sexta-feira, 27 de março de 2026

OS OVOS DA SERPENTE

  

Sigmund Freud em 1930 no nascedouro do nazismo alemão, sem saber o que viria pela frente, faleceu antes, em 1939, quando iniciou a Segunda Guerra Mundial, ele escreveu o belo texto com o título: O futuro de uma ilusão e o Mal-estar da civilização. Antes de chegar a esse título vários outros foram considerados como a “infelicidade” e “desconforto” da civilização. Mas, após discutir as influências da civilização e o poder dos líderes sobre as massas, Freud revelou-se um tanto pessimista com a possibilidade do fim da coerção civilizatória: “A experiência ainda não foi feita. Provavelmente uma certa percentagem da humanidade (devido a uma disposição patológica ou a um excesso de força instintual) permanecerá sempre associal”.[1] Poderíamos dizer, incapaz de viver em sociedade.

Quando tomamos a referência de seres não sociais, ou mais propriamente indiferentes ao sofrimento humano, causado pelo simples interesse de expandir e controlar o poder, vem-nos a imagem o comando do império sanguinário dos Estados Unidos, exibindo-se nos meios de comunicação, como a oferecer cenas de filmes de horrores que os seus autores produzem, à espera de prêmios e aplausos.

É evidente, bem como discorreu Freud, as massas precisam, desejam e querem um líder que unifique as diferentes energias em um único estado de condensação. No entanto, na atualidade civilizatória, os instrumentos induzem uma certa quantidade de pessoas quererem o que os seus líderes querem.

Por outro lado, não conseguimos perceber que o domínio do querer, possuí, pelo menos duas faces. A primeira é a expressão pública exposta com superioridade, para que ninguém ouse contestar. Essa figura se mune de algumas habilidades e expressões cotidianamente repetidas, até que se tornem fixações na memória recente dos seus liderados. A segunda face não é de toda aparente e, por isso, pouco referenciada, mas é muito perigosa, porque ela age nas sombras escondendo todas as emoções e, por isso, tem a liberdade para criar efeitos amedrontadores

O que estamos dizendo é que, quando analisarmos a violência e a destrutividade espalhadas pelo mundo, pelos Estados Unidos da América, não devemos entender que isso seja expressão do poder pessoal de Donald Trump, mal comparando ele é o alto-falante que repercute a voz de outros perversos capitalistas, que se revezam ao microfone como porta-vozes do capital.

A eleição para o segundo mandato daquele presidente adequado à reprodução da carnificina imperialista, veio associada de novas articulações e interesses perversos da direita que estava sendo chocada como os ovos da serpente em situações anteriores. Sem detalhar os nomes que estão por trás dessa figura terminal, há um conjunto de figuras mais jovens que permanecerão por décadas, mesmo que algumas matizes na politica mudem de cor. Fazem parte desse grupo seleto de homicidas, algumas fundações, empoderadas mais do que os partidos políticos; proprietários da indústria armamentista; o capital especulativo; as big Tesch que controlam o sistema de comunicação e informação local e mundial; o Serviço de Informação e Alfândega (ICE) que adquiriu um poder particular para perseguir e deportar imigrantes e, as novas forças a serviço da reedição da Inquisição, que são as  seitas evangélicas.

Dito assim fica mais claro para entender que o projeto de dominação, principalmente sobre a América Latina e Caribe, reestabelecida com operações relâmpagos, com as maldades desferidas todas de uma só vez, devem se dar até o final do segundo ano do mandato do atual presidente. Para esses grupos aparelhadores do imperialismo pouco importa se haverá um terceiro mandato para esse mandatário, importa sim, é que os sistemas de dominação implantados nos pontos de interesses econômicos e simbólicos, sejam duradores.

A confiança é tanta no poderio armamentista que as ameaças não são veladas, mas ditas e registradas por escrito. Mas nem tudo corre como o esperado. A estratégia cirúrgica com resultados rápidos como a que foi usada na Venezuela, deverá ser empregada muito em breve na Colômbia e no Brasil; pouco importando quem esteja no governo, se forças de direta ou de esquerda, importa que fique documentado que certos domínios estarão garantidos por um prazo a se perder de vista. O modelo de controle do petróleo brasileiro é o ideal para implantarem na Venezuela, mas aqui ainda falta dominar os minérios nobres. Para tanto, nem é preciso que uma empresa Norte americana seja proprietária de todas as reservas petrolíferas e minerais, basta que detenham parte considerável do controle acionário, já é suficiente para regularem os preços e canalizarem o produto para a base do império.

O petróleo brasileiro é controlado pelo capital estrangeiro com tamanha expertise que, mesmo a Petrobrás mantendo o controle de 50,26% das ações, é incapaz de enviar um barril do produto em solidariedade a Cuba que, no rol das prioridades de invasão é um país a ser imediatamente atacado, não pelo potencial econômico que possui, mas pela simbologia desobediente que sustenta há mais de 60 anos. Por isso, são de pouca valia os argumentos de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, em dizer que não possui relação com os narcotraficantes, o império atacará propondo o mesmo fim que teve Nicolás Maduro. Da mesma forma pouca importância têm as declarações de Lula afirmando que o Comando Vermelho e o PCC não são terroristas, que o império virá nos atacar dizendo que são.

Na história sempre que houve a exaustão dos poderes dos impérios, também foram momentos propícios para a realização de avanços políticos, o problema é que, nessas situações os inimigos, mesmo decadentes aproveitam para cobrar as dívidas. Sendo assim, agora ouviremos os lamentos e os porquês? Não vem ao caso passar em revista os outros países que deveriam ter equipado melhor as suas defesas, falemos de nós. Qual o poder de resistência de nossas forças armadas que nesse ano de 2026 detém um orçamento de R$ 142 bilhões, e que, em 375 anos de existência, mais serviram para dar golpes e massacrar os levantes populares nacionais do que combater os inimigos colonialistas e imperialistas?

De outro modo, no campo político surgirão outras dívidas e nos perguntaremos: como conseguimos permanecer por tantas décadas sem ter um partido revolucionário capaz de organizar a população para defender os direitos e a soberania nacional? Como pudemos acreditar que todas as conquistas viriam pelas disputas eleitorais, levando os movimentos sociais e forças populares a se tornarem bases passivas do poder institucional? Como pudemos deixar cair tão baixo o nível de consciência da população, que se orienta mais pelas fantasias do que pela concreticidade da política?

Baseemo-nos nas resistências palestina e iraniana. Elas nos mostram que os impérios podem ser derrotados. A estratégia do cerco e aniquilamento contra esses países deu errado. O cálculo de eliminar a liderança maior no primeiro dia de guerra, a espera que a população se levantasse e tomasse o poder, pela tamanha covardia, fez a opiniões se voltarem contra o império. No Irã o poder não está em um aiatolá, mas na cultura persa milenar que sempre viu a guerra com naturalidade política.

Como já afirmamos em outra ocasião, a Terceira Guerra mundial está em andamento, poderá não ser usada nenhuma arma nuclear, talvez a vergonhosa derrota contra o Irã obrigue o império fazer uso de um artefato desse tipo, como o fez no Japão, em 1945, mas ninguém se importará em revidar. Por quê? Mesmo que não esteja ainda escrito, a divisão do mundo está sendo efetivada em três pedaços e, a nós coube a submissão ao slogan: “América para os americanos”. Tudo depende de nós, latino-americanos aceitarmos ou não essa determinação.

                                                                       Ademar Bogo



[1] FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos, Vol. 21, p. 06

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