No
dia cinco de dezembro de 2025, o império norte-americano publicou a renovação de
sua estratégia político-militar para a América Latina. Pouco ou quase nada há
de novo, se considerarmos o lema da Doutrina Monroe: “América para os
americanos”, em vigor desde 1823.
Para
quem tem acompanhado nos últimos tempos os movimentos geopolíticos, não terá
muitas dificuldades em entender as manifestações desrespeitosas dos
representantes do império que, diante da falência do modelo neoliberal,
afunda-se na decadência capitalista, mas ao olhar-se mais demoradamente no
espelho, viu, primeiramente, que a sua imagem se parece com a face envelhecida
da Europa já sem forças para reagir e percebeu que lhes sobra uma única solução,
que é a defesa da invasão dos “bárbaros”
imigrantes.
No
entanto, ao permanecer, um pouco mais diante do espelho, o império também se vê
invadido pelos bárbaros do mundo, por isso, como antigamente, ergue muralhas
para defender-se e, por deter ainda um poderio militar satisfatório, decide
atacar os que estão desarmados para submetê-los e dominá-los. Por quê
republicam a estratégia Monroe de 1823? Porque há um movimento real de
desprendimento dos países latino-americanos e do Caribe, que se voltam para
estabelecer relações vantajosas com a China e a Rússia.
Essas
aparentes recaídas para a repetição de comportamentos invasivos, são resultados
dos reflexos do espelho, revelando ao observador enquanto se observa, que as
suas forças de controle sobre o continente, esvaiu-se e, agora precisa atacar
para se defender. “América para os americanos”, repete o que foi: “Roma para os
romanos”, quando Nero, para disfarçar a decadência própria e do império,
incendiou Roma e culpou os miseráveis cristãos que rezavam e faziam penitência
para alcançarem dias melhores. Agora o Trumpnero culpa os miseráveis pescadores
que navegam no Mar do Caribe, como se fossem traficantes e, para combatê-los,
como não pode incendiar as águas do oceano, embora produza labaredas e fumaça,
desloca o maior navio de guerra do mundo para manter a sua autoridade.
Não
são apenas os slogans históricos que se repetem, as práticas também. Quando
Pedro Alvares Cabral chegou ao Brasil em 1500 e avistou uma população estranha
para os critérios europeus, buscou cativar a amizade, oferecendo, uvas, figos,
pão, vinho, chapéus, espelhos e outras bugigangas, mas, para intimidar os mais
curiosos pôs fogo em uma bacia de aguardente no intuito de mostrar que
poderiam, se quisessem, incendiar as águas do Mar. Depois, já instalados no
território alheio, cumpriram as suas intenções, que foi, com armas de fogo e
incêndios nas florestas, exterminar os povos nativos resistentes e força-los a
entregarem os seus bens naturais.
Como
já vimos, desde 1823, ou seja, um ano após a declaração da independência do
Brasil e, de quase todos os países da América Latina, realizadas entre 1804 a
1838, dando margem à formulação da expressão: “América para os americanos” e,
depois, durante o século XX, o endurecimento foi ainda maior, quando o
presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que governou o país, entre
1901 a 1909, baseado aplicou na política externa, o dito popular: “Fale
mansamente, mas leve na mão um porrete”, criando assim a estratégia do Big Stik
(Grande porrete), para intervir em nosso continente.
Com
esse “porrete” na mão, os governos do império impuseram a aceitação de
empréstimos, que depois se transformaram em dívidas externas impagáveis,
mantendo as nações sob a chantagem dos especuladores por quase um século.
Somado a isso, interferiram diretamente na política, financiando golpes de
Estado para instalarem ditaduras sanguinárias por diversos países. Tendo essas
medidas sido desgastadas, voltam à estratégia do “porrete” para obrigar os
governos de nações soberanas a se curvarem aos interesses do império,
cedendo-lhes os minérios, o petróleo e demais riquezas, em vista de sustentarem
a base econômica dos criadores do lema: “América para os americanos”.
Tal
qual o incêndio em Roma foi uma fantasia criminosa imposta por Nero, o problema
do narcotráfico representa o mesmo para Trump. O fundamental é entender que não
há sustentação argumentativa para proceder dessa forma, em cercear a liberdade
dos países, isto porque: sabemos que todos os países possuem as suas fronteiras
e devem lutar para preservá-las, este é um princípio da soberania. Por esse
princípio e pelas leis comerciais, cada país tem um sistema de controle nas
alfandegas, mas não há notícias de que algum, das quase duas centenas de países
do mundo, tente controlar a exportação ou o tráfico de drogas na fronteira do
país alheio. Conscientemente podemos intuir que é muito mais barato para os
Estados Unidos, monitorarem as suas fronteiras e deixar em casa os seus
soldados, ao invés de espalhá-los pelos oceanos.
É
também inacreditável que, com toda a tecnologia bélica que direciona os ataques
com altíssima precisão para atingir um alvo a milhares de quilômetros, sem
causar vítimas, ou defender com escudos antimíssil impedindo os inimigos de
alcançarem os seus objetivos, os Estados
Unidos ainda não possuiria condições de controlar a entrada de drogas em seu
país?
Por
outro lado, as principais fábricas de armas do mundo se localizam nos Estados
Unidos, por que não vigiam a própria fronteira e impedem as exportações delas,
sendo que a maioria delas cai na mão dos traficantes?
Enfim,
a estratégia do imperialismo é manter as nações latino-americanas submissas e
impossibilitadas de estabelecerem relações econômicas e políticas com outras
potências do mundo. Evidentemente, esse movimento na atual correlação de forças
não volta atrás. A decadência europeia assusta os Estados Unidos, pois, vê nela
o seu amanhã. Por outro lado, nessa engenharia política, as próximas décadas
apontam para a elevação das desestabilizações dos governos locais e de
ocupações territoriais em pontos que o império precisa assaltar as riquezas
naturais para sustentar, em algum grau, a concorrência na economia mundial.
As
novas gerações terão de reagir ou viverão em sistemas análogos à escravidão do
passado, vigiadas por satélites e combatidas antes mesmo de provocarem alguma
reação. Os conflitos serão tecnológicos, e lado que estiver mais equipado
perderá menos. As reações, porém, não serão coordenadas por partidos e governos
pacifistas, negociadores de taxas menores para a exportação de suco de laranja,
mas pela fúria libertadora dos povos em luta unificada contra o imperialismo. Bem
do jeito que expressou Ernesto Che Guevara, em sua Mensagem aos povos do
mundo, em 1967: “Crear dos, tres, muchos Vietnam".
Ademar
Bogo
Nenhum comentário:
Postar um comentário