segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O BUROCRATISMO BRILHOSO


As reações mais veementes contra o burocratismo na América Latina e Caribe, encontramos expressas nas palavras em diferentes textos, escritos por Ernesto Che Guevara. Em 1962, quando falou para a juventude, sobre o tema: “O que deve ser um jovem comunista”, desafiou a criatividade: “Um jovem tem de criar. Uma juventude que não cria é, realmente uma anomalia”.[1] Em 1963, discorreu abertamente contra o burocratismo: “Devido ao peso dos “pecados originais” existentes nos antigos aparatos administrativos e a situações criadas depois do triunfo da revolução, o mal do burocratismo começou a se desenvolver com força”.[2]

Ao tomarmos como referência a categoria da “anomalia”, vemos que o anômalo não é um sujeito que se desviou da linha correta da política, senão que, ignorou a linha revolucionária e a própria estrutura que permitiria a politização. Por isso, aqui, devemos entender a anomalia como despolitização e alienação das massas do processo de transformação de uma sociedade.

A outra expressão categórica encaixa-se no âmbito do “pecado original”, que é próprio dos aparatos administrativos, e aí nasce a luta do mal contra o bem, no sentido de que, o primeiro representa uma doença que levará à enfermidade da causa revolucionária, movida apenas pela alegria da apresentação de resultados. É o resultado das enquetes que consolam os burocratas quando se põem a comparar os dados. Um ponto a mais na avaliação regular já é motivo de festejos e de infinitos comentários nas redes sociais, as quais carregam a euforia do encantamento porque as políticas liberais estão “dando certo”.

Evidentemente, Che Guevara não estava contestando a importância da eficiência administrativa de todas as instituições, no entanto, elas deveriam estar a serviço da estratégia política e não ao contrário, como fazem as forças burocráticas progressistas, cada vez menos original e cada vez com mais pecados, para ficarmos na metáfora posta acima.

Estamos no ano de 2026, o primeiro depois do encerramento do primeiro quarto do século XXI. Ou seja, só faltam três quartos para que o século se encerre. Pela indicação da vontade dos burocratas, o segundo quarto que se encerra em 2050, repetirá o passo lento do primeiro. Nada de criatividade e nem de incentivo para que a juventude saia do comodismo apático e individualista dos “pés-de-meia”, e volte a calçar as botinas das ações.

Para a elite progressistas que chegou ao governo, o Estado tornou-se o maior aliado para forjar as medidas conciliatórias que evita os enfrentamentos de rua e a tomada do capital para, de fato, dar os primeiros passos na construção do processo político revolucionário. O Estado traz consigo a simbologia da ordem conformista da conciliação. É a política do “ganha-ganha”. Para os adeptos dessa tese, os ricos ganham porque o capital atua com total segurança alimentando-se da mais-valia, dos juros elevados e dos subsídios estatais; os pobres também ganham, porque, graças ao badalado crescimento econômico, não falta dinheiro para as diversas bolsas alimentícias e, o governo ganha porque, mantém-se na sucessão dos mandatos.

A faceta simbólica do contentamento, com o andamento da burocratização política, pode ser vista, nas luzes e cores brilhosas do carnaval. Com o pretexto de que o “carnaval é uma festa popular”, as homenagens, nas luxuosas Escolas de Samba levam a confundir, capacidade com popularidade. Não percebem os timoneiros das derrotas futuras que o carnaval das elites funciona com fantasias e alegorias, e que, o carnaval das massas é brincado no trabalho e de cara limpa, sem máscaras.

O ano promete ser promissor para o processo eleitoral. Por isso os anseios começaram a buscar votos bem no início do processo sem lutas e sem conflitos. As poucas reações vindas dos povos indígenas, são abafadas e atropeladas com os holofotes dos festejos carnavalescos.

Che Guevara havia se dado conta muito cedo que o burocratismo é mais do que comodismo político, é uma onda ofensiva que arrasta todas as resistências para dentro de si e, com boa ou má vontade, todos são obrigados a dançar as mesmas músicas e suportar a poluição sonora e visual.

O burocratismo brilhoso pode ser o último degrau do ilusionismo daquilo que antes entendia-se como política de esquerda. Neste campo, os reis são coroados nos desfiles das Escolas de Samba e ilusionam que, esses holofotes se convertem em consciência e base política. O filósofo Leandro Konder costumava contar essa anedota, que numa ocasião do século passado, um russo teve a oportunidade de participar do carnaval brasileiro e vibrou com a desordem temporária, imaginando que havia iniciado a insurreição pela tomada do poder. Parece que a história se repete e, de anedotas a anedotas, vemos a política cada vez mais sufocada pelo burocratismo administrativo. Os dirigentes políticos como vagalumes, iluminam as barrigas e movimentam mais as nádegas do que a cabeça.

Enganados com a força do carnaval, enganam a si mesmos que os brilhos e os batuques já anunciam a nova aurora, ela virá no despertar do sono, como um pesadelo a confirmar as ruínas dos desejos burocráticos. Tomará que sobre elas possamos desfilar conscientemente rumo à verdadeira comemoração da superação do capitalismo.

                                                           Ademar Bogo   



[1] GUEVARA, Che. Textos revolucionários. FON, Aton (Trad) São Paulo: Global, 1986, p. 53

[2] GUEVARA, Che. Política. São Paulo: Expressão Popular, 2011, p. 227.

Nenhum comentário:

Postar um comentário