaram a mesma Doutrina Monroe, de 2 dezembro de 1823, que em síntese consiste na pregação do conteúdo: “América para os americanos”. Em síntese, isto significa, na linguagem popular, dizer: “Tudo nosso”; ou um recado aos países do Sul Global, como à China e à Rússia, que o território das três américas está sob o comando do imperialismo norte-americano. De imediato vimos as forças militares do Império tomarem o Mar do Caribe e cercear a liberdade de comércio internacional da Venezuela.

            Mas também, eis que de repente as taxas de exportação contra o Brasil foram reduzidas, e a Lei Magnitski, mesmo com a condenação dos golpistas, como se nada houvesse acontecido, perdeu os seus efeitos e as autoridades brasileiras foram ou serão ainda beneficiadas. O sucesso foi atribuído à capacidade da diplomacia brasileira que sabe negociar. No entanto, até o momento nada foi informado sobre o que precisou dar em troca para que tudo voltasse ao “normal”. Inicialmente os EUA demonstraram interesse nas terras raras e nas reservas de lítio presentes em várias regiões do Brasil, depois silenciaram. Será que excluíram o Brasil da doutrina Monroe que exige a “América para os Americanos?”. Claro que não. O primeiro argumento para esse “recuo” é não mexer com todos os formigueiros ao mesmo tempo. E, o segundo, é mais inteligente ainda, por que transformar alguém em inimigo se o que queremos dele, podemos obter sem briga? Portanto, momentaneamente comemoram-se os avanços, mas quais? Poder exportar suco de laranja, soja e carne bovina com as mesmas taxas cobradas anteriormente?

            A nível interno, também como demonstrativo de balaços sem profundidade, diz respeito aos que foram feitos pelos movimentos sociais do campo. Dizem que a reforma agrária está parada porque o orçamento disponível é limitado. Por outro lado, os avanços se referem à produção de alimentos agroecológicos e ao plantio de árvores, numa grande contribuição para reduzir o aquecimento global. Também são apontadas as ações de solidariedade no apoio à população afetada pelas catástrofes naturais e a distribuição de alimentos. Nas perspectivas, o único ponto posto como objetivo futuro a ser alcançado é o envolvimento na campanha eleitoral para a reeleição do presidente da República.

            Esses indicadores já confirmam em 80% o conteúdo do balanço do ano de 2026, isto porque, a reforma agrária continuará estacionada, os órgãos responsáveis continuarão inativos e, o montante maior de recursos serão destinados, como foi neste ano de 2025, para o agronegócio. Restará para os trabalhadores, a produção agroecológica em escala reduzida para contribuir com a merenda escolar, o plantio de árvores e a campanha eleitoral.

            Há no Brasil, nas últimas duas décadas, pelo menos, uma ignorância total na compreensão entre a diferenciação da estrutura do Estado e de governo, agravada por um terceiro elemento que é a figura do presidente Lula. Na política, que não separa afetividade e amizade com o presidente, personificam nele a superestrutura, por isso: “Se bater no governo, vai doer no presidente”. Quando uma coisa nada tem a ver com a outra.

            Todos sabem que o governo é composto por quase todas as forças políticas e representantes de todas as classes, logo, elas operam no interior dos ministérios. Diante disso, o raciocínio deveria se orientar pelas questões: o que tem a ver a elevada taxa de juros do Banco Central com a reforma agrária? O que tem a ver os R$ 516 bilhões de Reais destinados ao agronegócio com a reforma agrária? O que tem a ver o baixo orçamento do INCRA com a reforma agrária? E, em todas elas colocar um complemento: “É o presidente quem define?” Assim dezenas de questões deveriam ser formuladas para ajudar a direcionar as ações contra os inimigos. Aparentemente, entre o Estado e a classe dominante, que controla os cargos no governo e os trabalhadores, está o presidente Lula que impede uns de tocarem ou brigarem com os outros. Por essa razão, a luta de classes saiu da agenda.

            Por fim, podemos dizer que, se não há objetivos consistentes a serem alcançados, não haverá metas para serem avaliadas, logo, as vitórias se equiparam às conquistas dos movimentos dos agricultores europeus que ignoram a luta de classes e miram nos próprios interesses econômicos. Foi assim que impediram o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Não ganharam nem acumularam nada, mas o balanço foi positivo, porque impediram a entrada de produtos estrangeiros para competirem com os deles.

            Que o ano de 2026 seja prospero para a formação da consciência crítica, para que possamos enxergar a nova onda de dominação, vinda dos Estados Unidos, que se aproxima, com o propósito de tomar de assalto as riquezas naturais e escravizar os pobres, pretos, brancos e indígenas. “América para os americanos” deve soar como ameaça e não como orgulho.

                                                                                   Ademar Bogo     

domingo, 14 de dezembro de 2025

O ESDRÚXULO ESDRULUXADO


Como não há mais palavras na língua portuguesa para explicar a política brasileira, temos que inventá-las para dar algum sentido para a pouca inteligência que forma a irracionalidade dos parlamentares que dirigirem nação. A sensação nas ruas é que o parlamento foi tomado por uma maioria de mentecaptos que não reconhecem os sinais apontadores da ética política.

            O filósofo e advogado Marco Túlio Cícero (63.a. C), perguntou: “Quem dará o título de homem a um monstro que não reconhece comunidade de direitos para com os outros homens, nem laços que o unam à humanidade?”.[1] O mesmo poderíamos fazer hoje, quem chamaria de homens honestos aos deputados que fazem as leis em defesa causas particulares? Se antes eram conhecidos como corruptos, já é pouco chama-los assim, mas outros termos, como: clientelistas e favoritistas parece que ofendem ainda menos. Talvez “monstros do Congresso”, identifique uma espécie de mamíferos que só existe lá.

            As coisas estão de fato desreguladas. O certo parece que é o errado e o avesso o lado certo, ou, de fato, já não temos mais referências. Imagine se em qualquer país, no futuro, dois deputados abandonarem o parlamento porque cometeram crimes e fugiram do País e, os seus pares ao invés de cassá-los e exigirem a prisão imediata, aprovassem que eles poderão legislar de onde estiverem escondidos, recebendo os altos salários, como se nada tivesse acontecido? O que dirão aquelas gerações? Da mesma forma se uma deputada, fugitiva, julgada e condenada e presa na Itália, também continuasse sendo sustentada pelas verbas públicas? Esta pelo menos foi punida pelo Supremo Tribunal Federal com a declaração da perda do mandato.

            Por outro lado, entra em cena no linguajar político a “Dosimetria”. Poderíamos chamar de sistema de medida que mede as penas. Ou seja, seria a Trena que mede a altura de um cidadão. Quando encostado na parede, não há como negar, o que é, é. Mas no caso dos crimes, a metragem é diferente: o que é pode não ser. O sistema agora inaugurado é tomar o réu julgado e condenado e medi-lo duas vezes: a primeira em pé e a segunda acocorado. Valeria a segunda, porque a primeira serviu apenas para identificar o malfeitor.

            Essa medida “Dosimétrica”, poderia ser associada à infelicidade. Primeiro porque os infelizes seriam os condenados que recebem a pena e, segundo a população que torceu para que permanecessem presos, mas, de repente os “dosimetrados”, voltam às ruas para cometerem outros crimes no mesmo ramo da profissão do golpismo. Mas, calma, isto não ocorre com todos os presos, a revisão dosimétrica é um direito adquirido por aqueles que não aceitam os resultados das eleições, quebram e destroem as instituições públicas depois, é claro, de ficarem um tempo acampados em frente aos quarteis.

            Os livros de História do Brasil registram que Sebastião Ferreira de Paula, foi o preso político que mais tempo ficou na cadeia, 18 anos. Isto aconteceu porque ele não foi anistiado em 1979, por isso ficou 4 anos a mais que os outros que foram presos, torturados e julgados e amargaram uma dezena de anos ou foram exilados. Agora, o chefe da quadrilha militar que pegou 27 anos e três meses de prisão, em regime fechado, no passar a régua da Dosimétrica, sairá em menos de três anos. Ou seja, quem resiste a um golpe de Estado, tem a pena maior do que qualquer um que tenta dar o golpe e fracassa. E nem adianta olhar para a cara do juiz que foi chamado de canalha em praça pública, porque ele está junto para refazer as medidas.

            Mas isto ainda é insuficiente para os desmiolados fazedores de leis.  Avançaram também na aprovação ode outros benefícios escandalosos. Para evitar o trabalho de prender e julgar um deputado que comete um crime, aplicar uma pena e depois, pela Dosimetria desaplicar, estão preparando a emenda à Constituição, apelidada de PEC da Blindagem ou da bandidagem, que vem a dar no mesmo. No que consiste? Em poucas palavras, significa que um juiz pode mandar prender um deputado criminoso, mas ele só será preso se os colegas dele concordarem. Caso contrário, continuará no parlamento fazendo o que sempre fez: defender os próprios interesses.

            A Democracia Representativa é de fato o corredor que leva ao totalitarismo. Depois de depositado o voto em favor de um deputado, é como dinheiro perdido, quem achou finge que é dele e gastará onde bem quiser.

            Por outro lado, de fato entre a Democracia e a ditadura é melhor ficar com a primeira, por que, sendo branco, estudado, cabo eleitoral e amigo de políticos, com ela o sujeito pode desarrumar a ordem, mas não apanha da policia e, se for preso, sai com o pagamento de uma fiança; no entanto, se for preto, pobre, transgênero ou favelado, aí tanto faz votar ou ser proibido de fazê-lo, pois os resultados são os mesmos.

            Para terminar, na mesma noite em que aprovaram a redução das penas para os golpistas, mantiveram os mandatos dos dois deputados fugitivos do país, aprovaram a punição de seis meses de suspensão ao Deputado do PSOL, Glauber Braga, por ter empurrado um provocador nas imediações do Congresso Nacional”. Muitos consideram uma vitória e festejaram a conquista. De certo pensaram; “fazer o que?”, a floresta foi incendiada, mas a minha arvorezinha de estimação foi possível salvar.

            Então é isso, continuemos disputando o joio enquanto eles levam o trigo, os minérios e o petróleo embora. O império ameaça invadir a Venezuela e não se ouve uma palavra daqueles que elogiam o terrorista chefe maior do império, por ter recuado e tirado o Ministro Alexandre de Moraes e a esposa da Lei Magnitski. É o agrado para que se mantenha o silêncio e a neutralidade sobre a iminente invasão do país vizinho.

                                                                       Ademar Bogo          



[1] https://sumateologica.wordpress.com/wp-content/uploads/2009/09/cicero_da_republica.pdf

domingo, 7 de dezembro de 2025

A FÚRIA CONTRA O PORRETE


No dia cinco de dezembro de 2025, o império norte-americano publicou a renovação de sua estratégia político-militar para a América Latina. Pouco ou quase nada há de novo, se considerarmos o lema da Doutrina Monroe: “América para os americanos”, em vigor desde 1823.

Para quem tem acompanhado nos últimos tempos os movimentos geopolíticos, não terá muitas dificuldades em entender as manifestações desrespeitosas dos representantes do império que, diante da falência do modelo neoliberal, afunda-se na decadência capitalista, mas ao olhar-se mais demoradamente no espelho, viu, primeiramente, que a sua imagem se parece com a face envelhecida da Europa já sem forças para reagir e percebeu que lhes sobra uma única solução, que  é a defesa da invasão dos “bárbaros” imigrantes.

No entanto, ao permanecer, um pouco mais diante do espelho, o império também se vê invadido pelos bárbaros do mundo, por isso, como antigamente, ergue muralhas para defender-se e, por deter ainda um poderio militar satisfatório, decide atacar os que estão desarmados para submetê-los e dominá-los. Por quê republicam a estratégia Monroe de 1823? Porque há um movimento real de desprendimento dos países latino-americanos e do Caribe, que se voltam para estabelecer relações vantajosas com a China e a Rússia.

Essas aparentes recaídas para a repetição de comportamentos invasivos, são resultados dos reflexos do espelho, revelando ao observador enquanto se observa, que as suas forças de controle sobre o continente, esvaiu-se e, agora precisa atacar para se defender. “América para os americanos”, repete o que foi: “Roma para os romanos”, quando Nero, para disfarçar a decadência própria e do império, incendiou Roma e culpou os miseráveis cristãos que rezavam e faziam penitência para alcançarem dias melhores. Agora o Trumpnero culpa os miseráveis pescadores que navegam no Mar do Caribe, como se fossem traficantes e, para combatê-los, como não pode incendiar as águas do oceano, embora produza labaredas e fumaça, desloca o maior navio de guerra do mundo para manter a sua autoridade.

Não são apenas os slogans históricos que se repetem, as práticas também. Quando Pedro Alvares Cabral chegou ao Brasil em 1500 e avistou uma população estranha para os critérios europeus, buscou cativar a amizade, oferecendo, uvas, figos, pão, vinho, chapéus, espelhos e outras bugigangas, mas, para intimidar os mais curiosos pôs fogo em uma bacia de aguardente no intuito de mostrar que poderiam, se quisessem, incendiar as águas do Mar. Depois, já instalados no território alheio, cumpriram as suas intenções, que foi, com armas de fogo e incêndios nas florestas, exterminar os povos nativos resistentes e força-los a entregarem os seus bens naturais.

Como já vimos, desde 1823, ou seja, um ano após a declaração da independência do Brasil e, de quase todos os países da América Latina, realizadas entre 1804 a 1838, dando margem à formulação da expressão: “América para os americanos” e, depois, durante o século XX, o endurecimento foi ainda maior, quando o presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que governou o país, entre 1901 a 1909, baseado aplicou na política externa, o dito popular: “Fale mansamente, mas leve na mão um porrete”, criando assim a estratégia do Big Stik (Grande porrete), para intervir em nosso continente.

Com esse “porrete” na mão, os governos do império impuseram a aceitação de empréstimos, que depois se transformaram em dívidas externas impagáveis, mantendo as nações sob a chantagem dos especuladores por quase um século. Somado a isso, interferiram diretamente na política, financiando golpes de Estado para instalarem ditaduras sanguinárias por diversos países. Tendo essas medidas sido desgastadas, voltam à estratégia do “porrete” para obrigar os governos de nações soberanas a se curvarem aos interesses do império, cedendo-lhes os minérios, o petróleo e demais riquezas, em vista de sustentarem a base econômica dos criadores do lema: “América para os americanos”.

Tal qual o incêndio em Roma foi uma fantasia criminosa imposta por Nero, o problema do narcotráfico representa o mesmo para Trump. O fundamental é entender que não há sustentação argumentativa para proceder dessa forma, em cercear a liberdade dos países, isto porque: sabemos que todos os países possuem as suas fronteiras e devem lutar para preservá-las, este é um princípio da soberania. Por esse princípio e pelas leis comerciais, cada país tem um sistema de controle nas alfandegas, mas não há notícias de que algum, das quase duas centenas de países do mundo, tente controlar a exportação ou o tráfico de drogas na fronteira do país alheio. Conscientemente podemos intuir que é muito mais barato para os Estados Unidos, monitorarem as suas fronteiras e deixar em casa os seus soldados, ao invés de espalhá-los pelos oceanos.

É também inacreditável que, com toda a tecnologia bélica que direciona os ataques com altíssima precisão para atingir um alvo a milhares de quilômetros, sem causar vítimas, ou defender com escudos antimíssil impedindo os inimigos de alcançarem os seus objetivos,  os Estados Unidos ainda não possuiria condições de controlar a entrada de drogas em seu país?

Por outro lado, as principais fábricas de armas do mundo se localizam nos Estados Unidos, por que não vigiam a própria fronteira e impedem as exportações delas, sendo que a maioria delas cai na mão dos traficantes?

Enfim, a estratégia do imperialismo é manter as nações latino-americanas submissas e impossibilitadas de estabelecerem relações econômicas e políticas com outras potências do mundo. Evidentemente, esse movimento na atual correlação de forças não volta atrás. A decadência europeia assusta os Estados Unidos, pois, vê nela o seu amanhã. Por outro lado, nessa engenharia política, as próximas décadas apontam para a elevação das desestabilizações dos governos locais e de ocupações territoriais em pontos que o império precisa assaltar as riquezas naturais para sustentar, em algum grau, a concorrência na economia mundial.

As novas gerações terão de reagir ou viverão em sistemas análogos à escravidão do passado, vigiadas por satélites e combatidas antes mesmo de provocarem alguma reação. Os conflitos serão tecnológicos, e lado que estiver mais equipado perderá menos. As reações, porém, não serão coordenadas por partidos e governos pacifistas, negociadores de taxas menores para a exportação de suco de laranja, mas pela fúria libertadora dos povos em luta unificada contra o imperialismo. Bem do jeito que expressou Ernesto Che Guevara, em sua Mensagem aos povos do mundo, em 1967: “Crear dos, tres, muchos Vietnam".

                                                                       Ademar Bogo  

   

domingo, 23 de novembro de 2025

DO ENTUSIASMO NEGATIVO PARA O POSITIVO


            A conjuntura política brasileira apresenta sinais de pouco entusiasmo e de vibrações pouco irradiadoras de sensações positivas, por isso estamos avançando muito rapidamente pela via da negatividade.

            Quando os ânimos se manifestam entusiasticamente sobre a retratação das falsidades, como foi a redução das altas taxas decretadas sobre alguns produtos de exportação levados para o terreiro do império dos Estados Unidos, que após algumas negociações voltaram aos valores anteriores, não se pode dizer que tivemos uma vitória; muito pelo contrário, o império com uma simples chantagem, alcançou os seus objetivos de manter o Brasil sob seu domínio, ganhando a primazia de explorar o petróleo, as terras raras, o lítio e outros produtos que são de seus interesses na concorrência com a China.

            Tal qual ocorre com um prisioneiro domiciliar, que ganha o direito de ir até o mercado mais próximo, assim vemos a relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Ao invés de aproveitarmos o conflito, que a mais de duzentos anos não acontecia entre os dois países, em nome da conciliação, trocamos o direito de elevar-nos como uma nação soberana, somando-nos com a Venezuela e a Colômbia, que serão, em nome do combate ao narcotráfico, pressionados a cederem as suas riquezas naturais para os mesmos grupos exploradores internacionais, optamos por negociar para ficarmos no mesmo lugar da antiga dependência.

            A estratégia norte-americana não é invadir os territórios dos países latino-americanos, isso envolveria um conflito bélico com a Rússia e com a China, mas investir no desgaste das democracias convalescentes, pois, mal se recuperam de um golpe, logo surge outro motivo de desestabilização do frágil equilíbrio político. O confronto binário entre Democracia e Ditadura, tem servido para supervalorizar os processos eleitorais para eleger alternadamente governantes que, em um mandato entregam todas as encomendas solicitadas pelos saqueadores dos bens naturais, envolvendo a própria foça de trabalho e administrativa das próprias nações, para facilitar o domínio do capital externo.

            Esse misto de invasão conciliatória, praticado pelo imperialismo, leva as nações a se entusiasmarem com as próprias derrotas. Temos um exemplo vigoroso a oferecer. Quando a Petrobrás foi criada em outubro de 1953, junto a ela elevou-se o orgulho nacional com a popularização do otimismo em torno da palavra de ordem: “O petróleo é nosso”. Isso implicou no ataque à soberania e, menos de um ano depois, o presidente da República que sancionou a Lei 2.004, dando início a essa empresa estatal, foi obrigado a suicidar-se e, como deixou escrito: “Sair da vida para entrar na História”. De lá para cá, tivemos dois golpes de Estado com a presença vigorosa da mão do império e, na atualidade, apesar do entusiasmo nacionalista, 60% das ações dessa Empresa pertence à iniciativa privada, adquiridas pelo capital externo, tendo a participação de duzentos investidores brasileiros. Ou seja, além do Brasil ter apenas 40% das ações, produzir para entregar o petróleo para os saqueadores, embora tenhamos as maiores reservas de petróleo do mundo, como consumidores pagamos $ 1,17 dólar por litro de gasolina, enquanto os consumidores dos Estados Unidos, para onde vai o nosso produto, pagam $ 0,83 centavos de dólar.

            Por fim, o entusiasmo também se assenta sobre o julgamento dos militares que tentaram dar o golpe em janeiro de 2023. Não podemos negar que é uma conquista para, inclusive arrefecer o medo dos militares que no Brasil sempre foram implacáveis contra a democracia, os direitos sociais e políticos. No entanto, devemos entender que o movimento de acerto e acomodação está sendo conduzido pela força do próprio Estado, e este não pertence ao povo. Estamos de fora como sempre estivemos nos momentos decisivos, como a independência de 1822; a Proclamação da República em 1889 e agora no julgamento e prisão dos golpistas. É evidente ser reconfortante ver o principal genocida brasileiro de todos os tempos que, utilizando-se da tese da “Imunidade de rebanho”, levou a morte mais de setecentas mil pessoas, ser preso após tentar romper a tornozeleira com um maçarico, para fugir do país. Mas ele não fez tudo sozinho. Há milhares de criminosos e também culpados que estão escondidos nas instituições políticas, militares, da saúde e em outros meios, momentaneamente e covardemente calados a espera de se insurgirem e praticarem as perversidades que lhes são naturais.

            Karl Marx em 1843 ao falar da Revolução radical e na emancipação humana destacou que: “Nenhuma classe da sociedade civil pode desempenhar esse papel sem despertar, em si e nas massas, um momento de entusiasmo em que ela se confraternize e misture com a sociedade em geral, confunda-se com ela, seja sentida e reconhecida como representante universal(...)”.[1]

            É tempo de entusiasmar-se por algo verdadeiramente vantajoso. Para tanto, é preciso aproveitar os pequenos estímulos positivos para pavimentar o caminho das transformações permanentes. É de punhos erguidos e não de braços cruzados que as vibrações surgem e se transformam em força revolucionária.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 160.

domingo, 9 de novembro de 2025

O BANDITISMO É POLÍTICO

 

            Atribui-se a Eça de Queiroz a emblemática frase: “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”. Embora não se possa generalizar a aplicação comparativa, muitas situações condizem, principalmente quando o banditismo se apossa da política.

            A barbárie da matança e das imigrações continentais atribuída às drogas, vem elevando o grau de violência estatal, bem como, motivando guerras contra os países pobres, responsabilizando-os pelo tráfico, quando são outros os interesses perseguidos, tendo à frente o capital. Atrás dele estão os capitalistas produtores de armas, os especuladores e sonegadores que lavam o dinheiro desviado em outros investimentos; os traficantes de colarinho branco, políticos e agentes de segurança, lideram ou acompanham a caravana. As autoridades governamentais sabem disso, porque, quando se dispõem a combater o mercado de circulação de drogas, defendem ser preciso “causar prejuízo econômico”, descapitalizar o crime organizado confiscando das facções os bens e as estruturas fundamentais.

            É evidente que, no capitalismo, qualquer medida isolada que se tome para resolver um entre os diversos problemas, sempre será insuficiente, porque, a natureza dele está atrelada à estrutura de um sistema. É próprio das relações comerciais capitalistas serem lucrativas, por isso não importa se o produto em circulação seja o ouro ou o estrume animal, interessa o que essas transações rendem financeiramente. Por isso, é ignorância pura induzir a sociedade a pensar que as favelas seja a estrutura de comando do tráfico de drogas. Se compararmos a produção e a comercialização delas a uma indústria, nas favelas reside apenas parte da força de trabalho, contratada para fabricar e fazer circular o produto.

            Historicamente as drogas têm causado enormes prejuízos ao que chamam de civilização. A humanidade desde sua origem relacionou-se com as drogas. Generalizando os tipos, vão elas desde as bebidas alcóolicas consumidas há mais 10 mil anos, quando até os deuses se embebedavam, como é o caso do deus da riqueza, “Poros”, que, embriagado de néctar foi seduzido por, “Penia”, uma mendiga e, naquela relação geraram Eros, tido como o “mensageiro do amor”. Dionísio, o deus das festas e do vinho, costumava-se embriagar. Nas sagradas escrituras, são recorrentes os exemplos de uso e abuso de bebidas alcoolizadas, como por exemplo a transformação da água em vinho. O ópio como produto alucinógeno iniciou a sua comercialização na Ásia, há mais de 5 mil anos. O tabaco até o século XVII era culturalmente usado para rituais e recomendado para curar certas enfermidades. Com a estruturação do mercantilismo capitalista, todas as coisas tornaram-se mercadorias e, alvos para fazer render o capital.

            Na atualidade, quando as discussões rumam para a direção do “combate às drogas”, seguem o rumo da criminalização. Como não há um comércio ou fabricantes desses produtos estabelecidos com uma marca e um endereço fixo, reprimido, o tráfico organizou o seu “Estado de poder”, com governança e hierarquias clandestinas. No entanto, a repressão é feita no interior das favelas, onde está situada a parte sensível do processo, na qual se arregimenta a força de trabalho para fazer circular a mercadoria. Por ser um produto valioso, precisa ele de armas, escolta e um sistema de inteligência cada vez mais sofisticado para circular. Portanto, não existe, para algumas drogas, uma instalação pomposa, como a “Souza Cruz”, BAT, ou BRITISH AMERICAN, detentora do monopólio do tabaco, ou a AMBEV, representante da maior empresa de bebidas do mundo, que, mesmo comercializando drogas, viciando e causando prejuízos à saúde pública, funciona livremente, paga impostos expõe os seus produtos sem receber em troca nenhuma bala disparada pela ordem da lei.

Por serem as bebidas produtos de consumo culturalmente aceitas, são propagandeadas legalmente, apenas com duas proibições: não serem vendidas a menores e, não dirigir veículos motorizados após fazer uso delas. No mais, estão expostas em todos os lugares onde circula dinheiro. Com o tabaco também já foi assim. As gerações mais velhas devem lembrar do status rude e forte que representava a marca Malboro, exibida nas televisões, nos comerciais do horário nobre. Isso permaneceu livremente funcionando até 15 de julho de 1996, quando a Lei nº 9.294 passou a limitar o vínculo propagandístico da relação entre o cigarro e a virilidade masculina, mas continuou livre para ser comercializado socialmente. De lá para cá, se o percentual de fumantes no Brasil caiu, de quase 25% para cerca de 10% de fumantes entre a população em geral e, se não precisa de armas nem de facções para comercializar cigarros e bebidas, é porque a legalização de outras drogas pode ser a indicação do melhor caminho a tomar.

            Se a regulamentação do uso de bebidas e de cigarros caiu e, principalmente a população mais jovem evita viciar-se, quais foram os fatores que levaram a isso? Repressão policial? Não. Iniciou pelo avanço da conscientização juntamente com a elevação da taxa dos impostos na comercialização; a proibição do uso do cigarro em lugares públicos; campanhas educativas e, o ataque cultural contra o status do fumante. Portanto, não precisou de violência nem tampouco encarcerar a juventude preta para impedi-la de ter acesso ao tabaco. Logo, esse é um exemplo ilustrativo de que, a descriminalização de certos tipos de drogas, não conduz automaticamente ao aumento de consumo.

            Por outro lado, a associação entre o tráfico de drogas, a formação de facções e milícias é oportuna, mas muito ocasional. As facções se originaram na política, antes mesmo de existirem os partidos políticos. Elas visavam defender os interesses de seus integrantes e não os interesses da população. As milicias, historicamente, desde a Grécia Antiga, representaram grupos vinculados ao controle e a repressão social. No Brasil, na ditadura militar pós-1964, denominavam-se “Esquadrões da morte”; depois, “Grupos de extermínio” e, mais recentemente, “Milícias armadas”, organizadas com a finalidade de estabelecerem o controle territorial, para extorquirem e dominarem a população, usá-la para fins econômicos e redutos eleitorais. Por isso, mesmo com a eliminação das drogas, o controle policial, os maus tratos e a cobrança de serviços paralelos dos habitantes de bairros e favelas, essas formas de organização irão continuar.

            O que se chamou de “Mega operação policial” realizada nas favelas do Rio de Janeiro no dia 28 de outubro de 2025, deverá ficar na História como sendo o dia em que se deu a abertura da porta para a entrada das forças militares do império dos Estados Unidos. Com o argumento de que aqui reside a base do narcotráfico e do terrorismo mundial, virão para intervir. No fundo, isso representará a desculpa para alcançar outros interesses camuflados que é o de assaltar as riquezas naturais que possam impulsionar aquela economia. Para citar apenas um exemplo: no ano de 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque e assassinaram o Presidente Sadam Hussein, com a invenção mentirosa de que ele estava produzindo “armas químicas”. Após matarem mais de trezentas mil pessoas, não acharam nada de irregular, apossaram-se do petróleo e implantaram o caos político no país. 

            Essas reações fortalecedoras da barbárie social e política presentes no Brasil, revelam que a extrema-direita não foi punida o suficiente, com as condenações e prisões dos golpistas do 8 de janeiro de 2023. As insípidas negociações para a redução das taxas de exportação que, para o governo brasileiro parece ser um deslumbre, é apenas a cilada para aliciar as próprias forças da “esquerda liberal”, para que não substituam o dólar por outra moeda nos pagamentos das transações comerciais, saiam do BRICs e entreguem os minérios nobres para a exploração das empresas norte-americanas.

            O banditismo nacional e imperialista está se tornando a essência da política contemporânea. O comportamento dos mandatários das nações do norte-global é o mesmo dos chefes das facções e das milicias instaladas nas periferias dos países pobres. Impõem com os mesmos métodos totalitários o controle territorial. Somente o socialismo pode superar a barbárie e estabelecer a Paz no mundo.

                                                                                Ademar Bogo

             

           

domingo, 26 de outubro de 2025

O PRESENTE DE PRESENTE

 

Duas famílias se revezavam no poder de Florença na Itália na entrada do século XVI: os Soderini e os Médici. Maquiavel era um fiel servidor de Piero di Tommazo Soderini, até 1512, quando foi derrubado do poder. Dali em diante passou a ser considerado um traidor, o que ele jurava não ser. Após ser preso e torturado, recolheu-se em um sítio próximo à cidade e lá montou a sua estratégia de cativar o “príncipe”.

Está na dedicatória do livro O príncipe, de Nicolau Maquiavel, enviado ao Magnifico Lorenzo de Médici, ao qual pretendia agradar para, além de deixar de ser perseguido, voltar a ocupar algum cargo no governo de Florença na Itália. “Os que desejam obter o favor de um príncipe costumam, por via de regra, presenteá-lo com aquilo que mais caro lhes é ou julgam mais agradar a ele. Daí vermos amiúde serem os príncipes brindados com cavalos, armas, lhamas de ouro, pedras preciosas e outras dádivas semelhantes, dignas de sua grandeza”.[1] Mais adiante dirá ele que havia optado por dar provas de sua submissão, doando “o conhecimento das ações dos grandes homens”. Essa geralmente tem sido a tradição dos povos moralmente fracos trocar a própria liberdade por algum benefício.

Estamos vivendo a iminência de sermos atacados pelos Estados Unidos de diferentes formas. As primeiras investidas, para encurtar a história, vieram como o golpe institucional desferido contra a presidente Dilma em 2016; depois todas as falcatruas jurídicas da Lava Jato; a eleição planejada de Bolsonaro e a tentativa de permanecer no poder, com o quebra-quebra no dia 8 de janeiro de 2023. De lá para cá, os Estados Unidos em franca desvantagem econômica com a China, vem intensificando as ameaças de controle da América Latina e do Caribe.

As elevadas taxas impostas ao Brasil sobre alguns produtos de exportação de menor interesse do governo imperial, e a maneira como o nosso governo respondeu, pareceu uma atitude coerente com quem luta para manter a ideologia da soberania em evidência. Por que dizemos que a manutenção da soberania é apenas ideológica e falsamente defendida? Basta observarmos simplificadamente, que encontraremos mais de 4 mil empresas norte-americanas atuando no Brasil; elas representam 34% dos investimentos externos. Logo, de nada adianta falar grosso sobre as tarifas de 50% dos produtos importados, quando temos um protecionismo, estabelecido pela Lei Kandir, de 01 de novembro de 1996, que isenta da cobrança de tributo do ICMS, os produtos e serviços exportados pelas empresas que funcionam em nosso território. Nesse sentido, com essa quantidade de empresas, o serviço de inteligência capaz de grampear os telefones, como fizera com a presidente Dilma no passado, a tese de que “o presidente Trump está mal-informado” é no mínimo ingênua.  

Por outro lado, está evidente que, a disputa entre China e Estados Unidos sobre o controle mundial do comércio e produção da riqueza, promove diferentes reações com métodos diferentes. Os chineses agem de forma diplomática e cooperativa, os norte-americanos com ameaças e violência. O cerco em formação contra a Venezuela e a Colômbia pelo Mar do Caribe, é a prova cabal de que, os interesses econômicos, principalmente no controle do petróleo, estão na base dessa reação.  

No caso brasileiro, a aparente centralidade no problema político e não no econômico, se deve à diferente estratégia de enfrentamento montada pelos Estados Unidos. Em primeiro lugar, porque, até aqui, nos duzentos anos de relações diplomáticas, nunca foi preciso disparar nenhum tiro para que os interesses ianques fossem satisfeitos. O petróleo cuja exploração iniciou com o lema de ser “nosso”, com a política de leilão dos blocos, as empresas estrangeiras disfarçam a participação por meio da formação de consórcios. Tudo feito dentro da lei sem provocar conflitos. Em segundo lugar, é o potencial que ainda temos em minérios que podem interessar também aos outros países. Na medida que o Brasil passou a compor os BRICs, feriu os interesses do império e, por isso, a reação. Logo, os Estados unidos de olho no futuro, querem o nosso presente de presente.

Nesse sentido, de algum modo, vale muito a defesa soberania política, porém, na medida que a soberania econômica deixa de existir, o país sofrerá um assemelhado “derrame cerebral”, cujas consequências se resume em poder apenas mover os membros do lado direito do corpo, os do lado esquerdo ficarão paralisados.

Por isso, acendem as luzes amarelas, quando começa ter um certo ufanismo com as reuniões de entendimento nas conversas entre os dois governos, isto porque, a relação desde o início não é de igualdade. Os Estados Unidos partem de uma vantagem ofensiva que é a imposição da tarifa de exportação de 50%, é o que popularmente se chama de “faca no pescoço”. Diante disso, lembremos do alerta maquiavélico. Se vamos para a conversa para “obter favores”, então levaremos aquilo que nos é mais importante: o petróleo, o lítio, o nióbio, o cobalto, o grafite, as terras raras e outros minérios necessários para fazer a economia norte-americana se recuperar; ou levamos conhecimentos, para dizer que está na hora do Brasil ser respeitado, e que, a nossa autoestima superou a síndrome de sermos eternos “vira-latas”, serviçais e submissos aos caprichos do império.

É hora da reação em bloco e de darmos o segundo grito de independência, em continuação das primeiras conquistas latino-americanas do século XIX, que, entre 1804 a 1830 os colonizadores europeus foram escorraçados de nosso continente. José Martí, Simon Bolívar, José Carlos Mariátegui e Carlos Marighella,  têm muito a nos dizer, se quisermos mandar o príncipe para o inferno com todas as suas imposições.     

                                                                       Ademar Bogo



[1] MAQUIAVELLI, Niccoló. O príncipe. Brasília: Senado Federal, 2016.

domingo, 12 de outubro de 2025

PRÊMIO AOS VIRA-LATAS


            O mês de outubro de todos os anos tornou-se uma referência para o anúncio das premiações do “Prêmio Nobel”, expresso em seis categorias: Química, Física, Literatura, Medicina, Economia e Paz. Os cinco primeiros possuem base científica e, o último puramente político.

            A origem de tais prêmios está vinculada ao inventor da dinamite, o sueco Alfred Nobel (1833-1896). Químico e inventor, deixou a sua riqueza para compor o prêmio Nobel. A influência para os inventos veio de seu pai que era engenheiro e construtor de pontes, edifícios e estradas de ferro, que suscitaram a necessidade de inovar as técnicas de detonação de rochas. Após várias tentativas, em 1863, Alfred, realizou a primeira detonação utilizando a nitroglicerina e, um ano depois, patenteou o invento. O nome dýnamis, vem do grego e quer dizer “poder”. Foi esse poder que mais tarde veio a perturbar o sono de Alfred Nobel quando viu a sua criação sendo usada para outros fins, inclusive para matar pessoas.

            O seu arrependimento pela violenta invenção, veio quando, em 1888, por ocasião da morte natural de seu irmão Ludvig, um jornal francês, confundindo ser ele o próprio Alfred, noticiou a sua passagem com a manchete “Morre o mercador da morte”.  Para impedir que essa identificação o mantivesse eternamente preso à rememoração do mal, resolveu doar a sua fortuna para aqueles que apresentassem todos os anos, invenções significativas para o bem.

            Feitos os esclarecimentos iniciais sobre a origem do Prêmio Nobel, embora tenha havido belas surpresas nas pessoas escolhidas e laureadas desde 1901, ele tem cada vez mais se tornado um instrumento de manipulação do capital. Se os inventos trazem benefícios para a humanidade, pouco importa, vale fortalecer a cada ano as tendências a serem implementadas que rendam altos lucros.

            O Prêmio Nobel da Paz foi, neste ano de 2025, entregue para Corina Maria Machado, uma figura da extrema-direita venezuelana que já tentou dar golpe de Estado, falsificar os resultados das eleições e continuar promovendo articulações para desestabilizar o governo da Venezuela, com bloqueios e punições econômicas contra o seu próprio país. Suas articulações além de isolar a Venezuela do mundo, colocou a cabeça do presidente Nicolas Maduro a um prêmio de U$ 50 milhões de dólares.

            O prêmio Nobel da Paz, deveria ser de fato para homenagear e reconhecer, personalidades ou grupos sociais que almejam e trabalham pela Paz e não o contrário. Sabemos que os interesses do imperialismo é apropriar-se do petróleo e dos minérios existentes em grandes quantidades na América do Sul, por isso precisa de governos submissos. Nesse sentido não faltam candidatos com “complexo de vira-latas” para ajudá-los.

            Nelson Rodrigues escreveu em 1958 em uma de suas crônicas esportivas, na qual expôs essa definição: “Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”.[1] Na verdade, não são os brasileiros, mas os governantes, empresários e políticos oportunistas, que antes mesmo de serem confrontados, acanham-se e rastejam diante do império para fazer-lhes as honras, entregando-lhes a o incenso, o ouro e a mirra, e tudo o que há no subsolo.

            A vergonhosa postura dos empresários do agronegócio diante da elevação das taxas de impostos de exportação, para os 15% dos produtos que eram levados para os Estados Unidos, é de abismar qualquer pessoa. Como se estivem perdendo todos os privilégios, os vendedores da pátria brasileira, ajoelharam-se diante de um bufão de cabelos loiros, pedindo clemência. Esqueceram de observar que no mundo já temos 8 bilhões de pessoas distribuídas em 195 países, que precisam se alimentar. Os Estados Unidos da América têm atualmente, 340 milhões de pessoas; qualquer comerciante astuto faria essa relação se quisesse continuar os seus negócios lucrativos e procuraria outros mercados. Mas o medo de ficarem malvistos e, pondo em destaque o título de verdadeiros “vira-latas”, sentaram-se sobre a cauda para mendigarem a redução de impostos.

            O “complexo de vira-latas”, nada tem a ver com o cachorro, mas com a regularidade da conduta política que, desde 7 de setembro de 1822, quando o entendimento entre pai e filho, mediante uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas, pagos à Portugal, com um empréstimo de 3 milhões da mesma moeda, tomados da Inglaterra, representou o preço de nossa independência. Se não fosse a resistência baiana, com destaque à bravura de três mulheres: Maria Quitéria, Maria Felipa e Joana Angélica, o grito do Ipiranga teria sido apenas um grito.

            Portanto, o capital faz a guerra para destruir tudo e depois se apresenta como o redentor para reconstruir. O retrato fiel desse comportamento podemos ver nas imagens das ruínas palestinas. Isto renderá bilhões de dólares para os capitalistas e, o próximo Prêmio Nobel de 2026, com certeza será dado a Donald Trump. Enquanto isso, os canhões se voltam para a Venezuela que está situada num ponto estratégico, próximo da Guiana e da Foz do Amazonas, onde estão situadas as maiores reservas de petróleo do mundo.

            Somado a isto, a presença da China, com o projeto da Ferrovia Bioceânica ou Corredor Ferroviário Atlântico-Pacífico, saindo de Ilhéus na Bahia, para chegar à cidade de Chancay a 70 quilômetros de Lima no Peru, completa o colar da Rota da Seda internacional deixando os Estados Unidos fora dessa articulação.

            Não poderá existir Paz no mundo enquanto a solidariedade entre os povos não se tornar um valor fundamental. Enquanto os assassinos premiam-se entre si, todo e qualquer movimento em direção a Paz, terá por trás, as altas somas financeiras lucrativas alcançadas. É preciso suplantar o “Complexo de vira-latas” presente nas esferas políticas e mostrar que soberania não significa liberdade de mercado, mas a autonomia de decisão para virar a cabeça para o lado que queremos ver o mundo em cada momento.

                                                                       Ademar Bogo



[1] RODRIGUES, Nelson. Complexo de vira-lata. https://vermelho.org.br/2014/06/12/nelson-rodrigues-e-o-complexo-de-vira-latas.

domingo, 5 de outubro de 2025

PREPARAR-SE PARA O ASCENSO


As gerações nascidas na primeira metade do século XX, conviveram com um conceito temeroso conhecido como “Guerra nas estrelas”. Essa estratégia passou a vigorar na área militar após as duas grandes guerras mundiais, quando o mundo terreno foi oportunamente repartido pelas potências mundiais, mas restava ainda conquistarem o mundo das estrelas.

Quase que repetindo as fantasias platônicas, o qual dividia o universo em dois mundos: o inteligível onde residia as ideias perfeitas e, o mundo sensível, terreno, no qual reproduzia-se as cópias, geralmente imperfeitas, porque as capacidades naturais eram sempre inferiores às habilidades dos deuses. A guerra nas estrelas, de algum modo, levou as ideias para o espaço. Muita tecnologia foi criada por esta concepção desbravadora de outros planetas, como também, ainda busca condições para habitá-los.

De outro modo, Aristóteles havia sido bem mais realista. Intuiu que existem dois mundos: o supralunar (desconhecido) e o sublunar, possível de ser conhecido, pois, abaixo da lua tudo era possível de ser conhecido. Foi neste segundo mundo que a estratégia da “guerra nas estrelas” se situou tecnologicamente, com a instalação de satélites, sondas, estações, foguetes e outros meios de vigilância, capazes de fazerem as nações mais fracas submeterem-se às demais. Este conceito de controle sublunar nos é mais compreensível, isto porque, as nações disputam o poder sobre esse espaço, enquanto se preparam para dominarem a parte superior do universo.

Se a “Guerra nas Estrelas” era uma intensa concorrência entre as potências para saber quem conseguiria levar a vida humana para lá, ainda deverá fazê-lo; porém, o olhar de cima, por intermédio de lentes, tornou-se perigoso para elas no mundo sublunar. As localizações dos alvos são precisas e certeiras, pois, a mira governada por raios laser chega primeiro do que as balas e marca os pontos a serem perfurados. No entanto, há uma fragilidade nesse mundo terreno; da mesma forma que acontece entre as árvores, a concorrência não se dá apenas entre aquelas árvores que têm a copa mais alta, mas também as raízes mais profundas, para sustentarem-se quando os vendavais violentam a floresta. Os de cima, ainda moram aqui embaixo e não é difícil de localizar os seus investimentos.

Nas últimas décadas,  o conceito de “Guerra Fria” tornou-se coisa do passado e, os combates voltaram a ser com fogo e chumbo. Com a queda da União Soviética, os imperialistas imaginaram que o mundo havia se tornado unipolar, e o capitalismo estava salvo das ameaças comunistas. Ledo engano, diante da autossuficiência dos fortes, os fracos ousaram desafiá-los com as práticas mais simples: solucionar os problemas socioeconômicos sobre a terra. Foi então que algumas economias cresceram mais do que o esperado. Os mercados passaram a ser inundados pelas mercadorias baratas que levaram à falência as fábricas locais. O próprio capital excedente, ao invés de investir na produção, transmutou-se para a especulação, levando o império dos Estados Unidos, principalmente, a manter as armas apontadas contra os múltiplos inimigos, porém, sem capacidade para produzir a própria munição.  

De um ano para outro, após dois séculos de exploração imperialista, os fracos e humilhados levantaram a cabeça: México, Colômbia, Venezuela e Brasil, no coração das américas, começaram a dizer “não”, aos Estados Unidos, e prometem aliarem-se com outras referências, como a China e a Rússia, formando outro bloco alheio ao G20, chamado inicialmente de BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), mas outras nações também se somam e estreitam as relações.

Embora esse ascenso seja institucional ele cumpre o papel de encorajar as lutas locais e continentais, a atacarem no mundo terreno, onde vivem e trabalham os mortais, todos os vestígios de intervenção. Com os alvos ampliados, as tecnologias aéreas perderão a eficiência, porque será a força física contra a tecnologia armamentista e a inteligência humana, acima da inteligência artificial, que comandarão o planejamento da vida sobre a terra.

Fora as contradições da globalização que criou as condições para o revigoramento do internacionalismo e s solidariedade entre os povos. A defesa da é demonstração vital de que uma parte da humanidade continua ativa e dispostas a tomar em suas mãos o destino do planeta. Os clamores por justiça ecoam pelos ares e tocam os ouvidos das populações exploradas, para que reajam contra os criadores da miséria, da violência e da dominação. É com coragem e unidade que as classes dominantes, em qualquer parte do mundo, serão definitivamente dominadas.

É preciso preparar-se para o ascenso das lutas unitárias; elas serão locais mas de alcance universal, porque a causa será comum. Os impérios fracassam quando perdem o controle sobre os povos. Nenhuma tecnologia será capaz de impor a obediência total, quando, por revolta ou por consciência as pessoas decidirem conquistar a própria liberdade.

                                                                       Ademar Bogo

domingo, 21 de setembro de 2025

SOBERANIA PARLAMENTAR


                Embora a Inglaterra tenha na modernidade produzido grandes filósofos como Thomas Hobbes (1588-1679), ferrenho defensor do absolutismo, no qual reina o poder do soberano, foi o país que por primeiro implantou a monarquia parlamentarista, consolidada em 1688, com a Revolução Gloriosa e assim vigora até os nossos dias.

                Não se trata aqui de defender aquela forma de governo esclerosada, importa é fazermos uma breve reflexão sobre a ideologia da democracia representativa, a qual, superficialmente, combina irmanação dos três poderes, que constituem a representação da ordem no mundo civilizado.

                Hobbes produziu uma ideia no livro: Diálogo entre um filósofo e um jurista, que nos ajuda entender como funciona a mente dos legisladores. “O senhor gostaria que os homens alegassem mutuamente como lei sua razão particular? Entre os homens não existe uma razão universal sobre a qual há acordo dentro da nação, além daquele que tem o poder soberano”.[1]Isso é tudo. Quem pode usar a razão para fazer leis ou revogá-las, é somente o soberano, os demais cidadãos usam a razão apenas para usufruírem o que está ao alcance de suas mãos.

                Se entre os homens somente o soberano tem razão universal, significa que por tê-la, está acima dos homens comuns e, por isso, mesmo sendo pego pela lei por ele elaborada, estará blindado. Assemelha-se esse fenômeno ao da invenção da bomba de gás lacrimogênio, pelos Norte americanos  Ben Corson e Roger Stoughton,  em 1928,para maltratar as multidões, enquanto para aquele que a lança  por estar usando a proteção da máscara antigás, nada acontece.

                No Brasil, estamos caminhando para o absolutismo do parlamento. Leis  incômodas são substituídas pelos Projetos de Emenda Constitucional – PEC, enquanto a sociedade assiste o desmonte de sua Constituição.  A mais recente invenção é a PEC da “blindagem”. Em síntese é uma lei que impede a abertura de qualquer processo contra um parlamentar, salvo se o próprio Congresso autorizar. Na verdade, como eleitores já sabíamos que, sempre após eleito, o político cria a sua própria autonomia, porém, não sabíamos que o voto tem o poder de elevar os eleitos acima das próprias leis que eles elaboram.

                Se a moda pegar, o sacerdote e o pastor farão as suas leis para não serem pegos na pedofilia; o artista precaver-se-á legalmente para quando beijar tecnicamente, não passar ser visto o ato como um assédio; o fazendeiro, antes de pulverizar o agrotóxico, prevenir-se-á com uma lei de não contaminação; o juiz quando vender sentenças; o jogador de futebol envolvido em falcatruas nas loterias, todos formularão as suas garantias.

                Os escândalos entram para a normalidade porque a barbárie já se normalizou. O banditismo político tornou-se incontrolável. A eticidade, segundo o filósofo Hegel, que  deveria estar acima do direito e da moral, para garantir que a liberdade individual esteja submetida ao dever e a vontade social, não está mais. Vemos mesmo é o seu contrário. O indivíduo acostumado com o crime, impõem aos cidadãos de bem, as suas projeções legais. Assim funciona o mundo paralelo: o gangster, chefe do crime organizado, elabora as normas que lhes servem de poder pessoal.

                Ainda não vimos tudo. Esses setores marginais, com vinculação orgânica nas religiões, facções organizadas, parlamento, grande parte das forças policiais, capital especulativo, setores produtivos, como o agronegócio, as mineradoras etc., já se tornaram centros de articulação política. O crime não teme a lei. Esta última se vê como um cão acorrentado sendo caçado pela onça. Quando algumas lições podem ser dadas, o Congresso anistia, reduz as penas e tudo segue sendo a encenação dos facínoras fascinados, que acham terem mais razão do que os demais seres racionais.

                O capitalismo decadente revela as suas contradições em todas as dimensões. O Estado e o Direito, vistos na teoria como pilares da manutenção da liberdade, garantidores aos cidadãos do direito de ir e vir, tornaram-se reféns de grupos de malfeitores, que se protegem de todas as maneiras, para não serem surpreendidos em sua travessuras.

                Mais problemático do que a blindagem é a conivência e, pior que esta é a imobilidade diante da barbárie política. O poeta Paulo Leminski, em seu poema “Bem no fundo”, interpretou o desejo universal à inanição: “No fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto”. Se veremos solução, é para os problemas deles.

                Portanto, não basta lamentar-se, é preciso proibir de enganar-se que das urnas poderão nascer parlamentares mais descentes. A política será moralizada quando o parlamentar, antes de votar qualquer decreto, precisar consultar e ser autorizado a opinar, pelos eleitores que lhe deram o mandato.   

                A luta continua.

                                                                                                              Ademar Bogo



[1] HOBBES, Thomas. Diálogo entre um filósofo e um jurista. São Paulo: Landy, 2004, p. 54

domingo, 14 de setembro de 2025

JULGAMENTO E JUSTIÇA


Há momentos importantes na vida de um cidadão ou na história de um país, cujas marcas ficam registradas para sempre. É o caso de um julgamento. Os olhos se voltam para o tribunal para vislumbrarem o produto que sairá de lá, com o nome de condenação ou absolvição, daí surgem as expressões, nos juízos particulares, se os resultados foram justos ou injustos.

Aristóteles foi um dos primeiros filósofos gregos a teorizar sobre a justiça.Ora, "justiça" e "injustiça" parecem ser termos ambíguos, mas, como os seus diferentes significados se aproximam uns dos outros, a ambiguidade escapa à atenção e não é evidente como, por comparação, nos casos em que os significados se afastam muito um do outro (...)”.[1] Talvez esteja nisso a chave para entendermos essa confusão, quando não sabemos discernir se o réu é culpado ou inocente.

O filósofo preocupa-se em situar a materialidade dos atos, mas, ao deparar-se com os diversos significados para “um homem injusto” que, muitas vezes não conseguimos localizar em que ponto está a sua culpa. Para facilitar o entendimento, voltou-se Aristóteles para os comparativos do “homem sem lei” e, o “homem respeitador da lei”. Acontece que entre o réu e a condenação, estão as argumentações para prendê-lo ou soltá-lo das malhas da lei.

As vezes as expectativas são maiores do que as evidências e com isso há desequilíbrio na aplicação dos pesos e das medidas, por isso, os julgamentos as vezes parecem ser justos, outras vezes injustos. As coisas se agravam ainda mais quando adentramos para o campo dos desejos, também ambíguos, no sentido de “fazer justiça” ou “fazer vingança”.

Entre a justiça e a vingança não há parede divisória, apenas duas linhas paralelas, com cores diferentes, marcam as satisfações e insatisfações. Satisfeitos com o resultado do julgamento, nem sempre nutrimos o sentimento de justiça; haverá ainda o seguimento de onde e como o réu cumprirá a sentença e progredirá no cumprimento pena. Já que o cidadão não pode interferir nas decisões do juiz, ele faz denúncias e exigências para que tudo seja cumprido nas piores condições possíveis, com as mais perversas companhias, vistas como instrumentos da vingança e acompanhada de todas as maledicências para que de tudo de ruim lhe aconteça do lado de dentro das grades.

Assim é a civilização: A lei acima de todos. No entanto, há situações que acima das leis estão aqueles que as elaboram, isto porque, como um pai nunca imagina que será punido pelo filho, supostamente, a criação de uma lei jamais se voltaria contra o seu criador. Mas pode vir a ocorrer. Quando isso acontece, como a ambiguidade entre o veneno e o antídoto: os fabricantes mudam a fórmula, um fica sendo a doença e o outro o remédio. Por isso surgem os pedidos de anistia que somente podem ser realizados com a aprovação de uma lei que anula os crimes imputados por outras leis.

A imunidade parlamentar é um exemplo de que há pessoas acima das leis que não podem alcança-lo enquanto durar o seu mandato e, a impunibilidade do juiz que faz a interpretação das leis segundo os seus interesses. Não há limites hermenêuticos, mesmo quando os atos falam por si mesmos, há a possibilidade de assegurar aos culpados uma mentirosa inocência.

Por outro lado, a justiça e a política são acompanhadas da coragem e do medo. No Brasil, logo após a abertura política de 1985, houve a campanha para presidente da republica em 1989 e, o Partido dos Trabalhadores hegemonizou as mobilizações com o slogan: “Sem medo de ser feliz”. Buscavam os seus ideólogos espantarem o fantasma do comunismo que as forças responsáveis pela ditadura militar haviam criado. Quando em 2002, aconteceu a primeira vitória eleitoral para governar o país, a afirmação verbal foi: “A esperança venceu o medo”.

O que chama a atenção não é o resultado alcançado, mas o “medo” que aparece nos dois momentos históricos decisivos. Por isso, se justificava a intocabilidade dos militares. Os ditadores e torturados responsáveis por centenas de mortes, torturas, censuras, perseguições etc., vivem ainda ou morreram em suas casas, com soldos e vantagens que se estendem para os seus familiares, privilégios que nenhum trabalhador brasileiro possui.

Nesse último onze de setembro de 2025, enquanto rememoramos os 52 anos da morte de Salvador Allende, vítima do golpe militar chileno em 1973; no Brasil assistimos à condenação de um grupo de golpistas que atentaram contra os resíduos de democracia política em 8 de janeiro de 2023. É evidente que isto é muito pouco em relação a tudo o que as lutas de resistência já passaram e sofreram, pela violência praticada pelas intervenções militares contra elas. De algum modo, só para citar alguns: Zumbi dos Palmares morto pelas forças oficiais em 20 de novembro de 1695; Antônio Conselheiro e os mortos de Canudos em 1897; Carlos Marighella (1969), Carlos Lamarca (1971) e todos os guerrilheiras e guerrilheiras que organizados enfrentaram a ditadura militar de 1964, nesse dia também foram lembrados.

O pouco se torna muito quando se ampliam os resultados. Se algo de bom ocorreu com a condenação dos golpistas, foi que “o medo venceu o medo”. Agora é possível dizer que é possível. Mesmo que tudo continue como está, um passo adiante foi dado, frente ao fantasma militar e o poder do imperialismo que, unidos, construíram o que de pior pode existir contra uma nação para que ela seja soberana, que é o medo de se insurgir.

Por tudo isso, podemos dizer que houve julgamento, mas a justiça ainda não aconteceu. O sofrimento dos povos originários massacrados; dos negros escravizados e mortos; dos pobres e trabalhadores reprimidos, presos e torturados, são todos crimes cometidos pelo braço jurídico e a mão armada dos Estado brasileiro. Para que a justiça verdadeiramente seja feita, precisamos eliminar a principal ambiguidade composta pela contradição entre explorador e explorado, para isso é preciso que o próximo tribunal seja popular, instalado nos campos, nas fábricas, nos serviços, praças, ruas e favelas para nele condenarmos, a desigualdade social, a propriedade privada, a exploração do capital e o poder centralizado do Estado. Nesse sentido, a luta não terminou, aliás, ela apenas começou.

                                                                       Ademar Bogo



[1] ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, p. 12