domingo, 29 de janeiro de 2023

EXTREMOS PERIGOSOS

 

            O filósofo alemão G.W.L Hegel ao escrever sobre “A filosofia do espírito”, começou por mostrar que o  mundo em que a autoconsciência deve ser afirmada está dividido por dois domínios em constante conflito. No primeiro, o próprio individuo está ligado ao trabalho que precisa desenvolver para sobreviver; no outro, ele mesmo quer apropriar-se do trabalho de alguém, passando, por meio desse ofício a dominá-lo. Por isso, todas as relações humanas são mediatizadas pelas coisas. Ao prender-se ao fazer das coisas, o indivíduo transforma a sua  consciência também em “coisa” e ele mesmo passa a ser um objeto de uso de si e para os outros.

            Por qualquer lado que olhemos o Brasil é um país dividido por domínios, constituídos por extremos perigosos. Nem sempre as partes opostas estão situadas em territórios diferentes. A miséria e a riqueza andam próximas, se cheiram e se encostam nos centros das grandes metrópoles. Onde se elevam os palácios, nas praças as barracas dos moradores de rua formam a nova jardinagem. Mais adiante, os restaurantes finos e nas ruas mendigos pedindo um prato de comida. Sem contar com os hospitais particulares reservados para as elites e no lado oposto as longas filas no SUS.

            Se voltarmos os olhos para os campos, as mesmas disparidades revelarão as condições inconciliáveis da concentração da terra, acompanhada pela devastação feita pela opulência das máquinas modernas, que prometem abarrotarem os mercados mundiais de produtos, mesmo que contaminados e envenenados pelos agrotóxicos, enquanto, pelo menos três dezenas de milhões de famintos e outros tantos sem trabalho vegetam no País em busca da própria subsistência.

            O Brasil é um país cindido também pela afirmação totalitária. De um lado, o desprezo total das diferenças de outro, um povo, uma nação, uma língua; de outro,  a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, afirma que no Brasil, existem 305 etnias que falam 274 línguas, mas que pela supremacia da personificação do capital da etnia branca, essas referências tradicionais e culturais, são relegadas e espezinhadas pelos invasores dos últimos redutos tradicionais.

            O retrato mais recente da divisão vergonhosa estruturada está expresso na população Yanomami em Roraima, onde cerca de 30 mil garimpeiros escavam os rios nas proximidades das habitações indígenas para arrancarem o ouro e satisfazerem a cobiça dos grandes mercados, que, para além da proximidade em que atuam das comunidades, além de devastarem, poluírem e envenenarem  o ambiente, violentam e condenam á morte aquela população.

            Muitas são as informações desencontradas que chegam aos ouvidos de quem acompanha os noticiários, porque, por trás das palavras estão os interesses e os temores que, entre si aliados, reuniram diferentes forças para atacarem a tradicionalidade dos povos originários e o modo como viverem.

            Os interesses do capital especulativo, que procura desesperadamente transferir as suas reservas de papeis e números para uma substância, valiosa e duradora, reacendeu nos últimos anos a corrida pela mineração. Nesse sentido, as áreas indígenas menos intocadas, tornaram-se o alvo imediato da volúpia financeira.

            Os interesses políticos, expressos veementemente pelos representantes do governo passado, voltaram-se pela destruição do modo de vida e de sobrevivência desses povos; primeiro, incendiando as florestas para restringir o tamanho dos territórios e, segundo, investindo com determinações de inserir a modernização tecnológica capitalista em vista da produção de mercadorias. E, terceiro, fingir “cididanizar” o indígena incluindo-o na total submissão do Estado Democrático de Direito, único e coercitivo.

            Por parte das forças de segurança nacional, o temor de que se possa vir a se formar, com a cooperação internacional, um “Estado indígena independente”, de concepção comunista, também facilitou para que o desatendimento, a facilitação das invasões e a ofensiva garimpeira armada, produzissem aquela situação inadmissível e muitas das outras existentes no Norte do país.

            Por estas e outras razões a decisão de extinguir as garantias constitucionais e a autonomia dos povos indígenas de terem os seus próprios territórios, levaram até aqui, a restringir o atendimento, a proteção e o apoio para que aquelas comunidades fossem fortalecidas e se defendessem. Agora, o Estado entra com diversas medidas, que vão desde a assistência imediata, a investigação sobre os propósitos de genocídio e, as forças armadas, entram com o recrutamento de jovens para comporem a força de segurança anticomunista.

            Se voltarmos a Hegel, vamos perceber que o pensamento filosófico mostra-nos que as “relações são mediatizadas pelas coisas”, sendo que os povos originários não produzem mercadorias nos moldes capitalistas, regido pela propriedade privada dos meios de produção, evidentemente que as formas de produção utilizadas por eles, e o regime político que adotam internamente, têm ainda raízes no Comunismo Primitivo, no qual, a essência da manutenção das práticas extrativistas e da ordem social está na força comunitária.

            Embora que sejam comunidades originárias organizadas dentro do Estado Nacional, a autonomia para estes povos gerirem o próprio destino é indispensável. Ali deverão instituir as suas formas de produção com liberdade e de acordo com a necessidade de sobrevivência da evolução populacional; terem a garantia da autonomia política preservada; falar a própria língua e desenvolver o sistema de educação próprio em todos os níveis; ter a sua força de defesa que seja formada e educada para a defesa dos princípios culturais e morais de cada povo.

            O confronto entre as duas concepções, a capitalista e a comunitária é desproporcional, nessas condições, para a resistência da segunda. A extração do ouro nos moldes destrutivos do meio ambiente não se adapta ás condições naturais dos povos originários. Querer força-los a integrarem-se nos moldes da civilização capitalista é abrir contra eles as portas da barbárie.

            Para as pessoas conscientes e sonhadoras com um mundo melhor, é importante compreendermos que os territórios indígenas no Brasil, tornaram-se os últimos redutos da defesa da terra e do meio ambiente. A dizimação dos mesmos será a declaração de que o capital chegou nos confins aonde a produção de mercadorias o levou.

            A defesa da Amazônia passa, portanto, pela autonomia dos povos originárias poderem arquitetarem as próprias formas de subsistência. Todo o apoio, solidariedade e políticas públicas serão importantes, mas acima de tudo, são eles que devem assumir o comando e,  aliados com as forças trabalhadoras e populares, transformarmos, o clima, o ambiente, a preservação cultural, a autonomia política e a soberania nacional,  em elementos da mesma luta de classes.

                                                                                                                                                                                                                     Ademar Bogo     

domingo, 15 de janeiro de 2023

SAIR DAS CALÚNIAS E ENTRAR NA POLÍTICA

 

            O filósofo Hegel ao escrever o seu livro, “Princípios da Filosofia do Direito”, pretendeu dar à burguesia os fundamentos filosóficos para constituir e gerir o Estado sob o imperativo das leis, e o faz primando pelo sustentáculo da “liberdade”. Sua perspicácia foi tão grande que superou todas as visões anteriores sobre o assunto. “O domínio do direito é o espírito em geral; aí, a sua base própria, o seu ponto de partida está na vontade livre, de tal modo que a liberdade constitui a sua substância e o seu destino e que o sistema do direito é o império da liberdade realizada...” (§ 4).

            Em primeiro lugar, se o “domínio do direito” é o espírito geral, nada escapa sob o seu poderio. E, em segundo lugar, se ele tem como ponto de partida a “vontade livre”, não apenas tem a liberdade como substância, como também o próprio direito se institui como a liberdade afirmada e realizada. Em síntese, aonde estão as leis, está a liberdade.

            De pronto percebemos que as leis no modo de produção capitalista são elaboradas para garantir a liberdade daqueles que querem ir e vir, produzir, transportar, comercializar e consumir com garantias, de que ninguém impeça a “livre vontade” dessas realizações. Tudo isso, posteriormente, veio a ser denominado “Estado Democrático de Direito”. Ou seja, para que haja democracia é preciso que se faça presente a “ditadura” das leis.

            A conclusão decorrente desta visão constitui o encravamento da liberdade na ordem da seguinte forma: se não pode existir democracia sem leis, pois, sem elas valeria o poder totalitário do indivíduo sobre a sociedade, também não pode existir capitalismo sem Estado.

            O Direito positivo, ou seja, depois de “postas as leis” tem-se a ordem constituída. O que não transparece com facilidade nesta determinação, é que, por fora da ordem jurídica, há um sistema estruturado, direcionado e canalizador do destino das leis para, por dentro dele manter o seu funcionamento. Sem cair num mero funcionalismo, metaforicamente as veias que irrigam o corpo da base econômica, é o Estado. É possível fazer intervenções e inclusive transfusões de sangue, mas não é possível substituir o sistema circulatório sem despedaçar o corpo inteiro.

            Vivemos no Brasil, há já a quase duas décadas, um profundo mal-estar entre o domínio econômico e o domínio das leis. No entanto, a contradição principal não está na falta de liberdade para os capitalistas realizarem os seus interesses; as leis cumprem a função de manter o capital em circulação, tanto na esfera produtiva, quanto na esfera especulativa. O que de fato há, é que marginalmente a esse funcionamento ordenado, as diversas transformações tecnológicas, somadas às graves cosequências impostas pelas leis tendencias do capital, cuja desarmonia entre produção, concentração, centralização, expansão e especulação, funcionam como o cobertor reduzido para cobrir os diversos corpos no frio do inverno de aprofundamento da barbárie.

            Presenciamos no Brasil, com cada vez mais veemência, o desconforto de setores médios e representantes da especulação, com os espaços destinados ao abrigo das elites e de seus colaboradores, ocupados por contingentes outrora desdenhados que passaram a sofrer o rechaço político, culpabilizando o “espírito geral”, como nos disse Hegel, acusando-o de estar garantindo, algum grau de liberdade às parcelas mais pobres da população.

            O conflito de interesses colocado sobre o tabuleiro da conjuntura, tem por base a substância da liberdade, com diferentes estratégias para usufruí-la. Pelo lado das forças da extrema-direita o entendimento é de que “precisa ser eliminada” parte dos poderes estais, principalmente os da esfera federal e, do lado das forças progressistas, a luta para manter intactos, os poderes e o sistema jurídico, como o fizeram as forças burguesas no passado e parte delas ainda o fazem no presente. Se bem analisado, concluiremos que ao longo dos séculos fomos mudando de lado e de funções entre as classes.

            O que mudou então que surpreendentemente, aquilo que sempre foi uma bandeira de luta dos trabalhadores, de protestar, tomar e superar o Estado, parece ter sofrido uma inversão e, todos os esforços passaram a serem destinados a defender os poderes oficiais e a democracia capitalista?

            Há três fatores, pelo menos a serem estudados e colocados em discussão: o primeiro, trata-se da crise do capitalismo que impede a realização de certas liberdades dentro da ordem estabelecida; o segundo, nos mostra que houve, mais recentemente, o enfraquecimento das forças políticas de esquerda e de direita e, o terceiro, assinala que as forças armadas e policiais tornaram-se facções partidárias que, além de associadas a outras facções criminosas, agem com grande autonomia na esfera pública.

            Do primeiro fator, já falamos bastante em outros espaços, mas, o segundo e o terceiro podemos vinculá-los e dizer que, se desrespeitoso foi o que um grupo minoritário, em menos de duas horas de ação, tomou e destruiu os palácios dos três poderes na capital federal, estarrecedor é observar as forças contrárias, totalmente desmobilizadas, assistindo o presidente da República e um ministro do Supremo Tribunal Federal, tentando garantir a ordem e a volta do respeito aos poderes estabelecidos com o uso das leis.

            Convençamo-nos que, se ao invés de terem quebrado os palácios, os terroristas os tivessem ocupado e se as forças armadas e policiais coniventes, entrado em greve e se negado a irem despejá-los, o golpe de estado teria sido dado, e o presidente derrotado nas urnas, poderia ter sido empossado como a autoridade única e soberana da República.

            Se por um lado, constatamos que as forças da direita erraram na estratégia, de tentar minar a ordem gradativamente, até que o país se tornasse ingovernável e, as forças armadas se autoconvocassem para assumirem o poder; das forças de esquerda o que sobrou das últimas décadas decadentes, foi apenas o aspecto físico; do ponto de vista intelectual há sem dúvida nenhuma uma perda acentuada do conteúdo revolucionário e da perspicácia em detectar as circunstâncias favoráveis para uma ofensiva.

            É certo que o golpe foi frustrado e, apesar da ofensiva jurídica contra os seus executores estar sendo exemplar, não significa que ele não venha a ser novamente tentado. Por outro lado, abriu-se uma clareira para o desferimento de uma ofensiva, senão revolucionária, pelo menos de afirmação democrática.

Para que saiamos das calúnias e entremos definitivamente na política, a primeira medida a ser tomada, para estabelecer o lugar de cada parte, é assumir-nos como socialistas e comunistas. Com essas identificações muda tudo. O Estado passa a ser visto como um instrumento transitório para implantar a verdadeira “democracia do proletariado”. Com ela não se coloca apenas os inimigos na dos trabalhadores na cadeia, mas se estabelece que a sociedade  funcionará sob nova ordem de funcionamento. As liberdades burguesas serão extintas e passarão a vigorar as liberdades socialistas. Para tanto, a democracia precisa ser instaurada em todas repartições, setores e instituições aonde reinam, a propriedade privada dos meios de produção, a concentração do capital e os privilégios, civis e militares.

Para que as autoridades tenham força de agir e implantar as mudanças devidas, é importante que as massas sejam convocadas para voltarem as ruas e, ao invés de girarmos em torno de um governo que quer mostrar serviço para sanar o déficit das finanças, devemos impulsionar as mudanças estruturais para implantarmos a nova ordem, aonde  o capital sofrerá intervenção e controle, as forças armadas terá o tamanho proporcional as necessidades e perigos eminentes, os salários serão regulados sem abonos e regalias e a formação filosófica entrará em todos os currículos.

Por outras frentes devemos investir na formação política de todos os cidadãos. Controlar as redes sociais para que as mentiras não vigorem como programa de ações e reformular o sistema partidário para que a população em massa participe. Os programas de ensino civis e militares deverão ser reavaliados e as concepções terroristas e antidemocráticas combatidas.

As tarefas podem ser múltiplas ou serem totalmente ignoradas. Elas surgirão e se multiplicarão na medida que  houver a conclamação das massas para darmos um passo à frente no enfrentamento da luta de classes. Sendo o que temos no momento, cabe às forças de esquerda organizadas, assumirem o comando.

                                                           Ademar Bogo

domingo, 18 de dezembro de 2022

O CIPÓ DE AROEIRA

                                          

            Quando o filósofo Friedrich Engels esclareceu, em seu livro, “A origem da família da propriedade e do Estado”, que o Estado nasceu dos antagonismos ente as classes, justamente quando a sociedade chega a um determinado grau de desenvolvimento e se enredou “numa irremediável contradição com ela própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis, que não consegue conjurar”; estava revelando a natureza do Estado capitalista.

            Havia no ano de 1884 quando o livro foi publicado, pelo menos três visões destacadas sobe a natureza do Estado. A primeira visão foi elaborada pelos filósofos antigos, com destaque para Aristóteles, cujo entendimento era que o Estado surgiu naturalmente e, inclusive, funcionava conforme as leis e as hierarquias do poder das demais espécies. Ou seja, os homens, assim que passaram a viver em coletividades, copiaram da natureza o seu sistema político.

A segunda visão foi elaborada por Immanuel Kant, nascido em 1724 e falecido em 1804, na Alemanha. O seu pensamento sobre o Estado evoluiu para além da natureza e instituiu-se pela razão humana. Por esse entendimento, a razão tida como universal e, baseado nisso, poder-se-ia ter uma ordem universal ditada pelo dever de que as vontades se realizassem e, com isso, alcançar-se-ia também a paz universal.

            A terceira visão elaborada por Georg W. F. Hegel, filósofo alemão, nascido em 1770 e falecido em 1831, ateve-se à compreensão de que o Estado é “a realidade da ideia moral”. Essa forma de ver, encantou mais a burguesia. Além de considerar o Estado como o “reino da liberdade”, justamente por ser ele “o espírito absoluto”, servia ele de instrumento concreto para centralizar o poder e garantir a ordem para a “sociedade civil”. Essa sociedade era formada unicamente pelos donos da riqueza e, principalmente no contexto dos ascensos revolucionários na Europa, aquela classe dominante sentiu-se contemplada.

            Engels, em 1884, um ano após a morte de Karl Marx, já havia acumulado todo o entendimento da critica ao capitalismo e as demonstrações históricas do movimento das contradições, davam a ele não apenas os fundamentos filosóficos para identificar as contradições vigentes, como também para pensar a própria superação do Estado.

            Para Engels, esse poder “nascido da sociedade, mas posto acima dela se distanciando cada vez mais...”, não pertence a ninguém e, de um certo modo, isto é verdadeiro. Ele pertence à ordem estabelecida e cuida para que esta ordem não seja desfeita pelos conflitos entre as classes. No entanto, o próprio Engels afirma, “...o estado feudal foi o órgão de que se valeu a nobreza para manter a sujeição dos servos e camponeses dependentes; e o moderno Estado representativo é o instrumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado.” (p.194).

            Na medida que o “estado de direito” deve ser mantido e conduzido pelo princípio de que a lei esteja “acima de todos”, presa-se primeiramente pela ordem estabelecida. A ordem pode ser entendida como lei, mas não totalmente. A ordem acima de tudo é o poder do “estado de coisas”, ou, dito de outra forma, é como estão colocadas as coisas na sociedade.

            Por “coisa”, podemos entender, a propriedade privada, o capital, o dinheiro, o emprego, o salário, o mercado etc. Ou seja, na medida em que essas coisas estão colocadas numa ordem de movimentação e funcionamento, entram a lei e a força policial do Estado para assegurarem que assim permaneça. Com isso se assegura que a sociedade desigual funcione.

            Por isso, parece estranho ver algumas vezes um político, um dono de Banco, comerciantes e outras pessoas tidas como participantes da classe dominante serem presas. Essas ações do Estado não significam que ele mudou a sua natureza e passou a ser favorável aos setores mais pobres da sociedade, mas sim que ele interviu para evitar a desordem instalada por membros da classe dominante. No entanto, nos demais setores em que o “estado de coisas”, como a exploração da força de trabalho, o funcionamento do mercado; a manutenção das taxas de juros; impostos pagos etc., tudo continua normalmente, mesmo que o presidente da República viva a fazer passeatas com motocicletas ou se escondendo silenciosamente por meses após a derrota eleitoral. O sistema funciona pelo conjunto dos ordenamentos.

            Fica mais nítida essa representação, se vincularmos com a situação atual dos acampamentos em frente aos quarteis. Formados por representantes de setores da classe dominante, exigem a intervenção militar, por meio de um golpe de Estado. Contra esse movimento o poder judiciário age rigorosamente, mesmo que os manifestantes sejam adeptos do presidente da República prestes a deixar o governo ou estejam sustentados por empresários golpistas.

            Mas entendamos que, essa reação do poder judiciário, não é a favor da esquerda nem dos trabalhadores. É a favor da ordem. Se as forças de esquerda e progressistas se beneficiam dela, é porque estão comprometidas em manter a ordem das coisas como estão postas. Circunstancialmente é uma situação ruim para as forças da extrema direita e boa para as forças de esquerda, porque estas últimas voltam ao poder governamental e poderão, na margem permitida pela ordem, direcionar as políticas públicas.

            No entanto, a ordem do estado de direito permanece vigente como sempre. Lembremos que no período do golpe de 2016 quando a presidente da República foi cassada, as mesmas formas de luta, repetidas pelos “patriotas” de hoje, a favor do golpe (menos essa de acampar em frente aos quarteis), em grande medida foram utilizadas contra o golpe. E, por incrível que pareça, diante da mesma Corte, ambos os movimentos foram derrotados: nem a presidenta Dilma voltou em 2016, nem o presidente Lula será impedido de tomar posse em 2023.

            Há, de qualquer modo, dois mistérios que assombram, e ambos são oriundos da mesma matriz: o silêncio do presidente genocida, fortíssimo e ovacionado por multidões há poucos meses, mas que deixa o governo como se estivesse de acordo em ser julgado pelos crimes e ir para a cadeia e, o silêncio das ruas, nas quais não se vê as forças contrárias, vitoriosas na eleição para presidente, mas desmobilizadas, como estiveram nos mandatos anteriores de Lula. Reeditaremos a crença de que, um presidente, um juiz ou a própria mídia assegurarão os direitos?

            De outro modo, ecoa nas paredes das melhores consciências o sentenciamento de Engels,  ao terminar o livro declarou esperançosamente que: “As classes vão desaparecer, e de maneia tão inevitável como no passado surgiram. Com o desaparecimento das classes, desaparecerá inevitavelmente o Estado” (p.196).

            Evidentemente que não podemos fazer tudo de uma só vez, mas pelo menos podemos pensar. Será que, com a a reunião entre as classes ou pelo menos setores delas, a ordem e o estado de direito capitalista serão enfraquecidos? Que avanços podem ser construídos em um governo não genocida mas a favor da ordem? É bom pensar porque as consequências são cruéis para ambos os lados, quando a ordem é ameaçada. Castigado é o desordeiro ou alguém que a ordem queira culpar. A exemplo do que retratou o poeta Geraldo Vandré em sua música “Aroeira”: “Marinheiro, marinheiro/ Quero ver você no Mar/ Eu também sou marinheiro/ Eu também sei governar/ Madeira de dar em doido/ Vai descer até quebrar/ É a volta do cipó de aroeira/ No lombo de quem mandou dar”.

            Por tudo dito, visto e revisto, quando os trabalhadores e as massas empobrecidas estiverem adorando a ordem e o estado de coisas, é porque já chegaram no socialismo ou se entregaram definitivamente ao capitalismo.

                                                                                                             Ademar Bogo                              

domingo, 4 de dezembro de 2022

SONHAR PARA FRENTE

 

O filósofo alemão Ernest Bloch, ao escrever a sua obra “Princípio esperança”, volume I, destacou que, “Quase toda utopia, seja médica, social ou técnica, tem características paranoicas. Para cada autêntico pioneiro, há centenas de fantasiosos, irrealistas e loucos. Se fosse possível pescar alucinações que nadam na aura dos manicômios, seriam encontradas as prefigurações mais admiráveis...”.

Os comparativos metafóricos traçados são interessantes. Apesar do autor remeter-se á Psicose e tomar o delírio como referência, não quer tratar as capacidades imaginativas de distúrbios mentais, senão que, instigar a pensar, e porque não, levar a sério as imensas quantidades de fantasias surgidas ao lado de uma decisão principal. Quando liberamos as ideias, tornamos sujeitos da ação os seus formuladores.

Vista pelo lado imaginário, a política em nosso país é um verdadeiro “manicômio”, não de loucos, mas de sonhadores dominados. Não pensemos que essas mobilizações em frente aos quarteis não tenham sido forjadas pelas inspirações direcionadas fazendo as ideias alucinadas tornaram-se ações. A motivação é fantasiosa, mas as energias, física e mentalmente empregadas, são reais. E, naquele mundo de ilusões as incertezas assemelham-se aos delírios paranoicos que forjam os medos das perseguições, ameaças comunistas, ataques contra a moral conservadora e alienada etc.

De outro lado, há o outro lado que festeja calado e, na sua convicta grandeza, espera pelas realizações da ideia vitoriosa. Esse também é um mundo imaginário, com poucas insinuações do que poderá acontecer. Aparentemente a perseguição deu trégua e o pior foi sufocado nas urnas. Mas, ao contrário dos marchantes mobilizados, o lado vitorioso ainda não transformou o seu querer em ação. E, como se governante e governados fosse um só corpo e uma só cabeça, espera-se pacientemente pela transição e logo em seguida pela posse.

É evidente que ao lado de uma ideia forte existem centenas de ideias imaginárias  fantasiosas expressas nas mensagens virtuais. E, se podemos comparar o atual cenário político brasileiro com um manicômio, veremos que ele está estruturado com duas alas: a ala amarela fixada, alucina-se com a ideia do “golpe militar” e, a ala vermelha, com a ideia da governabilidade. Os primeiros imaginam os comunistas sendo surrados, presos e mortos; as florestas derrubadas e, lá do alto, heróis pilotando aviões, despejando toneladas de semente de capim, para formarem pastagens e, cá em baixo, milicias armadas passeiam livremente pelas ruas para ajudar o Estado  a fazer o trabalho sujo. Os segundos, vislumbram as panelas cheias de comida, as escolas lotadas e o comércio fervilhando de consumidores sem conflito entre as classes.

Por que chegamos a essa pobreza de imaginação? Poderíamos elencar diversas causas, mas, no fundo, elas terminariam em duas que foram se afunilando ao longo dos tempos comandadas pela ideia forte do capital: a ditadura militar e a democracia representativa. Assim, agruparam-se e se fortaleceram os defensores das duas vias: a do golpe e a dos defensores das eleições.  O primeiro, espreita pelo momento mais propício para ser desfechado, pois sem condições internas e externas não há como movimentar os tanques e, a outra, mantém a adoração à democracia representativa, cuja ideia é “manter a ordem” com exploração, mercado e Estado.

Chegamos, portanto, à debilidade mental, causada pela anulação da utopia paranoica da juventude, dos trabalhadores e das massas populares. Ninguém mais imagina nada fora da ideia principal proposta. As imaginações tornaram-se tão minguadas que não alcançam ir além da próxima semana. Já não se pensa no futuro, apenas no consumo do presente. Se fossemos comparar os sonhos diurnos e noturnos, chegaríamos à conclusão que, quando acordamos não lembramos se sonhamos e, acordados, não há tempo para sonhar.

A ideia de sonhar para frente não é alucinação, mas precaução. As gerações mais velhas vivenciamos os tempos dos golpes os das esperançosas eleições. No fim, esses tempos se revezam substituindo um ao outro sempre que as paredes do grande manicômio capitalista tremem. Nesse momento, a ideia pioneira pertence ao capital e, em torno dela formam-se os consensos que anulam todas as demais imaginações.

Não é errado e devemos acreditar que falta loucura na política. Ela deve existir para fazer ressurgir as renegadas capacidades populares. E, sem substituir os heróis que são sempre momentâneos, porque é o ato heroico quem o faz ser herói e não o tempo de bajulação, iniciarmos a marcha que nos leve para casa. Ela sempre foi a rua, a luta, a formação da consciência, a organização,  o trabalho de base, a revolta e a insurreição.

A utopia deixará de ser uma ilusão ingênua, quando anteciparmos em nossa mente o que iremos fazer concretamente para superar a sociedade imprestável, para a grande maioria da humanidade, em sociedade igualitária e solidária. Nunca devemos esquecer do sabido ensinamento popular que o inimigo afugentado sempre volta , quando isso acontece, os estragos são ainda maiores. Mandatos passam.

                                                                       Ademar Bogo,  

domingo, 20 de novembro de 2022

CONSPIRAÇÃO E INSURREIÇÃO

 

            A primeira e destacada obra da contemporaneidade orientadora do movimento socialista é sem dúvida nenhuma o “Manifesto do partido comunista”, escrito pelos jovens Karl Marx e Friedrich Engels em 1848. O objetivo dessa obra, escrita no auge das Revoluções Liberais, desencadeadas na Europa, era oferecer ao trabalhadores um caminho estratégico para fugirem da tradição conspiratória e, ao mesmo tempo diferenciarem-se do processo de transformação burguesa sustentada pelas forças militares.

            A tradição das contestações políticas eram, até então, organizadas por facções formadas por pequenos grupos que, por meio de táticas conspirativas, visavam, com ataques pontuais e atentados contra as autoridades, chegarem ao poder.

            A conspiração é vista pela teoria da organização política revolucionária, como oposição à insurreição, isto porque, enquanto a primeira se expressa por meio de grupos minoritários, a segunda procede por meio da organização e mobilização da maioria da população. Nesse sentido, outros dois conceitos, “golpe” e “revolução”, determinam a natureza dos dois primeiros.

            É evidente que em certas circunstâncias o uso de táticas momentâneas, podem cruzar os conteúdos dos conceitos, mas, acima de tudo, deve-se sempre observar as finalidades estabelecidas. Quando falamos em “golpe”, identificamos facilmente que por trás desta posição, existe uma conspiração articulada por grupos interessados em defender os seus interesses e, para alcançarem esse objetivo, buscam confundir o entendimento a fim de arrastarem para o seu lado, parcelas da sociedade civil. Por outro lado, a revolução e a insurreição ao serem discutidas e postas em andamento, de imediato elas buscam o envolvimento da maioria da população e, o objetivo final é atender os interesses do movimento organizado.

            Com esta breve diferenciação podemos identificar que lado estamos indo. No Brasil, após a eleição para presidente da república, na qual escancararam-se as posições, de um lado nazistas e do outro progressistas, ambas mobilizando razoáveis contingentes de massas, fazendo com que, no final, quase 120 milhões de pessoas declarassem as suas preferências, é um grande feito. No entanto, a parte vitoriosa, votou e se retirou do cenário das disputas, mas, a parte que perdeu, permanece com grupos mobilizados instigando setores da sociedade e as forças armadas, a desrespeitarem o resultado do pleito, para, por meio de um golpe assumirem o poder.

            Essa conspiração golpista é real e está em andamento sustentada pelos representantes do capital financeiro, setores das forças armadas, do agronegócio e das igrejas pentecostais. É por isso que, com facilidade confunde e misturam, o protesto de pessoas humana com os caminhões; ideias golpistas com as cores simbólicas; o financiamento das empresas com autonomia política e, a alienação com valores morais conservadores. Querem convencer de que o país precisa de uma “ditadura militar” para implantar a democracia.

            O que na verdade passa pela cabeça desses grupos é o sentimento de ódio e vingança que alimentam contra as forças de esquerda. Como não podem atacá-las, precisam do Estado para fazê-lo. Esses grupos não querem a vitória eleitoral, mesmo se tivessem ganho não se calariam. Insistiriam no golpe para assistiram covardemente a repressão e à matança da militância “comunista”, coisa que com uma vitória eleitoral apenas, não conseguiriam atingir tal objetivo.   Nesse sentido, o ódio que costumeiramente um indivíduo sente, tem nele mesmo a força para transformá-lo em violência. Na conspiração em andamento, os setores vingativos cobertos, pelas cores da bandeira, em franca representação minoritária, são portadores do ódio, mas precisam das forças armadas para realizarem os homicídios.

            É importante compreender que, a conspiração golpista ainda não foi levada a cabo com sucesso, porque o processo eleitoral foi legitimo e sem falhas pois, se por um lado registrou a vitória de um presidente de esquerda, por outro, garantiu a maioria parlamentar da direita. E, porque, as circunstâncias não são todas favoráveis e nem a comunidade internacional apoia qualquer tipo de bravata que fira o que se chama de “democracia”.

            No entanto, circunstâncias sociais e políticas são coisas que se criam. Elas funcionam como o vento; de um momento para outro, o tempo muda e vêm as tempestades. Logo, não basta, confiar no certo, no idôneo e na justiça, porque, esses conceitos sem massas mobilizadas, mudam facilmente de entendimento e podem vir a ser representantes do contrário. Por isso, é preciso perguntar-nos, quais as tradições que devemos superar? E quais são as tarefas que urgentemente devemos assumir?

            Sendo assim, as forças democráticas não podem esperar que a conspiração se materialize e o golpe de Estado venha a se implantar para iniciar as mobilizações. É preciso fazer crescer nas massas a consciência sobre os direitos e, junto com a defesa de comer, vestir, morar, trabalhar, educar ter saúde e estudar, devemos pôr o direito a se insurgir. As ruas são os lugares adequados para defender-nos. Vamos à luta! Quem acorda cedo faz o amanhecer!                                      

                                                                                                        Ademar Bogo

domingo, 6 de novembro de 2022

O JOGO DO JOGO

                Antes de tudo, é importante decifrar o sentido do verbo “jogar”. No aspecto transitivo, significa “executar diversas combinações”; “jogar com a sorte”, é apostar. “Jogar para cima”, é se revoltar. “Jogar confete”, é exaltar”; “jogar a última cartada”, é arriscar.

                O jogo do jogo é saber jogar. Por isso é preciso conhecer as regras; apesar delas serem apenas parâmetros orientadores, explicitadoras dos limites e asseguradoras do processo do início ao fim. Além das regras, cada jogo tem técnicas e, acima delas está a arte. Sem regras, sem técnicas e sem arte, não há jogo, há apenas movimentos perigosos sustentados pelos instintos.

                O filósofo Nietzsche ao observar a decadência da existência humana vista como um jogo, buscou responder a questão sobre a sociedade a qual vegetava sem sentido, sem finalidade e sem verdade. Para ele, diante do incontrolável, arma-se sempre um cenário para jogar com a razão confundindo-a com loucura. O “inútil” passa ser o ideal e sonhar um modo de jogar. A embriaguez de Dionísio, o deus do vinho, representou, na antiguidade, a forma mais adequada para a prática do jogo entre o real e a fantasia, no final, o resultado pretendido era o próprio autoesquecimento.

                Importante é perceber que, embriagados com vinho ou com mentiras, o jogo sempre é uma luta para o vir a ser de uma representação; ou também uma busca pelo desejado, sonhado e, por isso, o enfrentamento dos contrários. A cada passo, novas contradições afloram e novos significados precisam de nominação. A linguagem simbólica atiça e alimenta os mistérios e o estímulo da vitória não pode esmorecer.

                As técnicas sustentam os planos. Cada ideia torna-se uma ação, se houver meios de concretizá-las. É próprio do jogo, disputar, enfrentar, combater e derrotar. O juízo está nas técnicas utilizadas e elas dependem da finalidade da vitória. Um jogo com técnica é técnico, nem sempre é belo. Um jogo com arte é belo, extasiante, conquistador, emotivo e vibrante.

                Técnica se usa para tudo. Para fazer coisas boas e coisas ruins. Fabricam-se objetos úteis para a satisfação das necessidades e armas inúteis para a harmonia social. Com técnicas sustenta-se a guerra, mas é com a arte que se alcança a paz. Esta última não significa perdão ou ausência de punição. Não punir quando se deveria, não é virtude é covardia.

                Há bastante tipos de jogos, mas muito mais modos de jogar. No jogo democrático, além das regras e das técnicas deveria figurar também a arte como um princípio embelezador. A truculência, a mentira, o engano,  não cabem quando está em disputa o futuro de uma grande nação. Nesse jogo, entre maioria e minoria, deveria acima de todos, ser considerado o princípio da totalidade. Com este, a jogada melhor mereceria aplausos unânimes e não ataques.

                O jogo do jogo democrático é o movimento ascendente das jogadas. Os lados que se enfrentam sabem que no dia seguinte continuarão vivos. No entanto, as brutalidades praticadas nas disputas são sempre irresponsabilidades de quem luta. As marcas não podem ser apagadas e enquanto persistirem há que punir com o rigor das normas os infratores.

                Quando os interesses são mesquinhos, qualquer jogo provoca mal-estar. Por trás das jogadas há sempre um desejo abusivo. Saber jogar não é apenas entrar no jogo, mas saber calcular como sairá dele. Não há o “saber perder” porque, ninguém treina para ser derrotado, mas há a obrigação de reconhecer a derrota. Respeitar o resultado quando for legitimado pelas regras aprovadas antes do jogo.

                A contemporaneidade, asfixiada, agoniza com as suas próprias invenções. A defesa do “estado de direito”, tão valiosa, no passado, para os exploradores sobre os explorados, começa a tornar-se um estorvo, porque cerceia os próprios preceitos liberais que, nos momentos de crise econômica impede que as decisões explodam como relâmpagos em meio aos temporais. Para os capitalistas na viagem da acumulação, não deve existir a possibilidade de que, no “meio do caminho haja uma pedra”; um índio, um sertanista, um líder popular, ou uma lei impedidora que limite os gastos. Tudo precisa ser brutalmente retirado para que “a boiada passe”.

                É nesse jogo irônico das circunstâncias históricas que coube às forças de esquerda, ao invés de defenderem princípios comunistas, obrigam-se a sustentar o legalismo mantenedor da ordem que garante a exploração do capital sobre o trabalho, sem  perda dos direitos trabalhistas; o estado democrático de direito que assegura a “ordem e o progresso”; o direito público e privado, que dá reconhecimento ao Estado, de usar as forças impositivas, coercitivas e punitivas.

                Tornou-se obrigação de sobrevivência a busca de tomar o Estado com todos os poderes, para salvaguardar a civilização capitalista, descartada pelos capitalistas, isto porque, dos princípios fundamentais da Revolução Francesa, já haviam, de imediato eliminado o da “fraternidade”, agora é incômodo o da “igualdade”, e precisam forjar as separações, religiosas, culturais e regionais para fazerem valer a “liberdade” de agirem sobre todos.

                Quem diria que, de “coveiros do capitalismo”, como sentenciaram Karl Marx Friedrich Engels, deveríamos ser o seu salva-vidas para que não se afogue no oceano do próprio vômito, prolongando seus enfadonhos dias, com a única intenção, de não deixá-lo que nos jogue no limbo da barbárie de uma só vez.

                Para os estudiosos da dialética, sabemos que há movimento para frente e para trás. A barbárie é o movimento para trás; o socialismo é o movimento para frente. Os capitalistas apostam no primeiro, pensam salvarem-se com a povoação de algum lugar do espaço. Se defendermos apenas o estado democrático de direito, não há movimento para frente, porque nada de novo nos propomos alcançar.

                É tempo de jogar conscientemente o jogo no campeonato da superação. Disputar uma eleição ouvindo a palavra “comunista” como uma acusação e não como um valor, é uma lição que nos desafia a pensar, se ganhar nas urnas, mas perder na linguagem revolucionária, por evitar pronunciar certas palavras, é uma vitória ou apenas um calço posto no movimento regressivo inclusive das nossas fileiras?  

                Há muito por fazer neste jogo comandado por regras determinadas, mas, para além delas temos as técnicas a serem inventadas e a arte de fazer o belo renascer em cada olhar.

                                                                                                              Ademar Bogo

 

 

 


domingo, 23 de outubro de 2022

POLITIZAR A POLITICA

 

            O filósofo francês, Henri Lefebrve, na segunda metade do século passado, marcou a Filosofia com a sua visão sobre o “método dialético”. As suas preocupações voltaram-se para as contradições da realidade concreta e também, todas as outras, ligadas ao pensamento humano. Estas últimas, diz ele, “Têm origem, pelo menos em parte, nas deficiências do pensamento humano que não pode apreender ao mesmo tempo, todos os aspectos de uma coisa e tem de romper (analisar) o conjunto para compreendê-lo”.

            A capacidade da compreensão intelectual da realidade assemelha-se as demais capacidades que possuímos, precisamos exercitá-las para desenvolvê-las. As contradições estão entranhadas em todas as coisas, ideias e soluções. No entanto, sempre que analisamos o que os outros dizem ou fazem, concordamos ou discordamos sem nos darmos conta de que, aquele detalhe não está separado de um todo maior.

            Em muitas ocasiões para que as ideias cheguem a um ponto de consenso, embrulham-se todas as contradições, para deixa-las de lado e, dali em diante,  como se a verdade fosse apenas o aspecto combinado, busca-se viver em harmonia.

            As campanhas eleitorais são exemplo vivo dos acordos e da visão superficial das contradições. Sabemos de tudo e no que nos opomos. Mas, esquecemos de pensar e descobrir o que discordamos daquilo que nós mesmos pensamos. Sendo assim, os acordos e propostas se afirmam, nos preconceitos morais e no assistencialismo à pobreza.

            É evidente que a verdade surge do confronto das contradições e não dos preceitos e valores conservadores. Os que querem esconder a verdade são hábeis em inverter as evidências; logo, no lugar do sistema capitalista e suas crises estruturais, colocam a família; no lugar da análise da exploração da força de trabalho, colocam a fome e junto a solução, por meio de um auxílio financeiro permanente; no lugar da qualidade de educação, colocam o combate ao banheiro unissex etc.

            Isso tudo poderia não significar nada fora da agitação das ruas, se as outras forças estabelecessem outros parâmetros para serem observados. Não ocorrendo isso, entende-se que o capitalismo deve ser melhorado, o Estado santificado e anexado às religiões e, a luta de classes substituída pela busca da paz contra o ódio. Quando na verdade dever-se-ia desvendar que a fome e a pobreza aumentam porque o sistema do capital não se importa com a grande maioria da população do mundo; o Estado visto como a “roda da fortuna” ou um apresentador de programa de auditório, que despeja dinheiro em políticas assistenciais, rebaixa ou retira os impostos de áreas vitais da arrecadação, como se o dinheiro distribuído viesse de uma máquina fabricadora de moedas sem nenhum planejamento. Para cada ação existe reações das contradições.

            Nas entrelinhas da intransigência verbal, percebe-se que, se de um lado está o totalitarismo salivante como o cão prestes a furar a cerca, pegar o cordeiro e devorá-lo com os dentes e, de outro, a ingênua natural democracia, como os cordeiros que se alimentam, confiantes que a cerca segurará o cão e nada de ruim lhes acontecerá.

            O retorno das evidências do nazifascismo não são gratuitas e nem tampouco forçadas, elas cabem dentro de sociedades que desmobilizaram e desorganizaram a classe explorada deixando as massas livres para serem cooptadas pelas religiões partidarizadas e por isso o conteúdo politico dos discursos foi acrescido de preconceitos morais. Recolocada a luta de classes em seu lugar, os burgueses se organizariam para defenderem o capitalismo e os trabalhadores para combate-lo afirmariam consciência em um nível elevado.

            Acusar que os nazifascistas mentem, não é exatamente uma verdade. Mas dizer que eles invertem a ordem das proposições para esconderem as reais intenções é da própria natureza dessa forma totalitária de agir. Dessa forma, devemos ver assim: quando eles dizem que nós fecharemos as igrejas, querem dizer que eles fecharão as instituições incômodas, os partidos, sindicatos, movimentos e ongs. Quando dizem que a lei está acima de tudo, querem dizer que farão uma nova Constituição com leis adequadas aos seus desígnios. Quando pregam que “Deus está acima de todos”, querem dizer que o líder é o maior e deve governar sozinho. Quando inventam a calúnia do “kit gay”, querem esconder a estrutura comportamental pedófila que possuem e tantas outras expressões seguem na mesma linha por isso é difícil contestá-los.  Por isso, dizer para a massas que “eles mentem”, não surte efeito, porque, antes do entendimento há a sensibilidade e, em grande medida eles apresentam-se como vítimas.

            Em síntese as massas exploradas precisam de ajuda para desvendar as verdadeiras intenções neonazistas, mas isto não será suficiente para afastar o cão da cerca dos cordeiros. É preciso organizar as massas e retomar as lutas pelos direitos, isto porque, nos últimos tempos delegou-se toda a responsabilidade e investiu-se todos esforços no parlamento. A conta chegou, a hegemonia parlamentar da extrema-direita é o retrato da despolitização da política abandonada a décadas no Brasil. Se acreditamos no que afirmou Karl Marx, que “a consciência social se forma na convivência social”; basta olharmos com que convivemos cotidianamente para sabermos, qual é o nível de consciência do desempregado, do evangélico, do católico, do estudante, dos professores, operários etc.

            Politizar a política é tarefa obrigatória para resgatar as massas pobres que se tornaram reféns dos interesses sanguinários, agora ainda mais, no domínio do Estado. Há porém, com tudo isso uma lição sendo passada, que o poder para centralizar-se no Estado, precisa ser produzido e sustentado fora dele. Ganhar eleições e correr para dentro do Estado esquecendo as massas, é perder a retaguarda.

                                                                                   Ademar Bogo