domingo, 25 de fevereiro de 2024

O PARTIDO DE NOVO TIPO

 

            Lenin ao cumprir pena desde 1897 na Sibéria, aproveitou para aprofundar os seus estudos. Naquele lugar isolado onde o frio chegava a 25º negativos, apropriado para a deportação de presos políticos, apesar de ser minimamente habitado, dificilmente alguém conseguiria sair por conta própria daquelas muralhas de gelo, porém não impedia de que houvesse certa liberdade interna.

            Tendo sido criado o Partido Operário Socialdemocrata da Rússia (POSDR) em 1898, embora todo comitê central tivesse sido preso no Congresso de fundação, Lenin, ausente e deportado,  já havia assimilado a teoria da organização política nos textos de Marx e Engels. Eles haviam escrito o Manifesto do Partido Comunista e organizado já duas Associações Internacionais. Isso ajudou a dar um salto para frente nas experiências já feitas pelas “Uniões de Luta”, movimentos reivindicatórios e criar uma nova forma de organização.

            Lenin após a execução de seu irmão em 1887, por ter cometido o atentado contra o tzar Alexandre III, sem sucesso, convicto de que o caminho a seguir precisava deixar para trás as formas terroristas e populistas de organização e, por isso passou a denominar a iniciativa de 1898 de “Partido de Novo Tipo”.

            Esse partido não deveria pautar-se por ações espontâneas e realizadas sem sustentação organizativa. O partido poderia ser constituído organicamente e funcionar permanentemente como um todo organizado e disciplinado. Para tanto, todos os seus membros precisavam respeitar e seguir o programa partidário.

            Os anos de prisão e deportação de Lenin ofereceram tempo suficiente para ele voltar a sua atenção para os estudos, principalmente sobre o desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Esse domínio esboçar o programa partidário com a clara intenção de apontar o caminho para a conquista do poder político.

            O respeito a todos os esforços anteriores foi destacado e, embora com todos os desvios e fraquezas, era a herança que os revolucionários do passado haviam deixado. Porém isso não significava aceitar tudo, por isso, uma série de textos elaborados por Lenin começou a circular. Um deles com o nome de “A que herança renunciamos?”, atacava as ideias iluministas  e reformistas, pois a teoria marxista apresentava-se como referência para direcionar os pensamentos e as ações revolucionárias.

            Ao final do cumprimento da pena na Sibéria, em 29 de janeiro de 1900 Lenin, na manhã daquele dia, embarcou em um trenó puxado por cavalos e partiu rumo a uma nova etapa de sua vida. Inicialmente vigiado pela polícia e proibido de ir a Moscou, procurou estabelecer contatos com a firme decisão de criar um jornal para divulgar as ideias e agregar, em torno dele, toda a militância com o objetivo de realizar o segundo congresso do partido, o que veio a ocorrer somente no ano de 1903. Após seis meses de perseguição, Lenin preferiu exilar-se na Europa e passando de pais em país, de lá orientou a política de organização.

            Com a criação do jornal Iskra (Fagulha) em Leipisig em 1901 na Alemanha, por ser clandestino precisou ser impresso também no exterior. Foi por meio dele que todas a discussões passaram a ser orientadas principalmente em preparação ao “Segundo Congresso”, orientado pelos escritos diversos, com destaque para dois textos importantes de Lenin: “Por onde começar?” (1901) e “Que fazer?” (1902).

            A preocupação com os passos certos a serem dados na organização política levou a muitos embates e disputas, isto porque, não havia nenhuma experiência vitoriosa e tudo precisa ser inventado. A luta contra as ideias divisionistas e de influência burguesa era intensa. Por isso uma das tarefas fundamentais do partido era a educação política e a formação da consciência revolucionária. O desejo era criar um novo tipo de militante que se diferencia-se do indivíduo burocrático, mas que se parecesse com “o tribuno popular”, ou seja, precisam treinar a juventude para as discussões públicas, principalmente na capacidade da eloquência dos discursos para realizarem as “revelações” das verdades obscurecidas pelos interesses burgueses.

            Os pseudônimos como, Lenin, Stalin, Trotski, passaram a ser de uso necessário para todos os membros do partido poderem atuar clandestinamente. Com isso, o partido não tinha “cara pública” a não ser a suas ideias em circulação.

            Antes da Realização do Segundo Congresso, iniciado em 17 de julho de 1903, em Bruxelas, e que, devido a perseguição da política belga, tiveram que transferir as discussões para Londres, na Inglaterra, Lenin ainda escreveu um texto “Aos pobres do campo”, tendo em vista a sua visão de que o partido deveria jungir as classes operária e camponesa e arrastar atrás delas a maioria da população.

            Do Segundo Congresso participaram 43 delegados representantes de 26 organizações. Lenin foi escolhido para ser um tipo de “secretário” das comissões do Congresso, cujas anotações serviram para, posteriormente ele fazer uma profunda análise das discussões e publicá-las como uma verdadeira crítica documental no livro conhecido como “Um passo atrás, dois passos à frente”.

            As disputas mais ferrenhas deram-se em torno da aprovação dos estatutos e, ao contrário do que imaginou Lenin, o partido dividiu-se em duas frações: Os bolcheviques (maioria) e os mencheviques (minoria). Ambas permaneceram até o triunfo da revolução em 1917 com a supremacia dos primeiros.

            Para além da História, interessa-nos mais aqui entender a importância dada ao partido político como instrumento fundamental para a organização e direção das lutas. Essa crença de que só poderia haver movimento revolucionário com uma organização de vanguarda revolucionária, foi fundamental para que o processo culminasse com a insurreição e a tomada do poder político, vislumbrado desde o início.

            O partido não pretendeu inibir nem concorrer com a organização sindical. A clareza de que as tarefas eram diferenciadas, permitiu orientar a militância para que as lutas reivindicatórias fossem realizadas abertamente e os enfrentamentos políticos revolucionários, clandestinos. Nesse sentido, a luta econômica não poderia dirigir ou pautar a política, desta, o partido político deveria ser o dirigente se fosse constituído por militantes conscientes e capazes de formularem métodos de ação diferenciados e eficientes.

            A Revolução russa, com toda sua trajetória conflituosa, mas vitoriosa em 1917, foi a primeira demonstração de que uma Revolução só é possível se houver um comando fortemente organizado, com capacidade consciente de dirigir, convencer e organizar a maioria da população para tomar o poder, caso contrário, os processos se derrotam pelo próprio esgotamento.

            A principal lição a extrairmos desse processo é que, na luta revolucionária devemos pretender alcançar o máximo e não o mínimo, isto porque, o máximo guarda dentro de si os objetivos inegociáveis. Para atingir o mínimo, muitas vezes podemos ser maleáveis e tolerantes nas negociações com os inimigos; para atingir o máximo é preciso ir às profundezas da coerência e não vacilar diante dos perigos.

                                                                              Ademar Bogo

domingo, 18 de fevereiro de 2024

EM BUSCA DE OUTRO CAMINHO

 

                 Em memória dos cem anos de sua morte, este ano de 2024 será todo ele dedicado a Vladimir Ilich Lenin. Não se trata de render culto a um grande líder como se a história tivesse dependido apenas de um indivíduo para ser confirmada como vitoriosa; embora seja verdadeiro afirmar que pela sua tenacidade, os indivíduos, com suas descobertas e inventos direcionam os destinos da humanidade, sempre há uma ligação e dependência de toda a social.

Lenin foi um militante convicto de que a realidade socioeconômica e política russa deveria ser mudada. Aprendeu ainda na adolescência o que era a exploração econômica e a opressão política, quando o irmão mais velho, Alexandre Ulianov, o qual lhe apresentou os escritos de Karl Marx, portanto, aprendeu a interpretar as contradições sociais, independente de outras influências, religiosas ou reformistas, mas com o uso direto do Materialismo Histórico.

A presença do irmão na formação de Lenin, além de teórica e moral revolucionária, também se deu pelo exemplo intelectual e político. A capacidade de formulação e elaboração de Alexandre chamou a atenção dos professores na Universidade de Petersburgo. Já nos primeiros meses de aula, no curso de zoologia e química sua inteligência ganhava destaque. Porém em 1º de março de 1887, a notícia de detenção do rapaz, por ter participado de um atentado contra o tzar Alexandre III, abalou todas as expectativas.  A prisão lhe rendeu a condenação à pena máxima e, em maio do mesmo ano, com 21 anos de idade, Alexandre foi executado.

Lenin com apenas 17 anos presenciou o julgamento do irmão e, ao ouvir as argumentações condenatórias, percebeu os vários entraves e impossibilidade de fazer política por meio dos dois agrupamentos clandestinos em vigor: os populistas, mais intelectualizados que se ligavam aos camponeses e, os terroristas, mais radicalizados que se guiavam pela tática de assassinar as autoridades. Propenso a estudar Direito e pelas evidências equivocadas na opção política do irmão, deu-se conta Lenin e sentenciou como conclusão pessoal: “Não é esse o caminho que devemos seguir”.

Mas qual seria o caminho? Vigiado pela polícia, primeiro, no ano do enforcamento do irmão teve dificuldades para ser aceito na universidade de Direito e, segundo, após ter conseguido, em dezembro do mesmo ano de 1887, envolveu-se em um protesto de estudantes contra o regulamento da universidade. A repressão foi exemplar, Lenin, além de ser expulso da Universidade, também foi proibido de viver naquela cidade de Kazan e foi deportado para a aldeia de Kokúshkino, lugar onde se encontrava Ana a irmã mais velha que havia sido condenada por ter participado do mesmo atentado contra o tzar.

Essa deportação para uma aldeia interiorana e, passando a viver com os camponeses pobres, Lenin reviveu as façanhas de seu pai que, como inspetor de escolas primárias, após longos períodos de ausência retornava e narrava para a família, os apertos e fugas das perseguições dos grandes proprietários de terra. Dessa forma, embora sendo um jovem estudante, interessou-se pelos problemas agrários e se predispôs a estudá-los.

Nas obras completas de Lenin, data de 1893 o primeiro longo estudo manuscrito feito sobre o livro de V. E. Postnikov, funcionário do Departamento de Terras do Fisco da província de Táurida. A profundidade da análise e a veracidade dos dados, permitiu a Lenin, compreender como estava estruturada a agricultura, as formas de trabalho e os dilemas existentes entre os camponeses pobres. Ao mesmo tempo que continuava os estudos sobre as obras de Karl Marx e Friedrich Engels, das quais destaca-se “O capital: crítica da economia política”, investiu no mesmo ano, com 23 anos de idade em outro ensaio, “Sobre a chamada questão dos mercados”, perguntando-se se podia na Rússia desenvolver-se o capitalismo quando as grandes massas eram empobrecidas cada vez mais?

Nos anos seguintes enquanto lutava para prestar exames e concluir o curso de Direito, escreveu ainda sobre “Quem são os amigos do povo e como lutam contra os socialdemocratas”, em resposta a diversos artigos que circulavam conta a teoria marxista e, outro, “O conteúdo econômico do populismo”. Além de tecer comentários sobre as obras de Marx, traduziu, em 1892 para o russo o “Manifesto do partido comunista”.

No ano de 1895, apesar da vigilância policial decidiu mudar-se para Petersburgo, um grande centro operário e ali passou a participar de círculos de reuniões e viajou para alguns países da Europa em busca de contatos e cópias da literatura marxista. Na França, em contato com Plekanov, um velho militante marxista exilado, juntos criaram uma coletânea de textos para ser lida pelos operários russos.

No final de 1895 com bastante esforço as diversas visões nos diferentes círculos operário decidiram criar a “União de luta pela libertação da classe operária”. De imediato editaram o jornal “A causa operária”, mas, no fechamento da primeira edição Lenin e os demais editores foram presos, posteriormente condenados e, em 1897 foram enviados  para cumprir três anos de pena na Sibéria, lugar de difícil retorno.

De volta ao campo, deparou-se com a pobreza extrema das aldeias. Lenin retomou os estudos e, desta vez, escreveu um grande e completo tratado, concluído em 1899, com o nome “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia”, dando conta de todas as contradições concretas e diferenças de concepções teóricas.

Em 1898 chegou à mesma aldeia onde Lenin cumpria pena, sua noiva Nadjda Krupskaia, presa também por conspiração contra o tsar e, ao informar que em março daquele ano, na reunião para criar o partido político, os nove delegados foram presos enquanto realizavam o congresso de fundação. Imediatamente Lenin iniciou a preparar os documentos para a realização do segundo congresso, realizado com sucesso em 1903.

Em síntese, devemos concluir dessa primeira rememoração, que os indivíduos têm um papel na história, mas ele dependem das escolhas a serem feitas e, além da clareza do caminho que se quer seguir e onde chegar, é importante conhecer a realidade, como ela é para transformá-la em como se deseja tê-la.

A teoria revolucionária abrange todo o conhecimento da realidade em todos os seus aspectos. É sobre essa realidade conhecida que se coloca o movimento revolucionário, daí é muito fácil diferenciar o que é “burocracia democrática” e o “processo revolucionário”: enquanto a primeira administra para manter tudo como está, a segunda revoluciona o como está, para fazer ficar tudo como se deseja.

O estudo, não importa onde seja elaborado é fundamental e, ao mesmo tempo a organização é imprescindível. Essas duas forças, somadas à coerência política levam a dar um novo rumo para a história de cada país.

                                                           Ademar Bogo

domingo, 28 de janeiro de 2024

COMBATER O LEGALISMO E O ESPONTANEÍSMO


            Há duas ilusões mortais quando se trata da prática política: o legalismo institucional e o espontaneísmo ingênuo que leva aos ensaios de reações ao nível das reivindicações pontuais pautadas pelas necessidades econômicas. O filósofo Georg Lukács ao escrever as suas “Observações metodológicas sobre a questão da organização”, quis esclarecer, o porquê de certos comportamentos das organizações dos trabalhadores nos momentos de crise do capitalismo, e não encontrou senão as limitações e as deficiências do proletariado, conformadas com os “sistemas das leis”.

            Nesse emaranhado de contradições os procedimentos continuam seguindo a dinâmica da economia capitalista e acabam por repetir ações espontâneas de massa, sem qualquer efeito superador da longa situação pré-revolucionária, que mal se sabe porque se luta, ficando  os esforços empregados no nível da defesa, segundo cada ação desencadeada com objetivo apenas econômico.

            Segundo Lukács, “A espontaneidade de um movimento é apenas a expressão subjetiva, no âmbito da psicologia das massas, da sua determinação pelas leis econômicas”.[1] O Pior disso tudo, é que, a própria natureza dessas reações tem um ciclo de sobrevivência que se esvazia como acontece com o gás hélio do balão que, após fazê-lo subir, vai se enfraquecendo pelo fim do gás responsável pela combustão, então ele cai e, as condições desfavoráveis torna quase impossível voltar a fazê-lo subir.

            Temos, portanto, os dois polos explicitadores da decadência política de forças organizadas quando, por algum tempo parecem ter encontrado o ponto da reação contra as demandas impostas pela conjuntura ou por alguma ameaça destrutiva dos direitos adquiridos, mas não evoluem no que diz respeito à imposição de derrotas à classe dominante. Os dirigentes adeptos do método espontâneo de propor ações repetidas a cada início de ano, raramente se dão conta de que as táticas utilizadas para atingir os objetivos limitados, vão perdendo a qauldiade e a força.

            Por outro lado, o enfraquecimento dos movimentos espontâneos e dos próprios partidos políticos aliados, se derrotam na medida em que as diretrizes para orientar as diversas ações ficam previstas ou impedidas pelas leis. A grande derrota das forças que usam métodos espontâneos, ou seja, mobilizam-se para reivindicar apenas, é confiar que os políticos aliados usarão o Estado e a governabilidade a seu favor e, os governantes ao desfilarem o assistencialismo público, orgulham-se por darem o peixe sem ensinarem os famintos a pescar ou responsabilizá-los a criar o próprio peixe.

            No Brasil vivemos este enfraquecimento da energia desse “balão de ensaio”, feito pelas forças de esquerda para ajudar os pobres a não desrespeitar nem invadir o espaço das forças da direita. Desse modo, o balão amarrado com uma corda a um poste sobe uma pequena altura, e quando acaba o gás, cai em cima daqueles que, ao invés de cortarem a corda para fazê-lo ganhar as alturas, apenas batem palmas e gritam euforicamente para as autoridades  que os iludem.

            Esses ciclos de reações comedidas podem durar tempo. Há movimentos que envelhecem e, aparentemente continuam a torcer pelos bons resultados e a encenar reações sem muitos resultados. As vezes mudam as exigências e, os governantes aliados, naquilo que não lhe é controverso, nem haverá cobrança das forças opostas, liberam recursos para algumas incursões pouco ofensivas. Mas, a luta de classes, mais consequente e combativa para empurrar as forças opostas para trás, não se desenvolve.

            Se por um lado, o espontaneísmo pela sua inconsistência de método e, acima de tudo, pela incapacidade intelectual de formular teoricamente novas diretrizes para, nem que seja “acumular forças” e, por outro lado, o legalismo institucional contribuindo para esgotar o próprio espontaneísmo, na medida que, não desafia essas forças a lutarem com maior radicalidade e vigor, ou pior ainda, no caso do movimento de massas, coopta as consciências dos mais pobres com políticas públicas, impõem como resultado esvaziamento do potencial para a renovação das massas para o próprio movimento espontânea. O dado de que atualmente mais de 21milhões de famílias (quase 100 milhões de pessoas) recebem recursos do Programa Bolsa Família, é importante toma-lo para analisar por que em um país com esse grau acentuado de pessoas que passam fome, não há movimento popular atuante e, os movimentos mais antigos do campo e da cidade não conseguem renovar as suas bases?

            A conclusão pode ser rasa, mas não há dúvidas de que a aliança voluntariosa estabelecida entre o legalismo institucional e o espontaneísmo ingênuo dos poucos movimentos populares, sem programa consequente ainda em ação, são as duas causas pelo arrefecimento das lutas e da paralização da capacidade de crítica.

            O espontaneísmo não se combate com os desvios das reivindicações das circunstâncias atuais para direcionar os esforços a algo que está em moda que é o combate ao aquecimento global. A consequência das ações está na avaliação do mal que elas causam à classe dominante e não naquilo que apenas a beneficia.

            Mais do que nunca é preciso combinar as ações que, atraiam por meio das lutas espontâneas as massas que ainda não lutam, e elaborar e empreender a estratégia da ofensiva ativa, em vista de atacar as forças dominantes, impondo-lhes significativas derrotas para que o poder não seja uma utopia distante, mas um exercício de confronto e de vitória contra a hegemonia dominante.

                                                                       Ademar Bogo



[1] LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe: Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 542.

domingo, 14 de janeiro de 2024

DECIDIR-SE PELA OFENSIVA


            Ninguém melhor que o revolucionário Mao Tse-Tung, explicitou o que significam as categorias “defensiva” e “ofensiva”. Para ele, a “defesa passiva” caracterizava-se como uma pseudodefesa. “Só a defesa ativa constitui uma verdadeira defesa, defesa com o fim de contra-atacar e passar à ofensiva”.[1]

            As duras críticas à concepção da “defensiva passiva”, elaboradas por Mao em 1936, na segunda fase da luta revolucionária chinesa, iniciada em 1924, levaram o Partido Comunista Chinês a ter de redefinir as táticas, principalmente porque a iminência da invasão japonesa, ocorrida em 1937 e logo em seguida, ter iniciado a Segunda Guerra Mundial (1939), era preciso partir para a ofensiva para sair da situação inofensiva do Exército Vermelho.

            Não vem ao caso discutir o longo texto: “Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China”, exposto em cinco capítulos, interessa-nos aqui, tomar como referência as categorias postas como parâmetros, para que possamos observar a nossa situação histórica e combater alguns mitos produzidos pelo próprio comodismo das lideranças atuais.

            Há um consenso em todas as análises de conjuntura de que o capitalismo está em crise e que a classe trabalhadora e as massas populares estão paralisadas, caracterizando este processo como “refluxo”, termo mal-empregado para justificar o imobilismo das lutas.

            A falta de elaboração teórica sobre as concepções e posicionamento das forças leva ao comprometimento das poucas iniciativas de enfrentamento, isto porque, a única tática visível e abraçada por todas as forças, refere-se às disputas eleitorais. Não desprezemos tal esforço, imaginando que essa iniciativa não possa ser um dos pontos de enfrentamentos, mas, tomemos o processo eleitoral como referência de negação dos próprios argumentos expostos pela teoria do “refluxo”.

            O conteúdo da categoria da “defesa passiva”, exposto por Mao Tse-tung, revela que essa concepção direitista, se deve ao amedrontamento dos dirigentes diante do adversário, como se ele fosse um tigre exterminador; por isso, a única saída vista por eles, era defenderem-se, despistando-o sem atraí-lo para cercá-lo e aniquilá-lo.

            É esse amedrontamento que vem sendo usado para manter o pacifismo legalista, em toda a América Latina, em torno da ideia de que o “inimigo pode voltar”, por isso, segundo essa visão,  é preciso fortalecer as trancas dos palácios pois eles representam as moradas seguras para a sobrevivência das forças de esquerda. O “pacifismo defensivo”, instalou-se como uma enfermidade pandêmica nas consciências das lideranças partidárias em todo o continente. Trancadas no interior dessa tática, as massas são liberadas a saírem, cuidadosamente, apenas para os comícios e os festejos religiosos. Na maior parte do tempo ficam jogas à própria sorte ou alimentadas com as migalhas das políticas públicas.

            A crença de que ao derrotar o inimigo pelo voto e ter entregado a chave da governabilidade a uma pessoa de confiança dos setores progressistas pode-se respirar aliviados porque, por um tempo o “tigre” ficará distante e poderá inclusive ser perseguido por algum franco atirador do poder judiciário. Mal querem saber se esse agente irá atirar com munição de borracha para apenas afastar por algum tempo a fera faminta, das redondezas do poder, sem evitar que ela logo apareça ainda com maior simpatia.

            É importante refletir sobre essa posição, porque, se a tática da “defensiva passiva” faz bem aos setores mais abastados, principalmente porque ela ajuda a manter a ordem, significa que as organizações e os movimentos empenhados nessa implementação, colocam-se a serviço da classe dominante, enquanto esta dedica-se a engordar o tigre para que ele volte com saúde e vigor.

            Por que não há “refluxo” nas manifestações religiosas, nas festas carnavalescas, paradas de protestos temáticos, eventos musicais e, nas campanhas eleitorais? Evidentemente se pode apresentar muitas justificativas, principalmente se elas forem comparadas com as lutas. No entanto, não faz mal nenhum lembrar que são as relações materiais de sobrevivência que primeiramente movem as pessoas; se assim não entendermos deveremos passar a defender que, para a subsistência, cada indivíduo deve lutar por si mesmo, mas nos aspectos religiosos, festivos e comemorativos e eleitorais buscaremos as coletividades.

            O inverso a esse posicionamento pacifista ocorrerá se a categoria da “ofensiva” passar a permear o debate, as elaborações e as ações das massas populares. Aqui, poderíamos retomar todos os bordões postos como expressões teóricas, como este de Lenin escrito em seu livro “Que fazer?” de 1902, dando conta que: “Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário”. Como também, podemos deduzir e fazer surgir outras, como: “Sem organização revolucionária não há lutas revolucionárias”; ou “Sem métodos revolucionários, não há práticas revolucionárias”; ou ainda, “Sem lideranças revolucionárias não há ações nem eventos revolucionários”.

            Sem cair no desvio do vanguardismo, devemos considerar que as ofensivas substituem o pacifismo quando as pessoas conscientes tomam a frente e apontam o caminho dos enfrentamentos. Quem eram e o que fizeram as duas dezenas de bolcheviques russos na cisão do partido no Congresso de 1903? E a iniciativa cubana? Com uma dezena de guerrilheiros deram o impulso para a grande revolução vitoriosa de 1 de janeiro de 1959. E na atualidade,  na Palestina com o Hamas? Estimam que possui cerca de 20 mil militantes, uma insignificância perante o poderio militar de Israel, Estados Unidos da América e Europa que os ataca.

            Diante disso, a nossa posição é de que não devemos copiar formas de lutas nem do passado e nem do presente; cada povo tem a liberdade de criar os meios e tomar as iniciativas mais acertadas para enfrentar os seus inimigos. No entanto, a prática de outros povos alerta e, principalmente, ensina a considerar que a “defensiva passiva” não é o caminho mais correto, quando os inimigos, temporariamente perdem apenas os cargos e não o poder.

            Podemos concluir que, se há “refluxo” não é poque as massas não querem lutar, mas, certamente porque não sabem contra quem devem lutar! A lenda do biombo da democracia representativa que protege do tigre faminto os defensores da “defensiva passiva”, é a maior mentira contada pela direita para a esquerda. Na hora que ele for derrubado, atrás estarão os teóricos e intelectuais brancos; os políticos obedientes e os setores que conseguem pagar pelos direitos que os pobres reivindicam sem sucesso da Constituição.

            Sem ofensiva contra o capital e o Estado, não há política revolucionária, é importante decidir-se logo antes que o tigre volte atacar as urnas.

                                                                                                     Ademar Bogo



[1] Mao Tse-tung. A defensiva estratégica. T.1. Pequim: Edições do Povo, 1975.

domingo, 7 de janeiro de 2024

O INTERNACIONALISMO REVOLUCIONÁRIO


            Apesar de todas as constatações das crises e decadências do capitalismo, o tempo em que vivemos não faz das contradições substância inflamável para ferver o sentido beligerante e revolucionário das táticas de luta.

            A pior enfermidade das forças de esquerda, e talvez incurável para essas gerações treinadas a reivindicar direitos dos patrões e do Estado, é repetir os mesmos argumentos sobre as táticas assimiláveis pela classe dominante. Insistir em disputar com as forças mantenedoras do “Estado de Direito”, a mesma ordem estabelecida, confirma a vocação reformista para o ingresso na institucionalidade pura e simples, como se esta fosse a única opção restada.

            Nesse aspecto podemos ilustrar a tentativa de relação oposta com um pensamento político e filosófico de Lenin, expresso em 1905, no artigo escrito por ele com o nome, “A revolução ensina”. “... Não podemos dar-nos por satisfeitos com ver as nossas palavras de ordem táticas correrem atrás dos acontecimentos, adaptando-se a eles depois de ocorridos. Devemos aspirar as diretrizes que nos façam avançar, nos iluminem o caminho, nos elevem acima das circunstanciais tarefas imediatas”.[1]

            Se não podemos estar satisfeitos com as crendices institucionalizadas, as quais, em nome das políticas públicas imediatas prendem e freiam todos os tipos de pressão contra o governo, cujas posições verbalizadas o reconhecem como “nosso”, devemos pelo menos sermos tolerantes, pois, de fato, certas circunstâncias são o que são, não se pode inventá-las; no entanto, o mesmo não ocorre com as forças acomodadas que não abrem mão das táticas adotadas, buscando, “exprimidamente”, passarem pelas frestas dos consensos nacionais e internacionais, alçando-se como pregadores do consenso vantajoso.

            Dirão os mais aguerridos mantenedores da ordem que, “embora o governo seja nosso, ele deve distanciar as suas posições das do partido”. Logo, em nome das relações internacionais conciliadoras tolera-se o genocídio em Gaza sem nenhuma menção à culpabilidade de Israel. De fato, quem tem embaixadas não são os partidos e, por ser política de Estado é preciso antes de tudo “zelar pela diplomacia”. Diante disso devemos alertar os intolerantes que engessam as táticas como se fossem dogmas que, se o candidato à presidência é do partido e se o governo composto com nosso apoio “é nosso”, tendo este de administrar e zelar pelo Estado, que faz, apesar de desenvolver as sagradas políticas públicas, senão colocar-se ao lado e a favor do Estado capitalista? Com tais agarramentos estruturais, não há, como disse Lenin, fazer com que as palavras de ordem não fiquem atrás dos acontecimentos.

            Os paradoxos conjunturais expostos são, decididamente provocantes, pois, enquanto em um ponto do mundo um agrupamento luta subterraneamente contra o imperialismo, em outros lugares preza-se pelas táticas pacíficas, pois, a ilusão com a democracia representativa é tão real que dizer ser ela apenas parte do teatro comandado pelos capitalistas, representa uma grave ofensa.

            A aparência democrática de que nos governos pacifistas “todos ganham”, é a demonstração do real do reconhecimento do domínio do capital imperialista sobre a exploração das nações subservientes. Se ninguém perde, não há como fazer equiparações, porque a análise de imediato elimina qualquer contradição. Se queremos provar o contrário devemos perguntar aos sem-terra, em que estágio estão as desapropriações? O mesmo ocorre com os povos originários que dia a dia vão vendo os seus territórios serem estreitados. Por justiça, o movimento que ficou por 580 dias acampado nas proximidades na sede da Polícia Federal em Curitiba, no Paraná, repetindo, as mesmas palavras de ordem, ao começar o dia com: “Bom dia presidente!” e, à noite: “Boa noite presidente!”, deveria receber em troca, para cada dia acampado, um área desapropriada para fins da realização da reforma agrária. No entanto, ocorre justamente o contrário. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – IMPE – revelou que no ano de 2023, o desmatamento no Cerrado nordestino, o segundo maior bioma do Brasil, cresceu 43%, sendo dados só do primeiro ano do governo Lula. Isso revela o avanço do agronegócio, financiado pelo mesmo governo que mantém paralisadas as desapropriações de latifúndios.

            Por essas razões todas e, por falta de aspirações diferenciadas é que muitos analistas e dirigentes defende o “refluxo” das forças sociais e a impossibilidade de recriar as palavras de ordem para ultrapassar esse período prolongado de passividade revolucionária. Lembremos que, após a morte de Ernesto Che Guevara, em 9 de outubro de 1967, a tática de guerrilhas passou a ser questionada e descartada juntamente com a luta armada desenvolvida pelos grupos rebelados contra as ditaduras militares. Posteriormente, pelo avanço das tecnologias, melhoramento da espionagem e qualificação das forças de repressão, os argumentos voltaram-se contra qualquer tipo de tentativa de insurreição. A maior lição de que o imperialismo é frágil e todas as tecnologias bélicas falham diante da capacidade criativa, é dada agora pelo HAMAS em defesa da criação do Estado palestino e, embora, resista há meses, em termos de reconhecimento, por parte das forças políticas e partidárias da preciosa inovação das táticas de enfrentamento é zero ou ainda pior quando repetem as palavras da grande mídia, taxando aqueles lutadores de “terroristas”.

            Se “A revolução ensina”, como disse Lenin, não precisa que ela ocorra debaixo dos seus pés, importa reconhecê-la como fundamental em qualquer parte do mundo; foi o que sempre nos ensinaram os criadores do princípio do “Internacionalismo proletário”. Lembremos que a derrota dos Estados Unidos da América no Vietnã no século passado, deveu-se à capacidade inovadora das táticas de guerra do povo vietnamita, mas também da pressão e protestos espalhados pelo mundo.

            Que o ano de 2024 nos inspire a criar novas palavras de ordem, para que elas se antecipem aos fatos e nos ajudem a formular novas táticas de lutas locais e internacionais. A derrota do imperialismo dar-se-á quando conseguirmos unir as lutas de todos os povos do mundo contra os mesmos inimigos da humanidade.

                                                                       Ademar Bogo



[1] LENIN. V.i. Partido revolucionário de novo tipo. A importância mundial do bolchevismo. Lisboa: Edições Avante, 1975.p. 110

domingo, 24 de dezembro de 2023

A ESFINGE DA LUTA DE CLASSES

 

            Qualquer indivíduo um pouco ilustrado em Filosofia tem domínio geral sobre a história de Édipo que, após matar o pai em uma estradinha estreita, próximo à Tebas, para onde se dirigia, ao chegar próximo da entrada principal da cidade, foi interrogado pela esfinge, sobre quem de manhã andava de quatro, ao meio-dia com dois e, ao entardecer com três pés, ele respondeu corretamente, o ser humano e ela implodiu. A vantagem é que Édipo havia sido treinado por Políbio, seu pai adotivo, no reino de Corinto e possuía elevado grau de formação intelectual, por isso conseguiu orientar-se com determinação.

            Na atualidade vivemos o novo tempo das “esfinges” e, nos balanços políticos feitos para avaliar o ano todos tentam responder a pergunta sobre o “por que as lutas de classe não avançam?”. As respostas geralmente são erradas ou incompletas. Se fosse em Tebas, não somente o analista seria sacrificado, como também a sua organização, a sua classe, o seu movimento e, posteriormente toda a população de sua cidade ou de seu país.

            O fato se deve à péssima formação de muitos analistas que se apresentam como materialistas, mas, ao invés de conduzirem a análise com o método dialético, expondo categorias que realmente representam a totalidade da situação atual, tornam-se reféns das artimanhas metafísicas, principalmente quando tomam a parte como se fosse o todo e, invertem a ordem, elegendo ponto de partida os reveses e as soluções institucionais nos países mais atrasados.

            Dizer que o capitalismo está em crise não é nenhum achado inovador. Nem mesmo tomar isoladamente a economia como referência, o movimento dos capitais, depois o Estado, com os seus governos e as implicações antiéticas dos diversos comportamentos pessoais etc., não são ponderações que ameaçam a esfinge amedrontadora. A economia é consistentemente capital, este é imediatamente político por isso, a sua estreita relação com o Estado que, por sua vez, sustenta a ordem jurídica e repressiva. Essa sequência articulada compõe o imperialismo comandado pelos países mais desenvolvidos.

            A visão comunista desde Marx e Engels é de que, a totalidade é uma categoria fundamental a ser observada quando queremos analisar profundamente a realidade universal. Embora o próprio Marx ao analisar a evolução histórica dos modos de produção, ao chegar no capitalismo não homogeneizou todos os continentes, ao contrário, atribuiu à Ásia um modo de produção próprio. No entanto, para fins de aprofundamento, tomou a formação da riqueza nos países mais avançados e situou-a nas formas: mercadoria, dinheiro e capital.

            Entender que, se o capital mesmo com as economias em “crise”, continua sendo acumulado, porém com conflitos, mais fora do que dentro da luta de classes, significa dizer que estamos a mercê das potências capitalistas. Portanto, não há justificativas: se não há lutas e enfrentamentos importantes, dos trabalhadores contra o capital, estamos errando. Hoje com maior clareza sabemos vemos o capital atuando organicamente, por isso a sua denominação universal é conhecida como “imperialismo” e, este, não separa economia de política, nem a guerra da acumulação ou a antiética dos desejos de dominação. Sem sombra de dúvidas, o capital ameaçador, da Rússia, da Venezuela, da palestina, dos povos originários brasileiros  etc., é o mesmo.

            Quando falamos em “crise do capitalismo” devemos lembrar que assim está desde 1873 quando, após as revoluções liberais na Europa, a superprodução abarrotou os mercados de produtos; naquele momento os próprios produtores de mercadorias não possuíam renda suficiente para adquiri-las. Marx em seus estudos revelou que as crises são cíclicas e inevitáveis. Mas isto não significa que elas por si mesmas venham asfixiar o modo de produção. Em completude ao raciocínio o filósofo István Mészáros, indicou a tarefa de superarmos o capitalismo, para tanto apontou a necessidade de controlarmos o capital. Mas qual capital? E como fazer?

            Já temos o diagnóstico de que o capital se move dando forma ao imperialismo, no entanto, parece não ser este o entendimento dos analistas e líderes políticos afoitos em defenderem os governos liberais dos seus países. Mais do que combater o capital o buscam para gerarem empregos; cedem a ele as riquezas naturais, principalmente o petróleo antes que surjam outras fontes de energia e, atuam politicamente, agarrados aos orçamentos de olho nas “responsabilidades fiscais” sem se importarem se, mesmo que involuntariamente, estejam cumprindo o papel, como faz qualquer trabalhador assalariado, quando ajuda naturalmente a formar a acumulação do capital.

            Para estabelecermos o caminho do combate e inovar as lutas, precisamos verificar as táticas e as estratégias dos inimigos dirigidas contra nós. É notável que o domínio hegemônico do poder universal está se deslocando dos Estados Unidos da América para a Ásia e, com isso, muitos partidos de esquerda e movimentos sociais abraçam com simpatia essa ascensão chinesa, como se fosse uma força aliada para a superação do capitalismo. Ninguém se pergunta, como a China está se impondo contra as forças econômicas atuais para tornar-se um novo poder imperial? A resposta é simples: pelo capital e pelas disputas dos mercados mundiais. A confiança de que a ordem na China está sendo comandada pelo Partido Comunista, único, não é nenhuma garantia de bondade. Na medida em que a base econômica privada se fortalece, ela terá mais força que a superestrutura política e jurídica. 

            Há um gasto excessivo de tempo em análises locais. Em vista das disputas eleitorais vindouras, “doença senil da esquerda”, os olhares, por algum tempo, não verão o capital imperialista, enxergarão apenas o município. No entanto, verifiquemos como o império age dando-nos o indicador da importância universal. Quando um país se levanta em defesa de seus interesses, de imediato formam-se articulações internacionais, para bloquear e isolar com pesadas punições a nação rebelada. Assim ocorre com Cuba, Irã, Rússia, Venezuela e diversos outros países principalmente os produtores de petróleo. Por outro lado, as forças de esquerda nos governos, pregam apenas a Paz e a reconciliação. Pedem dinheiro para defenderem as florestas aos mesmos que exploram o ouro e a madeira. Eles compram a carne bovina e a soja extraídas das pastagens e das lavouras extensivas postas no serrado e na Amazônia.

            A doença senil da esquerda apegada aos processos eleitorais leva a crer que, por meio da institucionalidade se alcançará a justiça e a igualdade. No entanto, todas as reformas impostas e, a cada Projeto de Emenda Constitucional -PEC – arrastam para fora do alcance dos mais pobres os direitos fundamentais, sem que os representantes políticos, endeusadores da ordem democrática de direito, possam reverter aquilo que é estrutural. O último, mais grave e vergonhoso retrocesso vimos na aprovação do projeto de lei 490, conhecido como “Marco temporal”, no qual, os povos nativos perderam o direito de demarcarem as novas áreas reivindicadas. Nem o parlamento, nem o executivo com o seu poder de veto, conseguiram impedir tal afronta.

            Com a visão metafísica da realidade, o corporativismo tomou conta das consciência e, os fiapos de categorias e classe organizadas em torno de velhas práticas, atuam em defesa de grupos também corporativos e, os partidos e forças políticas nos governos, demonstram muito timidamente, apoio às lutas mais aguerridas como é o caso do apoio e ação solidária com o Hamas e o povo palestino, quando na verdade é o momento de bloquear e isolar Israel para enfrentar o imperialismo, calam-se em nome do “direito a cada nação de se defender”.

            Para avançarmos no próximo ano precisamos superar três referências: a) o velho conceito de classe social para impulsionar lutas por meio das forças sociais; b) descartar os partidos institucionalizados ou mantê-los reduzidos às ações que correspondem à ordem se alguma disputa for interessante; para tanto necessitamos de novas formas de organizações revolucionárias; c) atacar todas as formas de capital em qualquer lugar que eles estejam, interagindo com forças ascendentes em qualquer parte de mundo como se fossem lutas locais.

            Não haverá superação enquanto primarmos pela Paz e pelo respeito aos capitais dominantes no planeta. Qualquer tentativa de conciliação significará a colaboração para que as estruturas de dominação continuem a fazer o que fazem.

                                                           Ademar Bogo

domingo, 3 de dezembro de 2023

SEM MARXISMO NÃO HÁ SOCIALISMO

                      

             O filósofo francês Henri Lefebrve (1901-1991) destacou que: “O marxismo considera-se uma concepção do homem e da história, do indivíduo e da sociedade, da natureza e de Deus; uma síntese geral, ao mesmo tempo técnica e prática, em suma, sistema totalitário (da totalidade)”.[1]

            Esse entendimento do passado e, mais fortemente a partir da década de 1970, com a onda política neoliberal, posteriormente, pontuada por algumas discordâncias, no caso brasileiro, com o neodesenvolvimentismo e o neonazismo, mostra-nos que restrições houve, foi na contenção dos gastos e nas políticas públicas; no resto, o capital continua exigindo a sua total liberdade, a propriedade privada exige a garantia da lei e da moral capitalista e, a manipulação ideológica continua presente nos púlpitos das seitas, nos discursos  tolerantes dos líderes populares, representantes de movimentos descarnados e minguados em suas forças já sem rebeldia; os partidos políticos, sustentados pelo Fundo Partidário completam o grau de acomodamento e interação com a concepção de mundo sem classes e sem confrontos.

            As pessoas, portadoras do nível de consciência situado um pouco acima da média do senso comum, criado pelos conciliadores, percebem facilmente que o capitalismo já não serve mais como modo de produção para que a civilização siga em frente. Esse sistema, podemos chamar assim, está organizado para reproduzir o capital e concentrá-lo em poucas mãos. Para que isso siga acontecendo os requisitos básicos se concentram na máxima exploração da natureza, na livre iniciativa, no direito e nas leis protecionistas combinado com o funcionamento de sociedades desiguais, uma pequena parte muita rica e a outra imensa parte miserável.

            A pergunta a ser feita a essas pessoas que compreendem ser o capitalismo um estágio terminal de muitas formas de vida e que o progresso não é benéfico quando não contempla a igualdade de renda e de condições para ter acesso aos bens de uso, se é possível enfrentar  as contradições postas em vista de outra sociedade socialista sem a teoria do Materialismo Histórico, também conhecida como Marxismo?

            Parece que dentre as concepções totalizantes citadas por Lefebrve no primeiro parágrafo, apenas a preocupação com a “natureza” está se tornando o referencial das discussões em reuniões políticas internacionais e, também impõe as suas diretrizes e demandas no que fazer dos movimentos e partidos políticos. Falta apenas uma palavra de ordem para reunir os interesses entre os governos e as classes sociais, para criar  o senso comum rebaixado, que poderia ser: “Deem-nos dinheiro para plantarmos árvores e salvaremos o planeta”.

            Foi-se o tempo em que o verde da natureza sequestrava a totalidade do carbono expelido no espaço. O progresso capitalista, sob a égide do liberalismo e, principalmente do neoliberalismo, implementou e acelerou o desequilíbrio social e ambiental. Os comparativos mostram, sem detalhamento que,  por volta do ano de 1800 quando o modelo liberalizante começou a reinar, a população mundial era de 1 bilhão de pessoas. De lá para cá, em pouco mais de duzentos anos, alcançamos uma meta  de 8 bilhões de indivíduos e, para acumular riqueza em troca de satisfazer esse grande número de pessoas, precisou desmatar, poluir, envenenar e, controlar, dominar e exaurir a natureza.

            Vemos, portanto, que parece haver um paradoxo bem na frente dos olhos das pessoas conscientes, o qual pode ser assim descrito: Os mais ricos são responsáveis pela poluição do planeta e a despoluição é responsabilidade de todos, mas isto tem um custo que os ricos precisam assumir. Mas se os ricos darão o dinheiro extraído dos ganhos fornecidos pela matriz produtiva poluidora, o que mudará no final?

            Muitas iniciativas ainda surgirão espontaneamente que mobilizarão as pessoas voluntariamente a plantarem árvores. Alguns receberão pagamentos por deixarem as fazendas intactas, mas ninguém se pergunta como será feito o controle da acumulação do capital? Quando será distribuída a riqueza acumulada? Quem educará os incendiários a deixarem de pôr fogo nas florestas? Qual governante imporá limites para o tamanho máximo da propriedade rural? Que dia se tomará a decisão de fechar todos os poços de petróleo obrigando as indústrias produzirem voltadas para as energias limpas?  E, principalmente, como os miseráveis sairão da miséria desvencilhando-se do domínio alienador das bolsas de assistência públicas?

            O estudo do Materialismo Histórico, facilmente nos remeterá a perceber as contradições atuais para saberemos como ligar as partes para formar um todo articulado. Nesse sentido, iremos descobrir que devemos apagar os incêndios, mas atacar o capital; combater a poluição, mas atacar os poluidores; solidarizar-nos com os mais pobres, mas atacar a concentração da riqueza. Valorizar e selecionar o conhecimento humano, as descobertas e os inventos, mas combater o capitalismo e lutar para superá-lo, se quisermos de fato contribuir com as novas gerações.

            Nossas tarefas são práticas, mas as práticas feitas precisam de teoria para continuarem a serem feitas. Todas as teorias que visam a superação do capitalismo, em algum grau pertencem a Histórico, mas, os socialistas e comunistas devemos sempre defender que: Sem marxismo não haverá socialismo.

                                                                                                          Ademar Bogo



[1] Henri Lefebrve. O marxismo. São Paulo: Difusão Europeia do livro, 1974