domingo, 8 de fevereiro de 2026

FEMINICÍDIO: A FACE MASCULINA DO CAPITALISMO

 

            Muito já foi e ainda será dito sobre o feminicídio. As preocupações com o assunto vêm aumentando. Em 16 de agosto de 2023, por iniciativa do poder executivo brasileiro foi lançado o “Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios”, fortalecido depois pelo Decreto nº 11.640/2023. O objetivo deste era antecipar-se e prevenir as discriminações misóginas e, investir o poder judiciário de poder para combater a violência de gênero contra mulheres, jovens e adolescentes. No início deste mês de fevereiro de 2026, o governo retomou o assunto e, como o lema: “Todos por todas”, o “pacto” foi recolocado para acelerar o cumprimento das medidas protetivas e punir os agressores; isto porque, segundo dados do Ministério da Justiça, considerando apenas os registros oficiais, são assassinadas 4 mulheres por dia no Brasil.

            Os dados revelam números que de início assustam, depois vão sendo assimilados como tem acontecido todos os dias, com a matança de jovens pretos e pobres pelas polícias militares, com destaque para os Estados do Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo. Mais grave ainda que a prática do feminicídio, são as intenções ocultas que espantam. Um dado tirado de uma das principais Big Techs do mundo, revelam que, no ano de 2025 foram feitas 163 milhões de consultas sobre o tema: “Como matar uma mulher sem deixar vestígios”.

            Os políticos e as autoridades diante desses dados, aproveitam para convencer a população de que é preciso dar mais poder para o Estado agir e punir com rigor os praticantes da violência. No entanto, pouco ou quase nada é feito para atacar as causas estruturais dela, que no capitalismo têm se agravado pela própria dinâmica do liberalismo.

            Pela análise marxista podemos facilmente detectar algumas das causas do feminicídio, basta consultar rapidamente o “Manifesto do Partido Comunista” escrito por Marx e Engels é lá encontraremos a primeira indicação de que: “O homem burguês tem em sua mulher um mero instrumento de produção”.[1] Portanto, a serventia desse “instrumento” depende do interesse de cada utilizador, pobre ou rico. Mas por que esse “uso” está cada vez mais agravado?

            Para que não pareça uma análise de indução marxista, recorremos primeiramente ao sociólogo alemão, Max Weber. Podemos encontrar em sua obra, “Economia e Sociedade” (2012), os princípios estruturais pré-burocráticos de dominação no estabelecimento do binômio por ele denominado de “patriarcal” e “patrimonial”. Em relação ao primeiro, o germe do poder masculino encontra-se na autoridade do “chefe da comunidade doméstica”. “A posição autoritária pessoal deste tem em comum com a dominação burocrática, que está a serviço de finalidades objetivas, a continuidade de sua existência, o “caráter cotidiano”.[2] Ao indivíduo submetido, cabe acatar as normas burocráticas, racionalmente criadas que, se fundamentam sobre a tradição e na inviolabilidade cultural anterior. Nesse sentido, a aceitação da submissão ao “senhor” é quem garante a legitimidade das normas e do poder do dominador.

            Por outro lado, segue argumentado o mesmo autor, que o poder paterno e a piedade filial, inicialmente não se baseiam em vínculos de sangue. “A primitiva concepção patriarcal trata... das relações entre procriação e nascimento – o poder doméstico sob o aspecto da propriedade...”.[3] O fenômeno social de estruturação da família vinculada estreitamente com a propriedade privada das pessoas escravizadas ou não, tornou-se em todas as épocas o fator determinante para enquadrar os indivíduos à estrutura moral e cultural.

É na família, instituída pelo casamento monogâmico que a mulher, em lares ricos e pobres, é vista, jurídica e religiosamente como propriedade privada do homem. É com essa base psicológica que o feminicídio, para o pesquisador de como “matar uma mulher sem deixar rastro”, e o praticante real do ato, tendem a caracterizar como sendo, “um conflito conjugal particular”, um “crime passional” ou, como era antes, “a defesa da honra”.

 Diante dessa interpretação, não estaria nos dizendo Weber que, os crimes de feminicídio, cometidos por ciúme ou mesmo por vingança do homem contra a mulher, antes de tudo, estão enraizados na ideia de que a mulher continua sendo, como qualquer objeto, propriedade privada do homem? Se assim o é, o marido não aceitando “perdê-la”, nem tampouco vê-la feliz com a realização de um novo casamento, sente-se no direito de eliminá-la.

            Embora toda essa explicação tenha fundamentos coesos, a pergunta a ser respondida é: porque o número de feminicídios está aumentando? Os mais condescendentes responderão que os crimes não estão aumentando, são os fatos que estão sendo mais divulgados. Se concordamos, estaremos ignorando que, é próprio da decadência do capitalismo promover a barbárie social. Com isso, a visão rasa dos pacifistas defensores da democracia no capitalismo, perde espaço para a violência destrutiva do liberalismo masculino patriarcal em crise. Por isso, não vemos coletivos de mulheres cometendo crimes, como por exemplo, matando cães a pauladas.

            Está na hora de apelar e compreender o psiquismo comportamental. O falocentrismo, presente na natureza masculina na primeira infância, veio antes do patriarcalismo e do escravismo patrimonial. A conquista dos direitos sociais pelas mulheres; a diminuição da quantidade de filhos; a conquista da renda própria que dá a elas a condição de se manterem por conta própria, cumpre a mesma função do medo da castração descrita por Freud no complexo de Édipo, quando o filho é convencido que a mãe não é a sua esposa e o pai não é o seu rival. Nessa fase: “O menino encara a mãe como sua propriedade, mas um dia descobre que ela transferiu o amor e sua solicitude para um recém-chegado”.[4]

            Decididamente são outras as questões que precisamos discutir. Elas vão muito além de qualquer pacto que repete os mesmos desvios de outros anseios pretendidos, sem ferir o capitalismo. O burocratismo político, sempre que surge um problema social, recorre à solução das leis. Sabemos que não é o aumento de leis que controla os crimes, mas o controle das pulsões de morte existentes na supremacia da masculinidade cultural. Estando o poder do falo ameaçado, a tendência é que cada vez mais, os homens se revoltem e busquem na força a defesa da indefensável derrocada do patriarcalismo.

            As relações pessoais não mudam pelo enrijecimento das leis nem pelos aconselhamentos morais, mas juntamente com as relações sociais e de produção, ocupação e função social das pessoas. Quanto maior a ignorância sobre esse movimento, maiores serão as manifestações de resistência e de violência nas sociedades decadentes do capitalismo. A solução é superar este modo de produção e avançar rumo ao socialismo, no qual teremos espaço, tempo e liberdade para superarmos as velhas e mofadas contradições.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] MARX e ENGELS. Manifesto do Partido comunista. São Paulo: Global, 1984, p. 33.

[2] WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília, UNB, 2012, Vol. 2, p. 234.

[3] Idem. p. 34.

[4] FREUD, Sigmund. A dissolução do complexo de Édipo (1924). In. obras completas, Vol. XIX. Rio de Janeiro: mago, 2006.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A ERA DAS FALÊNCIAS


A Organização da Nações Unidas – ONU – divulgou em janeiro de 2026 um relatório que chama a atenção para a “falência hídrica”. Aos poucos a humanidade se convence que o capitalismo é um sistema adoentado. Basta um simples Rio-X para detectar um novo transtorno ou enfermidade incurável.

A falência é uma declaração de insolvência, feita por uma autoridade jurídica, pois o montante das dívidas é maior do que a capacidade de pagamento de alguém. Em relação a água não se trata de um processo judicial, mas a própria natureza anuncia que o uso cotidiano dela supera a capacidade da recuperação dos reservatórios, fazendo com que os lagos diminuam de tamanho, os rios sequem e os aquíferos guardados como precaução da própria Terra, além de estarem com seus níveis de reserva cada vez mais baixos, em muitos lugares, os solos afundam devido o vazio deixado pela retirada exagerada da água do subsolo.

Essa falência hídrica como todas as outras: ecológica, climática e preservação da biodiversidade dentre outras, provavelmente passará como o virar de página em busca de um novo assunto exposto em forma de matéria na sequência da leitura do jornal, com conteúdos voltados para as guerras, a violência, a poluição ambiental, a disputa pelos minérios mundiais, a manutenção ou não de uma moeda única para regular as trocas de mercadorias no mercado mundial, a taxa de juros elevado, a que ou a alta das bolsas de valores etc.

No cotidiano as pessoas não se dão conta de que o mundo mudou rapidamente, mas elas continuam preocupadas em buscar soluções para os seus problemas individuais. Ocorre que, com a falta da d´água não se brinca. Embora seja um elemento natural transformado em matéria prima, a água geralmente é esquecida como elemento fundamental partícipe do aumento da produtividade na agropecuária. Estudos apontam que, de toda água utiliza pelos seres humanos, 70% dela é gasta na agricultura. Para chegar à produção de uma arroba de carne bovina, exportada com grande euforia pelo agronegócio, considerando toda a cadeia alimentar, são necessários 225 mil litros de água doce; com suínos gasta-se um pouco menos, mas chega a 75 mil litros por arroba.

Quando estudamos os dados da superexploração ambiental, começamos a perceber porque, as reservas hídricas não conseguem recompor a parte da água retirada, espantosamente sem estudos e sem controles. Os governantes querem que a economia cresça para gerar emprego e, com isso, divulgarem cifras estatísticas refletindo a boa administração. Do mesmo lado, os capitalistas exigem menos cobranças de impostos e mais subsídios para transformarem os bens da natureza em mercadorias, nada dando em troca para a sociedade e para o meio ambiente.

Diante das falências naturais, as guerras, ameaças e chantagens serão problemas contínuos por causa do controle da água cada vez mais escassa. Estima-se que em 2050 a humanidade contabilizará 9,7 bilhões de pessoas, isso significa quase 30% a mais de água e de alimentos para o consumo. Embora as tecnologias possam facilitar muitas coisas elas não poderão corrigir a composição do corpo humano, composto de 70% de água, esta precisa ser reposta todos os dias para evitar desidratação e doenças renais.

Diante do tema das falências podemos ampliar as discussões baseadas na própria leitura da realidade feita pelos olhares atentos que se defrontam com córregos, rios e lagos extintos pela ação irregular dos homens. A propriedade privada tem servido de escudo para que cada indivíduo, “diante do que é seu”, se dê o direito de criar riscos de morte para toda a biodiversidade.

Cada vez mais torna-se importante pensar na superação do capitalismo, para que, mudando o sistema mudar-se também todas as relações. Nesse momento de transição do poder unipolar dos Estados Unidos, para o multipolar cooperado, nascido da articulação dos países emergentes do Sul Global, como a Rússia, a China, a índia e os mais de 40 países que compõe o Brics, com um Banco mundial de financiamento e, em breve com uma moeda própria, é animador, mas não o suficiente; se não considerarmos que é preciso mudar as relações sociais, de produção e com a natureza, isto porque, aquilo que foi denominado de “sustentabilidade” tornou-se insustentável e não há retorno dentro dos modelos em vigor.

Diante disso, tal qual é a cobrança da urgência de enfrentar a falência hídrica, precisamos atacar as demais falências organizativas, que conduziram as utopias das mudanças sociais para dentro das estruturas governamentais e as asfixiaram. A falência das forças de esquerda veio pelo abandono dos princípios revolucionários e com isso a defesa da ordem capitalista travestida de democracia, tornou-se uma tarefa vergonhosamente cotidiana.

As pautas particulares continuam sendo importante, no entanto, elas precisam incorporar os anseios universais. É importante conquistar a terra, mas é preciso defender a água e toda a natureza. As transformações estruturais exigem urgência, por isso as mobilizações locais precisam tornarem-se insurreições nacionais e internacionais. Reivindicar não basta, é preciso apropria-se das coisas e do poder, para deixar de pensar que os outros farão por nós.

A força principal das mudanças continua estando no número de pessoas organizadas. É preciso salvar a Terra do capital. Fazendo isto, poremos fim ao processo de exploração da força humana e das forças da natureza. Os capitalistas não entendem essa linguagem e nem farão por nós. A cada dia apresentam a descoberta de um aspecto vital ou a existência de um novo Planeta. Eles confiam que podem mudarem-se para lá. Nós não temos para onde ir, por isso precisamos enfrentar os destruidores do mundo com planos de ações comuns.

Se ninguém esperar pelos outros para começar as investidas contra o capital, muitos passos serão dados ao mesmo tempo e, ao se cruzarem uns com os outros, formaremos a grande marcha rumo à insurreição popular.

Terminamos com a mensagem do líder da insurreição vietnamita, quando convocou para “O fim da saída pacífica” em 1946. Pediu para os  compatriotas se colocassem de pé, fossem eles homens  e mulheres, jovens e velhos, sem distinção de credo, de partido, de nacionalidade: “Entrem na luta com todos os meios disponíveis. Que aquele que tem um fuzil, utilize seu fuzil, que aquele que tem uma espada, utilize a sua espada. Se não tiver espada, que tome picaretas e porretes! Que todos empenhem todas as suas forças para combater o colonialismo, para salvar a pátria”.[1] Nós dizemos, para salvar a Terra.

                                                           Ademar Bogo

                                                                                  

 



[1] ALVAREZ, Maria Elena e FERNANDES, Florestan. Ho Chi Minh: Política. São Paulo: Ática, 1984.