No século XIX o Império da Grã-Bretanha
transportava o ópio da Índia e o vendia na China, transformando aquela droga em
um grande negócio, principalmente porque o tráfico facilitava ter acesso aos
minérios chineses. Em 1839, o imperador da dinastia Qing, proibiu a entrada
desse produto, o que resultou em uma guerra de quatro anos. Entre os anos de 1839-1842,
desencadeou-se um acirrado conflito que culminou no “Tratado de Nanquim”, do
qual consta a obrigatoriedade da abertura do porto de Hon Kong para quaisquer
produtos circularem livremente.
Em 14 de julho de 1853, Karl Marx
escreveu e publicou em um jornal dos Estados Unidos da América, uma matéria com
o título: “A revolução na China e na Europa”. Iniciou considerando a unidade e
luta dos contrários, fazendo menção ao princípio de que os “polos opostos se
atraem” e, na sequência destacou que: “Pode parecer muito estranho e paradoxal
afirmar que o próximo levantamento dos povos europeus em favor da liberdade
republicana dependerá provavelmente mais do que se passa no Celeste Império –
no polo oposto da Europa”. Ou seja, as contradições com a China causariam tremores
na Europa e, obrigaria a população a se
revoltar.
As coisas não ocorreram tão linearmente
conforme essa previsão, primeiro porque os europeus haviam se revoltado e
estavam concluindo a realização das Revoluções Liberais, que implantou verdadeiramente
o liberalismo no mundo Ocidental, naquele período. Por isso, a segunda guerra da
Grã-Bretanha e a França contra a China, se deu entre 1856-1860, quando houve a
obrigatoriedade da legalização do ópio, oficializado pela Convenção de Pequim.
O ópio é uma droga extraída da papoula
com diferentes potencialidades, elas vão desde a produção de analgésicos até a
droga conhecida pelo nome de heroína, produzida na atualidade legalmente na
Austrália, França, Turquia e Espanha, para fins medicinais e, ilegalmente, principalmente
o Afeganistão que trafica o produto como droga.
Para Marx, as revoltas em andamento
na china tinham a sua causa principal nos interesses europeus, nisso reside a
importância da análise da categoria dos “polos” posta no início do artigo, para
entender que o princípio dialético da unidade e luta dos contrários,
obrigatoriamente leva aos enfrentamentos decisivos, quando as contradições
chegam às necessárias superações.
Situação semelhante ocorreu com o imperialismo
norte-americano. No final da década de 1970 quando os blocos econômicos
passaram ser uma saída vantajosa para implantar o modelo do neoliberalismo,
paralelamente aos acordos entre os países, apesar de, nas américas, somente o
bloco do NAFTA firmando pelos Estados Unidos, México e Canadá foi assinado no
ano de 1994. Nos demais países permaneceu o mesmo modus operandi, baseado
na Doutrina Monroe de 1823, da “América para os americanos”.
A vigilância aparentemente displicente
dos Estados Unidos sobre os países latino-americanos, após as aberturas
políticas na década de 1980, levou as forças progressistas a crerem que, por
exemplo, a soberania nacional seria um princípio fundamental que impediria as
intervenções e ingerências. No entanto, as imposições passaram a ser
construídas de diversas maneiras, impostas ou acordadas, como foi o caso do
Consenso de Washington em 1989, que aprovou de comum acordo entre os governos,
os dez princípios implementadores do neoliberalismo, dentre eles consta o
controle dos gastos públicos, a liberalização das taxas de juro e a segurança
jurídica. De repente as taxas elevadas de inflação foram controladas; no Brasil
tudo iniciou com o Plano Real de 1994; as dívidas externas começaram a ser negociadas
com os credores estrangeiros; as eleições livres, porém em dois turnos,
apontavam, para quem viveu a perseguição totalitária das ditaduras militares,
para um grande avanço civilizatório.
Paralelamente ao Consenso de Washington,
outras diretrizes foram produzidas e com certa facilidade todos tivemos acesso,
aos famigerados Documentos de Santa Fé (I e II), nestes continham os alertas
dos perigos políticos existentes na América Latina que precisariam ser
combatidos, dentre eles e, mais específicamente: A teologia da libertação por
ter influencia marxista; o narcotráfico e o combate ao estatismo sob a
influência da União Soviética.
Passadas mais de três décadas, o
balanço é desanimador. Em primeiro lugar a Teologia da Libertação foi
totalmente desmantelada e as Comunidades Eclesiais de Base - CEBs – que haviam
demonstrado a sua eficiência orgânica na Revolução nicaraguense de 1979, foram enfraquecidas
e substituídas pelos Movimentos de Renovação Carismática e, por meio das
religiões evangélicas, foram criadas as seitas pentecostais. Na política, o enveredamento
das esquerdas para dentro da institucionalidade, levou a desprezar o
radicalismo armado e as medidas neoliberais, com algum acento nas políticas
sociais. Restou sem solução e em pleno crescimento, o narcotráfico.
Por que das três prioridades apenas
uma não foi possível resolvê-la? Pelo mesmo motivo que a Grã-Bretanha negociava
o ópio na China. Se observarmos o assunto em quaisquer estudos, os Estados
Unidos são os maiores consumidores de drogas do Planeta. Interessa ao império
esse mercado que é alimentado com armas e, por meio do narcotráfico torna-se
possível promover a ingerência política nos países inibindo a organização
popular.
No início de 2026, os Estados Unidos
invadiram a Venezuela e sequestram o presidente Nicolas Maduro e a Deputada,
Cilia Flores, com a desculpa de que estaria buscando prender os
narcotraficantes. Por que isso foi possível? Pelo simples fato que na sede do
império aprovaram-se leis de Jurisdição Extraterritorial, elas permitem prender
pessoas fora do país e leva-las a julgamento nas cortes Norte-americanas.
Está escancaradamente expresso que o
narcotráfico não é um problema para os Estados Unidos, muito pelo contrário,
ele é um benefício para a indústria de armas, ao capital destrutivo que busca saquear
as riquezas, como o petróleo e os minérios nobres, escassos naquele país. O
Brasil está na mira, ou cede as riquezas naturais pretendidas ou a desculpa de
combater o Comando Vermelho e o PCC fará com que as forças armadas norte-americanas
se desloquem para dentro do nosso território e tomem à força os bens que lhes
interessa.
Como bem alertou Marx no artigo supracitado,
sobre a possibilidade de revoltas, “(...) ninguém duvida que o seu motor são os
canhões ingleses, que impõem à China a droga soporífera chamada ópio”. Esse
fenômeno poderá acontecer nos diversos países perseguidos, como também no
interior dos Estados Unidos.
Diante de tudo isso, apesar das
acusações do império serem mentirosas, as suas ameaças são verdadeiras. Por
outro lado, não nos espantemos se, após terem alcançado os seus objetivos
econômicos, os Estados Unidos promovam a legalização das drogas e, passem a
controlar com as suas empresas, as exportações desse rentável produto. Portanto,
os métodos de intervenção dos impérios sobre as colônias, tanto os do passado
como os do presente, continuam os mesmos, cabe a nós aceitá-los ou não.
Ademar
Bogo
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