domingo, 1 de fevereiro de 2026

A ERA DAS FALÊNCIAS


A Organização da Nações Unidas – ONU – divulgou em janeiro de 2026 um relatório que chama a atenção para a “falência hídrica”. Aos poucos a humanidade se convence que o capitalismo é um sistema adoentado. Basta um simples Rio-X para detectar um novo transtorno ou enfermidade incurável.

A falência é uma declaração de insolvência, feita por uma autoridade jurídica, pois o montante das dívidas é maior do que a capacidade de pagamento de alguém. Em relação a água não se trata de um processo judicial, mas a própria natureza anuncia que o uso cotidiano dela supera a capacidade da recuperação dos reservatórios, fazendo com que os lagos diminuam de tamanho, os rios sequem e os aquíferos guardados como precaução da própria Terra, além de estarem com seus níveis de reserva cada vez mais baixos, em muitos lugares, os solos afundam devido o vazio deixado pela retirada exagerada da água do subsolo.

Essa falência hídrica como todas as outras: ecológica, climática e preservação da biodiversidade dentre outras, provavelmente passará como o virar de página em busca de um novo assunto exposto em forma de matéria na sequência da leitura do jornal, com conteúdos voltados para as guerras, a violência, a poluição ambiental, a disputa pelos minérios mundiais, a manutenção ou não de uma moeda única para regular as trocas de mercadorias no mercado mundial, a taxa de juros elevado, a que ou a alta das bolsas de valores etc.

No cotidiano as pessoas não se dão conta de que o mundo mudou rapidamente, mas elas continuam preocupadas em buscar soluções para os seus problemas individuais. Ocorre que, com a falta da d´água não se brinca. Embora seja um elemento natural transformado em matéria prima, a água geralmente é esquecida como elemento fundamental partícipe do aumento da produtividade na agropecuária. Estudos apontam que, de toda água utiliza pelos seres humanos, 70% dela é gasta na agricultura. Para chegar à produção de uma arroba de carne bovina, exportada com grande euforia pelo agronegócio, considerando toda a cadeia alimentar, são necessários 225 mil litros de água doce; com suínos gasta-se um pouco menos, mas chega a 75 mil litros por arroba.

Quando estudamos os dados da superexploração ambiental, começamos a perceber porque, as reservas hídricas não conseguem recompor a parte da água retirada, espantosamente sem estudos e sem controles. Os governantes querem que a economia cresça para gerar emprego e, com isso, divulgarem cifras estatísticas refletindo a boa administração. Do mesmo lado, os capitalistas exigem menos cobranças de impostos e mais subsídios para transformarem os bens da natureza em mercadorias, nada dando em troca para a sociedade e para o meio ambiente.

Diante das falências naturais, as guerras, ameaças e chantagens serão problemas contínuos por causa do controle da água cada vez mais escassa. Estima-se que em 2050 a humanidade contabilizará 9,7 bilhões de pessoas, isso significa quase 30% a mais de água e de alimentos para o consumo. Embora as tecnologias possam facilitar muitas coisas elas não poderão corrigir a composição do corpo humano, composto de 70% de água, esta precisa ser reposta todos os dias para evitar desidratação e doenças renais.

Diante do tema das falências podemos ampliar as discussões baseadas na própria leitura da realidade feita pelos olhares atentos que se defrontam com córregos, rios e lagos extintos pela ação irregular dos homens. A propriedade privada tem servido de escudo para que cada indivíduo, “diante do que é seu”, se dê o direito de criar riscos de morte para toda a biodiversidade.

Cada vez mais torna-se importante pensar na superação do capitalismo, para que, mudando o sistema mudar-se também todas as relações. Nesse momento de transição do poder unipolar dos Estados Unidos, para o multipolar cooperado, nascido da articulação dos países emergentes do Sul Global, como a Rússia, a China, a índia e os mais de 40 países que compõe o Brics, com um Banco mundial de financiamento e, em breve com uma moeda própria, é animador, mas não o suficiente; se não considerarmos que é preciso mudar as relações sociais, de produção e com a natureza, isto porque, aquilo que foi denominado de “sustentabilidade” tornou-se insustentável e não há retorno dentro dos modelos em vigor.

Diante disso, tal qual é a cobrança da urgência de enfrentar a falência hídrica, precisamos atacar as demais falências organizativas, que conduziram as utopias das mudanças sociais para dentro das estruturas governamentais e as asfixiaram. A falência das forças de esquerda veio pelo abandono dos princípios revolucionários e com isso a defesa da ordem capitalista travestida de democracia, tornou-se uma tarefa vergonhosamente cotidiana.

As pautas particulares continuam sendo importante, no entanto, elas precisam incorporar os anseios universais. É importante conquistar a terra, mas é preciso defender a água e toda a natureza. As transformações estruturais exigem urgência, por isso as mobilizações locais precisam tornarem-se insurreições nacionais e internacionais. Reivindicar não basta, é preciso apropria-se das coisas e do poder, para deixar de pensar que os outros farão por nós.

A força principal das mudanças continua estando no número de pessoas organizadas. É preciso salvar a Terra do capital. Fazendo isto, poremos fim ao processo de exploração da força humana e das forças da natureza. Os capitalistas não entendem essa linguagem e nem farão por nós. A cada dia apresentam a descoberta de um aspecto vital ou a existência de um novo Planeta. Eles confiam que podem mudarem-se para lá. Nós não temos para onde ir, por isso precisamos enfrentar os destruidores do mundo com planos de ações comuns.

Se ninguém esperar pelos outros para começar as investidas contra o capital, muitos passos serão dados ao mesmo tempo e, ao se cruzarem uns com os outros, formaremos a grande marcha rumo à insurreição popular.

Terminamos com a mensagem do líder da insurreição vietnamita, quando convocou para “O fim da saída pacífica” em 1946. Pediu para os  compatriotas se colocassem de pé, fossem eles homens  e mulheres, jovens e velhos, sem distinção de credo, de partido, de nacionalidade: “Entrem na luta com todos os meios disponíveis. Que aquele que tem um fuzil, utilize seu fuzil, que aquele que tem uma espada, utilize a sua espada. Se não tiver espada, que tome picaretas e porretes! Que todos empenhem todas as suas forças para combater o colonialismo, para salvar a pátria”.[1] Nós dizemos, para salvar a Terra.

                                                           Ademar Bogo

                                                                                  

 



[1] ALVAREZ, Maria Elena e FERNANDES, Florestan. Ho Chi Minh: Política. São Paulo: Ática, 1984.

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