As
reações mais veementes contra o burocratismo na América Latina e Caribe,
encontramos expressas nas palavras em diferentes textos, escritos por Ernesto
Che Guevara. Em 1962, quando falou para a juventude, sobre o tema: “O que deve
ser um jovem comunista”, desafiou a criatividade: “Um jovem tem de criar. Uma
juventude que não cria é, realmente uma anomalia”.[1] Em 1963, discorreu
abertamente contra o burocratismo: “Devido ao peso dos “pecados originais”
existentes nos antigos aparatos administrativos e a situações criadas depois do
triunfo da revolução, o mal do burocratismo começou a se desenvolver com força”.[2]
Ao
tomarmos como referência a categoria da “anomalia”, vemos que o anômalo não é
um sujeito que se desviou da linha correta da política, senão que, ignorou a
linha revolucionária e a própria estrutura que permitiria a politização. Por
isso, aqui, devemos entender a anomalia como despolitização e alienação das
massas do processo de transformação de uma sociedade.
A
outra expressão categórica encaixa-se no âmbito do “pecado original”, que é
próprio dos aparatos administrativos, e aí nasce a luta do mal contra o bem, no
sentido de que, o primeiro representa uma doença que levará à enfermidade da
causa revolucionária, movida apenas pela alegria da apresentação de resultados.
É o resultado das enquetes que consolam os burocratas quando se põem a comparar
os dados. Um ponto a mais na avaliação regular já é motivo de festejos e de
infinitos comentários nas redes sociais, as quais carregam a euforia do
encantamento porque as políticas liberais estão “dando certo”.
Evidentemente,
Che Guevara não estava contestando a importância da eficiência administrativa
de todas as instituições, no entanto, elas deveriam estar a serviço da
estratégia política e não ao contrário, como fazem as forças burocráticas
progressistas, cada vez menos original e cada vez com mais pecados, para
ficarmos na metáfora posta acima.
Estamos
no ano de 2026, o primeiro depois do encerramento do primeiro quarto do século
XXI. Ou seja, só faltam três quartos para que o século se encerre. Pela
indicação da vontade dos burocratas, o segundo quarto que se encerra em 2050,
repetirá o passo lento do primeiro. Nada de criatividade e nem de incentivo
para que a juventude saia do comodismo apático e individualista dos
“pés-de-meia”, e volte a calçar as botinas das ações.
Para
a elite progressistas que chegou ao governo, o Estado tornou-se o maior aliado
para forjar as medidas conciliatórias que evita os enfrentamentos de rua e a
tomada do capital para, de fato, dar os primeiros passos na construção do
processo político revolucionário. O Estado traz consigo a simbologia da ordem
conformista da conciliação. É a política do “ganha-ganha”. Para os adeptos
dessa tese, os ricos ganham porque o capital atua com total segurança
alimentando-se da mais-valia, dos juros elevados e dos subsídios estatais; os
pobres também ganham, porque, graças ao badalado crescimento econômico, não
falta dinheiro para as diversas bolsas alimentícias e, o governo ganha porque,
mantém-se na sucessão dos mandatos.
A
faceta simbólica do contentamento, com o andamento da burocratização política,
pode ser vista, nas luzes e cores brilhosas do carnaval. Com o pretexto de que
o “carnaval é uma festa popular”, as homenagens, nas luxuosas Escolas de Samba
levam a confundir, capacidade com popularidade. Não percebem os timoneiros das
derrotas futuras que o carnaval das elites funciona com fantasias e alegorias,
e que, o carnaval das massas é brincado no trabalho e de cara limpa, sem
máscaras.
O
ano promete ser promissor para o processo eleitoral. Por isso os anseios
começaram a buscar votos bem no início do processo sem lutas e sem conflitos.
As poucas reações vindas dos povos indígenas, são abafadas e atropeladas com os
holofotes dos festejos carnavalescos.
Che
Guevara havia se dado conta muito cedo que o burocratismo é mais do que
comodismo político, é uma onda ofensiva que arrasta todas as resistências para
dentro de si e, com boa ou má vontade, todos são obrigados a dançar as mesmas
músicas e suportar a poluição sonora e visual.
O
burocratismo brilhoso pode ser o último degrau do ilusionismo daquilo que antes
entendia-se como política de esquerda. Neste campo, os reis são coroados nos
desfiles das Escolas de Samba e ilusionam que, esses holofotes se convertem em
consciência e base política. O filósofo Leandro Konder costumava contar essa
anedota, que numa ocasião do século passado, um russo teve a oportunidade de
participar do carnaval brasileiro e vibrou com a desordem temporária,
imaginando que havia iniciado a insurreição pela tomada do poder. Parece que a
história se repete e, de anedotas a anedotas, vemos a política cada vez mais
sufocada pelo burocratismo administrativo. Os dirigentes políticos como
vagalumes, iluminam as barrigas e movimentam mais as nádegas do que a cabeça.
Enganados
com a força do carnaval, enganam a si mesmos que os brilhos e os batuques já anunciam
a nova aurora, ela virá no despertar do sono, como um pesadelo a confirmar as
ruínas dos desejos burocráticos. Tomará que sobre elas possamos desfilar
conscientemente rumo à verdadeira comemoração da superação do capitalismo.
Ademar
Bogo
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