O grande filósofo da linguagem russo, Valentin
Nikoláievitch Volóchinov, cuja primeira ironia está no nome próprio nome, pois,
devido a perseguição stalinista no final da década de 1920, ao invés de
mostrar-se teve que identificar-se como Mikhail Bakhtin para esconder-se das
perseguições dominantes. Para ele: “Um produto ideológico faz parte de uma
realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção
ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata
uma outra realidade que lhe é exterior”.[1]
Esse pensamento é importante repeti-lo muitas vezes para
compreendê-lo e aplicá-lo; isto porque, a ideologia não é uma mentira expressa
por qualquer sujeito da classe dominante, muito pelo contrário, ela quer
transmitir uma mensagem intencional que vai bastante além daquilo que é dito.
Por isso, uma pessoa quando leva o seu corpo para malhar em uma academia para
formar músculos avantajados, não está pensando somente em saúde, quer representar
força, poder, exuberância, domínio etc. Da mesma forma quando alguém se dirige
a uma clínica de estética, quer adquirir beleza para expandir-se sobre as
demais pessoas que ela julga feias.
Dito isto, vamos para as campanhas eleitorais. Estas, tomadas
pelo Marketing montam verdadeiros espetáculos para que os candidatos apareçam
muitíssimo mais simpáticos do que são. Com muito brilho e, cuidadosos com as
palavras e os gestos, vão proliferando as intenções que, como muitas delas são
ideológicas, deixam refletir apenas uma parte do que querem dizer. Por isso a
ideologia é enganosa e traiçoeira, pois ela se utiliza das pessoas alienadas
para refratar, como fazem os tijolos no forno para assar uma pizza, absorvem o
calor para depois dirigi-lo sobre a massa que se contorce até chegar ao ponto
desejado.
Portanto, para o mesmo filósofo, para ser ideológico
precisa ter um significado que remete a outra coisa. Um objeto pode ser visto e
tomado como signo de acordo com cada interpretação e, também, pode avançar para
se tornar um símbolo, que é quando a coisa desempenha um papel ou uma função
consensuada. Dessa forma uma multidão passa a ver, sentir e repetir as mesmas
sensações. O exemplo mais comum pode ser visto na bandeira de um país. A
Bandeira do Brasil tem a cor verde que representa as florestas e o amarelo o
ouro. Quando entoamos o Hino Nacional ficamos em pé, em posição de respeito e
nem sequer lembramos da devastação das matas pelos capitalistas e a invasão dos
territórios indígenas, poluindo as águas etc.
Nos processos eleitorais os candidatos buscam
identificações, algumas divertidas e outras minadas pela demagogia; mas querem
representar o rumo de cada pretensão. Pela recompilação histórica na campanha
de 1960 surgiu a vassoura. Com o slogan “Varre, varre, vassourinha”, simbolizava
as intenções do candidato que era de varrer a corrupção, mas configurou-se na
varredura da liberdade e da própria democracia com a preparação do terreno para
o golpe militar de 1964.
Em 1989 no retorno das disputas das eleições
presidenciais, surgiu o “caçador de marajás”. Primeiramente configurava-se uma
ideologia porque foi usada uma referência de uma figura que não existe em nossa
cultura. A classe dominante por meio de um famoso canal de televisão exibia a
novela “Que rei sou eu”; ela fortalecia o discurso do candidato, que ia para os
debates com uma pilha de pastas de arquivos verdes e amarelas, mas todas vazias
e, no discurso prometia combater a corrupção, altos salários de funcionários
públicos. Após dois anos de mandato foi ele mesmo cassado por refratar com sua
pessoa a expressão de um marajá corrupto.
Mais recentemente em 2018, vimos o candidato instituir o
gesto de um L deitado, representando uma arma de fogo que, apontando para
frente significava combate, e para baixo, execução sumária dos inimigos. Ideologicamente,
ao mesmo tempo que prometia combater a violência, instigava os aliados a
adquirirem armas para a sustentação do futuro golpe de Estado que veio a se
configurar em 8 de janeiro de 2023, porém, por incompetência estratégica, o
comando foi preso, julgado e condenado.
Para as eleições de 2026 surge a tesoura como símbolo
aglutinador do mesmo grupo que adora as armas e promete fazer cortes. A
primeira vista encanta a classe média e a burguesia especulativa, mas no fundo
esconde as intenções de perseguição contra os trabalhadores em relação ao não aumento
real do salário-mínimo, cortar direitos dos aposentados, reduzir as políticas
públicas, descartar as leis que garantem a soberania nacional para entregar as
riquezas naturais definitivamente aos Estados Unidos.
Diante disso, as forças contrárias que envolve todos os
setores progressistas e oportunistas, contrapõem a ideologia obscurantista com
outra ideologia refletidora de ilusões, dando a entender que as vitórias
eleitorais são suficientes para enfrentar os anseios burgueses, capitalistas e
imperialistas. É importante ganhar eleições, mas elas apenas servem como um
calço, que se pode colocar no pneu de um caminhão sem freio que ameaça falhar
ao subir a ladeira.
Os
acontecimentos mostram que o pacifismo e o comodismo das forças progressistas
estão permitindo o fortalecimento da ideologia das forças de direita e de
extrema-direita e, a razão está em que, nos exercitamos, treinamos e jogamos no
campo deles. Na medida que as normas determinam a obrigação do perdedor
entregar a taça para o ganhador, no final de cada pleito, simbolicamente
entrega-se o direito dele fazer o que bem quiser que será respeitado porque
venceu.
Na
prática precisa deixar de ser assim. A democracia não é entregar para a maioria
as conquistas e as vitórias anteriores. Elas precisam ser protegidas pois
representam histórias de lutas contra os capitalistas. Sem luta e resistência
não há democracia. Eleição é uma disputa passageira como as estações do ano, podem
ser boas ou ruins. A organização é uma força permanente que permanece apesar de
tudo.
Ademar
Bogo