Sigmund
Freud em 1930 no nascedouro do nazismo alemão, sem saber o que viria pela
frente, faleceu antes, em 1939, quando iniciou a Segunda Guerra Mundial, ele
escreveu o belo texto com o título: O futuro de uma ilusão e o Mal-estar da
civilização. Antes de chegar a esse título vários outros foram considerados como
a “infelicidade” e “desconforto” da civilização. Mas, após discutir as influências
da civilização e o poder dos líderes sobre as massas, Freud revelou-se um tanto
pessimista com a possibilidade do fim da coerção civilizatória: “A experiência ainda
não foi feita. Provavelmente uma certa percentagem da humanidade (devido a uma
disposição patológica ou a um excesso de força instintual) permanecerá sempre
associal”.[1]
Poderíamos dizer, incapaz de viver em sociedade.
Quando tomamos a referência de seres não sociais, ou mais
propriamente indiferentes ao sofrimento humano, causado pelo simples interesse
de expandir e controlar o poder, vem-nos a imagem o comando do império
sanguinário dos Estados Unidos, exibindo-se nos meios de comunicação, como a
oferecer cenas de filmes de horrores que os seus autores produzem, à espera de
prêmios e aplausos.
É evidente, bem como discorreu Freud, as massas precisam,
desejam e querem um líder que unifique as diferentes energias em um único
estado de condensação. No entanto, na atualidade civilizatória, os instrumentos
induzem uma certa quantidade de pessoas quererem o que os seus líderes querem.
Por outro lado, não conseguimos perceber que o domínio do
querer, possuí, pelo menos duas faces. A primeira é a expressão pública exposta
com superioridade, para que ninguém ouse contestar. Essa figura se mune de
algumas habilidades e expressões cotidianamente repetidas, até que se tornem
fixações na memória recente dos seus liderados. A segunda face não é de toda
aparente e, por isso, pouco referenciada, mas é muito perigosa, porque ela age
nas sombras escondendo todas as emoções e, por isso, tem a liberdade para criar
efeitos amedrontadores
O que estamos dizendo é que, quando analisarmos a
violência e a destrutividade espalhadas pelo mundo, pelos Estados Unidos da
América, não devemos entender que isso seja expressão do poder pessoal de
Donald Trump, mal comparando ele é o alto-falante que repercute a voz de outros
perversos capitalistas, que se revezam ao microfone como porta-vozes do
capital.
A eleição para o segundo mandato daquele presidente adequado
à reprodução da carnificina imperialista, veio associada de novas articulações
e interesses perversos da direita que estava sendo chocada como os ovos da
serpente em situações anteriores. Sem detalhar os nomes que estão por trás
dessa figura terminal, há um conjunto de figuras mais jovens que permanecerão
por décadas, mesmo que algumas matizes na politica mudem de cor. Fazem parte
desse grupo seleto de homicidas, algumas fundações, empoderadas mais do que os
partidos políticos; proprietários da indústria armamentista; o capital
especulativo; as big Tesch que controlam o sistema de comunicação e informação local
e mundial; o Serviço de Informação e Alfândega (ICE) que adquiriu um poder
particular para perseguir e deportar imigrantes e, as novas forças a serviço da
reedição da Inquisição, que são as
seitas evangélicas.
Dito assim fica mais claro para entender que o projeto de
dominação, principalmente sobre a América Latina e Caribe, reestabelecida com
operações relâmpagos, com as maldades desferidas todas de uma só vez, devem se
dar até o final do segundo ano do mandato do atual presidente. Para esses
grupos aparelhadores do imperialismo pouco importa se haverá um terceiro
mandato para esse mandatário, importa sim, é que os sistemas de dominação implantados
nos pontos de interesses econômicos e simbólicos, sejam duradores.
A confiança é tanta no poderio armamentista que as
ameaças não são veladas, mas ditas e registradas por escrito. Mas nem tudo
corre como o esperado. A estratégia cirúrgica com resultados rápidos como a que
foi usada na Venezuela, deverá ser empregada muito em breve na Colômbia e no
Brasil; pouco importando quem esteja no governo, se forças de direta ou de
esquerda, importa que fique documentado que certos domínios estarão garantidos
por um prazo a se perder de vista. O modelo de controle do petróleo brasileiro
é o ideal para implantarem na Venezuela, mas aqui ainda falta dominar os
minérios nobres. Para tanto, nem é preciso que uma empresa Norte americana seja
proprietária de todas as reservas petrolíferas e minerais, basta que detenham
parte considerável do controle acionário, já é suficiente para regularem os
preços e canalizarem o produto para a base do império.
O petróleo brasileiro é controlado pelo capital
estrangeiro com tamanha expertise que, mesmo a Petrobrás mantendo o controle de
50,26% das ações, é incapaz de enviar um barril do produto em solidariedade a
Cuba que, no rol das prioridades de invasão é um país a ser imediatamente
atacado, não pelo potencial econômico que possui, mas pela simbologia desobediente
que sustenta há mais de 60 anos. Por isso, são de pouca valia os argumentos de
Gustavo Petro, presidente da Colômbia, em dizer que não possui relação com os
narcotraficantes, o império atacará propondo o mesmo fim que teve Nicolás
Maduro. Da mesma forma pouca importância têm as declarações de Lula afirmando
que o Comando Vermelho e o PCC não são terroristas, que o império virá nos
atacar dizendo que são.
Na história sempre que houve a exaustão dos poderes dos
impérios, também foram momentos propícios para a realização de avanços
políticos, o problema é que, nessas situações os inimigos, mesmo decadentes
aproveitam para cobrar as dívidas. Sendo assim, agora ouviremos os lamentos e
os porquês? Não vem ao caso passar em revista os outros países que deveriam ter
equipado melhor as suas defesas, falemos de nós. Qual o poder de resistência de
nossas forças armadas que nesse ano de 2026 detém um orçamento de R$ 142
bilhões, e que, em 375 anos de existência, mais serviram para dar golpes e
massacrar os levantes populares nacionais do que combater os inimigos
colonialistas e imperialistas?
De outro modo, no campo político surgirão outras dívidas
e nos perguntaremos: como conseguimos permanecer por tantas décadas sem ter um
partido revolucionário capaz de organizar a população para defender os direitos
e a soberania nacional? Como pudemos acreditar que todas as conquistas viriam
pelas disputas eleitorais, levando os movimentos sociais e forças populares a
se tornarem bases passivas do poder institucional? Como pudemos deixar cair tão
baixo o nível de consciência da população, que se orienta mais pelas fantasias
do que pela concreticidade da política?
Baseemo-nos nas resistências palestina e iraniana. Elas
nos mostram que os impérios podem ser derrotados. A estratégia do cerco e aniquilamento
contra esses países deu errado. O cálculo de eliminar a liderança maior no
primeiro dia de guerra, a espera que a população se levantasse e tomasse o
poder, pela tamanha covardia, fez a opiniões se voltarem contra o império. No
Irã o poder não está em um aiatolá, mas na cultura persa milenar que sempre viu
a guerra com naturalidade política.
Como já afirmamos em outra ocasião, a Terceira Guerra
mundial está em andamento, poderá não ser usada nenhuma arma nuclear, talvez a
vergonhosa derrota contra o Irã obrigue o império fazer uso de um artefato
desse tipo, como o fez no Japão, em 1945, mas ninguém se importará em revidar. Por
quê? Mesmo que não esteja ainda escrito, a divisão do mundo está sendo
efetivada em três pedaços e, a nós coube a submissão ao slogan: “América para
os americanos”. Tudo depende de nós, latino-americanos aceitarmos ou não essa
determinação.
Ademar
Bogo
[1] FREUD, Sigmund. O futuro de uma
ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos, Vol. 21, p. 06
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