domingo, 18 de janeiro de 2026

O FRACASSO DA INTOLERÂNCIA LIBERAL DO IMPÉRIO

 

Nos últimos tempos duas palavras ganharam destaque na estratégia política do imperialismo: terrorismo e barbárie. Se a primeira se define pelo uso da violência e do amedrontamento, a segunda acompanha com o estabelecimento do caos, por meio do negacionismo, agora das leis e da ordem institucional, local e mundial.

O filósofo István Mészáros foi um dos últimos filósofos deste século, a tratar com seriedade a barbárie, atribuída à estratégia universal do imperialismo dos Estados Unidos. Para ele, a lógica do capital é absolutamente inseparável do imperativo da dominação do mais fraco pelo mais forte. “Mesmo quando se pensa no que geralmente se considera o constituinte mais positivo do sistema, a competição que leva à expansão e ao progresso, seu companheiro inseparável é o impulso para o monopólio e a subjugação e a exterminação dos competidores que se colocam como obstáculos ao monopólio que se afirma”.[1]

A título de esclarecimento, o primeiro estudo de fôlego sobre o imperialismo foi publicado pelo inglês John Atkinson Hobson em 1902. Esse autor tomou como referência a Inglaterra e associou a explosão expansionista do capital a partir de 1870 com o desenvolvimento econômico do capitalismo. O que presenciamos cem anos depois, em 1970, com a substituição daquele nome por “globalização”, com as mesmas características, porém com direcionamentos ideológicos neoliberais diferenciados, que podemos agora afirmar ter ele passado para a segunda e talvez última fase. A primeira, quando se buscou estabelecer diretrizes jurídicas para abrir as fronteiras ao capital e privatizar os investimentos públicos mais rentáveis e, a segunda, mais atual, é esta de que as leis perderam a importância pela supremacia da força militar.

Este segundo movimento adotado pelo imperialismo dos Estados Unidos, se deve a dois fatores: o primeiro, aproveitando-se das possibilidades de expansão de seus negócios, todos os países estabeleceram os seus vínculos cooperando ou explorando-se mutuamente, no entanto, na medida que essas relações passaram a ser coordenadas pela surpreendente capacidade econômica e tecnológica da China, os diversos monopólios entraram em disputa e, o outro, tendo em vista os diferentes matizes do neoliberalismo, como é o caso do neodesenvolvimentismo ou mesmo algumas iniciativas de teor nacionalista, parcelas do patrimônio público, rentáveis, não foram privatizas e, algumas, para citar um caso, foram reestatizados como aconteceu com o petróleo na Venezuela, a partir de 1992.

Por outro lado, se entramos na segunda fase do neoliberalismo, não saímos nenhum milímetro fora do domínio imperialista; porém, com certeza, como intuiu Lenin no início de 1916, quando publicou o livro: Imperialismo: fase superior do capitalismo, pode ser o último degrau na subida da dominação do capital. Portanto, essas obras acima citadas, são leituras obrigatórias para quem pretende entender a intolerância e a imposição da barbárie, pelas atitudes violentas e destrutivas dos Estados Unidos.

Muito já foi dito sobre a decadência econômica dos Estados Unidos e a perda de dois lugares fundamentais: o primeiro de já não ser mais a maior economia do mundo, atualmente este lugar pertence à china e, o segundo, também de não possuir a hegemonia política do planeta. O que o império tem e com muito mais destaque do que qualquer outro país, é o domínio da tecnologia militar. Essa dianteira se deve aos robustos e contínuos investimentos na Indústria militar que, em 2024, chegou a um trilhão de dólares. Isso permite desenvolverem ações, atentados, sequestros e transmitirem ao vivo para as autoridades em Washington, como aconteceu com o presidente da Venezuela em 03 de janeiro de 2026. Ação semelhante já havia sido realizada na prisão e morte de Osama Bin Laden, em 2011 no Afeganistão.

No entanto, apesar de toda a tecnologia bélica e possuir 800 bases militares distribuídas pelo mundo, o controle do poder do império foge pelos vãos dos dedos. Somente com o uso do terror e da barbárie está conseguindo tomar alguns pontos e reaver algumas reservas importantes de minérios e petróleo para, por meio da ilegalidade e do roubo, tentar recuperar a hegemonia econômica no mundo, mas esta já é uma causa perdida. É provável que, com esse poderio bélico e, desrespeitando todas as leis internacionais, a estratégia seja de ignorar os países e acampar para tomar à força os locais específicos dentro dos territórios que preservam as riquezas naturais e administrá-los como se fossem pequenas ilhas anexadas aos Estados Unidos.

Como não existe movimento sem contradição, três delas estão se encaminhando para enfrentar e promover as derrotas ao imperialismo: primeira, a população dos Estados Unidos começa a dar sinais de que desaprova a política intervencionista e expansionista do governo daquele país; segunda, as movimentações regionais de reações contra as pretensões norte-americanas, como está ocorrendo com a Europa em relação à Groelândia, deslocando tropas para proteger a ilha e, terceira, a mobilização popular e a resistência interna tornando o elevado poder militar inútil. Temos, nesta última, três referências vitoriosas em andamento: a) a Palestina; b) a Venezuela e, c) o Irã. Os mísseis e os drones teleguiados, nada podem contra o levante das multidões. Portanto, a tendência aponta para as belíssimas insurreições populares, é preciso pensar o destino político dos resultados.

Para as consciências críticas que prezam pela autodeterminação dos povos, chegou a hora de fazer valer o conhecido chamado de Florestan Fernandes: “Contra a intolerância dos ricos, a intransigência dos pobres”. As ações locais, continentais e mundiais devem ser constantes, conscientes e unitárias, bem como destacou Marx: “A arma da crítica não pode, é claro, substituir a crítica da arma, o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas”.[2]  Mobilizados e organizados, teremos a força e também as armas.

                                                                                   Ademar Bogo

  

 

 



[1] MÉSZÁROS, István. O século XXI: Socialismo ou barbárie: São Paulo: Boitempo, 2003.

[2] MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 151.

domingo, 11 de janeiro de 2026

A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL


            Há épocas que a sintonia é tão estreita entre a política e a História que tanto faz escrever sobre as perspectivas ou deixá-las acontecer, que os resultados sabidos serão os mesmos. Por isso não é preciso levantar considerações como: se vai haver a Terceira Guerra Mundial, porque ela já está acontecendo, ou se os Estados Unidos perderão a hegemonia do poder mundial, porque já perdeu.

            Para quem gosta de comparações, no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, o mundo era divido e comandado por quatro poderes: Alemão, Austro-húngaro, Russo e Otomano. No final, ganharam a Guerra: a Inglaterra, a França e a Itália, com apoio dos Estados Unidos da América. A Alemanha foi responsabilizada pela guerra e obrigada a pagar os prejuízos.

            Embora as disputas entre as potências estivessem presas às questões econômicas e comerciais, o estopim foi um tiro disparado por um estudante sérvio, Gavrilo Princip, pertencente a um grupo armado, “Mão negra”, contra o herdeiro do trono austro-húngaro, Francisco Ferdinando. A reação contra a Sérvia fez a Europa juntar as forças, com exceção da Alemanha, que já disputava com a Inglaterra os mercados mundiais.  

            A segunda Guerra Mundial iniciou com a invasão da Polônia pela Alemanha. O motivo foi o Incidente de Gleiwitz, cidade na época em território alemão. Fardados com uniformes do Exército polonês, um grupo de alemães tomou a estação de rádio e divulgou uma mensagem de xingamento contra a Alemanha e mataram um fazendeiro, Franz Honiok, simpatizante da causa alemã, o vestiram também com o uniforme militar polonês e o apresentaram à imprensa como um invasor. Esse e outros pequenos motivos, forjados deram a Hitler os motivos para invadir a Polônia.

            A terceira Guerra Mundial, pode ter sido simbolicamente iniciada, em 3 de janeiro de 2026 com o sequestro e a extradição ilegal do presidente da Venezuela Nicolás Maduro. O motivo foram as falsas denúncias do Presidente chefiar o Cartel de Los Soles, organizado para levar drogas para os Estados Unidos. Para efetuar essa façanha o governo dos Estados Unidos, deslocaram o maior navio de guerra, USS Gerald R. Ford (CVN-78), com 333 metros de comprimento para bombardear pequenas embarcações de pescadores, acusados de transportarem drogas pelo Mar do Caribe.

Na verdade, a Segunda Guerra Mundial, o objetivo era criar o corredor polonês para chegar ao Mar Báltico e iniciar a expansão do império alemão para o Leste da Europa, o que obrigou a Inglaterra e a França a declarem guerra a Alemanha. Ao terminar a Guerra, o mundo ficou dividido basicamente entre, Ocidente e Oriente. Os países do primeiro, vigiados e articulados pelos Estados Unidos e, o segundo, em grande medida, articulado pela União Soviética. Esse período de bipolaridade, sobreviveu de 1945-1991, quando, houve a derrocada das repúblicas soviéticas e, aparentemente o mundo teria se configurado com um poder unipolar, dominado pelo imperialismo norte-americano.

            Mas uma guerra, embora termine com vencedores e vencidos, não congela a política nem a história, por isso o poder sofre variações locais e universais. O capitalismo tem essa virtude de formar novas circunstâncias a cada instante. A confiança na unipolaridade causou um grande mal para o imperialismo norte-americano. Julgando-se senhor do universo, criou pelo menos 800 bases militares no mundo, as quais foram toleradas pelos países que militarmente não queriam briga.

            Mas a política não se faz o tempo inteiro usando armas; qualquer ofensiva militar prolongada chega a um ponto que esgota. Aos poucos, como as águas nas cheias dos remansos, mesmo com a unipolaridade, as articulações políticas foram se modificando e o mundo configurou a divisão entre o Norte e o Sul Global. A Globalização que incialmente teria salvado o capitalismo da crise mundial por meio do neoliberalismo, permitiu ao capital ir a todos os lugares. No entanto, essa liberdade de mercado e investimento passou a valer para todos os países, inclusive aqueles situados nos continentes mais pobres. Quando se imaginava que a Ásia seria dominada pelos “tigres asiáticos”, mais propriamente, o Japão e a Coreia do Sul, a China, silenciosamente, com toda a tranquilidade, fortaleceu-se com a tecnologia estrangeira e saiu para relacionar-se os países formando com eles a temerosa Nova Rota da Seda, deixando, justamente o “dono do mundo” com usa unipolaridade de fora.

            Esse movimento da unidade e luta dos contrários em disputas nos mesmos territórios, criado pela globalização, assemelha-se a um jogo de futebol, quando os times estão em campo unidos para realizarem a partida, no entanto, um quer derrotar o outro. Confiante nas armas, os Estados Unidos fracassaram na tecnologia industrial e começaram a sofrer perdas na indústria e no mercado mundial, com isso, surgiram novas articulações políticas que ameaçam romper com o dólar e com as instituições financeiras internacionais, substituindo-as pelo Banco dos Brics. Desesperados e sem poder disparar um tiro no coração do inimigo, justamente por ele estar em muitos lugares ao mesmo tempo, criado pela globalização, os Estados Unidos, com a desculpa do tráfico de droga, sequestraram o presidente Nicolás Maduro e iniciaram a Terceira Guerra Mundial, cuja pretensão é fazer uma nova divisão do mundo, garantindo que a América seja dos americanos.

            Ao sentir que o mundo comercialmente foi se dividindo por regiões e por potencial mineral e energético, o império que antes precipitava-se contra qualquer alvo para vender armas, deu-se conta que os inimigos estão invadindo o seu quintal e explorando as riquezas minerais responsáveis pela sustentação das disputas tecnológicas do futuro. Ao se dar conta que um míssil jogado sobre o Irã é insignificante, contra um porto marítimo construído pela China no Peru que ligará, por ferrovias, o atlântico ao pacífico, passando pela Amazônia brasileira. Ou que, 80% do petróleo venezuelano estava sendo exportado para a China, quando poderia servir à economia norte-americana, declarou a guerra sequestrando o presidente Nicolás Maduro e estabeleceu um cerco à Venezuela, atacando todo e qualquer navio de qualquer país que ouse transportar petróleo pela via marítima.

Por tanto, como as duas guerras mundiais anteriores duraram em média 5 anos, esta nova situação de conflito pode ser mais curta ou mais longa, depende de como as outras potências se comportam diante dessa proposta de divisão do mundo. Como ninguém virá imediatamente para disputar a América (nem a China e nem a Rússia reagiram militarmente contra a apreensão do seu petróleo saído da Venezuela), as riquezas naturais estarão sujeitas à exploração do império, mas isso não será suficiente para recuperar a hegemonia política e econômica mundial. A china já é a maior economia do mundo e, tecnicamente está mais bem qualificada para inundar os mercados com mercadorias de valor competitivo favoráveis. Mas outras duas vantagens beneficiam a China: a primeira é de ser um grande mercado consumidor com perspectiva de crescer continuamente e, todos os países terão interesse em comercializar com ela os seus produtos; a segunda, além de estar se tornando, tem a Rússia como retaguarda militar e isso inspira cuidado do império ianque.

As bravatas de tentar intervir na guerra entre a Rússia e a Ucrânia ou de iniciar um conflito bancando a independência de Taiwan da China, ou mesmo a compra da ilha da Groelândia, poderão vir a se transformar em fatos reais vantajosos para os Estados Unidos, no entanto, colocaria esse império contra o mundo e tornaria essa causa expansionista externamente insustentável, como também internamente, a população norte-americana já reage contra a essa estratégia fracassada. A tendência é o recolhimento para garantir o que sobrou.

De outro lado, embora as forças sociais latino-americanas estejam apáticas, não haverá alternativa, a não ser uma reação conjunta entre todos os países para prejudicar a presença ianque em nossos territórios. As mesmas medidas tomadas lá, devem ser pressionadas para serem tomadas aqui, seja na expulsão de seus imigrantes e empresas de capital norte-americana; o impedimento do funcionamento dos consulados e, principalmente, livrar-se das matrizes tecnológicas dos Estados Unidos. Portanto, a guerra deverá ser temporária e sem uso de bombas atômicas, mas a revolução terá de ser de natureza permanente. Pela solidariedade e o levante coletivo dos povos, deve ser a nossa linha de resistência.

                                                                       Ademar Bogo