Duas
aversões políticas, além do sequestro do presidente Nicolas Maduro e da
Deputada Cilia Flores, sublinham as investidas inovadoras dos Estados Unidos
nesse primeiro mês de 2026, que são: a criação do Conselho de Paz para atuar na
Palestina e a ameaça de tomar à força a Groelândia.
Esses
rompantes políticos não são de brincadeira; eles representam o início de uma
escalada diferenciada para questionar e eliminar as poucas restrições que ainda
restam da autoridade das instituições internacionais que, mal ou bem, no pós-Segunda Guerra serviram como instrumentos para muitas combinações entre os
países do mundo. Agora, no governo atual, os dados mostram que os Estados
Unidos já saíram de sessenta organizações internacionais. Portanto, a intenção
é clara, o império não quer se deixar cercear em sua ampla liberdade de ser o
poder unipolar do Planeta. A novidade estratégica está na tentativa de alçar,
pelo poder militar norte-americano, ao grau de soberano universal, o presidente
Donald Trump. O último a tentar fazer esse movimento para impor a ideologia
nazista, foi Adolfo Hitler, que resultou, segundo reza a História, ter de
suicidar-se em 30 de abril de 1945, alguns meses antes do final da Segunda
Guerra Mundial.
A
tentativa de formar um Conselho para reconstruir Gaza, vai nessa linha de
substituir e renegar a autoridade da ONU, para colocar o poder de intervenção
paralelo nas mãos do chefe do Conselho. Na verdade, o objetivo primeiro é dividir
os gastos da reconstrução das ruínas marcadas pelo genocídio entre os países
participantes, para construir uma miragem e esconder a vergonha da derrota do
império e do sionismo contra o povo faminto da Palestina. Com certeza, esse
gigantesco investimento do mercado imobiliário não será para beneficiar a
população local, no máximo ela será força de trabalho altamente explorada, sem
as mínimas condições de adquirir um imóvel de luxo. Por outro lado, nessa
cidade constituir-se-á outra base militar do Estados Unidos para controlar
definitivamente a região do Sudeste da Ásia.
A
segunda ofensiva é ainda pior. Ao iniciar com a proposta de anexar a Groelândia
aos Estados Unidos e ter percebido a desaprovação mundial, o soberano genocida optou
pela compra da Ilha bem-posicionada geograficamente e riquíssima em minérios
úteis aos Estados Unidos. Com a negativa da Europa, embora seja um velho
continente em decadência, já sem forças para influenciar a política mundial,
possui um significativo poder militar, basta lembrar que é com essa tecnologia
que a Ucrania enfrenta a Rússia já a quatro anos. Supostamente acovardado,
Trump percebeu que, com grosseria o estrago seria maior do esperado e, ao invés
de punir os países contrários com altas tarifas comerciais, prontificou-se a
negociar, sem desistir de ter o controle político e militar daquele cobiçado
lugar.
Ninguém
pode negar a dianteira que os Estados Unidos levam sobre os demais países no
que diz respeito às tecnologias armamentistas e de comunicação. A Indústria
bélica e as big techs possuem o poder de explodir o mundo e filmar essa façanha
em tempo real. Mas isto é suficiente para manter a unipolaridade da dominação
do Planeta?
Há
diversos estudos mostrando que a China já é a maior economia do mundo e isso
não tem mais volta. A indústria dos Estados Unidos, além de ter perdido a
batalha econômica não terá mais como recolocar-se em primeiro lugar. Imaginemos
um país como o Brasil, se quisesse disputar a produção industrial com a China,
teria zero de possibilidades de ser um competidor à altura; o mesmo está
acontecendo com a economia norte-americana. Por isso, a compulsão de controlar
as maiores reservas de petróleo, embora seja uma das matrizes energéticas mais
ameaçadas para ser descartada e, o assalto às reservas de minérios nobres,
revela o desespero para garantir uma sobrevida econômica ao império com a velha
matriz energética. O império irá competir na produção de componentes
eletrônicos queimando petróleo, não porque quer, mas por não ter outra força tecnológica
a altura para fazê-lo.
Então,
se é nas armas, na informação e no dólar que o império se sustenta, ele pode
defender-se de qualquer ameaça? De certo modo sim, mas por algum tempo. Tudo
indica que esses instrumentos logo possam vir a ser obsoletos. Vimos pela
experiência na faixa de gaza que os mísseis não fazem todo o trabalho nas
frentes de batalhas; há lugares que precisa entrar com os próprios pés e com
armas de curto alcance, e isso todos os povos podem ter. Essa batalha intervencionista
Ronald Trump já perdeu pela própria desaprovação da opinião pública de seu
país.
Por
outro lado, é importante ler os dois sinais dos tempos. O primeiro, se a guerra
econômica está perdida, as tarifas elevadas não surtirão efeitos, porque, aos
poucos os países farão circular os seus produtos nos livres mercados entre si
e, por essa razão utilizarão as próprias moedas ou criarão uma outra que sirva
para os negócios comuns; mas o poder das armas continuará em evidência. Devemos
prestar atenção e ver se se confirma a nova tendência inaugurada na Venezuela de
tomar o produto e não o “poder”, no caso o petróleo, e deixar que a governança
seja exercida pelas próprias forças locais. Isto evitaria confrontos maiores e
os objetivos econômicos seriam alcançados sem se envolver tão profundamente com
a troca de regime e de governo; ou seja, as democracias eleitorais podem eleger
quem bem quiserem que o império garantirá os seus interesses por outras vias.
O
segundo sinal vem da Ilha da Groelândia. Essa tendência aponta para, vamos
chamar de “estratégia do domínio do ponto”, e indica que não é preciso guerrear
com todo o Reino da Dinamarca nem com a Europa, basta ocupar a parte do
território que interessa, ou seja, a ilha da Groelândia. Na Venezuela equivale
o Lago de Maracaibo no noroeste do país, onde está situada a extração do
petróleo; no Brasil o petróleo está na Foz do Amazonas e as terras raras em
Tapira e Araxá em Minas Gerais; Catalão em Goiás e em Pitinga no Amazonas. O
modo para os invasores estabelecerem-se poderá ser pela compra pacífica de
áreas ou pela tomada do “ponto” violentamente, cercá-lo com sofisticadas
tecnologias ou estabelecer uma base militar sobre a área da jazida.
A
imagem do “domínio do ponto” é importante para fixar a ideia da repetição na
política das práticas do crime organizado. O banditismo político igualou os
métodos violentos em esfera internacional com o tráfico de drogas a nível local.
Agem dessa forma por terem a certeza que nenhuma força superior terá o poder de
destruí-los.
É
nesse sentido que precisamos falar sério. As forças políticas e populares
precisamos entender que nunca ficou tão evidente que há um grande inimigo da
humanidade a ser derrotado. Para evitar surpresas, de pouco ou quase nada vale
eleger um presidente que não possua uma base de combate organizada. A força
humana é maior que a força das armas. Se eles têm a estratégia do “domínio do
ponto” a nossa estratégia deve ser a do “domínio do alvo”.
O problema crucial do império é econômico. É contra
esse poder que devemos lutar na esfera nacional, como faz a China a nível universal.
Há no Brasil mais de 4 mil empresas norte-americanas; no México existe
basicamente o mesmo número; no Chile cerca de setecentas e assim segue, em
todos os países da América Latina há uma quantidade significativa de
investimentos a explorar e enviar dividendos para os Estados Unidos, que não
podem se mover nem sair do lugar. A potência dos misseis não protegerá a
vulnerabilidade desses alvos.
Portanto,
se uma significativa parcela do poder econômico do império está em todos os
países da América Latina, está próxima de nossas casas. Quando falamos em “poder
popular”, precisamos incluir nessa ideia do controle da economia. Nenhum povo
pode defender-se da agressão externa se não estiver organizado. Os grandes
movimentos se sustentam porque possuem células, conselhos e núcleos de combate.
Um alvo para ser acertado, precisa antes ser cercado, conhecido e mirado.
Conscientemente ninguém acerta um alvo que não vê. Estudar, organizar para
esses fins e combater, deveriam ser as nossas tarefas urgentes deste tempo.
Ademar
Bogo
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