Todos os finais de ano, costumeiramente, empresas, movimentos,
entidades e partidos fazem o balanço para compararem os pontos positivos e
negativos e, geralmente, as conclusões apontam alguns avanços, aqui e ali;
coisas não tão boas, mas no final uma dose de otimismo, reanima as forças para o
ano vindouro.
É importante avaliar. Porém, há que ter algum parâmetro. Nesse
caso as empresas estabelecem metas e os movimentos sociais e partidos políticos
deveriam considerar alguns objetivos. Quando não há vínculo com nenhum desses
dois referenciais, não se tem uma medida de tamanho para saber se de fato houve
algum avanço considerável.
Por outro lado, os apontamentos na política são menos
consistentes do que na economia, isto porque, na primeira os resultados podem
ser abstratos, sem matéria concreta, por isso, aquilo que na conjuntura parece
ser um avanço, no real concreto, não criou nenhuma mudança estrutural, por isso
não há nenhuma garantia de que um acordo ou a medida permaneça.
Façamos aqui um comparativo nas relações tumultuadas com
os Estados Unidos, em parte do ano de 2025. De repente surgiu, sem explicação uma
elevada taxa de exportação e junto dela a aplicação da lei Magnitski, aquela
que o imperialismo aplica contra qualquer cidadão do mundo e, por isso, enquadrou
algumas autoridades brasileiras por estarem “desrespeitando os direitos humanos”.
Havia de fato algumas exigências para que ambas as medidas fossem anuladas e,
uma delas era anistiar os golpistas das ações de janeiro de 2023 que estavam no
banco dos réus.
Mas, eis que em meio as tensões, os Estados Unidos
publicaram em 5 de Dezembro de 2025, o Plano para a América Latina e
reafirmaram a mesma Doutrina Monroe, de 2 dezembro de 1823, que em síntese consiste
na pregação do conteúdo: “América para os americanos”. Em síntese, isto significa,
na linguagem popular, dizer: “Tudo nosso”; ou um recado aos países do Sul
Global, como à China e à Rússia, que o território das três américas está sob o
comando do imperialismo norte-americano. De imediato vimos as forças militares
do Império tomarem o Mar do Caribe e cercear a liberdade de comércio
internacional da Venezuela.
Mas também, eis que de repente as taxas de exportação
contra o Brasil foram reduzidas, e a Lei Magnitski, mesmo com a condenação dos
golpistas, como se nada houvesse acontecido, perdeu os seus efeitos e as
autoridades brasileiras foram ou serão ainda beneficiadas. O sucesso foi
atribuído à capacidade da diplomacia brasileira que sabe negociar. No entanto,
até o momento nada foi informado sobre o que precisou dar em troca para que
tudo voltasse ao “normal”. Inicialmente os EUA demonstraram interesse nas
terras raras e nas reservas de lítio presentes em várias regiões do Brasil,
depois silenciaram. Será que excluíram o Brasil da doutrina Monroe que exige a “América
para os Americanos?”. Claro que não. O primeiro argumento para esse “recuo” é
não mexer com todos os formigueiros ao mesmo tempo. E, o segundo, é mais
inteligente ainda, por que transformar alguém em inimigo se o que queremos dele,
podemos obter sem briga? Portanto, momentaneamente comemoram-se os avanços, mas
quais? Poder exportar suco de laranja, soja e carne bovina com as mesmas taxas
cobradas anteriormente?
A nível interno, também como demonstrativo de balaços sem
profundidade, diz respeito aos que foram feitos pelos movimentos sociais do
campo. Dizem que a reforma agrária está parada porque o orçamento disponível é
limitado. Por outro lado, os avanços se referem à produção de alimentos
agroecológicos e ao plantio de árvores, numa grande contribuição para reduzir o
aquecimento global. Também são apontadas as ações de solidariedade no apoio à população
afetada pelas catástrofes naturais e a distribuição de alimentos. Nas
perspectivas, o único ponto posto como objetivo futuro a ser alcançado é o envolvimento
na campanha eleitoral para a reeleição do presidente da República.
Esses indicadores já confirmam em 80% o conteúdo do
balanço do ano de 2026, isto porque, a reforma agrária continuará estacionada,
os órgãos responsáveis continuarão inativos e, o montante maior de recursos serão
destinados, como foi neste ano de 2025, para o agronegócio. Restará para os
trabalhadores, a produção agroecológica em escala reduzida para contribuir com
a merenda escolar, o plantio de árvores e a campanha eleitoral.
Há no Brasil, nas últimas duas décadas, pelo menos, uma
ignorância total na compreensão entre a diferenciação da estrutura do Estado e
de governo, agravada por um terceiro elemento que é a figura do presidente
Lula. Na política, que não separa afetividade e amizade com o presidente, personificam
nele a superestrutura, por isso: “Se bater no governo, vai doer no presidente”.
Quando uma coisa nada tem a ver com a outra.
Todos sabem que o governo é composto por quase todas as
forças políticas e representantes de todas as classes, logo, elas operam no
interior dos ministérios. Diante disso, o raciocínio deveria se orientar pelas
questões: o que tem a ver a elevada taxa de juros do Banco Central com a
reforma agrária? O que tem a ver os R$ 516 bilhões de Reais destinados ao agronegócio
com a reforma agrária? O que tem a ver o baixo orçamento do INCRA com a reforma
agrária? E, em todas elas colocar um complemento: “É o presidente quem define?”
Assim dezenas de questões deveriam ser formuladas para ajudar a direcionar as
ações contra os inimigos. Aparentemente, entre o Estado e a classe dominante,
que controla os cargos no governo e os trabalhadores, está o presidente Lula
que impede uns de tocarem ou brigarem com os outros. Por essa razão, a luta de
classes saiu da agenda.
Por fim, podemos dizer que, se não há objetivos consistentes
a serem alcançados, não haverá metas para serem avaliadas, logo, as vitórias se
equiparam às conquistas dos movimentos dos agricultores europeus que ignoram a
luta de classes e miram nos próprios interesses econômicos. Foi assim que
impediram o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Não ganharam
nem acumularam nada, mas o balanço foi positivo, porque impediram a entrada de
produtos estrangeiros para competirem com os deles.
Que o ano de 2026 seja prospero para a formação da consciência
crítica, para que possamos enxergar a nova onda de dominação, vinda dos Estados
Unidos, que se aproxima, com o propósito de tomar de assalto as riquezas
naturais e escravizar os pobres, pretos, brancos e indígenas. “América para os
americanos” deve soar como ameaça e não como orgulho.
Ademar
Bogo
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