domingo, 12 de abril de 2020

O CUIDADO COM O HUMANO E A FELICIDADE


                                                                      
                O historiador inglês, Eric Hobsbawm tinha a perspicácia de medir as eras pelos fenômenos marcantes. Um século para ele não iniciava no 01 nem terminava no ano cem. Começava quando um fato marcante recolocava em outra ordem as forças econômicas, políticas e sociais e, findava quando aquele ajeitamento fosse superado. Foi assim que descreveu, em 1994, em seu o livro, “Era dos extremos: o breve século XX – 1914-1991”. O raciocínio do historiador para os filósofos tornou-se também um dilema filosófico assentado sobre a pergunta: o que é o tempo?
A resposta para a pergunta, “o que foi breve século XX?”, deu-a o próprio historiador. O período permitiu que surgissem duas guerras mundiais; duas grandes crises econômicas, a de 1929 e a de 1973; dois modelos econômicos, o keynesianismo e o neoliberalismo; as revoluções socialistas, iniciadas em 1917 na Rússia e encerradas em 1979 na Nicarágua; a queda do muro de Berlin em 1989 e, a posterior diluição das repúblicas soviéticas, em dezembro de1991. 
Mas teria iniciado ali o século XXI? Pela medição do tempo histórico talvez sim. Aparentemente o cosmos, com pequenos resquícios de “meteoritos” socialistas, voltou a ser hegemonicamente capitalista. A globalização, iniciada ainda na década de 1970, rompeu todas as fronteiras fazendo com que, uma parte do capital, como uma ave de rapina, voasse para o território chinês.  A outra parte do capital repartiu-se em duas formas: a primeira permaneceu nos investimentos seletivos e produtivos em todos os lugares do mundo, mas, a segunda, converteu-se em especulação parasitária, obrigando os governos e os poderes estatais locais, implementarem medidas para a sua reprodução; suportando, por meio do pagamento dos juros da dívida pública, essa ordem vigente nos 30 anos que já se distancia do final do século XX.    
            Olhando agora, em meio às crises da civilização, manifestadas pelo fenômeno do coronavírus, para aquilo que o capitalismo fez nos últimos 30 anos, percebemos que o mundo passou da máquina de datilografia, do telex, do fax e do telefone fixo, para a digitalização e a publicação em tempo real. Apenas para lembrar outras áreas: a fotografia e as imagens em preto e branco cederam lugar para as múltiplas colorações; o trabalho e o comércio informatizado criaram novas relações de produção e de consumo; a ideologia da educação forcejou para destituir a tradição escolar com tempo rígido e obrigatório, para o suposto tempo livre e, tantas foram as mudanças eletrônicas, robóticas e genéticas, que apenas uma pequena elite na humanidade as compreendem; mas, esqueceu do ser humano. Então a Filosofia olha para tudo isso e pergunta: a humanidade era cuidada e feliz?
            A felicidade, seguindo a definição de Sócrates, é “possuir o bom e o belo”; duas coisas cada vez mais distantes de serem alcançadas no capitalismo. Não poderia a humanidade estar feliz, se até o início deste ano de 2020, apesar da globalização que prometeu a todos facilitar o acesso aos bens de consumo do mundo, conforme dados da FAO, órgão das Nações Unidas, 821 milhões de pessoas passavam forme e, 3,4 bilhões, de pessoas, portanto, quase à metade da população mundial, vivia com o equivalente a menos de 5,5 dólares por dia. Para simplificarmos, o Brasil, nesta competição degradante, está hoje em segundo lugar (abaixo do Catar); aqui 1% dos mais ricos concentra 28,3% da renda total do país e, piora ainda mais quando tomamos como referência os 10% mais ricos, a concentração sobe para 41,9% da renda total.
            O que é então a felicidade, o “belo e o bom” para uma sociedade tão polarizada entre a fome e a riqueza? O capitalismo, pelas suas diferentes manifestações históricas e agora com o distúrbio do Covid-19, passou de um modo de produção atrativo, fantasioso e mágico, para um sistema egoísta, não solidário, destrutivo e amedrontador, como denunciava ainda em 1996 a Escola de Samba do Rio de Janeiro, Império Serrano, na letra de sua música: “Isto nunca foi segredo, quem é pobre está com fome, quem é rico está com medo”. Mal sabia ela, dois anos apenas após o “final do século XX”, que aquilo tudo iria piorar.
Com a pandemia do coronavírus, o “bom e o belo” cederam lugar para o ruim, o feio e o medo. Este último deixou de ter um efeito individual e passou a ser um espectro que ronda a humanidade. E eis que de repente as casas que “vendiam beleza” fecharam as portas, as maquiagens passaram a ser feitas dentro dos banheiros de cada habitação, muito também, porque pouca serventia terá maquiar as faces, se elas, ao serem levadas para a rua, serão cobertas com máscaras. A estética e os lustres das mercadorias foram abandonados junto com as mesmas na escuridão das lojas fechadas. Os carros de luxo e de potentes cilindradas recolheram-se aos recantos frios dos depósitos caseiros. Assim também cessou a alegria dos estádios, a algazarra nas escolas e as metáforas nos cinemas. As roupas finas perderam a importância; os pescoços esqueceram as gravatas e os pés dilatam os tecidos enquanto descansam. As malas desprezaram as viagens e os passaportes reduziram a validade sem nenhum uso.
Para onde foi a liberdade de consumo que classificava, excluía e integrava os indivíduos pelo nível de renda? Os produtos sobram nas prateleiras das lojas e não fazem falta em nossas casas! Isso tudo comprova o que dissera o filósofo Karl Marx em 1848, que o capitalismo era a sociedade da “civilização em excesso”. Captara ele facilmente a mensagem das revoluções liberais na Europa, realizadas pelos anseios de impulsionar a produção e o consumo incontrolados. Há mais produtos do que necessidades, por isso a humanidade pode ficar em casa por um tempo, refletindo sobre o supérfluo e o ruim que agora são considerados, úteis e bons.
 O “bom” agora é o hospital, o respirador que vem da China comunista para inflar pulmões de todas as classes e crenças; o técnico em saúde pública; o cientista e a pesquisa vinda da Universidade sucateada, sem bolsas de estudos e “dominada” pela ideologia de Paulo Freire. Bom é o SUS, que há meses vinha sendo enfraquecido e ameaçado de extinção. Agora, os planos de saúde não são mais tão importantes, pois, os hospitais particulares sem os caríssimos respiradores perderam a importância. Bom é o Estado, antes acusado pelo “impostômetro” de ser cruel com os capitalistas que “trabalham”.
 E a Filosofia pergunta: o que houve? Por que mudaram tão rápido de opinião, senhores? É tempo de refletir e pensar na hipocrisia burguesa e nas fragilidades do capitalismo que nunca se dedicou a cuidar do ser humano. Para capitalistas e aos seus governantes, a concentração da riqueza, o lucro fácil e o separatismo social, sempre vieram em primeiro plano. Talvez a igualdade de ter que se deitar em um leito de um hospital improvisado em um descampado qualquer, ao lado de uma empregada doméstica, de um idoso negro, de um índio despido, que há dois ou três anos não queria tê-los ao lado nas viagens áreas, nos restaurantes, nos bancos das universidades etc., seja um despertar para perceber o que é o Brasil real que, para a maioria das pessoas é assim desde a invasão portuguesa.
            De certo, muitos estão percebendo que estamos unidos pelo medo. Ele passou a distanciar os corajosos dos corajosos; os ricos dos ricos, os amantes dos amantes; os comerciantes dos comerciários; os vendedores dos compradores que, se por ventura realizam alguma troca, pegam as cédulas de dinheiro com a ponta dos dedos, como se fosse uma cueca suja caída no canto do banheiro. Os únicos que não se distanciam, nem arranjam tempo para temer o medo, são os profissionais da saúde, porque, sendo uma das raras profissões, cujos integrantes juram defender e cuidar da vida, foram educados a enfrentar o medo. Eles, apesar de estarem próximos do ruim e do feio são felizes porque agem para fazer surgir o bom e o belo. Neles está depositada a esperança daquele que quer livrar-se da asfixia, como o condenado da corda da forca. Eles, de esquecidos, maltratados e não equipados, passaram ser a pedra angular da eterna solidariedade.
            Mas, eis que, sem nenhum prazer, vivemos para assistir a cena descrita e musicada por Chico Buarque de Holanda, nomeada de “Geni e o Zepelin”, mostrando que, os mesmos que há pouco tempo gritavam: “joga pedra na Geni”, “joga bosta na Geni”, agora são vistos nas fileiras da imploração; “... o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos e o banqueiro com um milhão.” Todos, implorando pela bondade chinesa e, repugnados, prestes a gerar o vômito neofacista que, por incompetência, vingança e soberba fizeram emergir das profundezas do atraso.   
            Porém, não nos animemos muito, o século XXI que teria começado em 1992, mas que o marco catastrófico necessário para a sua impulsão ocorre agora, quase trinta anos depois, não dá sinais de humanização. É evidente que o mundo não será mais o mesmo após o coronavírus, mas nutrimos poucas esperanças de ele será melhor, isto porque, as tragédias nem sempre são as melhores conselheiras e, nos desastres nem todos perdem. Os capitalistas, empresários das grandes corporações, agora recorrem ao Estado que, no modelo keynesiano fora acusado de intervir demasiadamente na economia e, por razões já conhecidas, foi obrigado no neoliberalismo, a deixar para a iniciativa privada determinar o ritmo da busca do progresso, agora em profunda crise. Por outro lado, os mesmos capitalistas ligados à produção, mais aqueles que há tempo vivem da especulação, comprarão os títulos emitidos pelo mesmo Estado “enfraquecido” que se tornará ainda mais dominado pelo capital parasitário, credor da dívida pública que, no final de 2019 somava R$ 4, 248 trilhões de reais, e que rendeu de juros no mesmo ano, R$ 330 bilhões de reais.
            As visões se confundem quando olhamos para as imagens pintadas na cortina do amanhã. Mas, com o fracasso do neoliberalismo e com as diferenças antagônicas na política, talvez estejamos próximos de uma remodelação nas formas de dominações estruturais. Como John Maynard Keynes, inspirando-se no “estatismo soviético” propôs em 1929, o novo modelo econômico, os intelectuais do capital podem agora mirar o modelo de economia mista, com a participação pública e privada, como é o modelo chinês e que funcionou, no Brasil, de 2003 -2016, com o nome de “neodesenvolvimentismo”, agora implementado pelas forças políticas da direita, sem benefícios sociais.
            Mas, por enquanto, dizem os mais endinheirados do que sabidos: “É preciso salvar a economia”. E nós nos perguntamos, de que economia estão falando? E quem será o salvador? Observamos que eles falam “economia”, mas a palavra quer dizer “lucro”. A Oxfan, entidade inglesa, revelou que no mundo, apenas 2.153 capitalistas possuem uma riqueza maior do que 4,6 bilhões de pessoas e, no ano de 2017 já havia mostrado que, 82% da riqueza produzida no mundo, naquele ano, havia sido apropriada por 1% das pessoas. Ficou demonstrado que, para 99% da população mundial restou 18% da riqueza. Seria desta ou de outra economia que falam eles? Não pode ser a “economia” dos pobres que trabalham como autônomos que receberão por três meses a quantia de R$ 600,00 nem dos demais trabalhadores que terão os seus salários reduzidos e que são jogados na fila do seguro-desemprego; muito menos dos funcionários públicos que serão convidados a abrirem mão de uma parte significativa do salário, pois, a diferença com os salários da iniciativa priva “é exorbitante”, dizem os governantes.  
            Não precisa ser socialista, cristão ou budista para enxergar a realidade e as hipocrisias do presente. Basta que se tenha consciência para prever o que poderá acontecer no pós-coronavírus. É bem verdade que os arautos do capitalismo revelam amedrontadamente, que “os dois perigos da humanidade são, “o coronavírus e o comunismo”. E nós dizemos mansamente, não é o comunismo que deveis temer senhores, mas a barbárie. Aquele movimento espontâneo que não tem comando, mas que vai em direção oposta ao progresso, é o que vos ameaça. Nesse estágio, o Estado não gozará de nenhum respeito e a classe dominante já não terá mais força alguma que proteja os seus bens. Não há na realidade mundial indicadores que apontem que a humanidade está prestes a ir para o comunismo, até porque, esses falastrões ignoram que, para chegarmos lá teremos que passar pela longa transição socialista. O que temos na evidência, não é o aprofundamento das relações de cooperação, mas sim o veemente avanço do capitalismo destrutivo. E nisso sim, entramos em um novo antagonismo, pois, se agora retidos em cada residência, “tememos mais a morte do que a miséria”, no futuro próximo, poderemos ter que reabilitar as palavras de Bertold Brecht, ditas em meio à perseguição nazista alemã: “Nós decidimos: que, de agora em diante, temeremos mais a miséria do que a morte.”                       
            Será isto que a Filosofia tem a nos oferecer em meio a uma crise mundial? Não propriamente, se no declínio da pandemia tivermos aprendido, que igualdade não significa estar em situação de assinar e assumir um contrato por um negócio feito, mas é sim, da mesma forma que temos de dividir o uso de um respirador nas camas improvisadas para nos curarmos, procedermos com a distribuição da renda. Se tivermos aprendido também, que a riqueza de um país não é o patrimônio acumulado e documentado, mas as pessoas que nascem, crescem e sonham com a felicidade. E que, os heróis não são os seres treinados para o exibicionismo, mas a pobre e mal paga enfermeira que, correndo o risco de contrair o vírus, vai ao hospital e trabalha o dia inteiro, na esperança de que o paciente cuidado se levante.
            Evitaremos a barbárie, se acreditarmos que o discurso da produção pode agregar também o conteúdo da distribuição, e que, é melhor agirmos para distribuirmos a riqueza já produzida e acumulada, do que sonharmos em fazer as economias crescerem a 10% ao ano. Se esse sonho se realizar, para a satisfação dos capitalistas, em 10 anos as economias locais crescerão 100%, mas o planeta resistirá?
            Portanto, são os capitalistas, em primeiro lugar e não os socialistas que precisam evitar a barbárie. São eles que detêm as causas da miséria e da violência que se voltará contra eles mesmos. Os trabalhadores e os miseráveis da terra detêm apenas o desejo de viver um pouco melhor. Quem impede isso? É o grau de escolaridade? O despreparo profissional? A falta de espírito para o empreendedorismo? O excesso de leis trabalhistas? Não senhores, são as leis tendenciais do capitalismo que obriga extrair da carne humana a energia e o sangue para alimentar o seu próprio funcionamento. Não pode haver igualdade e justiça social em um sistema que precisa do excedente econômico para a sua própria reprodução. E para aqueles que não acreditam, convidamos a observar as medidas encaminhadas para vigorarem no período de distanciamento social, com redução temporária da jornada de trabalho e dos salários porque, seremos surpreendidos com a notícia de que o temporário virá a ser permanente.
            É evidente que devemos manter a esperança de que o futuro será melhor. No entanto, para as gerações que vivemos neste tempo ameaçador, nos faz agarrar como primeira prioridade a de continuarmos vivos, coisa que meses atrás não era um ponto de preocupação. Agora, diante da realidade e das perspectivas que se apresentam, devemos concordar com o filósofo argelino, Albert Camus, naquilo que ele disse em 1957: “Cada geração é sem dúvida, chamada a reformar o mundo. A minha sabe que não vai reformá-lo, mas sua tarefa talvez seja ainda maior. Consiste em evitar que o mundo seja destruído”.
            Como se evita isso? Colocando a importância no ser humano, mais do que na economia. A tecnologia, a ciência, a política a economia etc., são apenas mediações colocadas entre aquilo temos e aquilo que queremos ser. São as leis e as normas morais humanas que devem guiar a humanidade e não as leis e a moral do capital.
                                                                                                          Ademar Bogo




           





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