domingo, 23 de novembro de 2025

DO ENTUSIASMO NEGATIVO PARA O POSITIVO


            A conjuntura política brasileira apresenta sinais de pouco entusiasmo e de vibrações pouco irradiadoras de sensações positivas, por isso estamos avançando muito rapidamente pela via da negatividade.

            Quando os ânimos se manifestam entusiasticamente sobre a retratação das falsidades, como foi a redução das altas taxas decretadas sobre alguns produtos de exportação levados para o terreiro do império dos Estados Unidos, que após algumas negociações voltaram aos valores anteriores, não se pode dizer que tivemos uma vitória; muito pelo contrário, o império com uma simples chantagem, alcançou os seus objetivos de manter o Brasil sob seu domínio, ganhando a primazia de explorar o petróleo, as terras raras, o lítio e outros produtos que são de seus interesses na concorrência com a China.

            Tal qual ocorre com um prisioneiro domiciliar, que ganha o direito de ir até o mercado mais próximo, assim vemos a relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Ao invés de aproveitarmos o conflito, que a mais de duzentos anos não acontecia entre os dois países, em nome da conciliação, trocamos o direito de elevar-nos como uma nação soberana, somando-nos com a Venezuela e a Colômbia, que serão, em nome do combate ao narcotráfico, pressionados a cederem as suas riquezas naturais para os mesmos grupos exploradores internacionais, optamos por negociar para ficarmos no mesmo lugar da antiga dependência.

            A estratégia norte-americana não é invadir os territórios dos países latino-americanos, isso envolveria um conflito bélico com a Rússia e com a China, mas investir no desgaste das democracias convalescentes, pois, mal se recuperam de um golpe, logo surge outro motivo de desestabilização do frágil equilíbrio político. O confronto binário entre Democracia e Ditadura, tem servido para supervalorizar os processos eleitorais para eleger alternadamente governantes que, em um mandato entregam todas as encomendas solicitadas pelos saqueadores dos bens naturais, envolvendo a própria foça de trabalho e administrativa das próprias nações, para facilitar o domínio do capital externo.

            Esse misto de invasão conciliatória, praticado pelo imperialismo, leva as nações a se entusiasmarem com as próprias derrotas. Temos um exemplo vigoroso a oferecer. Quando a Petrobrás foi criada em outubro de 1953, junto a ela elevou-se o orgulho nacional com a popularização do otimismo em torno da palavra de ordem: “O petróleo é nosso”. Isso implicou no ataque à soberania e, menos de um ano depois, o presidente da República que sancionou a Lei 2.004, dando início a essa empresa estatal, foi obrigado a suicidar-se e, como deixou escrito: “Sair da vida para entrar na História”. De lá para cá, tivemos dois golpes de Estado com a presença vigorosa da mão do império e, na atualidade, apesar do entusiasmo nacionalista, 60% das ações dessa Empresa pertence à iniciativa privada, adquiridas pelo capital externo, tendo a participação de duzentos investidores brasileiros. Ou seja, além do Brasil ter apenas 40% das ações, produzir para entregar o petróleo para os saqueadores, embora tenhamos as maiores reservas de petróleo do mundo, como consumidores pagamos $ 1,17 dólar por litro de gasolina, enquanto os consumidores dos Estados Unidos, para onde vai o nosso produto, pagam $ 0,83 centavos de dólar.

            Por fim, o entusiasmo também se assenta sobre o julgamento dos militares que tentaram dar o golpe em janeiro de 2023. Não podemos negar que é uma conquista para, inclusive arrefecer o medo dos militares que no Brasil sempre foram implacáveis contra a democracia, os direitos sociais e políticos. No entanto, devemos entender que o movimento de acerto e acomodação está sendo conduzido pela força do próprio Estado, e este não pertence ao povo. Estamos de fora como sempre estivemos nos momentos decisivos, como a independência de 1822; a Proclamação da República em 1889 e agora no julgamento e prisão dos golpistas. É evidente ser reconfortante ver o principal genocida brasileiro de todos os tempos que, utilizando-se da tese da “Imunidade de rebanho”, levou a morte mais de setecentas mil pessoas, ser preso após tentar romper a tornozeleira com um maçarico, para fugir do país. Mas ele não fez tudo sozinho. Há milhares de criminosos e também culpados que estão escondidos nas instituições políticas, militares, da saúde e em outros meios, momentaneamente e covardemente calados a espera de se insurgirem e praticarem as perversidades que lhes são naturais.

            Karl Marx em 1843 ao falar da Revolução radical e na emancipação humana destacou que: “Nenhuma classe da sociedade civil pode desempenhar esse papel sem despertar, em si e nas massas, um momento de entusiasmo em que ela se confraternize e misture com a sociedade em geral, confunda-se com ela, seja sentida e reconhecida como representante universal(...)”.[1]

            É tempo de entusiasmar-se por algo verdadeiramente vantajoso. Para tanto, é preciso aproveitar os pequenos estímulos positivos para pavimentar o caminho das transformações permanentes. É de punhos erguidos e não de braços cruzados que as vibrações surgem e se transformam em força revolucionária.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 160.

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