Embora
a cibernética tenha se tornado um fenômeno diferenciado de uso militar desde a
Segunda Guerra Mundial, a dependência da tecnologia, incluindo a inteligência
artificial, nunca foi tão profunda quanto agora que, para qualquer movimento
que se faça, as exigências remetem a ter de entrar em sistemas virtuais e digitais
e, lá, manejar as coordenadas submetendo-se aos programas que indicarão o que e
como fazer.
Ontologicamente
podemos dizer que depois da mecânica que permitiu ao corpo humano ampliar a sua força física pelo uso de máquinas
fabricadas para carregar peso, mais do que o corpo humano suportava, a
cibernética é a engenharia mais completa de associação entre o homem e os instrumentos
inteligentes.
É
evidente que precisamos admitir, sem sermos fundamentalistas, que a ciência e a
tecnologia se prestam a qualquer tipo de solicitação, tanto para o bem quanto
para o mal. Provavelmente a indústria bélica lidera a corrida das inovações. O
desejo dos promotores das guerras é que elas tenham cada vez menos a
participação de grandes contingentes de tropas humanas e sejam de curta
duração.
É
nesse ponto que já não se pode diferenciar tão nitidamente o que é uma guerra
declarada e o terrorismo de Estado, que elege, monitora e persegue alvos com
total precisão. Por meio do uso de sensores, os mantém à distância durante
horas, dias e meses na mira até o momento que decidem se atacam ou não,
eliminando o inimigo, como acontece em um jogo eletrônico no qual as crianças se
distraem explodindo os alvos indesejados.
No
ano de 2026 já tivemos duas demonstrações do poder tecnológico do imperialismo
dos Estados Unidos. A primeira ocorreu na Venezuela quando, em uma ação de uma
hora e trinta minutos, o presidente da República e sua esposa foram
sequestrados como se estivessem passeando vulneravelmente em uma praça. A
segunda é recente e aconteceu a menos de dois meses depois, em 28 de fevereiro,
quando o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, apesar de todas as
proteções e precauções, foi morto com artefatos disparados à distância.
Aparentemente
essas demonstrações querem revelar que a capacidade militar dos Estados Unidos tornou-se
imbatível e ninguém escapa às suas intervenções cirúrgicas. Não há como negar o
uso inteligente da tecnologia que, associada à decisão política, leva a
produzir resultados pontuais que favorecem o domínio imperial. No entanto, isso
é possível devido a apatia mundial. A legitimidade das ações criminosas
praticadas pelo imperialismo, está se dando pela falta de autoridade dos
organismos internacionais que nada faz além de reuniões para dizer que
desaprova tais atitudes; tudo isso depois que os crimes foram praticados.
Por
outro lado, em muito colabora para que a sequência de crimes contra as nações
continue, a postura das forças políticas, sindicais e populares locais. Está se
tornando hábito apoiar as vítimas dos atentados praticados pelo terrorismo político
do imperialismo, fazer notas de repúdio que certamente quem as lê são as
pessoas das próprias fileiras das mesmas entidades.
O
enfraquecimento das resistências e das posições ofensivas, não vêm da falta de
domínio cibernético, mas do abandono do uso das soluções mais simples que todas
as culturas milenarmente utilizam; são as ações físicas praticadas pelas
organizações das populações em luta. Houve épocas em que os tanques de guerra
eram temidos e quem os tivesse em maior quantidade detinha a supremacia nas
invasões. Mas a espontaneidade das pessoas, ao perceberem que eles deveriam
passar pelas mesmas ruas por onde os carros transitavam, toda potencialidade
daquela máquina, poderia ser destruída e anulada por um coquetel Molotov, uma
simples arma caseira feita com uma garrafa de vidro.
Quando
a superioridade das forças contrárias se torna inalcançável, a história ensina
que é preciso apelar para o convencional. Embora o imperialismo tenha a sua
sede nos Estados Unidos e geralmente não sofra nenhum prejuízo, os seus
interesses e investimentos estão espalhados pelo mundo. Por isso, se trata de
dar um passo a frente e eleger aquele país como inimigo da humanidade e ser
combatido conjuntamente e ao mesmo tempo em todas as partes do mundo.
É
preciso combater a ideia de que as guerras são bilaterais porque ocorrem entre
dois países apenas e, por isso, os demais países nada tem a ver com o conflito.
Os ataques podem ser particulares, mas os interesses são universais; portanto,
não há necessidade de que um incêndio queime toda uma floresta para ser
classificado como incêndio. Quando são estabelecidas as tarifas comuns dos
produtos de exportação para todos os países é ou não é uma declaração de guerra
comercial universal? Qual é a resposta dada? Apenas negociar para continuar subservientes
ao mesmo império ou impedir que ele tenha acesso a todos os produtos? No dia em
que os habitantes dos Estados Unidos forem aos supermercados e não encontrarem
os produtos de primeira necessidade, como ocorre em Cuba, com a falta de alimentos,
combustível e remédios, imposto pelo bloqueio econômico, deverão derrubar o seu
próprio governo e lutarão para que aquele Estado jamais venha oprimir ninguém.
No
passado tínhamos as Associações Internacionais que, por divergências no campo
da própria esquerda, foram aniquilando-se e uma a uma perderam a finalidade. Se
não como entidade, mas, pelo menos como articulação de forças continentais e
universais, é preciso unificar as reações para evitar que as ações do imperialismo
se tornem normalidades na política.
Ademar
Bogo