domingo, 28 de dezembro de 2025

BALANÇO DO BALANÇO


            Todos os finais de ano, costumeiramente, empresas, movimentos, entidades e partidos fazem o balanço para compararem os pontos positivos e negativos e, geralmente, as conclusões apontam alguns avanços, aqui e ali; coisas não tão boas, mas no final uma dose de otimismo, reanima as forças para o ano vindouro.

            É importante avaliar. Porém, há que ter algum parâmetro. Nesse caso as empresas estabelecem metas e os movimentos sociais e partidos políticos deveriam considerar alguns objetivos. Quando não há vínculo com nenhum desses dois referenciais, não se tem uma medida de tamanho para saber se de fato houve algum avanço considerável.

            Por outro lado, os apontamentos na política são menos consistentes do que na economia, isto porque, na primeira os resultados podem ser abstratos, sem matéria concreta, por isso, aquilo que na conjuntura parece ser um avanço, no real concreto, não criou nenhuma mudança estrutural, por isso não há nenhuma garantia de que um acordo ou a medida permaneça.

            Façamos aqui um comparativo nas relações tumultuadas com os Estados Unidos, em parte do ano de 2025. De repente surgiu, sem explicação uma elevada taxa de exportação e junto dela a aplicação da lei Magnitski, aquela que o imperialismo aplica contra qualquer cidadão do mundo e, por isso, enquadrou algumas autoridades brasileiras por estarem “desrespeitando os direitos humanos”. Havia de fato algumas exigências para que ambas as medidas fossem anuladas e, uma delas era anistiar os golpistas das ações de janeiro de 2023 que estavam no banco dos réus.

            Mas, eis que em meio as tensões, os Estados Unidos publicaram em 5 de Dezembro de 2025, o Plano para a América Latina e reafirmaram a mesma Doutrina Monroe, de 2 dezembro de 1823, que em síntese consiste na pregação do conteúdo: “América para os americanos”. Em síntese, isto significa, na linguagem popular, dizer: “Tudo nosso”; ou um recado aos países do Sul Global, como à China e à Rússia, que o território das três américas está sob o comando do imperialismo norte-americano. De imediato vimos as forças militares do Império tomarem o Mar do Caribe e cercear a liberdade de comércio internacional da Venezuela.

            Mas também, eis que de repente as taxas de exportação contra o Brasil foram reduzidas, e a Lei Magnitski, mesmo com a condenação dos golpistas, como se nada houvesse acontecido, perdeu os seus efeitos e as autoridades brasileiras foram ou serão ainda beneficiadas. O sucesso foi atribuído à capacidade da diplomacia brasileira que sabe negociar. No entanto, até o momento nada foi informado sobre o que precisou dar em troca para que tudo voltasse ao “normal”. Inicialmente os EUA demonstraram interesse nas terras raras e nas reservas de lítio presentes em várias regiões do Brasil, depois silenciaram. Será que excluíram o Brasil da doutrina Monroe que exige a “América para os Americanos?”. Claro que não. O primeiro argumento para esse “recuo” é não mexer com todos os formigueiros ao mesmo tempo. E, o segundo, é mais inteligente ainda, por que transformar alguém em inimigo se o que queremos dele, podemos obter sem briga? Portanto, momentaneamente comemoram-se os avanços, mas quais? Poder exportar suco de laranja, soja e carne bovina com as mesmas taxas cobradas anteriormente?

            A nível interno, também como demonstrativo de balaços sem profundidade, diz respeito aos que foram feitos pelos movimentos sociais do campo. Dizem que a reforma agrária está parada porque o orçamento disponível é limitado. Por outro lado, os avanços se referem à produção de alimentos agroecológicos e ao plantio de árvores, numa grande contribuição para reduzir o aquecimento global. Também são apontadas as ações de solidariedade no apoio à população afetada pelas catástrofes naturais e a distribuição de alimentos. Nas perspectivas, o único ponto posto como objetivo futuro a ser alcançado é o envolvimento na campanha eleitoral para a reeleição do presidente da República.

            Esses indicadores já confirmam em 80% o conteúdo do balanço do ano de 2026, isto porque, a reforma agrária continuará estacionada, os órgãos responsáveis continuarão inativos e, o montante maior de recursos serão destinados, como foi neste ano de 2025, para o agronegócio. Restará para os trabalhadores, a produção agroecológica em escala reduzida para contribuir com a merenda escolar, o plantio de árvores e a campanha eleitoral.

            Há no Brasil, nas últimas duas décadas, pelo menos, uma ignorância total na compreensão entre a diferenciação da estrutura do Estado e de governo, agravada por um terceiro elemento que é a figura do presidente Lula. Na política, que não separa afetividade e amizade com o presidente, personificam nele a superestrutura, por isso: “Se bater no governo, vai doer no presidente”. Quando uma coisa nada tem a ver com a outra.

            Todos sabem que o governo é composto por quase todas as forças políticas e representantes de todas as classes, logo, elas operam no interior dos ministérios. Diante disso, o raciocínio deveria se orientar pelas questões: o que tem a ver a elevada taxa de juros do Banco Central com a reforma agrária? O que tem a ver os R$ 516 bilhões de Reais destinados ao agronegócio com a reforma agrária? O que tem a ver o baixo orçamento do INCRA com a reforma agrária? E, em todas elas colocar um complemento: “É o presidente quem define?” Assim dezenas de questões deveriam ser formuladas para ajudar a direcionar as ações contra os inimigos. Aparentemente, entre o Estado e a classe dominante, que controla os cargos no governo e os trabalhadores, está o presidente Lula que impede uns de tocarem ou brigarem com os outros. Por essa razão, a luta de classes saiu da agenda.

            Por fim, podemos dizer que, se não há objetivos consistentes a serem alcançados, não haverá metas para serem avaliadas, logo, as vitórias se equiparam às conquistas dos movimentos dos agricultores europeus que ignoram a luta de classes e miram nos próprios interesses econômicos. Foi assim que impediram o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Não ganharam nem acumularam nada, mas o balanço foi positivo, porque impediram a entrada de produtos estrangeiros para competirem com os deles.

            Que o ano de 2026 seja prospero para a formação da consciência crítica, para que possamos enxergar a nova onda de dominação, vinda dos Estados Unidos, que se aproxima, com o propósito de tomar de assalto as riquezas naturais e escravizar os pobres, pretos, brancos e indígenas. “América para os americanos” deve soar como ameaça e não como orgulho.

                                                                                   Ademar Bogo     

domingo, 14 de dezembro de 2025

O ESDRÚXULO ESDRULUXADO


Como não há mais palavras na língua portuguesa para explicar a política brasileira, temos que inventá-las para dar algum sentido para a pouca inteligência que forma a irracionalidade dos parlamentares que dirigirem nação. A sensação nas ruas é que o parlamento foi tomado por uma maioria de mentecaptos que não reconhecem os sinais apontadores da ética política.

            O filósofo e advogado Marco Túlio Cícero (63.a. C), perguntou: “Quem dará o título de homem a um monstro que não reconhece comunidade de direitos para com os outros homens, nem laços que o unam à humanidade?”.[1] O mesmo poderíamos fazer hoje, quem chamaria de homens honestos aos deputados que fazem as leis em defesa causas particulares? Se antes eram conhecidos como corruptos, já é pouco chama-los assim, mas outros termos, como: clientelistas e favoritistas parece que ofendem ainda menos. Talvez “monstros do Congresso”, identifique uma espécie de mamíferos que só existe lá.

            As coisas estão de fato desreguladas. O certo parece que é o errado e o avesso o lado certo, ou, de fato, já não temos mais referências. Imagine se em qualquer país, no futuro, dois deputados abandonarem o parlamento porque cometeram crimes e fugiram do País e, os seus pares ao invés de cassá-los e exigirem a prisão imediata, aprovassem que eles poderão legislar de onde estiverem escondidos, recebendo os altos salários, como se nada tivesse acontecido? O que dirão aquelas gerações? Da mesma forma se uma deputada, fugitiva, julgada e condenada e presa na Itália, também continuasse sendo sustentada pelas verbas públicas? Esta pelo menos foi punida pelo Supremo Tribunal Federal com a declaração da perda do mandato.

            Por outro lado, entra em cena no linguajar político a “Dosimetria”. Poderíamos chamar de sistema de medida que mede as penas. Ou seja, seria a Trena que mede a altura de um cidadão. Quando encostado na parede, não há como negar, o que é, é. Mas no caso dos crimes, a metragem é diferente: o que é pode não ser. O sistema agora inaugurado é tomar o réu julgado e condenado e medi-lo duas vezes: a primeira em pé e a segunda acocorado. Valeria a segunda, porque a primeira serviu apenas para identificar o malfeitor.

            Essa medida “Dosimétrica”, poderia ser associada à infelicidade. Primeiro porque os infelizes seriam os condenados que recebem a pena e, segundo a população que torceu para que permanecessem presos, mas, de repente os “dosimetrados”, voltam às ruas para cometerem outros crimes no mesmo ramo da profissão do golpismo. Mas, calma, isto não ocorre com todos os presos, a revisão dosimétrica é um direito adquirido por aqueles que não aceitam os resultados das eleições, quebram e destroem as instituições públicas depois, é claro, de ficarem um tempo acampados em frente aos quarteis.

            Os livros de História do Brasil registram que Sebastião Ferreira de Paula, foi o preso político que mais tempo ficou na cadeia, 18 anos. Isto aconteceu porque ele não foi anistiado em 1979, por isso ficou 4 anos a mais que os outros que foram presos, torturados e julgados e amargaram uma dezena de anos ou foram exilados. Agora, o chefe da quadrilha militar que pegou 27 anos e três meses de prisão, em regime fechado, no passar a régua da Dosimétrica, sairá em menos de três anos. Ou seja, quem resiste a um golpe de Estado, tem a pena maior do que qualquer um que tenta dar o golpe e fracassa. E nem adianta olhar para a cara do juiz que foi chamado de canalha em praça pública, porque ele está junto para refazer as medidas.

            Mas isto ainda é insuficiente para os desmiolados fazedores de leis.  Avançaram também na aprovação ode outros benefícios escandalosos. Para evitar o trabalho de prender e julgar um deputado que comete um crime, aplicar uma pena e depois, pela Dosimetria desaplicar, estão preparando a emenda à Constituição, apelidada de PEC da Blindagem ou da bandidagem, que vem a dar no mesmo. No que consiste? Em poucas palavras, significa que um juiz pode mandar prender um deputado criminoso, mas ele só será preso se os colegas dele concordarem. Caso contrário, continuará no parlamento fazendo o que sempre fez: defender os próprios interesses.

            A Democracia Representativa é de fato o corredor que leva ao totalitarismo. Depois de depositado o voto em favor de um deputado, é como dinheiro perdido, quem achou finge que é dele e gastará onde bem quiser.

            Por outro lado, de fato entre a Democracia e a ditadura é melhor ficar com a primeira, por que, sendo branco, estudado, cabo eleitoral e amigo de políticos, com ela o sujeito pode desarrumar a ordem, mas não apanha da policia e, se for preso, sai com o pagamento de uma fiança; no entanto, se for preto, pobre, transgênero ou favelado, aí tanto faz votar ou ser proibido de fazê-lo, pois os resultados são os mesmos.

            Para terminar, na mesma noite em que aprovaram a redução das penas para os golpistas, mantiveram os mandatos dos dois deputados fugitivos do país, aprovaram a punição de seis meses de suspensão ao Deputado do PSOL, Glauber Braga, por ter empurrado um provocador nas imediações do Congresso Nacional”. Muitos consideram uma vitória e festejaram a conquista. De certo pensaram; “fazer o que?”, a floresta foi incendiada, mas a minha arvorezinha de estimação foi possível salvar.

            Então é isso, continuemos disputando o joio enquanto eles levam o trigo, os minérios e o petróleo embora. O império ameaça invadir a Venezuela e não se ouve uma palavra daqueles que elogiam o terrorista chefe maior do império, por ter recuado e tirado o Ministro Alexandre de Moraes e a esposa da Lei Magnitski. É o agrado para que se mantenha o silêncio e a neutralidade sobre a iminente invasão do país vizinho.

                                                                       Ademar Bogo          



[1] https://sumateologica.wordpress.com/wp-content/uploads/2009/09/cicero_da_republica.pdf

domingo, 7 de dezembro de 2025

A FÚRIA CONTRA O PORRETE


No dia cinco de dezembro de 2025, o império norte-americano publicou a renovação de sua estratégia político-militar para a América Latina. Pouco ou quase nada há de novo, se considerarmos o lema da Doutrina Monroe: “América para os americanos”, em vigor desde 1823.

Para quem tem acompanhado nos últimos tempos os movimentos geopolíticos, não terá muitas dificuldades em entender as manifestações desrespeitosas dos representantes do império que, diante da falência do modelo neoliberal, afunda-se na decadência capitalista, mas ao olhar-se mais demoradamente no espelho, viu, primeiramente, que a sua imagem se parece com a face envelhecida da Europa já sem forças para reagir e percebeu que lhes sobra uma única solução, que  é a defesa da invasão dos “bárbaros” imigrantes.

No entanto, ao permanecer, um pouco mais diante do espelho, o império também se vê invadido pelos bárbaros do mundo, por isso, como antigamente, ergue muralhas para defender-se e, por deter ainda um poderio militar satisfatório, decide atacar os que estão desarmados para submetê-los e dominá-los. Por quê republicam a estratégia Monroe de 1823? Porque há um movimento real de desprendimento dos países latino-americanos e do Caribe, que se voltam para estabelecer relações vantajosas com a China e a Rússia.

Essas aparentes recaídas para a repetição de comportamentos invasivos, são resultados dos reflexos do espelho, revelando ao observador enquanto se observa, que as suas forças de controle sobre o continente, esvaiu-se e, agora precisa atacar para se defender. “América para os americanos”, repete o que foi: “Roma para os romanos”, quando Nero, para disfarçar a decadência própria e do império, incendiou Roma e culpou os miseráveis cristãos que rezavam e faziam penitência para alcançarem dias melhores. Agora o Trumpnero culpa os miseráveis pescadores que navegam no Mar do Caribe, como se fossem traficantes e, para combatê-los, como não pode incendiar as águas do oceano, embora produza labaredas e fumaça, desloca o maior navio de guerra do mundo para manter a sua autoridade.

Não são apenas os slogans históricos que se repetem, as práticas também. Quando Pedro Alvares Cabral chegou ao Brasil em 1500 e avistou uma população estranha para os critérios europeus, buscou cativar a amizade, oferecendo, uvas, figos, pão, vinho, chapéus, espelhos e outras bugigangas, mas, para intimidar os mais curiosos pôs fogo em uma bacia de aguardente no intuito de mostrar que poderiam, se quisessem, incendiar as águas do Mar. Depois, já instalados no território alheio, cumpriram as suas intenções, que foi, com armas de fogo e incêndios nas florestas, exterminar os povos nativos resistentes e força-los a entregarem os seus bens naturais.

Como já vimos, desde 1823, ou seja, um ano após a declaração da independência do Brasil e, de quase todos os países da América Latina, realizadas entre 1804 a 1838, dando margem à formulação da expressão: “América para os americanos” e, depois, durante o século XX, o endurecimento foi ainda maior, quando o presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, que governou o país, entre 1901 a 1909, baseado aplicou na política externa, o dito popular: “Fale mansamente, mas leve na mão um porrete”, criando assim a estratégia do Big Stik (Grande porrete), para intervir em nosso continente.

Com esse “porrete” na mão, os governos do império impuseram a aceitação de empréstimos, que depois se transformaram em dívidas externas impagáveis, mantendo as nações sob a chantagem dos especuladores por quase um século. Somado a isso, interferiram diretamente na política, financiando golpes de Estado para instalarem ditaduras sanguinárias por diversos países. Tendo essas medidas sido desgastadas, voltam à estratégia do “porrete” para obrigar os governos de nações soberanas a se curvarem aos interesses do império, cedendo-lhes os minérios, o petróleo e demais riquezas, em vista de sustentarem a base econômica dos criadores do lema: “América para os americanos”.

Tal qual o incêndio em Roma foi uma fantasia criminosa imposta por Nero, o problema do narcotráfico representa o mesmo para Trump. O fundamental é entender que não há sustentação argumentativa para proceder dessa forma, em cercear a liberdade dos países, isto porque: sabemos que todos os países possuem as suas fronteiras e devem lutar para preservá-las, este é um princípio da soberania. Por esse princípio e pelas leis comerciais, cada país tem um sistema de controle nas alfandegas, mas não há notícias de que algum, das quase duas centenas de países do mundo, tente controlar a exportação ou o tráfico de drogas na fronteira do país alheio. Conscientemente podemos intuir que é muito mais barato para os Estados Unidos, monitorarem as suas fronteiras e deixar em casa os seus soldados, ao invés de espalhá-los pelos oceanos.

É também inacreditável que, com toda a tecnologia bélica que direciona os ataques com altíssima precisão para atingir um alvo a milhares de quilômetros, sem causar vítimas, ou defender com escudos antimíssil impedindo os inimigos de alcançarem os seus objetivos,  os Estados Unidos ainda não possuiria condições de controlar a entrada de drogas em seu país?

Por outro lado, as principais fábricas de armas do mundo se localizam nos Estados Unidos, por que não vigiam a própria fronteira e impedem as exportações delas, sendo que a maioria delas cai na mão dos traficantes?

Enfim, a estratégia do imperialismo é manter as nações latino-americanas submissas e impossibilitadas de estabelecerem relações econômicas e políticas com outras potências do mundo. Evidentemente, esse movimento na atual correlação de forças não volta atrás. A decadência europeia assusta os Estados Unidos, pois, vê nela o seu amanhã. Por outro lado, nessa engenharia política, as próximas décadas apontam para a elevação das desestabilizações dos governos locais e de ocupações territoriais em pontos que o império precisa assaltar as riquezas naturais para sustentar, em algum grau, a concorrência na economia mundial.

As novas gerações terão de reagir ou viverão em sistemas análogos à escravidão do passado, vigiadas por satélites e combatidas antes mesmo de provocarem alguma reação. Os conflitos serão tecnológicos, e lado que estiver mais equipado perderá menos. As reações, porém, não serão coordenadas por partidos e governos pacifistas, negociadores de taxas menores para a exportação de suco de laranja, mas pela fúria libertadora dos povos em luta unificada contra o imperialismo. Bem do jeito que expressou Ernesto Che Guevara, em sua Mensagem aos povos do mundo, em 1967: “Crear dos, tres, muchos Vietnam".

                                                                       Ademar Bogo