Toda vez que nos espantamos com
algum fato, principalmente acontecido na política, desconhecemos que nada
acontece repentinamente sem antes ter sido projetado, preparado e realizado com
a ativa participação de determinadas forças e, com a indiferença que soa como
autorização das outras forças inativas.
O filósofo francês Etienne Balibar
ao escrever sobre a alienação destacou que: “A alienação é obra do próprio
homem: ela não se distingue do processo de sua atividade. Criando objetos, ou
seja, expressando-se, realizando a si mesmo, o homem cria o instrumento de sua
própria despossessão. É a atividade humana que é pervertida, alienada –
alienante, e por conseguinte a alienação aparece primeiro ao homem como uma
fatalidade natural”.[1]
A desenvoltura dessa posição do
autor é antecipada pela reminiscência do pensamento de Feuerbach, quando
criticou a religião em 1841, em seu livro, A essência do cristianismo e,
lá, intolerantemente revelou as bases da alienação religiosa. Balibar se serve
disso para dizer que: “Deus criado pelo homem torna-se criador do homem, e se
atribui sob forma de perfeições os atributos do homem. Por causa disso o homem
é apenas a coisa de Deus: sua liberdade é aí perdida”.
Longe de querer entrarmos em debate
sobre a questão religiosa, devido ao pouco espaço desta escrita, não permitiria
sustentar quando as seitas impõem, não apenas o conteúdo das crenças, como
também os valores monetários para propagá-lo e praticá-lo. O que queremos é
servir-nos da metáfora para aplicá-la na política e mostrar que em um
determinado estágio da luta de classes, quando os processos se esgotam, o
conteúdo das consciências em geral se modifica e passa a defender que as
pessoas são filhas da mesma coisa.
Para facilitar o entendimento da
alienação, no lugar de Deus, disposto no parágrafo acima, coloquemos o Estado e
logo perceberemos que o direito, o cidadão, o político, o eleitor etc., são
coisas da criação do Estado. Mas quem criou o Estado que veio a criar essa
diversidade de coisas? Os burgueses que passaram a atribuir a toda
superestrutura a responsabilidade de manter a ordem social.
De qualquer modo não escapamos de
relacionar a alienação com a religião e a política. Na medida que o homem criou
Deus na visão de Ludwig Feuerbach, para que a divindade atribuísse as suas
características aos mesmos seres que o criaram, a criação do Estado visou os
mesmos resultados. Para os burgueses, mais do que a igualdade da razão, como
ensinava Kant, eles, como orientou Georg Hegel, queriam uma instituição capaz
de reconhecê-los como proprietários legalmente livres para realizar os seus
interesses.
Se quisermos identificar uma
diferença primeira, os burgueses ao contrário dos trabalhadores quando criaram
o Estado nunca mais se alienaram dele. Ou seja, sempre souberam a sua função e
como devem utilizá-lo para manterem a ordem dominante sobre os cidadãos
obedientes e dominados.
Quando voltamos à teoria
revolucionária escrita desde a metade do século dezenove, não encontramos
nenhum elogio ao Estado, muito pelo contrário, todas suas características são
infernais que nenhum homem gostaria que a divindade lhe repassasse aquelas qualidades.
Mas eis então que nos deparamos na atualidade com essa profissão de Fé
ameaçando pôr abaixo o fantasioso mundo da liberdade criado na cabeça dos
trabalhadores.
Por que passamos a divinizar a
criatura perversa criada pelos burgueses, que nos criou como cidadãos
democratas e cumpridores das leis? Pelo fato de atribuirmos a ele a
responsabilidade de nos levar ao mundo da felicidade, onde haveria comida e
acesso aos bens de consumo para todos. Nesse sentido, ao invés de detratar o
governo que aplica as Leis do Estado, passamos a elogiá-lo porque ele também
nos elogia. No entanto, como criadores de um governo que nos criou como
bolsistas, candidatos a subir no elevador do bem-estar, nos afastamos e
alienamos da luta, isto porque, o nosso criador nos passou a ilusão que, para
sermos o que somos precisamos apenas continuar fiéis para garantir a sua
eternidade pelo voto. Com isso foi embora a consciência crítica, as capacidades
organizativas, as metodologias dos cursos de formação de liderança, a prática
das reuniões de núcleos, as mobilizações para ampliar e assegurar os direitos e
a própria perspectiva de tomarmos, verdadeiramente o poder do Estado e
transformá-lo, para que deixe de ser um instrumento de dominação de classe.
Portanto, alienados das demais
criaturas, assistimos as forças burguesas que criaram o Estado, aprovarem leis
no parlamento que amenizam as penas dos criminosos políticos e, reprovarem as
indicações e os vetos do poder Executivo,
ameaçando com novos golpes se o governo não satisfizer as suas vontades que,
acima de tudo, é entregar o restante das riquezas naturais aos Estados Unidos.
Podemos concluir. Em sociedades
alienadas o poder político não é eterno. A obrigatoriedade em defender a
democracia contra as posições totalitárias, serve também para garantir que as
forças contrárias se organizem e disputem os mesmos espaços temporariamente
ocupados pelos democratas que, em caso de demorar a se realizar o retorno ao
poder, promovem golpes de Estado ou chamam o poder imperial para fazer invasões,
sequestrar e matar os governantes como fizeram na Venezuela e no Irã.
Portanto, a lição histórica nos
ensina que, com pessoas alienadas não se faz política, apenas se disputa
eleições andando sobre o fio da navalha. Política se faz com pessoas
conscientes, mas para isso, voltando à metáfora, agora com um estímulo
dialético, precisamos de criadores que criem as criaturas e, partidariamente
não as deixe alienarem-se. A tática do voto, isoladamente, representa uma cerca
de bambu diante de um tanque de guerra. Vamos continuar nos escondendo atrás
dela?
Ademar
Bogo
[1] BALIBAR, Etienne. caderno cemarx,
nº 7 – 2014, p. 233. In. BALIBAR/Étienne%20Balibar%20-%20As%20Ideologias%20pseudomarxistas%20da%20alienação.pdf
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