domingo, 17 de maio de 2026

A FORÇA DA INDIFERENÇA

 

            Todos sabemos que a política não se faz só com política, há outras áreas que se envolvem com suas especialidades para ajudar a pensar, planejar e executar os planos táticos e estratégicos. O filósofo Michel Foucault ao fazer as suas elaborações filosóficas sore a política, percebeu o problema contemporâneo da seguinte forma: "O que acontece atualmente e o que somos nós, nós que talvez não sejamos nada mais e nada além daquilo que acontece atualmente?" A questão da filosofia é a questão presente que é o que somos. Daí a filosofia hoje ser inteiramente política e inteiramente indispensável à política”.[1]

            Quando colocamos a filosofia à disposição da política começamos a perceber que somos nós os fazedores dos acontecimentos atuais e, como consequência, somos lembrados e conhecidos por eles. A civilização embora se utilize das forças da natureza, é humana. Assim também são humanas a violência, a ignorância e a corrupção.

            Sobre a corrupção há diversas elaborações confirmando as suas origens. Basta observar um pouco mais atentamente que no cenário ao fundo das fotografias de muitos processos políticos, aparecem as empresas nacionais e multinacionais, os Bancos e o Estado. Por isso, aquilo que nos acostumamos a chamar de “democracia” que emerge das urnas, é uma versão ingênua da dominação e do totalitarismo, chamado por Max Weber de “patrimonialismo”, pois, pouco ou quase nada há para diferenciar entre o que é público e o que é privado.

            Diante dessa promiscuidade, as mãos que abraçam e carregam o dinheiro público para distribuí-lo entre as forças aliadas dos grupos políticos, são as mãos do capital privado. Para que isso aconteça é preciso dar às transações certos requintes de legalidade e, enquanto não estourar um escândalo, as grandes multidões comportam-se como torcidas organizadas diante de dois times que disputam um campeonato em um campo de futebol. Mal sabem elas que os custos para um dos times se sagar campeão, não serão pagos pela arrecadação dos ingressos; outras formas de investimentos serão realizadas em vista das facções obterem vantagens posteriores.

            As constatações são transparentes. O crime organizado e o capital especulativo deram-se as mãos e passaram a constituir facções políticas visando tomar o Estado e transformá-lo no meio principal para a realização das transações criminosas e protegerem-se da repressão. Já não se pode chamar essas excrecências de “máfias” porque estas têm como tradição, agirem secretamente com normas rigorosas, como é o caso da “lei do silêncio”. Os negócios e investimentos das atuais milícias são públicos e os líderes das mesmas atuam em duas frentes: uma que permite reduzir as penas com as delações e, a outra, se a primeira ocorrer, articulam-se para mudar as leis que os condenaram, impondo ao poder judiciário a recontagem dos anos de prisão, com o objetivo de reduzir as dozes, pela medida imposta da “Dosimetria”.

            Por outro lado, os acontecimentos moldaram a polarização das opiniões político eleitorais no Brasil. Já não se pensa mais na qualidade das ideias, apenas quem elas representam. Nesse sentido, situação e oposição empatam em todas as pesquisas. Os “fiéis da balança” são agora os indiferentes. Se considerarmos que um dos princípios democráticos é contabilizar a vantagem numérica da maioria sobre a minoria, certamente estamos a perceber que, a indiferença tornou-se uma nova força política, que pode estar alheia ou revoltada, mas é ela quem decidirá as próximas eleições para presidente da República do Brasil, em 2026.

            Não é difícil de chegar a essa constatação, basta observar os últimos pleitos as pequenas diferenças que ficaram em torno de 1% e, as pesquisas de opinião para o segundo turno  entre o candidato do PT e qualquer um, de qualquer outro partido, e teremos o denominado “empate técnico”.

            Agora podemos continuar o raciocínio filosófico iniciado acima por Foucault, não sem antes perguntar quem somos nós na atualidade política? De certo podem aparecer muitas opiniões classificatórias, no entanto, a grande maioria dos cidadãos, não somos mais do que eleitores. Quem éramos e quem somos?; a resposta a essa pergunta está no curso dos acontecimentos. Eles, ao longo do tempo levaram à aceitação daquilo que não era aceito e à passividade ao que era radicalidade.

            Os protestos converteram-se em mensagens nas redes sociais; a solidariedade em doações no pix e, o conteúdo da formação da consciência tornaram-se áudios curtos, porque ninguém aguenta ouvir alguém por mais de um minuto. Sendo assim, os totalmente indiferentes e analfabetos da política eleitoral, fora da polaridade, podem não estar com a razão, mas estão com a última palavra. O triste fim de um período histórico é constatado quando os sem opinião detém o poder de decisão. Então, quem somos nós?

                                                                       Ademar Bogo    



[1] FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984, p. 303.

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