domingo, 4 de outubro de 2020

AS DUAS METADES


O filósofo Arthur Schopenhauer ao escrever “Sobre a doutrina da indestrutibilidade de nosso ser verdadeiro pela morte”, disse que, o presente se constitui de duas metades: “Uma objetiva e a outra subjetiva”. A primeira lida com o tempo e a segunda permanece sendo sempre a mesma porque se refere às lembranças e a memória. De outro modo, outros escritores já relacionaram o aspecto “objetivo” com as condições materiais e os subjetivos com a qualidade e os níveis de consciência.

O grande dilema que encontramos nesse constructo é saber se “as duas metades” corresponde uma à outra, no sentido material e intelectual. Ou seja, se a substância física, em termos de massa, tem algo a ver com a capacidade de entendimento do tempo presente e se a metade subjetiva conduz ou se submete às necessidades da metade objetiva?

Na medida em que vamos aprofundando esse raciocínio vamos também compreendendo que as duas metades contidas em um só indivíduo, começa a se estender cada vez mais para cada tempo presente da realidade social, na qual o elemento da metade objetiva cresce com a formação de grades contingentes de massas necessitadas e, a outra metade, a subjetiva, continua orientada pelo entendimento do senso comum, cada vez mais baixo e desqualificado.

Ao transferirmos a análise para as disputas políticas, espaço do tempo presente que visa atingir as “duas metades”, transformando-as em forças a favor e contra, vemos surgir dessa associação, a identidade cada vez mais permanente do “sujeito político” que, embora não tenha consciência de sua contribuição, apresenta-se como sendo o mais novo sujeito da História.

            Esse entendimento é de fundamental importância para os socialistas e comunistas posicionarem as suas forças nas disputas conjunturais e, principalmente nas transformações estruturais da sociedade, isto porque, se o capitalismo no aspecto produtivo transforma a matéria prima descartada em novas mercadorias, o mesmo ocorre com as massas humanas miseráveis que, existindo fisicamente como metade objetiva, passou a ser, por intermédio dos programas assistenciais o lugar da construção da outra metade, a subjetiva, cujo objetivo é formar a maioria para oficializar a vitória da ordem.

            Se subirmos mais um grau na análise das disputas entre as forças que se consideram aptas a governarem o país, veremos que, não se disputam projetos antagônicos, mas unicamente a memória e as lembranças que estão localizadas na metade subjetiva, separadas também em duas partes: mais antigas e mais recentes. Podemos, dessa forma, concluir que, no tempo presente, as forças partidárias igualam-se nos desejos formados na “política do imediato” e agem despreocupadas sem qualquer planejamento para com o futuro. Revelam assim que, sem ter ideia alguma que oriente para onde ir, não há o que planejar, no máximo que conseguem expor, é o que irão desconstruir.

            De volta às categorias das “duas metades”, o IBGE divulgou os resultados de uma pesquisa recente, na qual declara que, pelo menos 52 milhões de trabalhadores estão fora do mercado de trabalho; leia-se, “não encontram compradores para a mercadoria força de trabalho”. Em parte essa realidade foi agravada pela Pandemia, que levará a culpa pelo não crescimento econômico, mas não é verdade. O fato é que a diminuição de vagas nas empresas empregadoras vem caindo desde a década de 1990. Isso nos diz que não adianta sonhar com perspectivas melhores para depois da Pandemia, porque a rejeição de grandes contingentes de trabalhadores, na senilidade precoce do capitalismo, tornou-se estrutural.

            No entanto, se do ponto de vista econômico essa “metade objetiva” da força de trabalho é descartada, do ponto de vista político ela passa a ter um valor de disputa cada vez maior. Serão essas massas que decidirão as disputas eleitorais do futuro por meio da venda antecipada, estruturadas com o dinheiro público na forma de “Programas assistenciais”. Essa vem sendo a lógica da argumentação dos governos que saem e continuada pelos governos que entram, quer-se mesmo é disputar a memória e as lembranças, mais antigas e mais recentes.

            Essa dinâmica que visa “sequestrar a metade subjetiva” das grandes massas invalidadas para o emprego, vitimou as forças de esquerda que se posiciona sobre a memória do passado, como o passageiro que perdeu o ônibus e corre acenando para que ele o espere no próximo ponto. As forças de direita sabem que a memória do passado permanece se houver consciência, caso contrário prevalecem as lembranças mais recentes que se movem pela gratidão e, para isso, basta melhorar um pouco o preço da cooptação assistencial.

            Em síntese, os programas assistenciais tornaram-se desde a década de 1990, a energia para mover a “indústria da cooptação” da metade subjetiva das massas pobres desorganizadas e também das categorias organizadas em movimentos sociais. Essas práticas levaram a formar gratidão e não consciência.

            A bem da verdade, as forças de esquerda perderam o rumo desde que o movimento sindical deixou de ser a força representante da classe, principalmente operária, que insurgia-se contra o capital em defesa do trabalho e dos trabalhadores e o partido político, como parte consciente, tinha como objetivo e finalidade a realização da revolução. É certo então, que não sabendo como lidar com essa nova realidade “objetiva e subjetiva” e sem saber para onde devem rumar, os partidos de esquerda ficam cada vez mais mansos e identificados com a ordem capitalista dominante.

            A realidade social atual exige que, surjam novas organizações que saibam combinar a metade objetiva com a metade subjetiva e se proponham, conscientemente, a planejar para alcançarem a finalidade que é a superação do capitalismo. Até lá, os desvalidos da economia, serão os validadores da democracia e defensores do Estado e de governos capazes de comprarem antecipadamente os votos que asseguram e legitimam a sociedade desigual que se asfixia com a própria corda da barbárie.

            A metade objetiva será verdadeiramente força revolucionária quando a parte subjetiva estiver enraizada na consciência e não apenas em lembranças saudosistas.

                                                                                  Ademar Bogo

             

domingo, 20 de setembro de 2020

DO CAPITALISMO UTÓPICO AO SOCIALISMO CIENTÍFICO

Devemos a Friedrich Engels a formulação da tese denominada de “Socialismo científico”, explicação sobre a transição para o comunismo que Karl Marx fundamentou tão bem na crítica feita ao capitalismo, demonstrando que este modo de produção se encarregaria de produzir as contradições para a sua própria superação.

            Ao lançarem mão da ciência, Engels e Marx deram-se conta que o processo de superação do feudalismo ocorreu fundamentado no avanço das forças produtivas e na inovação das relações sociais, principalmente aquelas produzidas pelo sistema mercantil que não poderiam acontecer sem que houvesse uma classe apaixonada pela transformação radical da velha sociedade. A constatação de que, quando a Europa saiu da Idade Média, a classe média urbana era a força revolucionária existente. Ela vinha sendo criada ao logo do tempo e, aos poucos, a sua existência foi ficando incompatível com o regime feudal.

            Junto com a ascensão da burguesia, na modernidade, pelo menos a trezentos anos antes da revolução francesa de 1789, ressurgiu a ciência, a filosofia, a arte e a literatura que, cada uma a seu modo encarregaram-se de realizar o esclarecimento das visões ingênuas que vinham ainda dominadas pelos mitos do passado.

            O que a burguesia fez na Europa no período da transição, faz inveja a quem procura soluções para a apatia revolucionária dos tempos atuais. Sem deixar de fazer a disputa, no campo econômico contra a nobreza feudal, impondo, em meio à repressão militar e política as relações mercantis, Engels identificou três grandes batalhas que foram decisivas para enraizar o processo de avanço revolucionário: a reforma protestante incitada por Lutero que motivou duas grandes insurreições na Alemanha, em 1523 e em 1525; a segunda também como reforma protestante, foi liderada pelo francês João Calvino, que influenciou a partir de 1535 a criação de movimentos insurrecionais na Suíça e na Inglaterra. A terceira trata da insurreição motivada também pela influência calvinista, foi a “Revolução Gloriosa” na Inglaterra em 1689.

            Isso parece pouco, mas impulsionou a formação de uma base intelectual que influenciou o surgimento de pensadores na política, para citar apenas alguns, como na política, Maquiavel e posteriormente os diversos “socialistas utópicos”, na ciência como Francis Bacon; na filosofia, entre outros, Renné Descartes, John Locke, Rousseau, Kant;  na economia Adam Smith; u seja, em todas as áreas do conhecimento foram inovadas.

            A culminância do processo de transição dar-se-á, simbolicamente na Revolução Francesa, que será complementada pelas revoluções liberais ocorridas na grande maioria dos países europeus a partir de 1830 até 1852.

            Se voltarmos no início da Idade Média, iremos perceber que a nobreza feudal, formara-se dentro do modo de produção escravista e que, desde o século primeiro, d.C. começara o deslocamento para a agricultura, organizando os feudos e transformando os escravos em novos servos, a classe auxiliar de sua sustentação. Quando Império Romano caiu no século V, não havia praticamente mais poder algum centralizado em Roma; ele já estava distribuído pelos diferentes reinados.

            Isso tudo nos instiga a pensarmos na superação do capitalismo por meio da indicação de que deveremos construir o período de transição denominado de “socialismo científico”, tendo como fundamento, o próprio avanço do capitalismo.

            Como indicações para o estudo, devemos pensar que, embora os acontecimentos históricos e os processos revolucionários não se repetem, mas servem de lições e indicações do caminho a seguir. Em primeiro lugar, devemos perceber que a superação de um modo de produção por outro, se dá porque, o primeiro entra em decadência; não responde mais as necessidades de todas as sociedades, como foi o caso do escravismo e do feudalismo e já está sendo o capitalismo. No entanto, pela visão histórica, na infra-estrutura do sistema anterior forma-se uma base material que como substância física precisa de um lugar, e, como dois corpos físicos não podem estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, ela se impõe sobre a base econômica anterior.

            Em segundo lugar, formaram-se bases intelectuais de análise e proposições que atacaram todas as posições que já davam sinais de insuficiência gnosiológica, ou seja, teórica, como também àquelas que se aparelhavam para proceder a produção ideológica que falseava à visão da realidade como, as religiões, as concepções educacionais, as compreensões dos verdadeiros problemas filosóficos e sociológicos das identificações e as proposições econômicas e políticas sem alcance de superação.

            Não podemos negar de que muitas confusões e limitações que ainda existem estão no modo de compreensão das relações atuais, em que, grande parte das forças de “esquerda” possuem na cabeça a superação do capitalismo real, pelo “capitalismo utópico”, e visam inserirem-se por meio dos governos na estrutura do Estado para realizarem as melhoria ordenadas pela Constituição Federal. E, por outro lado, atuam atreladas às religiões por motivos óbvios, de que são os espaços de aglutinação popular e também, por outro lado, temem o desgaste pelos ataques da velha moral conservadora.

            No aspecto econômico, falta-nos uma interpretação adequada ao processo de sustentação do movimento revolucionário, como os procedidos no passado, dirigidos pela nobreza feudal e pela burguesia moderna. O que tivemos em comum nesses dois processos, foi a criação de uma base econômica que impôs novas relações de produção. No caso dos feudos a substituição natural do escravo pelo servo, levou a afirmar a forma de produção feudal, baseada na “Corveia” (pagamento em dias de trabalho) ou a “Talha” (pagamento em produto).

            Para superar o feudalismo a burguesia agarrou-se à forma mercadoria e, com ela criou algo que a antecede, que é a indústria, e algo que a sucede, que é o mercado. Para produzi-la e comercializá-la criou o proprietário da força de trabalho que pode vendê-la como uma mercadoria, porque, não sendo proprietário dos meios de produção, se quiser viver, terá que trocar a força de trabalho pelo salário.

            A pergunta que as forças de esquerda e intelectuais com ela ou não envolvidos, não conseguem responder é: se a nobreza, para superar o escravismo, criou a sua base econômica nos feudos, e, se a burguesia, para superar o feudalismo criou a indústria e o comércio, qual será a base econômica a ser criada pelos trabalhadores para superar o capitalismo?

            Parece uma pergunta sem resposta, isto porque, se o trabalhador é proprietário da força de trabalho ele depende do mercado para encontrar um comprador para vendê-la, que é o mesmo sujeito burguês, dono da indústria e do comércio. Os próprios trabalhadores que trabalham em cooperativa ou agricultores que não vendem força de trabalho dependem do comércio para distribuírem os seus produtos.

            Por outro lado, a resposta à mesma pergunta é bastante simples, se aplicarmos o paradoxo da vida e morte. Ou seja, quando os burgueses lutaram para implementar o modo de produção capitalista, aceitaram e submeteram-se às leis da própria formação da riqueza que se resume em três formas: mercadoria, dinheiro e capital. Nesse sentido, para ser rico, um burguês precisa ter uma ou as três formas de riqueza e obedecer as leis econômicas que se localização na produção, concentração, centralização e expansão do capital.

            No entanto, como burguês não produzia a sua riqueza, sozinho, ele teve de transformar o antigo servo em proprietário de sua força de trabalho para comprá-la. Foi, portanto, essa força de trabalho que produz a riqueza historicamente, mas, devido uma lei da produção, que denominada como “mais-valia” ao explorar a força de trabalho, retira do trabalhador o salário que ele recebe e mais a parte que ficará acumulada como excedente e que, anexado ao valor investido, faz crescer o capital e a riqueza.

            Se a nobreza feudal criou o feudalismo, ela não poderia ser a força discordante para vir a criar o capitalismo. Da mesma forma, se a burguesia criou o capitalismo, não será ela que se interessará por destruí-lo. Logo, como lemos na teoria do “Socialismo científico”, o socialismo virá pela luta dos trabalhadores. Mas qual seria a base econômica destes para implodirem o capitalismo? A mesma que sustenta os capitalistas.

            Não há outra alternativa. Toda riqueza, seja ela vinculada à mercadoria, na acumulação do capital e o dinheiro, tem a sua origem na extração da mais-valia, ou se quisermos, no trabalho não pago aos trabalhadores. De modo que, ao longo da História do capitalismo, os trabalhadores ao produzirem a riqueza para os burgueses, produziram também a sua base material, para superarem o modo de produção capitalista. Falta criar as condições para apossar-se desta riqueza e distribuí-la. Isto não pode ocorrer no capitalismo, precisa ir além.

            Os capitalistas utópicos de esquerda que desejam “humanizar” o capitalismo fazem um grande mal aos trabalhadores e as massas desvalidas, porque, prolongam a agonia dos sofredores que depositam esperanças em processos falseadores, como as disputas eleitorais; as políticas públicas; as ajudas emergenciais etc., fazendo com que, as revoltas semelhantemente as que a burguesia fez para implantar o capitalismo, sejam adiadas e o capitalismo decadente continua a fazer vítimas.

            Tudo depende de atitudes. Elas precisam marcar posição em todos os sentidos, mas, principalmente na política, que remete a ter que fazer escolhas e tomar decisões. Enquanto os representantes dos trabalhadores acreditarem em soluções capitalistas, a burguesia continuará sendo classe dominante.

                                                                                  Ademar Bogo

domingo, 13 de setembro de 2020

OS PONTOS DE CRISE

         Em grande medida, nas análises de conjuntura feitas virtualmente por parte de cientistas políticos, economistas, historiadores, lideranças políticas, predomina a referência da palavra “crise”, que vem acompanhada de múltiplos adjetivos, como: econômica, política, social, ecológica, sanitária, educacional, cultural, ética e moral, dentre outros. Na verdade, o que temos em pauta há pelos menos duas décadas nas práticas reflexivas, é uma tremenda confusão no entendimento do que significa um estado de “decadência” e outro de “crise”.

            Para facilitar o entendimento hermenêutico da das palavras e a razão do uso das mesmas devemos entender a situação como o fez Gyögy Luckács quando escreveu a “Ontologia do ser social”, expressando-se ali da seguinte forma: “É preciso ver Hegel do mesmo modo como Marx via Ricardo: No mestre, o que é novo e significativo se desenvolve arrebatadamente, em meio ao ‘esterco’ das contradições, dos fenômenos contraditórios”. Ou seja, muitas visões desenvolvem-se junto com a visão que pretende ser dialética e que a contaminam.           

É evidente que os “mestres analistas”, com seus respeitados méritos, ao mergulharem nessa profunda fossa céptica, trazem para fora, os adjetivos enlameados e os colocam na grande peneira do “ilusionismo político” confundindo-a como sendo o espectro da crise que, ali, após um curto espaço de tempo, talvez, menos de uma hora, secam como folhas verdes postas ao sol. A razão disso não está apenas no ponto de partida da análise que adjetiva os aspectos das contradições, mas na quantidade de “esterco” que confunde decadência e crise.

            Ao descermos até a definição originária do conceito de “crise” percebemos que seu uso e colocação na análise estrutural do capitalismo, na atualidade, é inadequado. Krisis, no vocabulário grego significa: “escolha, seleção, decisão”. No Latim, “crisis”, significa, “momento de decisão e de mudança súbita”. Os historiadores nos dizem que na antiguidade, a medicina tinha, tanto para a cura quanto para a morte pontuados os períodos a cada sete dias. Com base nas definições originárias do termo, queremos mostrar aqui que, “não vivemos um tempo de crise”, mas sim de “decadência” e, as condições para sairmos dessa situação remetem a termos que elevar as verdadeiras contradições para fora do “esterco da política institucional”, interrompendo a queda em direção ao aprofundamento da decadência para o estado de crise onde se possa tomar conscientemente algumas decisões.

            Entendemos que esta é a razão do porque, a grande maioria das análises não conseguem apontar para “quefazer” que tenha consistência. No estado de decadência, a pressão estrutural puxa para baixo todos as forças como se fosse um objeto em queda livre, que tem apenas como resistência o atrito do ar e, mesmo que vez em quando haja uma suposta parada, o processo de queda não se interrompe e o destino é a barbárie. A única maneira de interromper a queda é posicionar as forças contrárias para que provoquem a crise que abre possibilidades para as novas contradições.

            É isso que devemos entender quando dizemos que devemos “elevar as contradições para o estado de crise”. É justamente deixar de ser coniventes com a decadência e coadjuvantes das classes burguesas, tentando ajudá-las encontrar soluções para a decadência do capitalismo que nos leva a degraus cada vez mais baixos. Dizemos isto porque, essa prática tem se tornado uma regularidade no comportamento das forças de esquerda, nas últimas décadas.

Para que comecemos a pensar, basta observar o que foi a transição e saída da ditadura militar e implantação da ilusória democracia. Todos os esforços para a realização das eleições diretas, na base do entendimento, havia a intenção de concertar os estragos feitos pelos militares. A ilusão de que o processo nos havia empurrado para cima, com o neoliberalismo vimos a decadência puxando-nos para baixo. Então interferimos para frear o movimento de queda, e conseguimos gerenciar por 13 anos o capitalismo mas, reiniciou o movimento decadente, veio  o golpe de 1916 e depois, a volta dos militares ao poder pelo voto direto, a mesma arma construída com o movimento das “Diretas já” de 1984. Quais foram as respostas para impedir o avanço da decadência para um degrau mais baixo? “Fora Temer”, “Lula livre”, “fora bolsonaro”; “Pagamento de R$ 600.00”, “Eleições municipais”.   

Esse processo nos mostra claramente que não há “crise” porque contra a decadência  não há resistência. No máximo que estamos assistindo é o desejo de voltar a governar o país em um degrau ainda mais baixo da decadência em direção à barbárie. Para fins de tornar didática a explicação, situaremos a decadência em três aspectos fundamentais: a) do capitalismo; b) dos processos revolucionários; c) da cultura intelectual

            Em primeiro lugar, o destaque para o estado de decadência e não de crise do capitalismo, pode ser compreendido por todos estes aspectos adjetivados nas análises já citadas. O sistema capitalista, estruturalmente está em decadência e já entrou na fase destrutiva. A reação é a de qualquer indivíduo que, ao iniciar uma queda, busca sustentar-se em qualquer coisa que esteja ao alcance das mãos. Como o capitalismo não encontra nada que suporte o seu peso, tudo, das grandes as pequenas coisas, estão sendo puxadas pra baixo. Daí a sensação de que tudo está em “crise”, na verdade tudo está decaindo: a economia, a política, a cultura, a ética, o bom senso, os direitos etc., porque o capitalismo não tem mais repostas a dar para o seu próprio envelhecimento precoce.

            Em segundo lugar temos a decadência dos processos revolucionários que, tendo sido desclassificados pelo sistema estrutural das classes produtivas e pelo encantamento do legalismo político, que fetichizou o poder, oferecido para as esquerdas na forma de conuista governamental, e não como conquista e superação do Estado, rebaixou também o alcance da estratégia, fazendo com que os processos não tenham um fim preconcebido. Luta-se para alcançar os meios (governos) que realizariam os fins, como, o emprego, a moradia a educação para todos etc., sem considerar que a finalidade maior seria a superação do capitalismo.

            As mudanças nas relações de produção destruíram as formas clássicas de organização, sindical e partidária, isto porque a primeira era a base de sustentação da segunda. Na medida em que não há organização da classe o partido deixa de ser o represente o veiculo transportador da consciência de classe.

            E, em terceiro lugar é a decadência da cultura intelectual. Estamos passando por um momento piorado àquele vivido por Kant, que enfrentou o racionalismo e o empirismo que disputavam a supremacia do conhecimento, no entanto, havia a classe burguesa que fustigava com toda a sua consciência individualista, para que se encontrasse uma justificativa para derrotar os reis, o poder feudal e o Direito Natural. Kant “ao despertar do sono dogmático”, estruturou a explicação dos tipos de juízos. O “analítico” que não traz conteúdo nenhum, apenas repete o que se diz do sujeito: exemplo atualizado: “o governo é entreguista”, o predicado repete o que é o sujeito. O juízo sintético, baseia-se nas experiências particulares feitas; exemplo atualizado “A solução está no voto”.  No entanto, Kant demonstrou que se a burguesia como classe ascendente se quisesse conhecer deveria “criar novos juízos” que surgissem de sua própria razão e se tornasse prática social.

Atualmente vivemos pressionados pelo “espiritualismo conservador” e o “anti-comunismo neo-nazista”, sem a força de classe que instigue para que, tanto a intelectualidade quanto as organizações partidárias, sintam-se preocupadas para criarem “os próprios juízos”, propondo a superação do capital, do Estado capitalista, do Direito positivo e da moral conservadora. Sem isto, permaneceremos misturados ao “esterco das contradições” criadas e impostas pelos anúncios da distração burguesa que, ao posicionar-se, intencionalmente arrasta todos os analistas, por uma semana, para divulgar o factóide desviante das atenções.

O enfrentamento à decadência que ruma ao estado de barbárie, se faz mediante a colocação de “Pontos de crises” que visem a contaminação da totalidade do sistema. Os “pontos de crise” começam por impedir a decadência e isso se faz com, mobilização, elaboração, organização e consciência.

                                                                                                       Ademar Bogo

                                                                        

 

           

                                                                                                          

domingo, 6 de setembro de 2020

ESTADOLATRIA

            O filósofo Antônio Gramsci, cunhou este conceito de “estadolatria”, para explicar o comportamento de grupos sociais, que se colocam a favor do Estado o qual abriga o “governo dos funcionários” que, se por um lado aparenta ser uma opção necessária, jamais pode tornar-se um fanatismo prático e teórico.

            O Estado representado pelo “governo dos funcionários” tornou-se o invólucro da forma política que, tanto as forças de esquerda ou as de direita, no comando de seus partidos políticos, tentam romper, penetrar nele e governar de dentro para fora. A “estadolatria”  tornou-se um sonho de consumo a ser alcançado por aqueles que compreendem ser a política a arte de reunir forças para pintar a “ordem democrática”, com as cores de  suas crenças, sem mexer nas estruturas do sistema de dominação.

            Nas crises econômicas e sociais as cores e as crenças enquadram-se na institucionalidade para dar forma ao Arco-Íris, como ocorreu no passado, quando Noé saiu da Arca depois do dilúvio e entregou a Jeová os animais salvos. Recebeu em troca, como aprovação do que havia feito o arco de cores que tocava o céu e a terra. Apesar de todas as mortes, a ordem moral divina foi continuada, mas, os animas em busca de alimentos, penaram por um longo tempo, sem nenhuma orientação, guiados apenas pelos instintos naturais, até que a terra enxuta refez as paisagens e ofereceu o novo alimento.

            A pandemia do Covid-19 é o novo dilúvio. Os humanos como animais recolhem-se em suas arcas e alimentam-se com aquilo que “noé” lhes oferece. No, entanto, alto se vê todas as cores movendo-se para formar o “arco-íris” que virá para “moralizar a ordem”, com as forças partidárias que, por unanimidade concordam com a “estadolatria” e que o “governo dos funcionários” deve transformar o auxílio emergencial em auxílio permanente, até que a terra arrasada pela doença refaça a vegetação para que “os rebanhos” imunizados, possam encontrar formas de subsistência. Quanto a isso há total concordância, o único ponto discordante é se o auxílio deve ser de R$ 600,00 ou 300,00 reais.

            A “estadolatria” é tão dominadora que antes mesmo do dilúvio estar amenizado, “Noé”, agora encarnado pelas forças partidárias, libera os “animais políticos”, como diria Aristóteles, para que saiam das “arcas” e sigam para as urnas para confirmarem a harmonia da velha divindade da “ordem democrática burguesa”, com o povo faminto, tornando assim, o “direito ao voto”, a ação mais radical que se poderia desferir para contestar o poder do capital e o projeto neoliberal. Sendo assim, conforme o filósofo Hegel, o Estado, como o “espírito absoluto”, entra com R$ 300, 00 reais e, as forças de esquerda oferecem os pobres, como Noé ofereceu os animais salvos, para afirmar a tática eleitoral, suprassumo de processos políticos cooptadores e sequestradores do senso crítico.

            As evidências de que a política contestatória perdeu o conteúdo é indiscutível. As várias décadas da “estadolatria” fez com que, no âmbito das disputas políticas, as confrontações ficassem presas ao sim e ao não: “menos Estado”, “privatizações”; “liberação para compra de armas” etc., e, nada de buscar alternativas para a superação do capitalismo.

            A “estadolatria” fez esquecer os conceitos válidos produzidos pela ciência política que levou ao triunfo as revoluções em países, tidos na teoria de Gramsci, como tipos “Orientais” e “Ocidentais”; as primeiras caracterizadas por realidades econômicas e sociais, incipientes ou “gelatinosas” como foi o caso da Rússia e da China; as segundas, lastreadas por fundamentos mais estruturados.  Nestes países também foram confrontados os dois conceitos de guerra de “posição” e de “movimento”, quando, a primeira, devido à existência de sociedades menos organizadas, com classes sociais menos estruturadas, foi a forma escolhida pelos países que pensaram em um processo de decisão rápida, ou de tomada pela força o poder do Estado.

            Por outro lado, os países de estrutura mais consistente, os “Ocidentais”, segundo Gramsci, teriam que impulsionar outro processo político denominado de “guerra de movimento”. Nesse as forças irão conquistando posições e,  aos poucos chegarão ao triunfo. Essas duas formulações induzem a pensar também, nas formas organizativas, ou mais propriamente, partidárias. Para a “guerra de posição”, necessita-se de um “partido de quadros” e, para a “guerra de movimento”, que vai acumulando forças e ganhando espaço dentro das estruturas sociais, a referência é para a organização do “partido de massas”.

            Diante do processo de globalização, das economias nas últimas décadas, a centralização e comando da política, pelos capitais produtivos e especulativos, que se lançam sobre os territórios tolhendo as soberanias nacionais, em termos de conceitos, somos “sociedades Ocidentais” ou ao contrário, “sociedades Orientais”? E se somos, uma ou outra, que forma de organização precisamos estruturar para fazermos os processos apontarem para a superação do capitalismo?

            Todas as análises nos levam ao entendimento de que, o uso das tecnologias interfere violentamente nas formas produtivas e desmancham a ordem tradicional iniciada na Revolução Industrial. As classes trabalhadoras que anteriormente se formavam, conscientizavam e agiam reunidas no mesmo local de trabalho, foram dispersadas e, os processos de produção, circulação, troca e consumo tendem a se dar por meio da informalidade, na qual o  indivíduo sobrepõe-se à coletividade. Nesse sentido, embora pareça confuso, os avanços tecnológicos não fizeram as sociedades avançar para o tipo “Ocidental”, pelo contrário, do ponto de vista social e político, fizeram-nas regredir para as sociedades de tipo “Oriental”, com características acentuadas de propensão à barbárie.

            Parece então que, se os processos “noelinos” de entregar os pobres para serem atendidos pelas políticas emergências, como os animais que desceram da arca, famintos e sem consciência esperaram que a natureza rebrotasse, enquanto o chefe recebia o Arco-Íris e o reconhecia como a aliança institucional, política e moral feita, não é o suficiente para mudar a correlação de forças, nem tampouco conseguirá mudar os rumos da política.

            Temos duas indicações de sociedades de tipo “Oriental” que nos mostram a necessidade de organizarmos o “Partido de quadros”, ou se quisermos de militantes conscientes, para conduzirmos em cada país o processo de superação do capitalismo, que foram as mobilizações na Grécia de 2013 e as do Chile em 2019; ambas acomodadas depois de um tempo de ações e resistência, por falta de um partido consciente que pudesse encaminhar os esforços para o desfecho vitorioso.

            A juventude, trabalhadores e intelectuais teremos que escolher entre, assistir o velho Noé representar, por meio da malfadada democracia representativa, que reduz a vontade da maioria ao poder de um grupo, deixando ao povo a única saída do voto, ou superar o “velho” líder e a velha forma de reunir cores para formar o Arco-Íris que encanta, mas não suplanta.

                                                                                                                 Ademar Bogo

domingo, 30 de agosto de 2020

MANSIDÃO E BRUTALIDADE

                O italiano Antônio Gramsci, vivido na primeira metade do século vinte, elaborou e discorreu mesmo na cadeia, sobre diversos temas que, vez em quando ressurgem atualizados como este da “Espontaneidade e direção consciente”.

            Para ele “a espontaneidade pura não existe”, isto porque, ela não funciona como na mecânica. No entanto, sendo o movimento espontâneo uma característica das classes subalternas, o problema maior que ele traz em si é a falta de uma “direção consciente”. Há muitíssimas formas de direção encarnadas na espontaneidade das massas, mas nenhuma delas ultrapassa o nível da “ciência popular”, ou se quisermos do “senso comum”; e é essa concepção de mundo que, segundo Gramsci, se opõe ao marxismo.

            Essa forma de fazer política equipara-se ao nível da visão histórica do folclore e da feitiçaria convertidas em “ciência política”; hoje podemos dizer ela se reduziu                                                   às mensagens escritas nas redes sociais. Isto também, segundo Gramsci é uma “teratologia”, ou seja,  uma especialidade médica que estuda as anomalias da gravidez. Mas a palavra nos inspira a convertê-la em “teatrologia intelectual”, que seria o estudo da performance teatral dos contextos conjunturais. Podemos citar como exemplo, a oscilação para cima que teve ultimamente a aprovação do governo. E o que faz a “teatrologia intelectual” contrária? Estuda o por que dessa performance de direita das massas? A resposta é curta. Porque não existe espontaneidade consciente. Para que haja consciência de massa de esquerda e, mais ainda, revolucionária, precisa existir uma ou várias direções conscientes e revolucionárias que estejam vinculadas, por ideias, propostas, objetivos, ações etc., e não apenas programas assistenciais como aqueles que sustentaram o “lulismo”, até o dia que o neo-fascismo ofereceu mais em dinheiro. 

            Diante disso é possível dizer que, estando as direções “folclóricas”  no nível do senso comum, enquanto as reações espontâneas de descontentamento não acontecem, as mesmas direções tidas como “conscientes” ficam inoperante, pois, não sabem o que fazer senão “teatralizar” por meio de eventos políticos, mas que, pela repetição, tornam-se folclóricos e  ficam cada vez menos atrativos, como é o caso das eleições. No passado elas empolgavam as massas porque havia alguma recompensa imediata; agora, com as proibições de doações, os currais eleitorais foram transferidos para o sistema virtual, no qual o esforço reside no movimento dos contrários da informação: afirmar e desmentir.

            A espera da espontaneidade, sem uma direção consciente e capaz de orientar as massas, é o mesmo que parar e esperar pela própria morte. Um exemplo bastante ilustrativo pode ser rememorado através das mobilizações de 2013 que ocorreram no Brasil. É verdade que, infladas pela mídia de direita e dirigida pelas redes sociais e grupos neofascistas, conseguiram afastar os partidos e os movimentos organizados dos postos de comando. É uma lição a ser aprendida. A espontaneidade contribui para ambos os lados, direta e esquerda, quando uma direção consciente se vincula, desde que as reações apontem para recompensas ainda maiores daquelas imaginadas pela “ciência popular”.

            Nisso, parece que,os “artistas da teatralização” que se utilizam das ideias de Gramsci para fortalecer a concepção da “revolução pacífica”, pela via eleitoral, esquecem de, como ele, fazerem a distinção  entre elementos puramente “ideológicos” e elementos da “ação prática”, entre a sustentação da espontaneidade como “método” de transformação histórica, e os politiqueiros que sustentam a espontaneidade como forma de fazer política no nível do senso comum.

            Para os marxistas, em toda a História do capitalismo, as crises econômicas são inevitáveis. Elas são criadas no próprio movimento de ascensão do capital e, por isso, ninguém pode evitá-las. A orientação materialista histórica sempre foi para que as forças revolucionárias estejam preparadas para estes momentos de acasos.

            No intrigante momento em que vivemos, no qual confluem para o mesmo lugar, a mansidão das massas e a brutalidade das autoridades governamentais, as forças de oposição encontram-se alijadas do processo. Por quê?  Só há um processo que alimenta em si o movimento dialético de afirmação e desgaste. Não existe outro processo em vias de avolumar-se para estabelecer um enfrentamento entre os elementos contrários no movimento da totalidade da política. Ou seja, se há contradições elas estão polarizadas no próprio governo e não entre o governo e uma reação contrária de esquerda.

            Confiando no desgaste político do governo, devido ao uso de métodos que prezam pela “brutalidade vingativa”, e o descaso pela vida, as forças de esquerda apoiam a agenda “humanitária”, como foi o caso da ajuda emergencial, no entanto, cruza os braços em termos e não se move para elevar o nível de consciência e organização das massas, que ainda guardam nos recantos da memória, a dinâmica da troca assistencial do coronelismo, com um agravante, de que, se antes as práticas coronelistas controlavam as massas em redutos locais, agora, essa base ampliou-se para um controle coronelista federal.

            Iludem-se aqueles que, pelo PT ter governado por 13 anos o país, que isso seja, na memória social coletiva, um “patrimônio histórico” indestrutível. Esquecer de considerar que esse patrimônio foi construído sobre os ombros frágil de, um agora idoso líder chamado Lula, próximo a sair de cena, fará cair o patamar da aceitação de outros indivíduos que não sejam da elite coronelista ou representante dela, é desconsiderar o movimento dialético para trás.

            A brutalidade coronelística nunca deixou de ser um método eficiente de fazer política no Brasil. Por intermédio da memória da figura paterna enérgica que se estendeu para o poder judiciário, vinculado a coação jurídica e policial sobre os grandes contingentes populacionais empobrecidos e perseguidos cotidianamente, a voz de uma autoridade forte, cria um sentimento dúbio que mistura temor e admiração. Foi assim que os militares voltaram ao governo, não apenas por seus méritos, mas também por conivência das forças de esquerda que confiaram no Estado, no emprego e nos programas assistenciais, como eixos da condução política. Estes são os mesmos eixos utilizados pelos capitalistas e malfeitores que hoje governam o país.

            Sendo assim, ao tirar de alguém as mediações daquilo que ele sabe fazer, torna-se inútil. Na família ninguém gosta de pais inúteis, assim como as massas não gostam de inúteis na política. É o que vemos acontecendo com as esquerdas fora do governo, estão ficando cada vez mais inutilizadas e, dento dos governos, concorrem para saber quem é mais eficiente no embelezamento do capitalismo. Ou seja, aonde foi colocada a perspectiva de transformação social?

            Por fim, mansidão e truculência na política e na vida social, não deveriam, mas podem não ser contraditórias e sim complementares. Culturalmente, o patriarcalismo impôs o poder paterno; o machismo o poder do macho; o capital o poder de exploração; o Estado o poder das leis; a religião o poder moral; o racismo o poder do branco e, o coronelismo, o poder político. E os defensores da política do senso comum querem desmanchar tudo isso com as esparsas disputas eleitorais?

            Conscientemente devemos acreditar que, a espontaneidade que virá pela onda de reação das massas, não será favorável às esquerdas se elas não assumirem agora uma posição que aponte para a superação do sistema que gera a miséria, a fome, a doença, o analfabetismo, o autoritarismo, o fascismo, o racismo, a exploração e a dominação capitalista. Emprego e política pública são oferecimentos do descaramento daqueles que querem manter a ordem manejando o Estado, por meio das disputas eleitorais. Faz parte da capacidade de uma elite de esquerda que se profissionalizou alimentando as ideias do senso comum. Essas ideias e essas forças devem desaparecer, se o marxismo voltar a ser a verdadeira ciência dos movimentos revolucionários a serem com ela construído.  

                                                                       Ademar Bogo

domingo, 23 de agosto de 2020

CRISE OU DERROTA DA RAZÃO


            O filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677), ao tratar “A servidão Humana ou a força dos afetos”, procurou dar atenção à razão, mostrando que, “quem vive sob a condução da razão se esforça, tanto quanto pode, por retribuir com amor ou generosidade, o ódio, a ira, o desprezo  etc., de um outro para com ele”.

            Do ponto de vista da bondade, o filósofo nos mostrar que, quem se conduz racionalmente se esforça para não ser atingido pelos afetos contrários, e poderíamos chamá-los de “irracionais”. Esse entendimento, de forma simplória, nos apresenta um retrato da civilização contemporânea, que nos levaria associar as duas denominações: “crise da razão” ou “derrota da razão”.

            O período mais intenso do embate sobre a razão ocorreu deu na modernidade. Os acertos feitos por Immanuel Kant pareciam ter pacificado o conflito entre os racionalistas e os empiristas, mas, na medida em que a ciência e a tecnologia ganharam expressão no âmbito da civilização capitalista, o próprio emprego da razão, ao penetrar em todos os espaços, serviu mais à competição e a concorrência do que aos cuidados e a formação da consciência social, trazendo para os dias atuais, ondas de reações, irracionais, imorais e anti-sociais.

            Na contramão do que pensou Spinoza, a civilização capitalista construiu relações que tornou vencedores aqueles que não se conduzem puramente pela razão, mas sim, pela alienação. Portanto, aqueles que deveriam retribuir generosidade para os outros que agem com ódio, ira e desprezo, encontram-se exprimidos entre as paredes do senso comum cooptado e a exaltação da tecnologia.  

            A superação repentina pela globalização das relações estruturadas, orientadas pelas ideias bibliográficas, formadas pelas diferentes concepções conservadoras, progressistas e revolucionárias, trouxe enormes dificuldades para o aprofundamento do conhecimento. As redes sociais hoje manobram, como diria o filósofo Hegel, os “espíritos”, fazendo que o tempos de trabalho e de estudo sejam engolidos por um só tempo,  o da superficialidade da informação.

            O pensamento crítico, de reflexões profundas, diante das multidões mal informadas, mas seguras de que “estão por dentro”, desfez-se das categorias estruturantes das análises e voltou-se para esclarecer os efeitos, em grande medida, fantasiados pela ideologia das classes dominantes que atuam criando ondas de hegemonia por meio de conceitos que visam alimentar a falsa guerra do bom contra o mal.

            Dominada pela “democracia representativa”, a humanidade, sob o domínio das redes sociais e da própria mídia tradicional, passou a acreditar no oposto de que essa suposta conquista se opõe ao “totalitarismo”. Aristóteles, na Antiga Grécia já havia igualado as duas formas de governo como sendo a mesma coisa, “o governo de um” e “o governo de um grupo”.

            A crise ou a derrota da razão levou ao domínio das forças políticas e sociais obrigando-as a se colocarem diante do mesmo comando, formado pelo capital produtivo, mas, principalmente pelo capital especulativo. São esses dois senhores que, atordoados pelas sequentes crises, manejam as servidões, em parte impositiva e, em maior parte voluntária.

            Diante dos avanços tecnológicos, nos encontramos atordoados pelo dilema do “quefazer”. Aparentemente revivemos os tempos do início da revolução industrial inglesa, quando os operários, ao verem os empregos sendo suprimidos pela presença das máquinas, sem sucesso, optaram por destruí-las. Nosso dilema é ainda maior porque a intervenção tecnológica não desarruma apenas o mundo do trabalho, mas também a ordem das organizações e a capacidade das ideias para enfrentar a alienação cultural dominante.

            É uma “engenharia do caos” como disse Giuliano da Empoli, que cria e manobra as circunstâncias de fazer com que o mal venha para o bem. Ou não é? O que está ocorrendo no Brasil hoje é o espelho de que as perversidades e ofensas são relevadas quando se dá a recompensa. A mais de uma centena de mortos na pandemia, não abalou, pelo contrário, melhorou a aprovação do governo, isto porque, a ajuda emergencial para uma massa sem consciência critica, leva a compreender que, sem o pior presidente seria ainda pior viver neste malfadado tempo.

            As saídas? Muitos são que as procuram sem ainda chegar ao ponto da reação. Muitos outros não procuram porque seguem com a agenda posta pelos senhores da ordem dominante. No entanto, é importante, antes de qualquer coisa, voltar-se para o entendimento da razão contemporânea, como fizeram Marx e Engels em 1845, quando interpretaram “A ideologia alemã” e estabeleceram ali os fundamentos do Materialismo Histórico. Isto porque, não haverá mudanças sociais revolucionárias, sem que as forças sociais se tornem revolucionárias e, uma revolução só ocorre quando houver consciência de sua condução.

            A derrota do capitalismo virá também, se houver no mesmo movimento a derrota do espiritualismo, do moralismo e do ilusionismo. O resgate da razão permitirá a correta orientação das ações desencadeadas pelas forças que suplantarão o capital e o Estado. A nova ordem afirmar-se-á pelas diversas negações que hoje afirmam a servidão.

                                                                                                   Ademar Bogo

           

domingo, 16 de agosto de 2020

GRATIDÃO POR GRATIDÃO

             Enquanto muitos autores dedicaram-se ao longo do tempo a estudar a “A História da Filosofia”, Walter Benjamin, na primeira metade do século passado inverteu a combinação e dedicou-se a desvendar “A Filosofia da História” que Michel Löwy detectou no seu conteúdo três fontes: o romantismo alemão, o messianismo judaico e o marxismo.

            As contribuições desse autor, devido ao abreviamento da própria vida, ficaram incompletas, mas isso não impede de considerarmos que a influência do romantismo messiânico e religioso, na História Moderna, derrotou iminentes figuras políticas e processos, como Maquiavel, os vários propositores do socialismo utópico e, para resumirmos, passou pelo “sandinismo” nicaraguense, pelo “chavismo”, chegando até nós por meio do “lulismo” brasileiro.

            A concepção romântica e messiânica da História, na visão de Benjamin, é a compreensão de que ela com concebe o “devir histórico” como um tempo indeterminado de progresso na busca do “reino de Deus” e nunca se coloca como um processo de transformação por meio da revolução.

            Ao tomarmos como referência a categoria de análise do messianismo religioso não estamos dizendo que a religião comandou a política, mas sim que a execução da política ganhou contornos religiosos de um entremeio de juízo final, que redimiu a parte ofendida, mas não condenou a parte culpada. Aliás, embora, sempre relutamos incluir em textos de análise citações religiosas, neste, elas cabem, porque as esquerdas no governo fizeram acontecer o Evangelho de João ( 14:2) “Na casa do meu pai há muitas moradas”.

            A influência desse enunciado religioso esteve e está expresso literalmente nos programas de governo de esquerda desde o Federal até os municipais, nessas décadas do novo milênio com essas palavras: “governo para todos”. Isso serviu para mostrar que há lugar para os banqueiros, industriais, agronegócio, mídia conservadora e também para os pobres (nos programas assistenciais). Para os negros e índios apenas nas cotas educacionais, mas não na demarcação de suas terras, porque a posse das reservas e das áreas de quilombos deveriam ser, como sempre foi desde a chegada dos portugueses, “democraticamente” reservadas para o grande capital.

            Olhando de soslaio para o tempo messiânico, que diversos autores denominaram de “ascendência do lulismo” no Brasil, percebemos que, há menos de uma década, por volta de 2010, a sensação era de que a oposição institucional da direita havia sido aniquilada e que, a rigor, agora se repete com a pouca expressão da esquerda; com uma diferença de que o aniquilamento não é aparente, mas dura e ofensivamente real.

            Um consolo, no entanto, nos serve como alento, de que esse enfraquecimento das esquerdas não é mérito do “bolsonarismo” e, por isso, por ele nunca fomos derrotados. A derrota, como diria Benjamin, aconteceu pela intervenção de um “autômato” que teleguiou a condução da política com o espírito messiânico de que, a bondade é infinita e que a redenção não se dá sem o perdão dos culpados.   

            Por outro lado, ou mais precisamente, pelo lado ofensivo da extrema direita, vê-se, neste momento, que estamos no meio do caminho entre o início e o fim da pandemia, pois, é provável que as mortes causadas pelo vírus, por um bom tempo ficarão próximas de mil pessoas por dia; isso deveria levar a execração pública do presidente e conduzi-lo ao julgamento no Tribunal de Haia. No Entanto, a sua popularidade começa ganhar consistência, ameaçando com os mesmos instrumentos assistencialistas usados pelos governos anteriores, fazendo render para uma melhora fictícia na redução da pobreza, maior do que a que foi alcançada pelo governo Lula, pois atende a 60 milhões de brasileiros, isso é mais do que suficiente para eleger um presidente da República.

            As análises agora estampam títulos que buscam explicar o reverso do messianismo, expondo que “o lulismo está ameaçado”. E por que não estaria se as massas mais pobres continuam sequestradas no mesmo cativeiro da cooptação das consciências? O que os governos anteriores fizeram foi apenas entregar a chave para o presidente atual. Agora, veremos se as vozes formais e populistas virão a publico para dizer que se havia tirado da miséria e levados para o status de pobres milhões de brasileiros. Coisa que sabíamos que era apenas uma fantasia pois o que ocorreu foi apenas uma distribuição, sustentada por dinheiro público, de comida e não de renda que continuou ainda mais concentrada.

            E não precisa de grande formação política para perceber que, se as políticas assistências como “Bolsa família” que sustentou a popularidade dos governos anteriores, e agora continua existindo, mostra que muito pouco foi feito para redimir os pobres da miséria e que, na “casa com muitas moradas”, esta na qual a pobreza habita, continua sendo visitada pela assistência, produtora de gratidão, mas não de consciência.

            Somado a isto, vem o auxílio maior, corroborado pelo consenso entre todas as forças políticas para que o governo ultrapassasse o teto dos gastos e estabeleça o pagamento nunca visto, de um crédito de R$ 600,00 que se prolongará enquanto continuar a pandemia, mas, para o governo interessa pagá-lo, nesse valor, até o mês de Novembro, quando se realizarão as eleições municipais. Depois será insustentável para o Estado, mas poderá ocorrer um consenso de reduzi-lo para R$ 200,00 e será suficiente para reeleger Bolsonaro porque está acima do valor oferecido pelos governos anteriores.

            Não tenhamos dúvidas, o prolongamento da agonia da pandemia beneficiará o presidente da República que receberá a gratidão das grandes massas desempregadas e famintas, pelos benefícios garantidos e, mesmo ele não tendo um Partido para disputar as eleições municipais, a classe dominante saberá utilizar os benefícios para afirmar as bases para a próxima campanha presidencial.   

            Se no tempo presente a História reduziu as possibilidades de reação, foi porque as forças que poderiam agora reagir, foram atreladas ao processo institucional e desaprenderam a fazer política fora do processo eleitoral, cujo voto passou a respeitar mais a gratidão do que a consciência. E para reverter essa situação somente com uma intervenção contra o crédito emergencial pela substituição da distribuição de renda fixa pela promessa da distribuição da riqueza. Caso contrário, as forças de esquerda ficarão no limbo por um longo período.

            Gratidão por gratidão, se com a referência passada já foi retribuída com 4 mandatos do PT, agora, mesmo que o benefício venha pela mão agressiva de um neofascista, é dela a vez de receber o reconhecimento dos pobres assistidos. Então será o tempo de perguntar: o que foi o lulismo senão uma intervenção assistencialista e messiânica, que tratou as massas, da mesma forma que vinha sendo tratada ao longo da História do Brasil, como gado nos “currais eleitorais”?

            O tempo sempre foi favorável com aqueles que constroem grandes obras. Mas ele não pode ser visto como eterno e nem como redentor sem punição. Se o messianismo mostrou e nos mostra pelo “bolsonarismo” que o assistencialismo é uma forma momentânea mas astuta de fazer política, é sinal que o caminho a seguir tem que ser outro. O tempo cobra uma meta de chegada e o processo de superação proposital do capitalismo, precisa ser posto em marcha.

            Já é tempo das forças de esquerdas combaterem as ilusões em suas fileiras e na mente das massas exploradas. Desde a crítica ao socialismo utópico é que o marxismo vem mostrando que é preciso mais ciência e menos emoção e oportunismo na prática política. O capitalismo não será superado com a união de todas as forças e nem pela suposta “democracia eleitoral” que só existe e permanece em vigor enquanto favorecer a ordem dominante. A superação do capitalismo virá pela vitória da luta de uma força sobre a outra. As duas juntas não formam uma vitória, porque não constroem nenhuma derrota.

            Se a gratidão social é alheia à consciência para quem a dá, ela não é para quem a recebe. Tanto as forças de esquerda, quanto as do nazismo, já mostraram o que podem fazer na política com o apoio popular. O que as massas populares ainda não viram é que, em ambos os domínios elas ficaram de fora da “casa grande”. Enquanto esta casa não for derrubada, seja de qualquer mão, a ajuda sempre será bem vinda e mão ingenuamente beijada e gratificada.

“Mesmo os cães famintos sabem que não é boa a ideia morder a mão que os alimenta”; diz o roteirista norte-americano. Mordem sim, aqueles que os importunam enquanto comem. Portanto, conheceremos a verdadeira política, quando o tratador for extirpado da cultura e os tratados assumirem o comando da própria história. Até lá, o messianismo continuará sendo o espírito da política no capitalismo.

                                                                       Ademar Bogo