domingo, 2 de agosto de 2026

SIMBOLOGIA E IDEOLOGIA


            O grande filósofo da linguagem russo, Valentin Nikoláievitch Volóchinov, cuja primeira ironia está no nome próprio nome, pois, devido a perseguição stalinista no final da década de 1920, ao invés de mostrar-se teve que identificar-se como Mikhail Bakhtin para esconder-se das perseguições dominantes. Para ele: “Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade que lhe é exterior”.[1]

            Esse pensamento é importante repeti-lo muitas vezes para compreendê-lo e aplicá-lo; isto porque, a ideologia não é uma mentira expressa por qualquer sujeito da classe dominante, muito pelo contrário, ela quer transmitir uma mensagem intencional que vai bastante além daquilo que é dito. Por isso, uma pessoa quando leva o seu corpo para malhar em uma academia para formar músculos avantajados, não está pensando somente em saúde, quer representar força, poder, exuberância, domínio etc. Da mesma forma quando alguém se dirige a uma clínica de estética, quer adquirir beleza para expandir-se sobre as demais pessoas que ela julga feias.

            Dito isto, vamos para as campanhas eleitorais. Estas, tomadas pelo Marketing montam verdadeiros espetáculos para que os candidatos apareçam muitíssimo mais simpáticos do que são. Com muito brilho e, cuidadosos com as palavras e os gestos, vão proliferando as intenções que, como muitas delas são ideológicas, deixam refletir apenas uma parte do que querem dizer. Por isso a ideologia é enganosa e traiçoeira, pois ela se utiliza das pessoas alienadas para refratar, como fazem os tijolos no forno para assar uma pizza, absorvem o calor para depois dirigi-lo sobre a massa que se contorce até chegar ao ponto desejado.

            Portanto, para o mesmo filósofo, para ser ideológico precisa ter um significado que remete a outra coisa. Um objeto pode ser visto e tomado como signo de acordo com cada interpretação e, também, pode avançar para se tornar um símbolo, que é quando a coisa desempenha um papel ou uma função consensuada. Dessa forma uma multidão passa a ver, sentir e repetir as mesmas sensações. O exemplo mais comum pode ser visto na bandeira de um país. A Bandeira do Brasil tem a cor verde que representa as florestas e o amarelo o ouro. Quando entoamos o Hino Nacional ficamos em pé, em posição de respeito e nem sequer lembramos da devastação das matas pelos capitalistas e a invasão dos territórios indígenas, poluindo as águas etc.

            Nos processos eleitorais os candidatos buscam identificações, algumas divertidas e outras minadas pela demagogia; mas querem representar o rumo de cada pretensão. Pela recompilação histórica na campanha de 1960 surgiu a vassoura. Com o slogan “Varre, varre, vassourinha”, simbolizava as intenções do candidato que era de varrer a corrupção, mas configurou-se na varredura da liberdade e da própria democracia com a preparação do terreno para o golpe militar de 1964.

            Em 1989 no retorno das disputas das eleições presidenciais, surgiu o “caçador de marajás”. Primeiramente configurava-se uma ideologia porque foi usada uma referência de uma figura que não existe em nossa cultura. A classe dominante por meio de um famoso canal de televisão exibia a novela “Que rei sou eu”; ela fortalecia o discurso do candidato, que ia para os debates com uma pilha de pastas de arquivos verdes e amarelas, mas todas vazias e, no discurso prometia combater a corrupção, altos salários de funcionários públicos. Após dois anos de mandato foi ele mesmo cassado por refratar com sua pessoa a expressão de um marajá corrupto.

            Mais recentemente em 2018, vimos o candidato instituir o gesto de um L deitado, representando uma arma de fogo que, apontando para frente significava combate, e para baixo, execução sumária dos inimigos. Ideologicamente, ao mesmo tempo que prometia combater a violência, instigava os aliados a adquirirem armas para a sustentação do futuro golpe de Estado que veio a se configurar em 8 de janeiro de 2023, porém, por incompetência estratégica, o comando foi preso, julgado e condenado.

            Para as eleições de 2026 surge a tesoura como símbolo aglutinador do mesmo grupo que adora as armas e promete fazer cortes. A primeira vista encanta a classe média e a burguesia especulativa, mas no fundo esconde as intenções de perseguição contra os trabalhadores em relação ao não aumento real do salário-mínimo, cortar direitos dos aposentados, reduzir as políticas públicas, descartar as leis que garantem a soberania nacional para entregar as riquezas naturais definitivamente aos Estados Unidos.

            Diante disso, as forças contrárias que envolve todos os setores progressistas e oportunistas, contrapõem a ideologia obscurantista com outra ideologia refletidora de ilusões, dando a entender que as vitórias eleitorais são suficientes para enfrentar os anseios burgueses, capitalistas e imperialistas. É importante ganhar eleições, mas elas apenas servem como um calço, que se pode colocar no pneu de um caminhão sem freio que ameaça falhar ao subir a ladeira.

Os acontecimentos mostram que o pacifismo e o comodismo das forças progressistas estão permitindo o fortalecimento da ideologia das forças de direita e de extrema-direita e, a razão está em que, nos exercitamos, treinamos e jogamos no campo deles. Na medida que as normas determinam a obrigação do perdedor entregar a taça para o ganhador, no final de cada pleito, simbolicamente entrega-se o direito dele fazer o que bem quiser que será respeitado porque venceu.

Na prática precisa deixar de ser assim. A democracia não é entregar para a maioria as conquistas e as vitórias anteriores. Elas precisam ser protegidas pois representam histórias de lutas contra os capitalistas. Sem luta e resistência não há democracia. Eleição é uma disputa passageira como as estações do ano, podem ser boas ou ruins. A organização é uma força permanente que permanece apesar de tudo.

                                                           Ademar Bogo



[1] BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999, p. 31.

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