domingo, 19 de abril de 2026

SEM TRANSIÇÃO NÃO HÁ TRANSFORMAÇÃO

 

            Sempre que perguntamos sobre um convalescente e a resposta nos alcança com um, “continua na mesma”, duas sensações tomam conta da consciência informada: a primeira situasse na negatividade de que, “pelo menos não piorou” e, a segunda, mesmo que alimentada por uma onda fraca de otimismo, indica que “poderá melhorar”.

            Essa parece ser a situação da conjuntura mundial atormentada pelas guerras localizada, as disputas pelo macro mercado e pela apropriação das riquezas naturais. Quem aparentemente está perdendo, continua sendo império e, o outro lado resistente, pelo simples fato de não se deixar aniquilar, não pode dizer que ganhou porque as consequências negativas, como as sequelas físicas teimam permanecer e incomodar.

            As razões para termos esses supostos “empates” bélicos após um período intenso de combates, se deve a instalação do Estado de barbárie no interior do modo de produção capitalista, no qual, todos os esforços empregados dificultam sair de tal situação. O motivo justificador disso é porque parece faltar uma lei que determina a transformação pela ausência da força de transição. Marx na década de 1850 havia se dado conta que: “Para atingir o seu objetivo, basta provar a necessidade da ordem atual, e, ao mesmo tempo, a necessidade de outra ordem na qual se transformará, inevitavelmente, a primeira, acreditem ou não os seres humanos, tenham ou não consciência da transformação”.[1]

            As necessidades da ordem atual capitalista parecem não ser de difícil compreensão. O capital somente poderá existir se continuar expandindo as suas formas de reprodução e acumulação. Acontece que, diferentemente do período colonial quando de algum modo as riquezas estavam disponíveis, agora, além de serem escassas há muitíssimas pessoas interessas em usufruí-las. Para impor os seus interesses, os capitalistas apelam para o uso da violência como o faz qualquer gangue que dissemina o terror em um território controlado pelos narcotraficantes. A barbárie, portanto, se estabelece quando não há mais nenhuma garantia de ordem, não importa se isso ocorre em um bairro ou em disputas entre países.

            Por outro lado, não se apresenta claramente como deverá ser a outra ordem que prometa levar-nos para além da transição. O Estado capitalista que no período neoliberal parecia ter perdido um pouco de seu potencial invasivo, recuperou, pelos interesses do capital, o seu poder de uso. O enfraquecimento e desaparecimento das formas organizativas da sociedade civil e principalmente das entidades de classe, as disputas passaram a ser em campo aberto e institucional.

            As esperanças já não estão mais depositadas nas conquistas dos direitos, mas  nos regimes políticos se eles se caracterizam como “democracia” ou “ditadura”. A jocosidade é que isso pode mudar de um pleito para outro e pôr abaixo acordos bilaterais para estabelecer outros mais esdrúxulos, sem o mínimo de concordância com a ética.

            Passamos a conviver com a síndrome da perda eleitoral. A decomposição dos planos táticos expressos por meio de ações na cotidianidade, já não permite inserir ninguém nas formas orgânicas de luta e resistência. O comodismo Ocidental cristianizado, levou a formular a crença de que tudo se resolve em uma única batalha; nesse caso, na disputa eleitoral.

            Houve um tempo a partir da Terceira Associação Internacional, em 1919 que as forças de esquerda e revolucionárias, além de combaterem as forças inimigas, combatiam-se entre si; cada uma querendo impor o seu critério de verdade. Facções e tendências reproduziam-se com muita facilidade, o que no fundo faltava era sentimento de unidade. Ultimamente vimos sair de moda essas práticas conflitivas, mas seria porque houve o convencimento de que aquelas disputas eram infantis, ou porque ninguém mais se dedica a pensar a transição estratégica para a conquista de outra ordem política e social?

            Esse jogo institucionalizado entre oposição e situação, indica que haverá alternância das forças políticas nos governos. Essa norma é inerente à lógica das disputas de ganhar e perder. Isso não é ruim. No entanto, ao longo dos anos as populações foram sendo educadas que mudanças políticas funcionam como os fenômenos naturais, como ocorre com El niño que retorna a cada 4 anos, desarruma tudo e depois passa, deixando as pessoas com a sensação de que nada se pode fazer.

            Devemos nos convencer que a política é feita com ideias e ações pensadas e organizadas. Para que os resultados aconteçam é preciso tempo de planejamento e execução. As exigências para diferenciar a política os processos naturais é querer alcançar os resultados programados. Mesmo assim podemos ficar aquém da realização de algo duradouro, então, devemos pensar na transição da ordem atual para a outra ordem futura. Isso não se faz com as disputas eleitorais apenas.

                                                                                                                                                                                                                                   Ademar Bogo

               

    



[1] MARX,  Karl. O mensageiro Europeu O capital, Vol 1. 1996.

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