A conjuntura política brasileira
apresenta sinais de pouco entusiasmo e de vibrações pouco irradiadoras de
sensações positivas, por isso estamos avançando muito rapidamente pela via da
negatividade.
Quando os ânimos se manifestam entusiasticamente
sobre a retratação das falsidades, como foi a redução das altas taxas decretadas
sobre alguns produtos de exportação levados para o terreiro do império dos
Estados Unidos, que após algumas negociações voltaram aos valores anteriores,
não se pode dizer que tivemos uma vitória; muito pelo contrário, o império com
uma simples chantagem, alcançou os seus objetivos de manter o Brasil sob seu
domínio, ganhando a primazia de explorar o petróleo, as terras raras, o lítio e
outros produtos que são de seus interesses na concorrência com a China.
Tal qual ocorre com um prisioneiro
domiciliar, que ganha o direito de ir até o mercado mais próximo, assim vemos a
relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Ao invés de aproveitarmos o
conflito, que a mais de duzentos anos não acontecia entre os dois países, em
nome da conciliação, trocamos o direito de elevar-nos como uma nação soberana,
somando-nos com a Venezuela e a Colômbia, que serão, em nome do combate ao
narcotráfico, pressionados a cederem as suas riquezas naturais para os mesmos grupos
exploradores internacionais, optamos por negociar para ficarmos no mesmo lugar
da antiga dependência.
A estratégia norte-americana não é
invadir os territórios dos países latino-americanos, isso envolveria um
conflito bélico com a Rússia e com a China, mas investir no desgaste das
democracias convalescentes, pois, mal se recuperam de um golpe, logo surge
outro motivo de desestabilização do frágil equilíbrio político. O confronto
binário entre Democracia e Ditadura, tem servido para supervalorizar os
processos eleitorais para eleger alternadamente governantes que, em um mandato
entregam todas as encomendas solicitadas pelos saqueadores dos bens naturais,
envolvendo a própria foça de trabalho e administrativa das próprias nações,
para facilitar o domínio do capital externo.
Esse misto de invasão conciliatória,
praticado pelo imperialismo, leva as nações a se entusiasmarem com as próprias
derrotas. Temos um exemplo vigoroso a oferecer. Quando a Petrobrás foi criada
em outubro de 1953, junto a ela elevou-se o orgulho nacional com a
popularização do otimismo em torno da palavra de ordem: “O petróleo é nosso”.
Isso implicou no ataque à soberania e, menos de um ano depois, o presidente da
República que sancionou a Lei 2.004, dando início a essa empresa estatal, foi
obrigado a suicidar-se e, como deixou escrito: “Sair da vida para entrar na
História”. De lá para cá, tivemos dois golpes de Estado com a presença vigorosa
da mão do império e, na atualidade, apesar do entusiasmo nacionalista, 60% das
ações dessa Empresa pertence à iniciativa privada, adquiridas pelo capital
externo, tendo a participação de duzentos investidores brasileiros. Ou seja,
além do Brasil ter apenas 40% das ações, produzir para entregar o petróleo para
os saqueadores, embora tenhamos as maiores reservas de petróleo do mundo, como
consumidores pagamos $ 1,17 dólar por litro de gasolina, enquanto os
consumidores dos Estados Unidos, para onde vai o nosso produto, pagam $ 0,83
centavos de dólar.
Por fim, o entusiasmo também se assenta
sobre o julgamento dos militares que tentaram dar o golpe em janeiro de 2023.
Não podemos negar que é uma conquista para, inclusive arrefecer o medo dos
militares que no Brasil sempre foram implacáveis contra a democracia, os
direitos sociais e políticos. No entanto, devemos entender que o movimento de
acerto e acomodação está sendo conduzido pela força do próprio Estado, e este
não pertence ao povo. Estamos de fora como sempre estivemos nos momentos
decisivos, como a independência de 1822; a Proclamação da República em 1889 e
agora no julgamento e prisão dos golpistas. É evidente ser reconfortante ver o
principal genocida brasileiro de todos os tempos que, utilizando-se da tese da “Imunidade
de rebanho”, levou a morte mais de setecentas mil pessoas, ser preso após
tentar romper a tornozeleira com um maçarico, para fugir do país. Mas ele não
fez tudo sozinho. Há milhares de criminosos e também culpados que estão
escondidos nas instituições políticas, militares, da saúde e em outros meios, momentaneamente
e covardemente calados a espera de se insurgirem e praticarem as perversidades
que lhes são naturais.
Karl Marx em 1843 ao falar da
Revolução radical e na emancipação humana destacou que: “Nenhuma classe da
sociedade civil pode desempenhar esse papel sem despertar, em si e nas massas,
um momento de entusiasmo em que ela se confraternize e misture com a sociedade
em geral, confunda-se com ela, seja sentida e reconhecida como representante
universal(...)”.[1]
É tempo de entusiasmar-se por algo
verdadeiramente vantajoso. Para tanto, é preciso aproveitar os pequenos
estímulos positivos para pavimentar o caminho das transformações permanentes. É
de punhos erguidos e não de braços cruzados que as vibrações surgem e se
transformam em força revolucionária.
Ademar
Bogo