domingo, 20 de março de 2022

OS LADOS DA GUERRA

Na contemporaneidade, com a globalização, a guerra assemelha-se a uma bola que, apesar de redonda, têm dois lados: O de dentro E O de fora. O lado de dentro são os países e pessoas envolvidas no conflito e, o lado de fora, divide-se em duas partes: há os países que contribuem e sustentam os países envolvidos e outros países e povos que sofrem as consequências econômicas, políticas e sociais.

O conflito instalado na Ucrânia já ganha proporções mundiais. Nessa expansão também já vislumbramos dois lados: o lado que perde e o lado que ganha. Os ganhadores com a guerra, em primeiro lugar, dentre outros, são as indústrias armamentistas, as corporações controladoras das commodities, como o petróleo, a soja, o trigo, a carne, por exemplo; o mercenário que luta por dinheiro ganhando, cerca de dois mil e quinhentos dólares por dia. Os perdedores, como sempre, estão as populações marginalizadas do mundo que precisam pagar mais caro pelo acesso aos bens de consumo.

Evidentemente a violência física e psicológica que a guerra causa é desumana. Do ponto e vista das conquistas humanitárias, por serem guerras entre potencias capitalistas, elas pouco ou nada trazem de melhorias. Os interesses imperiais ultrapassam as preocupações com os cuidados e a defesa das populações e se fixam no acesso às riquezas naturais.

O petróleo, embora se discuta cotidianamente a necessidade de se investir em energia limpa, continua sendo, como foi o fogo no início da humanidade, o produto em disputa. Há menos três anos, a Venezuela estava na iminência de sofrer uma invasão militar por parte dos Estados Unidos da América, o mesmo que hoje esbraveja contra a Rússia e, tal ameaça não atinge atualmente o Brasil, pelo simples fato do petróleo estar sendo entregue pacificamente.

O que espanta em tudo isso é que, os discursos que deveriam ser críticos e propositivos, são os mais conciliadores e condutores para o legalismo pacifista. Com a venda nos olhos, deixam-se conduzir para o futuro, com a ilusão de que, apropriando-se do poder político, tudo será melhor e, por essa razão desde os mais até os menos organizados, o parlamento passou ser a saída principal. Ou seja, para eles o problema não é o imperialismo nem a exploração capitalismo, mas o miliciano na presidência da República.

A ignorância sobre a necessidade da expansão do capital para todas as partes do globo terrestre faz com que, as discussões sobre o controle imperialista, passe despercebido e, como se a política tivesse total autonomia frente a economia, aposta-se tudo nessa via totalmente dominada pela democracia representativa. Não esqueçamos que o golpe de natureza parlamentar, tática primordial do capital especulativo, agora está em andamento no Peru, depois poderá deslocar-se para o Chile e, retornar no ano que vem ao Brasil.

Os conflitos mundiais tornam-se cada vez mais acirrados, conforme vão sendo exauridos os recursos naturais, de onde se extrai a matéria prima para a produção de mercadorias. Países que até então não demonstraram possuir nenhuma reserva natural importante, ficam à margem das prioridades. Se a economia precisa de petróleo e de minérios, o mercado precisa de produtos alimentícios, e as reservas financeiras até então, prioritariamente feita em dólares, agora se volta para o ouro. O Brasil é possuidor desses três potenciais e, do controle deles depende a soberania nacional.

Tal qual a guerra em andamento na Ucrânia, a guerra do capital contra as reservas naturais também está em andamento. Mas, se aquela, apesar dos sacrifícios ainda permite à população fugir para outros países, esta que acontece sob nossos pés, não permite que fujamos e nem que possamos buscar socorro em qualquer outro lugar. Portanto, é preciso enfrentá-la.

Tornaram-se cotidianas as análises sobre as crises e a decadência do capitalismo. As indicações de que este modo de produção já não tem mais o que oferecer de bom para a humanidade e, sob o seu domínio caminhamos a passos largos para a barbárie. Por isso, acreditar que as sociedades do futuro serão menos desiguais é uma verdadeira utopia sem fundamentos. Não há como pleitear a igualdade social, quando as causas promotoras das desigualdades são as energias vitais que movem o sistema.

Não se trata de buscar entre a agressão e a pacificação uma terceira via, mas trata-se sim de posicionar-se de tal maneira que permita fazer com que a humanidade invista na superação do atual estágio do imperialismo, para de fato superar o capitalismo. Este processo não ignora a realidade, mas afirma-se sobre as suas contradições.

As posições cômodas e pacifistas em relação à guerra, de setores de esquerda, que deveriam agarrar as nossas contradições internas para desencadear enfrentamentos, é muito preocupante. Se somos vítimas do mercado externo, seja do preço do petróleo ou das commodities agrícolas, as populações mais pobres e os trabalhadores seremos asfixiados pela fome vendo os produtos sendo exportados para outros países possuidores de poder de compra. Ou seja, se antes o apartheid social firma-se sobre o preconceito, agora quem estabelecerá a divisão, será o próprio mercado, devido aos preços exorbitantes, os grandes contingentes serão impedidos a consumir.

O papel das forças revolucionárias deve ser o de não deixar as massas acreditarem que não podem comer porque os preços estão altos. Os preços dos produtos não podem ditar se devemos passar fome ou não. Quem dita quem deve ser incluído ou excluído é capital e os capitalistas que o encarnam. Portanto, está cada vez mais nítida a formação das condições para se desencadear a verdadeira luta de classes, mas, para isso precisamos convencer e convencer-nos que um ser social é mais do que um cidadão. O primeiro tem tudo para ser o sujeito da História, o segundo somente têm direitos a serem exigidos de seus representantes escolhidos por meio da ilusão do voto.            

Precisamos de um partido que, inicialmente reúna a parte convencida de que é preciso superar o capitalismo e o Estado capitalista e, ao transformar os anseios em ações, convencer e transformar em força organizada, as grandes massas sofredoras e deserdadas. Passar necessidade como passam os cães diante das vitrines de carne trancadas, porque a prioridade é a exportação ou porque os preços são regulados em dólar, quando o salário é pago em real, não é nada racional.

Se as guerras são vitais para os capitalistas definirem como poderão acumular mais riquezas, elas também são oportunidades de darmos um passo à frente na contestação e na superação da dominação imperialista. Enquanto eles gastam energias para combaterem-se entre si, façamos a nossa própria marcha em direção à liberdade.

                                                           Ademar Bogo

                                               Autor do livro “Caminho do tempo”. Editora Cousa.

domingo, 6 de março de 2022

CARÊNCIA OFENSIVA


            Enquanto as forças de esquerda ou de posições políticas progressistas dividem-se mundo a fora, pondo-se a favor da Rússia ou da Ucrânia, ficando, com isso, reféns das hipóteses políticas postas pela grande imprensa, o povo ucraniano é quem paga com altos sacrifícios. Com exceção dos países já marcados pela exclusão do consenso imperialista, que se colocam em defesa dos direitos da Rússia, a maioria das opiniões, ou são cuidadosas, medrosas e até controversas.

Situemos, antes de tudo, a Ucrânia e demos a ela o direito de ser um país e um povo autodeterminado. Ninguém pode ser contra essa posição. A soberania de um país é indiscutível. Dito isto, situemos também a Ucrânia na geopolítica regional e veremos que ela, por consequências geográficas e históricas, já pertenceu ao pacto de Varsóvia entre 1955-1991, quando saiu e passou a ser denominada de “linha vermelha”, separando a Rússia dos países que, gradativamente foram se associando à OTAN, ampliando o poder de influência do imperialismo norte-americano no mundo. O desejo político dos governantes ucranianos é também associarem-se a esse bloco, mas, com isso, levaria a ameaça inimiga até as fronteiras da Rússia.

Se olharmos mais atentamente, sem nenhuma paixão, a situação do povo ucraniano é, atualmente, no mundo, a mais desfavorável possível. Por isso, sem comando, a solução dada a ele, é a fuga para os países vizinhos. Se por um lado, o objetivo da retirada em massa da população, serve para poupar a vida de civis, por outro lado, as forças de direta ucranianas, interpretam que, o esvaziamento das cidades serve para acelerar a ação militar russa e por isso dificultam a concretização dessa tática.

A situação da Rússia também não é confortável. Se o conflito se prolonga, aumenta o desgaste político a nível mundial; isto porque, o consenso midiático é de não aliviar a ofensiva difamatória e, mesmo no campo de batalha, é desgastante manter as forças em combate, basicamente estacionadas, tendo o máximo de cuidado para não abater civis. Mas, também não pode recuar. Se o fizer e a Ucrânia se aliar à OTAN, seria como se o seu vizinho abrisse uma janela no muro de seu quintal e por ele vigiasse todos os seus movimentos.

Há uma vontade histórica da Europa e aliados, em destruir o potencial russo como fizeram com a União Soviética. No entanto, por mais que façam, o núcleo duro resiste e ruma para afirmar, juntamente com outros países da Ásia, o pólo oposto ao imperialismo dos Estados Unidos.

De pronto, poderíamos ficar por aqui, satisfeitos com as informações, mas não extrairíamos as lições do conflito e nem tampouco apontaríamos para um desfecho favorável ao povo ucraniano e, para encontrá-la precisamos colocar no tabuleiro os partidos comunistas da Ucrânia. Eles foram criados a partir de 1993 e, como todos atuaram até 2014 na institucionalidade.

Em 2014 com a interferência imperialista, o governo legitimamente eleito, tal qual ocorreu no Brasil, foi deposto e, em 2015, o Partido Comunista da Ucrânia , o Partido Comunista Renovado e, o Partido Comunista dos Trabalhadores e Camponeses da Ucrânia, foram proibidos de atuar, usar símbolos, manifestar opinião e participara da vida política do país. A solução dos três partidos foi de apoiar as províncias separatistas de Donetsk e Lugansk, o que lhes rendeu, devido a propaganda enganosa do governo, ainda mais desgaste diante da população.

O enfraquecimento e “desaparecimento” dos Partidos Comunistas é parte desta catástrofe que se abate sobre a Ucrânia. A falta de uma força política e de lutas internas, deixa a situação ainda pior. O povo por si mesmo não se sente capaz de enfrentar a situação e, por isso foge, recolhe-se ou se coloca equivocadamente a favor do governo, o mesmo que faz a intervenção russa prolongar-se. A posição mais acertada seria, a de tomar a frente do processo e depor o governo fantoche dos Estados Unidos, restabelecer a verdadeira democracia, os direitos à soberania e a autodeterminação do povo ucraniano. Em parte é isso que pleiteia também a Rússia. A diferença é que ela o faz com tanques e bombas, sem a participação popular. Sendo vitorioso, o governo russo poderá, empossar um governo favorável às suas posições ou anexar o território ucraniano, mantendo-o como uma província da Rússia.

Falta, portanto, revelar ao povo ucraniano que, pela localização geopolítica do país, independentemente dos resultados desse assombroso conflito, a linha vermelha continuará existindo e será submissa à OTAN ou a Rússia. Aquele país está localizado na linha divisória dos interesses das potências capitalistas.

Para o povo ucraniano o caminho mais curto para estancar o sofrimento e a destruição, não é a fuga, mas as ruas. Para isso as forças comunistas e de esquerda deveriam assumir o comando e voltarem-se contra os inimigos internos que provocaram essa barbárie. Aplica-se aqui quanto lá, o velho provérbio popular: “Só o povo salva o povo”. Talvez, se as forças de esquerda, espalhadas pelo mundo, que se ocupam em condenar este ou aquele lado, gastassem as energias para ajudar a superar a carência ofensiva do povo ucraniano, estariam resgatando, de uma só vez, o princípio do internacionalismo proletário e a dignidade revolucionária.

 

                                                                                          Ademar Bogo

                                                                                  Autor do livro: Caminho do tempo

                                   https://cousa.minestore.com.br/produtos/caminho-do-tempo

 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

A GUERRA DA AGONIA


            A guerra em andamento na Ucrânia sendo vista de duas maneiras: a primeira como vêem os Estados Unidos e aliados de que a Rússia provocou uma “invasão” de território e ofendeu a soberania de outro país, e, a segunda, como autodefesa do avanço da OTAN, contra o nazismo em crescimento no mundo e a antecipação aos planos do imperialismo de asfixiar o crescimento da Rússia.

            São duas formas, mas não únicas. Se tomarmos os movimentos ascendentes da modernidade para cá, perceberemos nitidamente que a importância das potencias mundiais, com o passar do tempo, desgastam-se e o poder desloca-se para outros pontos do planeta.  Quando tomamos a referência do colonialismo desde 1500, os nomes dos países em evidência como Portugal e Espanha aparecem com grande destaque. No entanto, esquecemos que a Holanda constituía-se na época, como a maior indústria naval e força comercial marítima, penetrando por todos os continentes competindo com as duas potências colonialistas.

            A partir da Revolução Francesa com o crescimento industrial e referência política, Inglaterra e França apossaram-se de grande parte das colônias, diminuindo imensamente o poder de influência mundial da Holanda. Paralelamente a esses países os Estados Unidos estenderam os seus domínios e, embora disputando espaço com outras potências, a partir da Segunda Guerra Mundial, passou, não somente subjugar as nações, mas a obrigá-las a apoiá-lo quando quisesse desenvolver qualquer ofensiva externa.

            A criação da Organização das Nações Unidas – ONU – em 1945 e, da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN – em 1949, como também, para as Américas, a Organização dos Estados Americanos – OEA -, dentre outros organismos de controle teve como estratégia, interferir, reunidamente, sobre os destinos dos países dependentes.

            A mudança de estratégia do domínio individual para o coletivo, do imperialismo dos Estados Unidos da América, visou formar um consenso forçado dos países submetidos aos seus interesses com controle direto sobre as soberanias, e sempre ditou, a partir de Washington, como deveria ser os parâmetros econômicos, políticos, militares etc.; um controle mundial nunca visto na História da humanidade.

            Todo esse poderio e controle não impediu que, paralelamente surgisse, principalmente, no continente asiático, pouco influenciado, exceto o Japão e a Coreia do Sul, potências concorrentes. A China, a India e a Rússia (esta última divisa e pertence territorialmente aos dois continentes, europeu e asiático) além dos investimentos econômicos, também competiram com o fortalecimento da indústria bélica.

            A abertura econômica da China, a partir de 1979 e o separatismo da União Soviética depois de 1991, foram saudados com grande euforia pelos capitalistas ocidentais. Todos correram, principalmente para a China, transferindo para aquele país, as tecnologias mais avançadas e, ajudaram, por diferentes fatores (dentre eles a força de trabalho barata) a torná-la  uma potência competitiva. A Rússia, por sua vez, recriou setores da classe burguesa, mas manteve o Estado fortalecido, assim como a China, controlando econômica política e militarmente cada país.

            Como essas expansões não impediram o surgimento das crises constantes do capitalismo, que vêm se repetindo desde a década de 1970, quando o modelo neoliberal começou a vigorar e a globalização passou a ser política e juridicamente oficializada as contradições ganharam mais destaques. Os conflitos regionais e a participação direta e frustrada dos Estados Unidos levaram ao enfraquecimento do império que passou a ter de dividir espaço mundial, com economias mais dinâmicas, como é o caso da China.

            A reação unificada dos países submissos aos Estados Unidos contra a Rússia soa um tanto estranho, se considerarmos que, principalmente a Europa, é a que mais tem a perder economicamente com o gás e o petróleo importados. No entanto, para além do incômodo econômico, marcas são marcas. A Rússia e a China, embora tenham aberto as suas economias e crescido nos parâmetros capitalistas, guardam consigo o estigma do comunismo e, principalmente a China, por ter mantido alguns princípios fundamentais do novo modo de produção. Essa marcas ideológicas são nitidamente percebidas, na linguagem preconceituosa da Rede Globo e no discurso raivo do governo contra as bandeiras vermelhas, arrefecido nos últimos dias com a esperança de que a Rússia venha auxiliar o candidato do genocídio, nas próximas eleições para presidente.

            Evidentemente a reação contra a Rússia reflete o deslocamento do poder político mundial, senão na sua totalidade, mas a Ásia agora está em campo para impor também os seus interesses e, dos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU, eles representam dois votos. Por outro lado, Vladimir Putin enfrenta sozinho a ascendência do nazismo na Europa, da mesma forma como fizera Stalin em 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia e desencadeou a Segunda Guerra Mundial.

            O processo de violação dos direitos democráticos na Ucrânia assemelha-se ao que ocorreu no Brasil, com a mesma estratégia golpista, de tirar, por simples votações no parlamento, os presidentes legitimamente eleitos. Aqui, o plano vigorou porque, feita a transição, houve a eleição, aceitamos o resultado e as forças adeptas do nazismo que venceram estão a governar até o final deste ano, quando se pensa tirá-las do poder pela via eleitoral. Na Ucrânia, os planos falharam e duas regiões Donetsk e Luhansk, não aceitaram o resultado eleitoral imposto e ofereceram resistência. De lá para cá, não somente os habitantes dessas duas regiões, como todos os habitantes de descendência russa e forças de oposição, vinham sendo reprimidas pelo governo de índole nazista que, mesmo estando fora da OTAN, é aliado dos Estados Unidos.

            Os combates na Ucrânia reproduzem a mesma situação de 1º de Setembro de 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia para chegar à Rússia. Os dois países divisam com a Rússia. No entanto, agora Putin antecipou-se e, antes que o seu vizinho se alie legalmente ao inimigo, permitindo que os aparatos bélicos sejam instalados em cima da divisa, foi preciso reagir.  

Não se trata de negar a soberania de cada país e nem concordar com o Estados Unidos, mesmo porque é o país mais especializado neste quesito. Há dois anos tentou invadir a Venezuela usando o Brasil para empossar um fantoche como presidente.  Trata-se de uma ameaça iminente contra a Rússia e, por essa razão, a intervenção é preventiva.

A correlação de forças mudou. Se Stalin teve a seu lado, em sua época, a Inglaterra e a França para lutar contra a Alemanha, hoje Putin não tem e, dependendo de como o processo fluir, é pouco provável, mas pode até vir perder a guerra ou ter de recuar, se o desfecho demorar muitos dias, mas isso não anula a determinação Histórica de que o imperialismo norte-americano está em decadência e, as suas ordens não são mais unânimes, nem tampouco hegemoniza o controle da economia do mundo. Outras potências surgiram e querem o espaço merecido.É evidente que o império agoniza e com ele agoniza também, por ter feito a escolha errada, agoniza temporariamente também a Europa ,até ser salva pela China.

Uma certeza podemos ter conosco, mesmo com o deslocamento do poder do império para outros pólos, o capitalismo destrutivo e decadente não tem mais solução. A excrescência do crescimento do nazismo no mundo é a demonstração de que, para este tipo de crise civilizatória somente o banditismo político pode segurar o avanço das forças democráticas e revolucionárias. Falta este levantamento para por fim ao impérios.  No momento em que os povos entenderem que não basta governar os países, mas é preciso comandar solidariamente todos eles, a política mudará de natureza e as lutas serão pelo poder e não pela escolha de fantoches da ordem imperialista e capitalista.

                                                           Ademar Bogo

                   

 

domingo, 20 de fevereiro de 2022

O TESTAMENTO EXTRAVIADO

    Hannah Arendt, filósofa alemã, perseguida pelo nazismo na década de 1940, do século passado, em seu livro “Entre o passado e o futuro”, nos remete a pensarmos, de fato, se temos consciência do presente.

            A princípio o testamento pertence à tradição da civilização. Deixar para as gerações futuras tudo documentado é um anseio gerações mais velhas. Mas há tesouros que se perdem justamente por não serem identificados, ou mesmo porque, não possuem nome ou identificação mais precisa.

            Vivemos um tempo em que a penumbra histórica instalada no ambiente da política impede de enxergarmos nitidamente, as letras para lermos o que nos foi deixado escrito, de bom e de ruim, no testamento do passado, seja. Somos conhecedores das rupturas ocorridas entre as forças partidárias neste século. Desde 2004, setores descontentes buscavam outro caminho para chegarem ao futuro, sem considerar, na sua profundidade, o testamento do passado.

            No ano de 2013 foi a vez das forças descontentes, da classe média, aliadas e manipuladas, expressarem, de algum modo, o mesmo descontentamento das forças de esquerda anteriormente rebeladas contra o governo. No entanto, essas mobilizações não tinham e nem recorreram a nenhum testamento, a não ser que se considere as orientações imperialistas o texto base. Mas, também não queriam um futuro tão avesso ao presente; algumas melhorias e a expulsão das forças incômodas do governo.

            O resto da História já conhecemos. Com as forças de esquerda e de centro dispersas, os percalços, sobressaltos, riscos e manobras, fizeram com que chegássemos a este momento para que as forças novamente se movam para adequarem os desajustes do presente, ao normal satisfatório. Poderíamos ver estranheza o retorno à “emergência subjetiva” como diria o filósofo e psicanalista Jaques Lacan, na qual o sujeito procura o seu “outro”, neste caso, o outro contestado e abandonado no passado.

            A volta de todos os pássaros para a mesma árvore que sustentava os ninhos é de fato uma emergência. Há um animal que ameaça devorar a todos. É preciso detê-lo. No entanto, este presente tumultuado não permite que se volte mais anteriormente ao processo recente, resgate-se o testamento extraviado, que fora deixado pelos clássicos do marxismo para, com isso prepararmos o caminho do futuro.

            É evidente que a “emergência subjetiva” generalizou-se para os diversos setores que, tomados pela angústia andam atormentados em busca de alguma estabilidade. Talvez, escapem apenas desse movimento de ajuntamento sem testamento, o capital especulativo, o banditismo político, as forças armadas, setores da mídia e parcelas das seitas pentecostais.

            De qualquer forma, a emergência exige o ajuntamento e, cada força o faz por interesse delimitado. De certo não é vergonhoso voltar ao ponto onde ocorreu o rompimento entre as forças no início do século para contribuir para que o mal maior seja recuado; mas, não custa refletir sobre duas perguntas: a primeira diz respeito, o por que, os que romperam, por terem repetido os mesmos gestos, voltam, praticamente com as mãos vazias? E, a segunda, qual é o testamento a ser seguido, aquele formulado pelo materialismo histórico, ou este institucionalizado no período de 2003 a 2010?

            Aparentemente todas as forças que se movem, atualmente, para o centro, desdenham da crítica ao capitalismo e ao Estado capitalista e, centram a contestação contra o governo maluco instalado pela manipulação constante das forças do capital. Mas é importante que pensemos no depois. Se as forças que em 2016 arquitetaram o golpe por julgarem o governo incapaz, agora assumem a representação de vice na chapa comandada pela mesma força outrora derrubada, é de se perguntar até onde ficarão a favor e a favor de que?

            Por fim, há um testamento extraviado nas margens da História e, nele estão os nomes das coisas e as indicações das medidas a serem tomadas, com o devido crivo das gerações atuais. Certamente, muitos dirão que “agora não é hora de pensar nisso”, mas quando foi? Olhando para trás, vemos alguns fragmentos do velho testamento caídos no chão da História na década de 1960.

            Entre o passado e o futuro há o presente. Ignorar o passado e viver só das necessidades do presente, incerto será o futuro.

                                                                       Ademar Bogo

domingo, 13 de fevereiro de 2022

O REINO DAS FACÇÕES NAZISTAS

 

         No dia 12 de Fevereiro de 1908 nascia na Alemanha, a internacionalista, Olga Gutmann Benário Prestes. Perseguida pelas forças de repressão brasileiras, extraditada e morta nas câmaras de gás nazistas, em 23 de abril de 1942 em Bernburg. Neste ano, completam-se 114 anos de seu nascimento e 80 anos de sua morte.

Embora haja muitíssimas elaborações biográficas sobre o legado dessa militante comunista, seria importante dedicar outras reflexões sobre as grandes contribuições dadas por ela, mas, no momento, devemos nos ater à critica da concepção de seus algozes que, embora rechaçada em todas as partes do mundo, sempre reaparece em situações de crises, na forma orgânica de “facção política”. Por ora fiquemos com o “refrão internacionalista”, da mensagem altiva deixada no encerramento da última carta enviada à filha Anita e ao marido Luis Carlos Prestes: “Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo”.

As facções existiram desde o século dezoito e se constituíram como práticas de organização política de grupos contestadores do poder político feudal centralizado nas mãos dos reis. Apesar de ser a Inglaterra a precursora da criação dos partidos políticos, desde o ano de 1832 quando consolidou a monarquia parlamentarista, foi a partir da Revolução Francesa de 1789 quando, as repúblicas, o Estado capitalista e as “democracias representativas” necessitaram dos partidos políticos para interagir com a sociedade civil.

De maneira simplificada, confirmamos que, os partidos políticos, desde a origem, apresentaram-se como formas associativas, sendo organizações de parte do povo em lutas e disputas a favor de todo o povo. Ao contrário das facções e seitas que também representavam parcelas do povo, mas, por princípio, organizavam-se e lutavam contra todo o povo. No entanto, temos, desde o início e, principalmente, no século dezenove, duas formas de ser da organização partidária. O artigo 17 da nossa Constituição Federal sintetiza a tradição do pensamento formal do partido, de caráter nacional, configurando-se com “personalidade jurídica” e, registrado no Tribunal Superior Eleitoral. A outra forma descrita por Karl Marx e Friedrich Engels, no Manifesto do Partido Comunista de 1848, após se envolverem criarem a “Liga dos comunistas”, devido aos seus limites encontrados, em 1864 propuseram a criação da “Associação Internacional dos Trabalhadores”, sem reconhecimento oficial do Estado, mas com princípios e objetivos de lutar a favor da humanidade.

Por que precisamos ter em mente estes fundamentos introdutórios na atualidade? Porque, ao relembrarmos a execução de Olga Benário relembramos o Nazismo e, ao lembrarmos deste nos deparamos com as posições vigentes favoráveis à criação de um “partido nazista” no Brasil. A pergunta a ser respondida é: de acordo com o princípio da liberdade de expressão e manifestação é correto ou não legalizar um partido de concepção nazista?

Frequentemente ouve-se argumentos comparativos entre o marxismo e o nazismo. Parlamentares de direita ventilam a ideia de que se deveria proibir a circulação de ideias marxistas, por se tratar de uma ideologia de combate ao capitalismo e, provavelmente, na medida em que as investidas nazistóides forem contestadas, venha à tona a odiosa ideia de combate ao marxismo, como se fossem posições de dois extremos semelhantes a serem afirmados ou proibidos.

Antes de tudo devemos dizer que nazismo e marxismo não são extremos opostos. Primeiramente porque, o marxismo é uma ciência produzida a partir da crítica feita ao capitalismo e, portanto, não é uma “ideologia” encobridora de interesses negacionistas. Quando se diz que Marx, Durkheim e Weber são os clássicos a serem estudados na Sociologia, é muitíssimo diferente de quando se toma Hitler como uma referência política racista, machista, homofóbica etc., que visa exterminar parte da sociedade e não cooperar com ela. O extremo oposto do marxismo e do comunismo é o capitalismo; é ele, na totalidade, a referência de superação e não incongruência odiosa, particularista que é o nazismo.

Oficializar, portanto, um partido de concepção marxista é afirmar o direito de associação da parte consciente da sociedade que se disponibiliza a lutar a favor do todo, ao passo que, autorizar a formação de um “partido nazista”, significa regredir dois séculos na História e confirmar o direito de facção, permitindo legalmente que a parte pervertida já organizada informalmente, afronte, ataque com violência, e extermine setores do todo, considerados incômodos a esta visão em tudo deplorável.

Por outro lado, o marxismo quando identifica na luta de classes, duas partes existentes na mesma sociedade, com interesses contrários, está defendendo que uma delas lute contra a outra. No entanto, a filosofia da luta de classes marxista tem por objetivo fazer com que elas deixem de existir, sem exterminar as pessoas. O burguês, na visão marxista, é um cidadão que se vale da propriedade privada dos meios de produção para explorar os trabalhadores. Sendo assim, não é a sua cor da pele, nem a identidade sexual ou seu modo de pensar que exploram e extraem a mais-valia. A perda da posse dos instrumentos mediadores da exploração e não da vida pessoal é que fará uma sociedade vir a ser justa.

O nazismo é uma excrescência surgida da decadência do capitalismo. A sua pretensão é militarizar as relações sociais, para impor, em tempos de barbárie a ordem de setores ameaçados pela própria miséria que eles mesmos produziram. Nesse sentido, o próprio Estado passa a ser um instrumento de disputa entre os capitalistas produtores, que o querem como controlador da ordem e financiador de seus investimentos e, os capitalistas improdutivos que também desejam controlar o Estado para assegurar a especulação, o refúgio institucional para banditismo político e, ser fonte de financiamento e do enriquecimento dos membros das facções aliadas.

O marxismo é a ciência e a filosofia do futuro. O nazismo é ideologia do passado. O primeiro se sustenta sobre a verdade de que são as contradições do próprio capitalismo que oferecem o combustível para as lutas sociais e políticas para a sua superação. O segundo se sustenta na mentira e no ódio, em busca de ludibriar e disfarçar a decadência e a provável ruína em andamento do modo de produção insuportável.

                                                                       Ademar Bogo         

 

domingo, 30 de janeiro de 2022

AS CATEGORIAS NA POLÍTICA

            O filósofo Aristóteles foi o primeiro a estruturar, definir e organizar as análises, a partir de categorias e, com isso facilitou também à atividade da escrita. No livro, “Categorias” exposto no “Órganon” ele detalhou o que são elas e como podem ser aplicadas. Para tanto, alinhou dez categorias dispostas da seguinte forma: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado ou condição, ação e paixão. Portanto, qualquer coisa que tenha substância pode ser analisada, segundo a ordem categórica proposta; podendo ser um homem, um animal ou um grupo social.

Mas o filósofo não parou ali. Instigado pelas diversas relações, propôs-se a explicar também os “opostos” que poderiam ser expressos de quatro modos: correlativos; contrários; privativos positivos e, afirmativos negativos. A realidade em análise, para ele, diante dos “correlativos opostos”, representava a expressão do dobro e a metade de uma referência. Já os “contrários”, destacou ele, “podemos tomar à guisa de exemplos, bom e mau. Dos termos privativos positivos exemplificar como sendo cegueira e visão; ele está sentado e ele não está sentado, são exemplos de afirmativos negativos”.

Essa disposição simplória das categorias e dos opostos poderia ser ignorada ou substituída pelas leis e categorias dialéticas formuladas pelo materialismo histórico, mas elas não nos dariam maior precisão na análise, principalmente quando as substâncias a serem analisadas fossem gelatinosas, pouco consistentes e até mesmo deformadas.

Do ponto de vista substancial, tomemos as candidaturas oferecidas aos eleitores para o próximo pleito à presidência da República. As ofertas autocráticas correspondem primeiramente, à quantidade multiplicada por um, cada vez que se apresenta um novo figurante. No entanto, em se tratando de qualidade há bastante semelhança das matérias disformes principalmente as que não alcançam dois dígitos na prévia aprovação.

 Ao tomarmos a categoria da “relação” vemos que se aplica apenas na retórica. A grande maioria dos candidatos, nunca teve relação alguma com os trabalhadores e as massas exploradas; assim ocorre com a posição, o tempo e o lugar, sempre adequados aos domínios dos mais ricos. O estado ou a condição apresentável, todos aparecem felizes e sorridentes. Na categoria da “ação” recorrem aos prometimentos e, a paixão ou situação patológica, todos doentes psíquicos, ansiosos, principalmente por imaginarem que não terão chance alguma de vitória.

Por outro lado, vejamos a categorização dos “opostos”. Se os “opostos correlativos” nos remetem a verificar os comparativos de alguma referência, embora ainda não lançado oficialmente, Lula está na dianteira das pesquisas e, por isso, é um afirmativo positivo; do lado oposto, representando o afirmativo negativo está Bolsonaro. Portanto, é necessário verificar se ele é o dobro ou apenas a metade pior daquele que dobrando já vem nas vantagens das pesquisas das intenções de voto.

Na referência dos “opostos contrários”, temos os comparativos do bom e do mau. A depender de encontrar algo de bom no atual presidente, disposto a marchar, se puder até com um novo golpe de Estado em direção ao segundo mandato, ficaremos sem nenhum parâmetro. Nesse candidato específico, o mau é destacadamente vencedor. Ele está posicionado no ponto inverso do bom senso. A sua desumanidade o descredencia a governar qualquer coletivo humano. Seus pensamentos discordantes, em relação à vacina para adultos e crianças; a lisura do processo eleitoral por meio das urnas eletrônicas; a preservação das florestas, das cavernas e da vida em geral, são alguns dos aspectos evidenciadores da patologia mental, da qual sofre o “extra-social” e também extraterrestre, pois ao duvidar que a terra é redonda, coloca-se conceitualmente fora dela e, está desautorizado a governar esta parte dela.

Dos dois outros opostos, o “privativo”, tendo como exemplo a visão, o país está sendo governado com uma total cegueira. Chocamo-nos cotidianamente, com a fome, a miséria, o desemprego, a paralisação de políticas públicas, a inflação, mortes evitáveis, violência, queimadas, extermínio de índios etc., e nada é feito para nos proteger. E, o complemento é dado pelo “afirmativo negativo”. Seguindo o exemplo aristotélico, vemos que ele está sentado à direita do ódio; do atraso; da falta de ideias e planos; da ignorância; da ausência de humanidade, compostura e educação; do autoritarismo; do trumpismo, felizmente rechaçado; do carvalhismo, cujo criador foi fatalmente vitimado recentemente pelo coronavírus e tantos outros direitismos e negacionismos intoleráveis.

O processo eleitoral não é tudo e, os opostos não são eliminados pelo resultado das urnas; mas, as categorias e os opostos: correlativos; contrários, privativos e afirmativos, continuam sendo úteis para entendermos que, para além do capitalismo, existem às referências, socialista e a democracia participativa, para escaparmos de termos de, a cada quatro anos, em nome da ordem, confirmar, pela representatividade, a continuidade da sociedade desigual.

                                              

                                                                                  Ademar Bogo

 

 

  

  

domingo, 23 de janeiro de 2022

A POLÍTICA DA ARTE

 

O filósofo Georg Lukács ao tratar da estética, demonstrou que o modo de ser da obra de arte se manifesta em todas as suas determinações, mas, sobretudo “pensar a obra de arte como totalidade intensiva das determinações relevantes para o mundo que conforma”.

Para além disso, o caminho da produção subjetiva de um ser humano coexiste com múltiplas determinações, vistas como, “influências” do meio, anseios pessoais, concepções políticas, desejos estratégicos e utópicos, pontos de resistências, protestos, instigações, valorização e, acima de tudo, discernimento entre o belo e o bom, em oposição ao feio e ao ruim.

Quando Thiago de Mello escreveu, “Faz mormaço na floresta”, quis, no seu mundo particular, falar de um bem universal. “Sombra ardente que guia, tua cabeleira baila, na esparramada alegria”. Ao desconhecedor da floresta tropical, cujo mormaço é parte constitutiva da formação daquela natureza, revela que a própria sobra é quente, e a copa das árvores formam cabeleiras alongadas, femininas, elevadas acima de qualquer preconceito e que, se esparramam sobre todas as espécies posicionadas embaixo, desfrutando da natural alegria.

Um particular interessante que despreocupa o não-ser, pois, “nunca sei como sou (só sei que sou contente) quando contigo me vou”. Me ir, é conviver contente, é ser gente e ser floresta; hora árvore, ora humano, tudo é uma coisa só. E, “na glória de saber, que inteiro me recebes, desaprendo o que é ter”. Nada tenho, quem me tem é a floresta; ela é eterna, dona do mormaço, da sombra, da umidade, dos cheiros, das festas e do poder de receber-me com glória porque a respeito.

E nos versos de Thiago de Mello a floresta viaja pelo mundo. Levam o real do convivente para os espaços urbanos destrutivos, para fazer inveja de algo que o tempo de ocupação não pode ser. O mormaço da floresta não é calor que faz suar o ser cansado. O mormaço é o jeito, naturalmente composto para atrair os diferentes; visitantes de si mesmos, no lugar que faz viver e reviver com a floresta que sempre recebe, os vivos e os mortos.

Universalizado o mormaço, com ele ebulem os direitos que precisam, para expressar valores, serem estatutários. A poesia converte-se em “Estatutos do homem”, abertos com o imperativo do artigo primeiro: “Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida, e que de mãos dadas trabalharemos pela vida verdadeira.”

Para ter de recorrer e fazer valer a verdade é porque vigora sobreposto a ele, o valor da mentira. A civilização mentirosa cheia de Cartas, Leis e Declarações universais, não habilitou a verdade. A política perdeu. A ética inverteu os juízos impondo as interpretações convenientes para os propagadores da mentira. Sobrou a voz da arte para chamar a atenção que há uma vida verdadeira a ser retomada. E, a arte critica é a própria política.

A particularidade dos atos não reduz a universalização dos fatos e, se “fica decretado que o homem nunca mais precisa duvidar do homem”, como afirma o artigo quarto, é porque a transparência pessoal ganhou a transcendência universal. Quando duvidamos do homem? Quando negociamos com ele. A mercantilização é enganosa, porque junto com os objetos vão os desejos pessoais. As vontades reduzem o alcance das consciências e as pretensões particulares, mesquinhas e obscuras, entram como critérios para avaliar o lado oposto. Então, o homem duvida do homem, porque, como mercador, somente poderá viver se enganar quem poderá enganá-lo. Mas a arte sabe que há o certo. De algum modo, ele já percorre as relações nas asas da solidariedade. E, se houve um tempo que foi preciso duvidar, é porque esse tempo foi autorizado pelo homem enganador, cultuador de um modo de ser da sociedade enganosa.

E, por fim, “fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual fica suprimida dos dicionários, e do pântano enganoso das bocas”. Então a liberdade não se fala, se vive. Por que então usamos as palavras? Para lembrar-nos que precisamos viver os conteúdos antes de pronunciá-los. A palavra liberdade, antes de ser um substantivo feminino na comunicação é uma reinvindicação. Reinvindicamos tudo o que não temos. Se a liberdade de fato existir, ao ser experimentada, deixará de ser pronunciada; pois, a liberdade e a verdade são como as nossas pernas, não precisamos falar nem lembrar delas para movê-las.

            Salve Thiago de Melo, o poeta singular que, a partir do seu lugar, soube universalizar o bom e o belo como causas da arte política.

                                                                       Ademar Bogo