domingo, 31 de outubro de 2021

DESINVERTER O MUNDO


            Karl Marx, na “Introdução à critica do direito de Hegel”, trouxe presente, em 1843, um problema existente na Alemanha, formulado em torno da crítica à religião, considerada o “pressuposto” de toda critica. No entanto, para o filósofo, a vida não é só religião e, por isso, a sua afirmação desafiadora veio no seguinte sentido: “o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Esse Estado e essa sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são o mundo invertido”.

            Bem entendido, não é a religião que cria “o mundo invertido”, mas a força dos proprietários que constituem a sociedade civil e o Estado. Por sua vez, a religião, sendo a crença deste mundo invertido, ela se afirma como a fantasia da consciência individual, sem a qual a vida seria insuportável.

            São as diversas fantasias falseadoras do mundo real que, além de afirmarem alguns dogmas deformadores da ciência, da filosofia e da arte, sustentam as profissões de Fé repulsivas e manipuladoras da linguagem, para que as mensagens caibam dentro do quadrado ideológico estabelecido.

            No concreto, pela evidência dialética, não podemos ter o real e não o seu contrário. Se temos a “boa religião”, com certeza teremos também a “má religião”; ou como espreitou o próprio Marx, quando presenciou o dizer de  que havia  a “Filosofia da miséria”, concluiu que haveria ter também a “Miséria da filosofia” e por isso escreveu, em 1847, um livro com este nome. Nesse sentido, por que a miséria religiosa não poderia ser vista, como sendo, ao mesmo tempo, a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real? Mas a religião fantasiada, “... é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração, assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. Ela é o ópio do povo”.

            Reduzir a religião como “ópio do povo”, tornou-se, ao longo da História, a tese nua e crua nas fileiras da direita; um dogma de negação dificilmente confrontado, principalmente quando se tratou de disputar os interesses eleitoreiros. Isto ainda ocorre porque o pressuposto da “miséria religiosa”, imposto pelo imperialismo com a criação das seitas neopentecostais, por esperteza ou ingenuidade, foi deixado de lado ou confundido como sendo ele o sintoma e não causa da miséria social e espiritual dos diversos povos.

            Evitar a critica política da relação entre a miséria social e a miséria religiosa expandidas pelo mundo invertido do capital e propagadas pelas seitas religiosas, é permitir que os espertalhões e vendilhões de artefatos ideológicos, como, “tijolos da obra de Deus”; “toalha milagrosa”, “fronha dos sonhos”; “martelo da justiça”; feijão que cura Covid-19” etc., equivale a concordar que se reproduzam os preconceitos moralistas homofóbicos; a violência machista contra a mulher; a negação à educação sexual na infância; a resistência contra a descriminalização do aborto; a visão retrograda sobre o formato da família e tantos outros atrasos e atentados contra os direitos humanos.

            Nesse sentido, devemos saudar como positiva a “Consulta aos católicos” proposta pelo Papa Francisco, iniciada no mês de outubro e que se estenderá até o ano de 2023. Simbolicamente será a primeira vez após o Concílio de Trento (1545-1563), que a Igreja católica se propõe a discutir as reformas necessárias, para levar luz aos seus próprios porões, agora com a participação massiva de leigos e leigas, em busca de resgatar a coerência moral e a dignidade humana dos primeiros cristãos.

            O grande desafio do século XXI, como fizera Nicolau Maquiavel (1512), é politizar a política. Isso evita que os devotos do capital, “sem partido”, criem seitas religiões e transformem as massas empobrecidas educadas em força auxiliar de impulsos alucinados. Na medida em que entendemos ser o capitalismo o próprio mundo invertido, dizer que a miséria religiosa transforma a religião em “ópio do povo” é o mesmo que afirmar ser a exploração da força de trabalho, o pilar central da alienação. Portanto, dizer que a mais-valia é extraída de trabalhadores alienados e que a legitimação moral dessa exploração se dá por meio de cristãos sedados ou chapados, seria um total desapreço para a civilização. No entanto, é esta mesma a mensagem a ser dita se quisermos desinverter o mundo.

            Na medida em que “o mundo invertido” é colocado de cabeça para cima, elimina-se o risco da asfixia cultural e a consciência passa ser a referência de identificação e do ordenamento do novo estado de coisas. Essa inversão não eliminará apenas a miséria econômica, mas também a miséria política, religiosa e moral.

                                                                                                Ademar Bogo

domingo, 17 de outubro de 2021

PÃO E REVOLUÇÃO

            Karl Marx, na posterior introdução à “Critica do Direito de Hegel”, no vigor de sua juventude, deu-se conta de que havia um travamento no processo de emancipação humana. Os limites do protestantismo e a relação de dependência da sociedade civil, do Estado, contribuíam para dificultar o avanço do processo revolucionário radical.

            Por sua vez, a perspicácia de Marx foi perceber que “As revoluções precisam de um elemento passivo, de uma base material. A teoria só é efetivada num povo na medida em que é a efetivação de suas necessidades”. E no final do mesmo parágrafo, após algumas indagações específicas, concluiu dizendo: “Não basta que o pensamento procure se realizar; a realidade deve compelir a si mesma em direção ao pensamento”. Temos, portanto que saber combinar a teoria com as necessidades.

            Para direcionarmos o entendimento dessa significativa observação, devemos proceder com o método filosófico de análise, separando a categoria superior, “revolução”, das categorias subordinadas, interrogando: O que é: “passiva?”, “material?”, “teoria?”, “efetivação?” “necessidades?” e “direção?”.

            Feito isto, podemos recorrer ao contexto no qual Marx estava inserido, como também procurar aplicar as mesmas categorias em uma realidade assemelhada, quando as religiões protestantes parecem assumir a hegemonia da alienação e a sociedade civil, ao invés de enveredar para a emancipação, regride e deposita no Estado toda a responsabilidade de impor a ordem coercitiva, para punir e refrear a força contrária e, com isso, as disputas se radicalizam em dois pólos favoráveis do capitalismo, como aconteceu na realidade alemã.

            Na medida em que, na atualidade, a categoria superior é despida de sua importância e distanciada das discussões, as categorias subordinadas perdem os poderes de importunar e, as palavras tendem a dizer apenas o trivial ou a considerarem o proposto como o real estabelecido possível.

            A direção, em se tratando de política é tudo. Isto porque, se as revoluções precisam de um elemento passivo, ou seja, a base material concreta,  não há como distrair as atenções para fora desse entendimento colocando na ordem lógica, realidade e teoria.

            Se temos a base material “passiva”, ela está a espera de ser agarrada, pelo sujeito ativo da revolução. Mas isto não se dá sem antes formular os pensamentos e consultar as necessidades e carências existentes nesta base. Essas necessidades, após serem teorizadas devem contribuir para que toda a realidade seja “compelida”, impulsionada ou arremessada a favor do pensamento revolucionário. Essas indicações não são impressões instituais. Marx, em 1843 vivia a ebulição das revoluções liberais da Europa e convivia com o atraso do país alemão.

            Há nessa descrição duas possibilidades de respostas para a pergunta “o que é necessidade?”. Certamente, não encontraremos nenhum indivíduo, politizado ou não, que não responda a esta indagação com o conteúdo evidente das carências sociais e, para nós, na atualidade, “pão” quer dizer tudo.

            Essa resposta substantiva, se apenas restrita ao “pão” é totalmente insuficiente e conformista. Para os cérebros mais atentos a preocupação vai muito além da necessidade. A fome nos mostra a situação de uma sociedade encurralada no degrau mais baixo da escada que mede o descenso da dignidade humana. É evidente que, a solução da mesma, embora seja uma emergência, não emancipa os famintos, assim como o direito à liberdade religiosa não emancipava os judeus na Alemanha. No entanto, o capitalismo decadente nos coloca cotidianamente a pauta das emergências articuladas entre si. Já não sabemos o que é mais grave, se a fome, a escassez da água, a queima das florestas, a perda da soberania, a violência ou a falta de trabalho, renda etc.

Para evitarmos o rebaixamento da teoria em direção à explicitação do desejo de caridade ou da assistência, como o máximo possível de ser proposto na política, devemos pensar no conjunto das emergências e necessidades individuais componentes da realidade social, mas que, em contato com a teoria devem apontar para a verdadeira emancipação.

            Chegamos ao grande limite do dilema posto acima. Se de um lado movem-se as forças interessadas em realizarem o pensamento assistencialista, atendendo as necessidades dos  famintos com o pão, de outro lado, “a realidade deve compelir a si mesma em direção ao pensamento”, fazendo com que ele se coloque a favor do movimento ascendente da transformação social.

            Em síntese isto tudo nos diz que, se entendemos as “necessidades” apenas como pão, trabalho, moradia etc., imaginamos, como minoria, galgarmos o ponto mais alto do Estado, com os pensamentos voltados para os debaixo, prometendo a eles o acesso aos direitos sociais, mas nunca a emancipação. No entanto, se consideramos que a “revolução” é a necessidade principal, devemos compelir as forças converterem a mesma em um direito. Logo, o faminto deve desejar o pão e aprender a desejar também a revolução. Assim como o desejo de quem se envolver para saciar a fome alheia deve ser convertido no desejo da superação do capitalismo.

            Não é mais possível atuar sobre a “realidade passiva”, com pensamentos de passividade. A falta de pão é a demonstração da verdadeira decadência de um sistema incapaz de alimentar os seus próprios reprodutores. A urgência do “dai o pão a quem tem fome”, não deve servir para rebaixar a teoria ao nível da passividade contemplativa da decadência.

            Os direitos devem ser vistos no conjunto. O impulso da solução de uma necessidade, deve compelir para enfrentar outras necessidades ainda maiores, principalmente porque, não temos apenas necessidades animais para suprir. Devemos dar sequência ao pensamento: “só com pão não somos nada e teremos que ser tudo”.   

                                                                                                                                                                                                                                           Ademar Bogo

domingo, 10 de outubro de 2021

JAULA DE AÇO

A união entre burgueses, proletários, camponeses e massas populares, formou, em 1789, o “Terceiro Estado” que tornou vitoriosa a Revolução Francesa. Na sequência, essas classes instalaram a Assembléia Nacional Constituinte e procederam a elaboração das novas leis. garantidoras da implantação dos princípios da igualdade, liberdade e fraternidade; interesse comum da esquerda e da direita, forças defensoras do capitalismo e da organização do Estado, estruturado e representado pelos três poderes: executivo, legislativo e judiciário.

Com as leis aprovadas e colocadas acima de todos, passou a vigorar no modo de produção capitalista, o “Estado Democrático de Direito” como ordem oficial. Garantiu-se assim, aos exploradores e também aos explorados, os direitos e as expectativas de pleitearem o progresso econômico, o desenvolvimento social e a realização dos anseios individuais. No entanto, essa vitória revolucionária burguesa e proletária, se por um lado passou a representar um vinculo de dependência econômica e política entre as duas classes, por outro lado, implementou a instituição de uma “jaula de aço” como bem conceituou o alemão Max Weber, em sua obra, “A ética protestante e o espírito do capitalismo.”

Ser a favor do totalitarismo econômico capitalista e, democratas ao mesmo tempo, está na origem da formação das classes burguesa e proletária, como também no senso comum das massas populares. Essa premissa positivista, liberal e religiosa, rege as relações sociais e de produção, ordenando-as pelas normas morais e as barras do Direito Positivo, expressão jurídica da coerção no interior da jaula de aço, responsável por enquadrar qualquer cidadão tido como desordeiro. Fora dela, temos a sensação de estarmos em perigo, por isso corremos para incluir-nos e nos tornamos os principais defensores do progresso, da geração de empregos e do bom funcionamento do Estado.

Inseridos no sistema de exploração e na ordem coercitiva, nos comportamos como os animais na jaula: comemos em um dos lados, dormimos em outro e defecamos em algum canto. Durante o dia vagamos ligando esses pontos geográficos e nos enraivamos se alguém ameaça fazer alguma interferência nesta ordem estabelecida, seja com um golpe ou alguma intervenção desastrosa, pois, já não sabemos viver sem ela e nem mesmo imaginarmos outras formas de convivência. Tal qual aos animais que não sabem distinguir o tratador do responsável por enjaular-los, tememos as forças de segurança, mas nos desesperamos se não as vemos nas esquinas; rejeitamos os patrões, mas corremos para agradá-los quando nos ameaçam com demissões; criticamos os governantes e as leis injustas, mas continuamos afirmando a democracia representativa, dando à imensa minoria as condições para negar os direitos e os benefícios da maioria.

 Queremos a emancipação humana, mas a retardamos, porque, para uma parte dos trabalhadores, a venda da força de trabalho, está tão ruim que mal dá para fazer exigências e, para a outra parte mais pauperizada, já não se apresenta oferta alguma. E, mesmo cabisbaixos, nos animamos com as promessas eleitoreiras daqueles que se propõem a lubrificar as dobradiças da porta dessa jaula imunda e decadente, para que ela ranja menos toda vez que se fechar. Dirigem-nos para a santidade do capital, para que nos prostremos diante dele, com as mãos postas segurando a oferenda do voto. Queremos que os vencedores da democracia representativa nos atendam com uma graça, de um auxílio, uma bolsa, ou mesmo um osso descarnado, pois, entendemos, a carne deve ser enviada ao deus suprem do mercado exterior.

Sabemos que a origem da submissão está na aliança genuína que formou o “Terceiro Estado”, efetivada na França para o triunfo da Revolução de 1789. No entanto, aquela união comandada pelos capitalistas, produtores, industriais e comerciantes, tendo como força auxiliar o proletariado, com a expansão do capital especulativo e destrutivo, já ruiu. Esse capital volátil associado ao banditismo político, habitante dos lugares mais remotos como as Ilhas Virgens Britânicas, infiltrou-se no Estado e age para “liquidificar” as riquezas das nações. Essas forças parasitárias, ao invés da ordem democrática, espalham o terror, a insegurança e o medo; e põem a reboque, com exceção do agronegócio destrutivo, os setores burgueses da produção que buscam desesperadamente voltar ao lugar perdidono controle da política.

Portanto, se no passado esses setores burgueses produtivos, foram capazes de unificar as diversas forças no “Terceiro Estado”, na atualidade estão em desvantagem, não apenas pelos erros políticos cometidos, mas também, pela perda de poder para as formas especulativas e parasitárias do capital. Assim se explica o porquê das frequentes instabilidades da ordem e o desejo imediato de reconstruírem a velha aliança, propondo uma “terceira via”. Se aceitarmos essa manobra, reconheceremos no grau mais baixo que os propósitos da histórica burguesia continuam válidos e, por mais que nos esforcemos apenas reviveremos a tragédia, mil vezes repetida, quando diante do perigo, o escravo morre para salvar o seu senhor. As burguesias sobreviventes da exploração da força de trabalho, em grau maior ou menor, de acordo com o lugar no mundo em que se encontram, vêm perdendo o controle da política e do controle sobre o Estado. Por mais estranho que pareça, na conjuntura transitória, “somos os seus coveiros” e não os seus salvadores.

Não restam dúvidas de que guardamos no fundo da consciência proletária uma contradição conflituosa, entre darmos vazão às energias revolucionárias e acatarmos os desejos da submissão. Freud no âmbito corporal e sexual denominou esse movimento de “pulsão de vida” e “pulsão de morte”. Nesse sentido, não é exagero nenhum reconhecer que o capital especulativo e parasitário, jungido ao banditismo político, improdutivos, violentos e destrutivos, tornaram-se os transtornos físicos, psíquicos, econômicos,políticos, morais, ambientais etc., da civilização. Por mais que se pense governar e controlar a ordem na jaula envelhecida, dentro dela circula essa energia incontrolável e instintual da volatilização do capital. Para controlá-la é preciso antes de tudo aprisionar e dominar os seus agentes destruindo todas as suas mediações que pulsam para a morte.

  Nesse sentido, por mais que tentemos retardar o enfrentamento com as forças destrutivas da civilização ele será inevitável. Como sujeitos de um processo libertário, trabalhadores e massas populares em geral, devemos, ao invés de liderarmos a conciliação deveríamos nos propor a jogar para os ares a jaula e sua ordem, ou pelo menos, como primeiro passo, empurrar para fora dela os especuladores, rentistas, devotos dos paraísos fiscais; os incendiários das florestas e os assaltantes das riquezas públicas. Para isso precisamos fugir da tentação de fazer acreditar que a “jaula de aço” um pouco mais limpa e arejada, mesmo com uma parte da população com as pernas fora das grades é tudo o que se pode propor. Se assim pensamos, eternizamos a palavras de Karl Marx quando nos alertou que os defensores do parlamento e acrescentamos, da democracia representativa, fazem tudo para “Iludir os outros e iludir-se ao iludi-los”.

Enquanto as atenções estiverem voltadas para o conserto do sistema, não haverá emancipação. As soluções para impulsionar as transformações sociais, embora partam de dentro, estão fora dessa ordem carcomida. Olhar para fora é arriscar perder todas as crenças, no capital, no Estado e na política profissionalizada e, como ateus, instituir as bases das novas crenças, com princípios inversos ao que até aqui fizeram a jaula de aço funcionar.

Marx e Engels nos deram a indicação e, como velhos conselheiros deveríamos ouvi-los. Sentenciaram na época de 1848, em meio às turbulências das revoluções liberais na Europa, que “os comunistas não dissimulam as suas opiniões e seus objetivos”, o que nos parece suficiente para sermos sinceros uns com os outros, isto porque, segundo eles, é preciso fazer com que a classe dominante se sinta ameaçada pela “destruição violenta de toda a ordem social”, e não contemplada pela nossa plataforma política. Principalmente porque, “a classe operária nada perderá com ela, a não ser a sua prisão.” Que essa prisão seja reservada aos genocidas e aos devotos da especulação.

                                                                                   Ademar Bogo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

domingo, 26 de setembro de 2021

RECRIADOR DE HUMANOS

 

            Há pelo menos duas formas de se fazer humano, a primeira é pelo nascimento; despontamos como obra da natureza e, a segunda, pelo conhecimento nos tornamos sabedores da memória coletiva e criadores das nossas próprias ideias e invenções. Da primeira forma, nada podemos fazer, a não ser esperar pelo acontecimento do nascimento. Da segunda, muito se pode falar, escrever e contar.

            Paulo Freire é um grande educador. Esta afirmação adjetivada diria tudo e bastaria para que os seus detratores se calassem e refletissem toda vez que ouvissem algum elogio incontestável a seu favor. Mas eles sabem somente colocar Deus, a pátria e a família “acima de tudo” e não aprenderam os bons modos do respeito e do cuidado de não pronunciarem o nome de ninguém em vão.

            Detratores são como os abutres rogadores de praga para que a rês ainda viva e com saúde morra. No caso de Paulo Freire, rogam para que seus feitos, exemplos e conquistas, gozadores de impressionante respeito mundial, desapareçam por um simples grasnar com os bicos fedorentos. Deveriam respeitar este senhor formulador de verdades, pois, pelo menos aprenderam a dizer, mesmo que façam o contrário a explicitação evangélica de que: “Conhecereis a verdade e a verdade voz libertará”(Jo 8,32).

            Quando Josué de Castro publicou o seu livro “Geografia da fome”, em 1946, Paulo Freire atuava como professor de Língua Portuguesa no Colégio Osvaldo Cruz e lecionava Filosofia da Educação na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco. Mas o que têm a ver a fome com a educação? Tudo. Principalmente porque as duas mexem com a sensibilidade humana. Saciada a fome, as Belas Artes não formam apenas profissionais, mas reinventam a própria espécie humana.

            Há muita ignorância nas mentes de rapinas e preconceituosas, incapazes de perceberem quando a humanidade, pela genialidade de seus representantes mais destacados, dá um salto adiante. Sócrates, o filósofo grego, em 400 anos antes de Cristo inventou a “maiêutica”, um método de aprendizado facilitado pelo diálogo cotidiano. Arquimedes, 200 anos antes de nossa era, inventou a alavanca e criou a expressão: “Dê-me um ponto de apoio que moverei a terra”. Sigmund Freud, já no século passado, descobriu o método da “Livre associação” e encontrou o jeito de entrar no inconsciente humano por meio da fala e da escuta. Paulo Freire formulou o “método de alfabetização de adultos” e, como Arquimedes poderia ter dito: “Dê-me um adulto analfabeto que eu, com 40 horas de aula o tornarei capaz de ler mundo e escrever sobre ele”. 

Tantos outros gênios e inventores poderíamos destacar, como, Copérnico, René Descartes, Charles Darwin, Isaac Newton, Albert Einstein, Karl Marx, etc., mas não é este o nosso objetivo. Voltemos a Josué de Castro, para que os possuídos pela incompetência governativa e inculta aprendam que há diferentes tipos de geografia, a ele interessou a “Geografia da fome” e, a Paulo Freire, o analfabetismo social. O nordeste do país naquele tempo da década de 1940 era povoado por 15 milhões de pessoas e, além da fome, a metade da população não sabia ler e escrever. Diante de tamanho peso a ser movido, poderia Paulo Freire ter-se tornado um beato como o fizera 50 anos antes dele, Antonio Conselheiro, e lançar mão das pregações religiosas. Poderia ter seguido o exemplo de Lampião, morto a menos de 10 anos de sua formatura universitária e ter dado continuidade ao cangaço, lançando mão das armas de fogo como mediação para a libertação. Não. Como Arquimedes buscou um ponto de apoio para colocar a alavanca, e encontrou a educação.

 Como vemos, havia outras alternativas. Só no parágrafo anterior vimos três possibilidades e as três incomodaram tanto que, os agentes das duas primeiras iniciativas eleitas para enfrentar a pobreza, foram decapitados e suas cabeças levadas como prova da vitória da opressão contra a liberdade. Paulo Freire, embora queiram hoje decapitá-lo, ganhou a oportunidade de, miseravelmente, acompanhado da família, deixar o país em 1964.

A periculosidade de Paulo Freire, se quiserem em palavras religiosas os seus detratores, foi ter arriscado, como fizera Ezequiel, de ir até o “vale dos ossos” e lá ter ouvido a ordem: “Profetize a esses ossos e diga-lhes: Ossos secos ouçam a palavra... farei um espírito entrar em vocês e vocês terão vida. Porei tendões em vocês e farei aparecer carne sobre vocês e os cobrirei de pele; porei um espírito em vocês e vocês terão vida...” (Ez, 37,4-6). E os ossos acreditaram.  

A arte da recriação humana, somente pode vir de quem acredita nas possibilidades impossíveis. A morte pela fome, descrita por Josué de Castro, naquelas circunstâncias, servia para motivar a vida. Não era e não é o silêncio dos mortos que abalava e abala a já desestabilizada ordem dos donos do poder, mas a reação dos decaídos. Paulo Freire soube sintetizar essa relação na “Pedagogia do oprimido”: “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”. Aqueles “ossos humanos” poderiam ter vida se fossem recriadas neles, a carne, as palavras e as ideias. E assim foi feito, os maltrapilhos levantaram-se e fizeram das próprias consciências bandeiras vermelhas que afugentaram o coronelismo, fecharam os currais eleitorais e apagaram a ignorância de repetir que “tudo é vontade de Deus”. E, se a forme ronda a região, o país e o mundo, é porque ainda faltam algumas palavras serem encarnadas, assimiladas, expressas e praticadas.

Por ocasião da comemoração dos cem anos de vida de Paulo Freire, ecoa pela consciência do mundo, o vigor da mensagem de que: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho”. Este legado ficou para nos orientar que a libertação somente pode ocorrer junto com a recriação que fazemos de nós mesmos. A cooperação é o segredo de nos tornarmos cada vez mais humanos. São as “palavras geradoras” que ensinam a ler o mundo e a perceber a exploração e a humilhação. Paulo Freire incomoda os arrogantes porque soube mergulhar fundo no abismo da miséria e retornar de lá com os braços carregados de pessoas confiantes e capazes de conduzirem o próprio destino.

Hoje o adulto alfabetizado pelo método Paulo Freire, sabe que a palavra “genocídio” é crime e por traz dela se esconde o “genocida” que precisa ser preso, julgado e condenado para se fazer justiça. A palavra “direitos” escreve-se no plural, porque eles estão interligados e, garanti-los não é um favor que se paga com votos.

Paulo Freire tornou-se imortal por ensinar a recriar o ser humano, com palavras geradoras de transformação: comida, tijolo, direitos, justiça, cooperação, insurreição. Há muitos alfabetizados que sabem escrevê-las, mas não sabem defendê-las e exercê-las. Há muitos que precisam apreendê-las, soletrá-las, praticá-las e escrevê-las,o que falta é a organização.

Não é o Paulo Freire que os poderosos tomem, mas a força das palavras geradoras. Elas têm o poder de encarnar os ossos, cobri-los de pele saudável e encher os corpos de consciência e de revolta. Ele mostrou que a alavanca da libertação tem seu apoio na educação e, o apoio da alavanca da dominação é a ignorância. No final, ganha quem for mais inteligente e, organizadamente, colocar mais força.

                                                                       Ademar Bogo

domingo, 19 de setembro de 2021

O ANTICRISTO

        O filósofo Friedrich Nietzsche escreveu em 1888 um texto para tecer criticas ao cristianismo, denominando-o de “O anticristo”. Assim descreveu ele no capitulo XXXVII “...Com toda a difusão do cristianismo entre as massas mais vastas e incultas, até mesmo incapazes de compreender os princípios dos quais nasceu, surgiu a necessidade de torná-lo mais vulgar e bárbaro – absorveu os ensinamentos e rituais de todos cultos subterrâneos do imperium Romanum e as absurdidades engendradas por todo tipo de raciocínio doentio. Era o destino do cristianismo, que sua fé se tornasse tão doentia, baixa e vulgar quanto as necessidades doentias, baixas e vulgares que devia satisfazer.”

            Se por um lado não podemos dar total razão a Nietzsche, tendo em vista que podemos encontrar no desenvolvimento do cristianismo momentos decisivos, nos quais o imperativo moral e o pensamento crítico religioso fizeram frente à repressão, prisão e morte de militantes políticos e sociais, defensores de causas revolucionárias; por outro lado não podemos tirar do filósofo a razão do teor de sua revolta. Aliás, Freud, em 1907, pouco tempo depois da morte de Nietzsche, acentuou que: “...podemos atrever-nos a considerar a neurose obsessiva com o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal”.

            Outros autores, como Walter Benjamin, foram ainda mais precisos e identificaram o capitalismo como sendo uma verdadeira religião. Considerando que “O capitalismo é uma religião puramente de culto, desprovida de dogma”, ele torna-se próprio uma neurose obsessiva. Além do fanatismo mercantilista o capitalismo  criou as seitas neo-pentecostais e as espalhou para as Américas, chegando ao Brasil, a partir de 1970, ungidas com o nome de “igreja”: Universal do Reino de Deus; Internacional da Graça de Deus; Renascer em Cristo; Mundial do Poder de Deus.

            Para valorizar a onipotência dos pensamentos criados pela neurose obsessiva e fazê-los tornarem-se hostis ao mundo exterior, é importante canalizar tais anseios para as disputas políticas, inicialmente demarcadas pelas posições dos bons contra o maus. Para estruturar mais diretamente a luta pelo poder, neste século com a decadência estrutural do capitalismo novas forças ascenderam socialmente. Seguindo os instintos não dogmáticos, retomaram os princípios do Integralismo, surgido na Europa logo após a Primeira Guerra Mundial, com um fanático programa, constando “Deus, pátria e família”.

            Para que tal programa se enraizasse era preciso que a neurose se universalize disseminada pelos canais de acesso dos seguidores adestrados. Nesse sentido, o fenômeno dos cultos religiosos foi potencializado pelo acesso generalizado à internet, pois, permite a realização das pregações e a alimentação do ódio de maneira constante.

            Deus, colocado “acima de todos”, para o integralismo, tem por objetivo não apenas expressar a unidade de culto, como também induzir à unidade política em torno das ideias e do poder do líder, visto como um salvador e sustentador da neurose obsessiva, como sendo a ideia de cada um. Por outro lado, a pátria desperta os instintos corporativos mais brutais, que somente podem ser reproduzidos por meio de atos de violência e ataques constantes desferidos ou reservados para as forças armadas, policiais e facções armadas. A simbologia do apego às cores, ancora-se no sentimento religioso da proteção sagrada do manto que envolve e protege o sujeito da neurose. E, por fim, não pode faltar o aspecto sustentador do narcisismo individual para quem é destinada todas as bênçãos e benefícios vindouros que é a família, embora toda despedaçada, vilipendiada pelos maus exemplos, como e o caso do “comandante em chefe” , mas que compensa com a proteção ferrenha dos filhos contra qualquer tipo de castigo.

            A transferência do poder divino como ocorria com o moderno soberano, induz ao entendimento de que a diversidade atrapalha. Os poderes fora do trono são incômodos e a sua anulação é uma necessidade obrigatória. Os juízos superiores servem como orientações para as atitudes individuais, isto porque, o sujeito tomado pela obsessão de natureza religiosa, não apenas pratica atos obsessivos como também coloca-se em permanente estado de culto.

            A ligação entre o cerimonial das seitas com os atos de natureza integralistas seguem a mesma ordem cumprindo as mesmas formalidades causadoras da dependência participativa. A frequentação do templo ou da rua nas manifestações possui a mesma equivalência e dependência da mesma ansiedade participativa.

            O imperialismo, parafraseando Lenin, podemos dizer que é “a fase superior da religião capitalista”, conseguiu jungir os cerimoniais das seitas com os atos obsessivos integralistas de natureza fascista. Sendo assim, o caráter violento e destrutivo do modo de produção encarna-se nos indivíduos reprodutores das mesmas atitudes por meio dos atos obsessivos, tidos como naturais.

            Por outro lado, o imperialismo precisa de doentes mentais que façam uso do poder político para sustentá-lo. O capital especulativo que suplantou o poder do capital produtivo, precisa, temporariamente, de representantes alucinados, como o que nos impuseram. Essas figuras descabeçadas cumprem o papel de desligarem a luz durante a festa, os mocinhos mal intencionados possam apalpar nos lugares que não poderiam fazê-lo com as luzes acesas. Enquanto isso, os representantes do capital produtivo, criadores do Estado e o Direito positivo, na atualidade não conseguem apresentar um candidato ao governo para compor a “terceira via” e somente terão algum êxito se se somarem ao proletariado.

            O desgaste das forças conscientes e responsáveis para a condução política foi propositalmente planejado. Enquanto os “fiéis” são levados a praticarem atos obsessivos, os “pregadores” ordenam as falas que propagam mensagens de ódio e orientam as práticas dos crimes e desordens negacionistas. A despolitização da política não é um fenômeno desprovido de ideologia, muito pelo contrário, ele é o resultado da desestruturação das relações entre as  forças organizadas e as ideias revolucionárias, fazendo surgir no lugar, as forças do banditismo político e as seitas religiosas, praticantes das cerimônias da morte: da democracia, dos partidos políticos, dos direitos sociais, dos doentes infectados pelo vírus e ativistas políticos

            As obsessões sociais são elaboradas e superadas pela organização social. As religiões já deram mostras que, manipuladas e mal conduzidas criam distúrbios sociais, mas tal qual ocorre individualmente, a neurose obsessiva somente se estabelece quando o sujeito perde a estabilidade emocional sobre si mesmo. Na sociedade isto acontece quando ela perde a consciência sobre o seu próprio destino.

            Na tradição o “anticristo” profere as palavras erradas como se fossem certas e as mentiras têm a presunção de serem verdadeiras. Ele foi prometido de aparecer no fim do mundo. Tomara que seja verdade e que o fim do mundo capitalista esteja mesmo chegando ao fim, para que a civilização seja liberta. Por via das dúvidas, organizemo-nos e façamos a nossa parte.

                                                                                                                             Ademar Bogo

              

             

 

 

 

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domingo, 12 de setembro de 2021

DESCONFIAR E REAGIR

              Desde o surgimento do Direito Positivo temos a inversão da supremacia da lei sobre o poder do soberano. Dizer que “ninguém está acima da lei”, tornou-se uma demonstração concreta de rebaixamento dos anseios autoritários. No entanto, como bem descreveu Arthur Schopenhauer, em seu livro, “O mundo como vontade e representação” (1819), a legislação positiva é a doutrina moral do direito aplicada ao inverso, isto porque, em cada lugar o seu alcance baseia-se nas relações e circunstâncias especiais estabelecidas.

            Há algum tempo estamos ouvindo nas “pregações políticas” de orientação ideológica integralista, o verberado “Deus acima de tudo”. Invocar Deus em meio ao caos de um desgoverno poderia representar que a Fé dos cristãos está sendo ameaçada, certamente porque os crentes estariam voltando as suas atenções ao “bezerro de ouro”. No entanto, o significado real dado a essa expressão, é que Deus está acima da lei e quem estiver com ele eleva-se acima dos poderes da República.  

            Na última semana penetrou pelos olhares mais atentos uma mensagem com o título de “Declaração à nação” e, para muitos passou como um pedido de desculpas do ainda não apenado presidente, pelos arroubos proferidos às vésperas do dia 7 de setembro, levando, pelo resultado benéfico, ao aprofundamento das frustrações dos esperançosos neointegralistas, pois o golpe de Estado para arrasar as instituições não veio e, tornou-se um espirro contra um único ministro do Supremo Tribunal Federal.

            Não há necessidade de longas explicações para as desnecessárias escaramuças descabeçadas, afirmadoras da negação das condições imediatas para oficializar qualquer tipo de golpe, porque, também não há nenhum movimento contrário que possa ameaçar o funcionamento da ordem. É evidente que falta mesmo é trabalho e competência para resolver os problemas cruciais do país, tão conhecidos e denunciados pelas manifestações verdadeiramente populares, situados na área da saúde, da educação, da assistência social, do emprego, preço dos combustíveis, controle da inflação etc., coisa que qualquer governante capitalista estaria empenhado em resolver. No entanto, vimos que os adeptos do caos parecem viver em outro planeta e se movem por duas reinvindicações apenas: fechamento das instituições e o voto impresso.

            Soou como “um tiro pela culatra” a tal “Declaração à nação”. E foi. Trouxe um grande prejuízo para os adeptos do “Deus acima de tudo”. E, como um terremoto frustrado, só balançou a placa tectônica do “banditismo político”, que buscou rapidamente com o auxilio de setores das elites conservadoras, de natureza também golpista, mas desconfiadas com as consequências do prolongamento dos tremores, interferiu para ganhar tempo. Do lado das forças de esquerda, tudo continua como estava, nenhum grão de terra desmoronou.   

            “Tudo bem”, dizem os conformados e ansiosos de que chegue logo 2022, para, com as próximas eleições presidenciais acabar com a farsa e os assanhamentos do representante do partido militar e das milícias, navegantes sobre águas verde e amarelas, com odor putrefato de tanta sujeira composta de propinas, corrupções, ódio, crimes e lodo.

            Mas não são somente esses os sinais, como diria Tirésias, o vidente grego declarando a Édipo sobre a condição para debelar a peste entranhada no reino de Tebas. Havia um assassino a ser descoberto e julgado. As frases de acanhamento na “Declaração à nação” nada dizem das intenções obscuras do pestilento presidente, escondedor de crimes. Por isso, o que deve ser discutido, não é o texto, mas as três palavras finais, aparentemente soltas, fora da elaboração, grafadas com letras maiúsculas e portadoras de uma mensagem própria. Quais são as palavras? “DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA”.

            Antes de tudo, essas palavras não são propriamente do emissor, refletem a tradição “integralista”, um movimento surgido na França no final do século dezenove, para combater o modernismo, por meio da aliança dos propósitos religiosos com os princípios liberais. No Brasil, esse movimento, devido à crise de modelo econômico de 1929, surgiu logo em seguida, buscando reunir, na mesma concepção, as forças antidemocráticas, defensoras de valores conservadores, autoritários e de tendência monárquica. Esta última ainda não foi defendida abertamente na atualidade, como a forma de governo, mas é desejada. Podemos vê-la incluída como terceira reinvindicação, posta pelas posições truculentas do fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, dando ao presidente o status de monarca.

            Há sem dúvida nenhuma um movimento em direção a anulação da política, o cancelamento dos partidos, das eleições e de outras formas de participação, sustentado pela junção dos princípios morais, militares e tradicionais. Ou seja, na medida em que apresentam “Deus” como a figura principal, pensam atrair as forças religiosas, agora não mais representadas pela Igreja católica, como foi no passado, mas nas seitas neo-pentecostais insufladas pelo imperialismo norte americano. Com o referencial da “pátria”, dirigem as atenções às forças militares, policiais e paramilitares e, pelo saudosismo “familiar”, atraem os conservadores para juntos edificarem a nova ordem autocrática.  

            Do ponto de vista estratégico, o texto da “Declaração à nação”, em nada mudou. O suposto recuo fez-se necessário porque, apesar de tudo, o momento histórico ainda não legitimou a linha proposta e, certas expressões foram precipitadas, por isso iriam refluir sobre “a família imperial”, ocasionando a prisão de alguns de seus membros e de outros adeptos. Um acordo para baixar as armas, foi oportuno, mas os anseios integralistas permanecem intactos.

            De outro lado, é importante iniciar um debate para combater a ingenuidade em nossas fileiras, de que basta ganhar as próximas eleições presidências e tudo será reencaminhado para o sucesso do crescimento econômico, da geração de emprego, do respeito à democracia etc. Esse raciocínio dando como certo, não é de tudo ruim, mas como já disseram outros autores, haverá eleições? Disputaremos e ganharemos o pleito? Seremos empossados? E, governaremos com a mesma tolerância dada ao príncipe das “motociatas” exibicionistas? 

            Acima de tudo, é importante compreender que o capitalismo decadente geme como um animal ferido e se debate por todos os lados; por isso, lhe interessa mais uma ordem instável do que a sonhada estabilidade que os capitalistas da produção, a classe média e o proletariado conservador adoram.

            O debate deve ir de encontro aos desafios essenciais fazendo ver que precisamos pensar e agir; em primeiro lugar, como propôs Maquiavel, e combater “deus” separando a religião da política, dando a cada esfera o seu lugar. Em segundo lugar, como fizeram Karl Marx e Friedrich Engels, ao denunciarem que, “o proletariado não tem pátria” e “os laços familiares das famílias operárias são desfeitos e seus filhos, reduzidos a simples objeto de comércio, a simples instrumentos de trabalho”.

            É preciso desconfiar e reagir como quem está perdendo a liberdade, para que não sejamos pegos de surpresa e sem energias, pelas sombras do cair da tarde.

                                                                                              

                                                                                                                Ademar Bogo

                                               

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

ORDEM E DESORDEM


            É da natureza individual e coletiva, nos momentos de apuros ou de desespero, lembrar do passado para, como autodefesa, fazer aquilo que se soube fazer. Quando esse retorno ocorre na política, as urgências e perturbações impedem que as ideias respondam a questão: por que em certas épocas as ameaças das forças contrárias avolumam-se e colocam as demais forças opositoras em total defensiva? Certamente porque, o movimento da luta dos contrários não cessa e, o novo pertencente ao movimento revolucionário ou progressista, pela inversão da ordem, transfere-se para o lado oposto que toma a iniciativa de fazer da ordem uma total desordem, aniquilando os seus próprios poderes.  

A tendência ao saudoso retorno, após ter avançado e esgotado as energias, seja na economia, na administração, na política ou em outras áreas, é em tudo semelhante. Sigmund Freud ao falar sobre “Desenvolvimento e regressão”, em sua conferência XXII (1924), mostrou-nos, no aspecto psíquico, que no processo biológico individual nem todas as fases anteriores são ultrapassadas sem que fiquem alguns resíduos marcadores de “fixações”; mas, como a vida segue em frente, mais adiante, quando o sujeito ao deparar-se com certos obstáculos, tende a fazer a “regressão”. O exemplo do próprio Freud ilustra melhor essa ideia. “Considerem que, se um povo em migração deixou atrás de si fortes destacamentos nos locais de parada de seu deslocamento, é provável que esses escalões mais avançados, tenderão a se retirar para esses locais de parada quando forem derrotados ou quando se defrontarem com um inimigo superior”.

            Se psiquicamente o neurótico volta para os pontos de fixação nos quais estão as feridas causadoras de seus transtornos, é porque lá encontra alguma referência de dívida contraída consigo mesmo e, aparentemente é mais confortável ficar no passado do que enfrentar o futuro. Na política a reação de voltarmos ao passado e utilizarmos as velhas respostas para as novas perguntas, imita este esquivo de não enfrentar os obstáculos, como se a vitória eleitoral fizesse desaparecer as milícias armadas.

A surpresa nisso tudo é que, se o partido político como sujeito coletivo não conseguiu preparar as próprias energias para ultrapassar os obstáculos, também não servirá de veículo para transportar de volta as forças que o acompanharam. O retorno das mesmas se dá na dispersão, assemelhando-se ao sujeito que revisita os seus transtornos psíquicos. Do mesmo modo que ocorre individualmente, coletivamente também criamos “neuroses políticas”. Compreendamos que, se a teoria política ao encontrar os obstáculos não consegue superá-los, os reflexos da regressão cairão de imediato sobre a prática e, a própria forma partidária vem a equipara-se ao indivíduo transtornado e, não tendo clareza do que fazer, agarra-se ao famigerado “Estado Democrático de Direito” criado pela   

Nas últimas décadas, após experimentarem alguns avanços, as forças progressistas diante dos macabros obstáculos atuais tendem a retornar para o uso das táticas conformistas, respeitosas e adequadas e ao famigerado “Estado de democrático Direito” criado pela classe burguesa em ascensão no final do século XIX.

Essa classe suplantou o “Estado de Direito” absolutista e organizaram os três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, encarregados, pelo Estado capitalista de assegurarem a observância da ordem. É para este porto seguro de “fixação”, da superestrutura estatal, ideologizada pela democracia liberal, que as forças progressistas, após terem sofrido tanto, perdido tanto, morrido tanto, querem retornar, exatamente porque, os obstáculos impostos pelo “banditismo político”, de difícil enfrentamento com a forma partidária que aprendeu a fazer política da concessão. Tememos a ameaça das armas, não só porque estão na iminência de provocar a desordem do “Estado Democrático de Direito”, mas porque, há décadas muitos discursos de esquerda condenaram a luta armada e ela, para as novas gerações saiu das alternativas táticas. E, para enfrentarmos, como agora, o banditismo miliciano institucionalizado aprendemos a usar o voto, enquanto eles, na iminência de agirem contra o povo, usam o jargão de que “O povo armado jamais será dominado”

Portanto, o mesmo materialismo que reconta a História, mostra também as feridas abertas na consciência política coletiva. No fio da navalha dessa mesma História, encontramos o propagado fio de cabelo do “Estado Democrático de Direito” que, desde 1964, já fora cortado duas vezes pelos descendentes da classe dominante que o criou e, prestes estamos, de vermos o toco restante ser raspado pela terceira vez.

            Compreendamos que o golpe institucional desferido pela junção do poder legislativo e judiciário em 2016, contra o “Estado Democrático de Direito” e poder Executivo, que fazia tão bem às forças progressistas, pois cumpria o papel, senão na totalidade, mas, em grande medida da propagação dos ideais liberais, parece ter sido insuficiente para os capitalistas e, uma nova ofensiva, com as mesmas diretrizes absolutistas do imperialismo se faz necessário. E lá vamos nós, no século XXI, cumprir o papel que os senhores feudais e os reis, cumpriram quando lutaram para manter o “Estado de Direito” pré-capitalista.

Por certo deveríamos estar confusos, como o neurótico que volta ao ponto de fixação da infância, porque na fase adulta não sabe mais como seguir em frente. Esquecemos de perguntar, afinal o “Estado Democrático de Direito”, faz bem ou faz mal à classe dominante? Isto porque, há momentos em que eles defendem a ordem, já em outros, são eles mesmos os responsáveis por rompê-la e, com a desordem dos golpes anulam os poderes institucionalizados tão desejados pelo progressismo.

            Se entrarmos um pouco mais a fundo, perceberemos que ocorre com o “Estado Democrático de Direito” o mesmo que ocorre com a “democracia”. Há um modelo para cada situação, mas, na essência, a democracia para os burgueses é a forma de sustentação dos princípios liberais. Já sabemos disso. Há períodos que eles querem o Estado investindo na economia; em outros períodos o empurram para fora e reduzem a sua influência por meio das privatizações, acordos e concessões, apossam-se das riquezas públicas nacionais. A manutenção da ordem com respeito às liberdades, aos direitos humanos, sociais, políticos e jurídicos, se lhes convém, mantêm, caso contrário, a ordem imposta anteriormente é aniquilada pela desordem daquela ordem por eles mesmos estabelecida.

Evidentemente, com a desordem institucional imposta, a situação piora, principalmente para a classe média progressista, devota da democracia liberal representativa, por ver nela a possibilidade cômoda e oportunista de fazer política. Tanto é verdade que, as discussões divergentes do passado sobre a concepção de Partido de “quadros” ou de “massas” há tempo saiu de pauta e não faz mais sentido para ela. Em seu lugar ganhou espaço como mediação entre teoria e prática, qualquer arremedo de partido oficializado, veículo de acesso ao fundo partidário, mas que serve apenas às reduzidas cúpulas conhecidas como “classe política”. Logo, as diretrizes políticas tendem ao rebaixamento, à altura rasteira das ideias políticas que mal conseguem formular as tarefas fora da agenda proposta pelo banditismo político.     

Como trabalhares, precisamos atuar para enfrentar o obstáculo na altura em que ele foi colocado sem ceder aos instintos de retorno ao ponto de fixação que, pela concordância e submissão, em nome da defesa do “Estado Democrático de Direito” sustentávamos a ordem para os capitalistas acumularem ainda mais riqueza. Eles, a partir de 2016, mudaram a ordem e avançam cada vez mais para impor a desordem como a nova ordem policialesca e miliciana. Seremos nós os responsáveis por manter a ordem liberal, para amanhã, a própria desordem liberal assaltá-la e adequá-la sempre aos interesses do imperialismo?

Nosso desafio continua sendo de organização partidária. A teoria e a prática na atualidade não se encontram porque a fragilidade está na forma mediadora. O “Estado Democrático de Direito” que interessa aos trabalhadores não tem “Estado”, por isso, o convite histórico estratégico é sair e não querer voltar para dentro dele.       

                                                                       Ademar Bogo