domingo, 29 de maio de 2022

O FECHADO E O ABERTO


            Esta discussão poderia adotar diferentes nomes, como rejeição, negação ou até mesmo imposição de vontades. Freud em 1925, no âmbito da individualidade, nos disse que, “A negativa constitui um modo de tomar conhecimento do que está reprimido...”. Porém há pela força do juízo a possibilidade de polarizarmos os julgamentos orientados por dois grupos de instintos. Se por um lado nega-se para afirmar, por outro lado, a negação se transforma em expulsão e se vincula ao instinto da destruição.

            Estas contrariedades quando presas ao existir de um indivíduo apenas cria um mal-estar pessoal, embora que esse mal se irradie em direção aos demais seres da convivência; quando se trata de comportamentos coletivos, os recalques e impulsos de expulsão e destruição, transformam-se em riscos, porque, as vontades dos interesses transformam-se em ações concretas e a não aceitação do outro ou do contrário, investe-se de poder conspirativo contra indivíduos e estruturas.

            O filósofo francês Henri Bergson fez uma bela discussão sobre as categorias do “fechado” e “aberto” no domínio social. A sociedade fechada, como uma colmeia de abelhas, funciona entrosando os indivíduos mutuamente, prontos para atacarem ou defenderem a qualquer momento. Supostamente colocam a inteligência no lugar dos instintos sem avaliarem e medirem as consequências dos atos. Para essas sociedades ou agrupamentos, a moral e a religião são fundamentos estruturadores.

            Por outro lado, a sociedade aberta não é estática e está voltada para fora, orientando-se pelo princípio universal. Busca transformar-se a partir da superação de suas próprias pressões e contradições sociais. Ocorre que uma mesma sociedade pode jungir os dois movimentos e, num determinado abrir-se, enquanto que num outro momento inesperadamente pode fechar-se.

            Por outro lado, tanto em uma quanto em outra sociedade, há de se pensar na governabilidade e aí, Berger nos ajuda a melhorar a visão sobre a diferença entre o aberto e o fechado, pois, “a arte de governar um grande povo é a única para a qual não tem havido técnica preparatória, nem educação eficaz, sobretudo em se tratando dos cargos mais elevados”.

            Os diversos elementos acima já são suficientes para compreendermos a situação econômica, política, social, cultural e moral em que vivemos. A princípio há evidências de que somos, mesmo em uma sociedade aberta, formada e governada por grupos fechados, denominados de família, empresa, associação, igreja, clube, exército etc., e, os líderes desses agrupamentos, atuam orientados por normas corporativas específicas. A negação e a expulsão de membros dessas estruturas levam sempre em conta os desejos e interesses particulares. Sempre quando irrompe alguma ameaça contra a autoridade, normas ou interesses, a tendência é haver uma reação instintiva, vingativa ou destrutiva.

            Evidentemente, em todas as sociedades fechas ou que estejam em processo de fechamento, os dois primeiros recursos a serem adotados se fundamentam na moral e na religião. A desmoralização visa tirar da parte a ser dominada, todo e qualquer respeito e santificar ou endeusar a parte que sacrificará em busca da legitimação divina. No fundo, o interesse é fazer a maioria temer por duas forças: a repressiva e a espiritual.

            O Brasil é uma sociedade militarizada e cristã, por isso a política não está alheia ao domínio militar e religioso. Em ambas as direções ou pior, quando combinadas, sofremos as consequências, pois, os instintos do fechamento, por inexperiência das lideranças lidarem com as multidões, ameaçam sempre cercear a liberdade daqueles que almejam mais espaço e fortalecer os interesses do status quo. As ameaças constantes de golpes que se parecem a blefes, é o modo de ser de tais autoridades diminutas, as quais foram educadas para liderarem grupos ou viverem em grupos fechados, é o caso do presidente da república atual que se cerca de militares como se estivesse em um quartel e não na governança de um país.

            No entanto, não significa porque o golpe não vem que ele não esteja vindo. A manifestação do instinto do fechamento para que o todo funcione, segundo os interesses da parte, apresenta-se como se uma colméia de abelhas, a partir de seu próprio entendimento, impusesse ao mundo, o seu modo de ser, e quem não se enquadrar corre o risco de levar ferroadas.

A tendência à destruição da ordem estabelecida é um desejo em ascensão. Parece estranho os próprios dominantes agirem contra a ordem dominante, colocando em dúvida a autoridade dos poderes, dos processos e das leis. Mas nada é estranho para grupos fechados; no fundo é o jeito de serem e agirem corriqueiramente.

É importante compreender os instintos dos representantes das sociedades fechadas, para que “as sociedades abertas”, com lideres capazes e interessados em mobilizar multidões, possamos reagir, não apenas contra  o fechamento da porta principal do poder político, mas de todos os fechamentos anteriores, depreciativos dos valores civilizatórios e que estamos fartos de vermos e ouvirmos sobre ocorrências policiais desumanizadas; reações neo-nazistas contra as diferenças raciais; preconceitos religiosos transformados em ações criminais,; armamento indiscriminado de futuros delinquentes civis, etc., que servem de exercícios para a consolidação da unidade dos componentes da sociedade e do Estado fechados.

Se as sociedades fechadas, lideradas por pessoas que não possuem a arte de liderar grandes multidões, só podem acontecer por meio das armas e da violência, é evidente que as duas coisas podem também estar presentes nas sociedades abertas e participativas, mas a essência dos processos é diferente. Nas sociedades fechadas as pessoas e instituições correm riscos maiores de sobrevivência.

No capitalismo, em qualquer uma das formas, fechada ou aberta, para a maioria da população não é o melhor dos mundos, pois, a democracia, além de não ser participativa na política é antidemocrática na economia e nos direitos sociais. A luta contra o fechamento dos regimes é vital, não apenas para que o todo não venha a ser dominado pela parte, mas, principalmente porque é anti-humano deixar-se dominar por instintos destrutivos, arrogantes e empobrecedores até mesmo dos valores dessa civilização em crise.

A melhor forma para evitar o fechamento das sociedades é lutar para deixar os caminhos abertos por onde devemos passar com as multidões rumo ao escancaramento das portas da justiça da igualdade e da solidariedade universal.

                                                                                  Ademar Bogo

               

               

 

domingo, 15 de maio de 2022

PROBLEMAS DE ORGANIZAÇÃO

            Sempre que nos deparamos com desafios políticos, lembramos da organização. Repetimos o que ocorre com a doença. Quando ela chega corremos em busca de remédios. Faz sentido a semelhança sobre tais comportamentos se considerarmos que a História pode ser adaptada ou moldada segundo as nossas vontades e desejos.

            Como na vida pessoal temos dois parâmetros orientadores reveladores de quem somos socialmente: a imaturidade juvenil e a maturidade adulta. Na primeira, fazemos as coisas como se o futuro estivesse lá no alto do horizonte e os esforços para chegar até lá podem ser empregados despreocupadamente. Afinal, o jovem sempre terá tempo de acertar as suas deformidades comportamentais.

            A maturidade, por sua vez, exige definições mais seguras, porque o horizonte é uma meta obrigatória a ser alcançada e qualquer esforço ou posição errada, pode levar ao fracasso e comprometer os destinos da História, como também, a segurança das pessoas que lutam.

            Sabemos pelas ofensivas das lutas revolucionárias, em diferentes partes do mundo que, os processos, devido as condições materiais e a colocação das forças, se reestruturam e exigem mudanças também nas formas de organizar e combater os inimigos do processo político em andamento.

            Não faz muito tempo, o saudoso Plínio de Arruda Sampaio, um exímio formulador de diagnósticos conjunturais, ao descrever a própria enfermidade, quase num ato de arrependimento por não ter prestado atenção e se cuidado a tempo, disse: “O corpo sempre manda recados”. Os processos políticos por serem movimentos vivos, também mandam avisos de algo que poderá acontecer se não forem tomadas as algumas providências; isto porque, conforme as circunstâncias atuais, o primeiro esforço para pensarmos as futuras estratégias, depende de continuarmos vivos.

            Antes de tudo, é importante destacar para que todas as forças de esquerda caídas, há algumas décadas, na vala comum das disputas eleitorais, que a situação das mesmas mudou profundamente e, para perceber isto, basta fazer breves comparações com o passado em que as massas iam em direção as praças para, aproveitarem dos atos, conhecerem artistas, ao mesmo tempo que contribuíam com as campanhas transformando-as em verdadeiras festas populares.

            Nos últimos anos, a cada dia surgem afirmações de sinais de que nada será como antes e, por isso, a imaturidade política tornou-se intolerável. Quais são os três principais sinais: a) a exacerbação dos instintos nas redes sociais, pondo dúvida antecipada à eficiência das urnas eletrônicas; o ataque ao poder judiciário e a promessa de que as forças armadas estão do lado e a serviço da ofensiva totalitária; b) o armamento de militantes e milícias com posições extremistas e, c) as “motociatas” que serviram até aqui como ensaios para a perturbação motorizada.

            Estes claros sinais indicam que a campanha eleitoral para presidente da república de 2022 terá ingredientes diferenciados e, cabe aos devotos desta tática assumiram a responsabilidade de eliminar qualquer tipo de ingenuidade e Boa-fé, para evitar danos irremediáveis.

            O verbo “tumultuar” certamente já entrou na linguagem neo-nazista e a sua conjugação será procedida por meio de ações perversas, antidemocráticas e criminosas. Para combater uma força é necessário apelar para outra força ainda maior. Para combater a conjugação do verbo “tumultuar”, devemos confrontar o verbo “organizar”. Os sinais enviados aos imaturos e adoradores do pacifismo, ecoam por meio de perguntas: 1) O que fareis quando um grupo armado, ao som das rajadas de armas de todos os calibres, dispersarem as multidões presentes nos comícios? 2) O que fareis quando um movimento de milhares de motos, com descargas modificadas, cercarem as praças e os atos ficarem incomunicáveis? O que fareis quando os resultados das urnas forem questionados, os candidatos eleitos atacados ou mortos e um movimento militar, em nome da ordem, assumir o poder?

            Os sinais conjunturais alertam os imaturos que não basta olhar para os números das pesquisas e satisfazer-se com alguma vantagem. A cortina de defesa da legalidade se tornou frágil que pode ser rompida a qualquer momento. Isso nos diz que, a política, mesmo na mais pura legalidade mudou de patamar e, o jogo de forças, agora, não depende apenas de alianças, marqueteiros, bandeiras e panfletos, mas de homens e mulheres organizados, capazes de riscarem o chão e, como dizia no passado, em tom de ameaça; “Daqui pra cá, ninguém passa”.

            Não temos outro processo, é dentro deste atual, criado pelas circunstâncias históricas e escolhas equivocadas no passado que a maturidade deve ser forjada. E, tomara que as ruas ensinem a ver a política como movimento permanente e nunca satisfeita com os resultados alcançados. Querer mais é também se propor a fazer mais e melhor.

                                                                                                                      Ademar Bogo

                         

domingo, 24 de abril de 2022

POLÍTICA DE SOBREVIVÊNCIA?


A política das últimas décadas move-se pelo parâmetro da sobrevivência. De certo modo ela não atua mais para produzir rupturas e transformar a sociedade, mas para salvar entidades e indivíduos que decaíram ou foram enfraquecidos pelas escolhas estratégicas equivocas feitas, ou crimes privada ou publicamente praticados. No fundo, trata-se de um aparelhamento das instituições governamentais em troca de servir bem os agentes acumuladores de capital.

O filósofo Nietzsche, com toda a sua astúcia, ao expressar no livro “A gaia ciência” (345) mostrou-nos que, “a falta de personalidade se expia em toda parte; uma personalidade enfraquecida, frágil, apagada, que se nega e se renega a si própria não serve para mais nada...”. Isto serve para a autoridade máxima do país, com suas “graças” distribuídas; dos partidos políticos sustentados pelo “fundo partidário”; das Igrejas que, por intermédio de seus pastores negociam propinas sobre as verbas públicas e também dos movimentos sociais e ONGs que, desamparados buscam a saída institucional para sobreviverem enquanto personalidades jurídicas como também forças sociais.

Desde a antiguidade atribuí-se à política diferentes funções, mas, em geral ela sempre foi vista como “arte”, de administrar bem. Na contemporaneidade, com a formação do Estado capitalista, a política avançou para ser a arte de representar. Dessa forma, o Estado como forma política passou a abrigar os interesses conservadores, conformistas e criminais.

Quando pensamos em “interesses conservadores”, vislumbramos as práticas voltadas para a manutenção da ordem, de agir conforme a lei posta, ou na elaboração de outras que ataquem as fraquezas do sistema. Os interesses conformistas, muito não diferem dos primeiros, mas convertem a política em um sentimento de impotência e, sem deixar de alimentar a brutalidade do sistema, as forças no governo, buscam banquetear com as sobras, as forças apoiadoras dos grupos mais destacados. No terceiro nível, os interesses criminais pré-estabelecidos, visam o controle político estatal e governamental, para manter aberta a estrada da corrupção e assegurar a proteção dos agentes da criminalidade financeira, política, social, policial, ambiental etc.

Figurativamente podemos demonstrar que o Estado é uma máquina de oxigenação de corpos que sem o aparelhamento governamental, politicamente não sobreviveriam. Dizer que a força política de uma organização passa prioritariamente por dentro do Estado, significa dizer, utilizando um conceito gramsciano que, a contra hegemonia revolucionária foi sacrificada em nome da ordem financiadora dos interesses colaboracionistas.

A política representativa como filha do liberalismo econômico, político e institucional, gerou uma encantadora neta conhecida pelo nome de “colaboração” e, esta passou a intimidar a luta de classes e todas as ofensivas contra o capital e o Estado.

A forma política institucional, com o enfraquecimento do bloco dos países de tendências socialistas, promoveu, desde a Revolução francesa de 1789, a maior conjugação de forças já vistas para gerir o capitalismo. Tanto é verdade que os processos das disputas eleitorais, conduzidos por todos os partidos políticos oficializados, não separam os representantes das classes antagônicas, ao contrário, tornam-se interesseiramente e afetivamente amigos.

Nas últimas décadas do século passado, mesmo a União das Repúblicas Soviéticas, classificadas como “socialismo real”, já não alimentassem mais o sonho das transformações revolucionárias, sustentavam, de algum modo, os confrontos de classe e a identificação viva do imperialismo como inimigo da humanidade. A perda da preocupação para responder à velha pergunta revolucionária, de “Quem são os nossos inimigos?”, deu lugar à formulação colaboracionista chapoliana, para outra preocupação, a de “Quem poderá nos salvar?”

A política da sobrevivência das entidades populares, abandonadas pela colaboração das Organizações não Governamentais (ONGs) desde o início deste século, não pode empurrar para dentro dos governos, os representantes que servirão como amortecedores das pressões contestatórias futuras. O campo de batalha, não pode ser o das “batalhas sem campo” definido, isto porque, a institucionalidade não é um campo de luta, mas um espaço indefinido aonde vigora a colaboração para a manutenção da ordem.

Estamos em um momento político que é preciso distinguir o que é divergência política e antagonismo de classe. Se as divergências nos instigam a lutar contra a forma de governar, o antagonismo deve nos empurrar para combatermos as classes que governam. Não se trata de tomar o lugar dos representantes da classe dominante no primeiro vagão, se a máquina que puxa todos os vagões do capitalismo, continuar rangendo sobre os mesmos trilhos indo na mesma direção. Trata-se de mudar o itinerário da viagem; para isto é preciso desembarcar a classe dos capitalistas e, lá adiante, descartar o próprio trem. 

É evidente que se trata de considerar as táticas elaboradas sobre as circunstâncias históricas. Não se pode imaginar atuar em um cenário que não existe, embora ele possa vir a ser configurado. Mas, por outro lado, é impróprio, em nome da mera sobrevivência, propor-se a seguir mansamente para dentro da jaula do consenso que asfixiará a todos, assim que a jaula for se enchendo. Esse movimento de candidatar as melhores lideranças, no passado já foi experimento pelas centrais sindicais e o resultado pode ser conferido a olho nu.

Os cenários presentes não são suficientes para que as táticas sejam formuladas. Pesa sobre os ombros das gerações atuais, a responsabilidade do que poderá renascer no futuro. Se o inimigo sempre volta, as gerações do passado que lutamos contra a continuação da ditadura militar, até 1985, deveríamos imaginar que essa tática inimiga, permanecendo as forças armadas descontroladas pela sociedade civil, poderia voltar, como de fato voltou de uma forma tão mascarada que, a população que lutou por “diretas já”, contra aqueles que haviam impedido as eleições por 20 anos, viram os seus descendentes legitimá-los pelo voto em 2018.

Não há política revolucionária fora da luta de classes; há sim, em nome da sobrevivência, colaboração e consentimento político. Não adianta chorar o passado; lágrimas não curam pancadas. No entanto, se o arrependimento não repara danos históricos, é imprescindível evitar de novamente cometê-los.

                                                                                             Ademar Bogo

 

    

 

 

domingo, 3 de abril de 2022

O CANSAÇO DO PROGRESSO

            As circunstâncias históricas atuais nos convidam a pensar na possibilidade da normalidade da guerra. Desde a Segunda Guerra Mundial, os conflitos pela conquista de territórios, insatisfatoriamente distribuídos aos vencedores, aguçaram os instintos dos Estados Unidos da América que, sempre pretendeu ser a maior economia do mundo e também a maior potência militar.

            Quando em 1991 a União Soviética se desfez e a China já vinha abrindo a sua economia para o capital ocidental, houve uma animadora euforia dos exploradores mundiais, por verem naquelas reviravoltas provocadas pelo cansaço do progresso socialista, uma oportunidade para hegemonizarem o controle da humanidade, a partir do monopólio da tecnologia.

            O domínio dos pontos essenciais, nos quais se concentram as riquezas naturais estratégicas, foi o primeiro impulso e, por isso, os capitalistas ideologizaram a globalização como se o mundo fosse um único território governado por poucas cabeças. O mercado passou a ser o veículo usurpador das soberanias nacionais transformando os Estados nacionais em meros servidores obedientes daquilo que passou a se chamar “a nova ordem mundial”.

            No entanto, com o elevado grau de desenvolvimento tecnológico, o tempo para  qualquer realização foi acelerado e, a ordem capitalista teve um envelhecimento precoce, tanto assim que, na atualidade, com  o deslocamento do poder econômico e militar para o continente asiático, o Ocidente, criador da globalização e formulador dos fascínios neoliberais,  não sabe o que fazer com a nova formação da hegemonia política sino-russo. Já não é mais uma suposição, mas uma realidade tocável que o desabamento dos pilares corroídos do imperialismo está com os seus dias contados.

            Para as pessoas mais conscientes, estudiosas das crises do capitalismo, seguidoras das teses de Karl Marx e de Friedrich Engels, as primeiras delas expressas no Manifesto Comunista de 1848, quando, dando conta que, a burguesia nas tentativas de superar as crises obriga-se destruir violentamente as forças produtivas e, por outro lado, precisa conquistar novos mercados no mundo. Diga-se de passagem, essas duas alternativas já foram gastas com a estratégia da globalização. Logo, está evidente que, “Tudo isto só prepara crises de maiores proporções em extensão e em destruição, diminuindo ainda mais as possibilidades de evitá-las” disseram os nossos filósofos.

            Para quem sempre se acostumou a pensar que a História é um “progresso sem fim”, terá de admitir e se acostumar em conviver com as guerras permanentes, isto porque, o futuro do progresso econômico e a destruição do progresso do presente, tornaram-se sinônimos do mesmo fracasso. Produzir para destruir, em busca de abrir espaço para produzir novamente, tornou-se insustentável por dois motivos pelo menos: a exaustão das reservas naturais e a geração cada vez mais de grandes contingentes de miseráveis em todos os pontos do planeta. Se o primeiro motivo denuncia que o modelo econômico está esgotado, o segundo aponta para a instabilidade política por todas as partes do mundo.

            O limite das matrizes produtivas do progresso capitalista seja na produção extensiva de alimentos, seja no uso insustentável da água e no apoio na química e no petróleo, bem como, a dependência da energia suja e os elevados volumes de gases lançados na atmosfera, levam à asfixia antecipada das próprias soluções apresentadas.

            Diante do esgotamento das alternativas, é evidente que as guerras surgirão como respiros momentâneos de manutenção de uma ordem civilizatória gravemente avariada e despedaçando-se a cada movimento feito. Por trás das guerras estão os interesses voltados para o controle do poder mundial. Porém, ninguém consegue controlar o fogo alastrado em uma habitação que guarda em suas repartições recipientes de produtos inflamáveis. É certo que o velho império do Ocidente capitalista, cede lugar para o novo império sino-russo, mas isso não indica dias melhores para os povos do mundo. Se as reservas monetárias de cada país, ao invés do dólar desloca-se para o ouro ou qualquer outra moeda, as economias continuarão controladas pelo princípio da valorização do valor.

            Evidentemente, o cansaço do progresso capitalista instigador de guerras permanentes, abre possibilidades de enfrentamentos e alternativas de superação. Para isso, depende da posição que as forças anti-capitalista tomarem. Em primeiro lugar é fundamental mudar a visão sobre a produção da riqueza e deslocá-la do tripé: mercadoria, dinheiro e capital. Para isso é necessário pensar na produção sem exploração e isto se consegue dando o primeiro passo: proibindo que a força de trabalho continue sendo vendida como mercadoria.

            Do ponto de vista revolucionário, a transição da hegemonia do poder imperialista do Ocidente para a Ásia, equivale ao desfecho, mesmo sem realização, da Terceira Guerra Mundial. É nesse breve vácuo aberto pelo enfrentamento entre as grandes potências, que as zonas supostamente inofensivas ou controladas devem elevar as suas pretensões.

A derrota do imperialismo norte-americano representa uma enorme conquista para a humanidade, mas não a maior, esta ainda deverá ser realizada, com o impedimento de que mais nenhum império se estruture, e que, a autodeterminação dos povos seja de fato um princípio que foge ao critério de ser ou não possuidor de riquezas naturais.

Olho vivo e ouvidos atentos para os sinais enviados pelo movimento das contradições, faz bem a quem deseja colocar-se como sujeito da História.

                                                                                       Ademar Bogo

                                                                       Auto do livro “Moral da História”

                         

 

 

domingo, 20 de março de 2022

OS LADOS DA GUERRA

Na contemporaneidade, com a globalização, a guerra assemelha-se a uma bola que, apesar de redonda, têm dois lados: O de dentro E O de fora. O lado de dentro são os países e pessoas envolvidas no conflito e, o lado de fora, divide-se em duas partes: há os países que contribuem e sustentam os países envolvidos e outros países e povos que sofrem as consequências econômicas, políticas e sociais.

O conflito instalado na Ucrânia já ganha proporções mundiais. Nessa expansão também já vislumbramos dois lados: o lado que perde e o lado que ganha. Os ganhadores com a guerra, em primeiro lugar, dentre outros, são as indústrias armamentistas, as corporações controladoras das commodities, como o petróleo, a soja, o trigo, a carne, por exemplo; o mercenário que luta por dinheiro ganhando, cerca de dois mil e quinhentos dólares por dia. Os perdedores, como sempre, estão as populações marginalizadas do mundo que precisam pagar mais caro pelo acesso aos bens de consumo.

Evidentemente a violência física e psicológica que a guerra causa é desumana. Do ponto e vista das conquistas humanitárias, por serem guerras entre potencias capitalistas, elas pouco ou nada trazem de melhorias. Os interesses imperiais ultrapassam as preocupações com os cuidados e a defesa das populações e se fixam no acesso às riquezas naturais.

O petróleo, embora se discuta cotidianamente a necessidade de se investir em energia limpa, continua sendo, como foi o fogo no início da humanidade, o produto em disputa. Há menos três anos, a Venezuela estava na iminência de sofrer uma invasão militar por parte dos Estados Unidos da América, o mesmo que hoje esbraveja contra a Rússia e, tal ameaça não atinge atualmente o Brasil, pelo simples fato do petróleo estar sendo entregue pacificamente.

O que espanta em tudo isso é que, os discursos que deveriam ser críticos e propositivos, são os mais conciliadores e condutores para o legalismo pacifista. Com a venda nos olhos, deixam-se conduzir para o futuro, com a ilusão de que, apropriando-se do poder político, tudo será melhor e, por essa razão desde os mais até os menos organizados, o parlamento passou ser a saída principal. Ou seja, para eles o problema não é o imperialismo nem a exploração capitalismo, mas o miliciano na presidência da República.

A ignorância sobre a necessidade da expansão do capital para todas as partes do globo terrestre faz com que, as discussões sobre o controle imperialista, passe despercebido e, como se a política tivesse total autonomia frente a economia, aposta-se tudo nessa via totalmente dominada pela democracia representativa. Não esqueçamos que o golpe de natureza parlamentar, tática primordial do capital especulativo, agora está em andamento no Peru, depois poderá deslocar-se para o Chile e, retornar no ano que vem ao Brasil.

Os conflitos mundiais tornam-se cada vez mais acirrados, conforme vão sendo exauridos os recursos naturais, de onde se extrai a matéria prima para a produção de mercadorias. Países que até então não demonstraram possuir nenhuma reserva natural importante, ficam à margem das prioridades. Se a economia precisa de petróleo e de minérios, o mercado precisa de produtos alimentícios, e as reservas financeiras até então, prioritariamente feita em dólares, agora se volta para o ouro. O Brasil é possuidor desses três potenciais e, do controle deles depende a soberania nacional.

Tal qual a guerra em andamento na Ucrânia, a guerra do capital contra as reservas naturais também está em andamento. Mas, se aquela, apesar dos sacrifícios ainda permite à população fugir para outros países, esta que acontece sob nossos pés, não permite que fujamos e nem que possamos buscar socorro em qualquer outro lugar. Portanto, é preciso enfrentá-la.

Tornaram-se cotidianas as análises sobre as crises e a decadência do capitalismo. As indicações de que este modo de produção já não tem mais o que oferecer de bom para a humanidade e, sob o seu domínio caminhamos a passos largos para a barbárie. Por isso, acreditar que as sociedades do futuro serão menos desiguais é uma verdadeira utopia sem fundamentos. Não há como pleitear a igualdade social, quando as causas promotoras das desigualdades são as energias vitais que movem o sistema.

Não se trata de buscar entre a agressão e a pacificação uma terceira via, mas trata-se sim de posicionar-se de tal maneira que permita fazer com que a humanidade invista na superação do atual estágio do imperialismo, para de fato superar o capitalismo. Este processo não ignora a realidade, mas afirma-se sobre as suas contradições.

As posições cômodas e pacifistas em relação à guerra, de setores de esquerda, que deveriam agarrar as nossas contradições internas para desencadear enfrentamentos, é muito preocupante. Se somos vítimas do mercado externo, seja do preço do petróleo ou das commodities agrícolas, as populações mais pobres e os trabalhadores seremos asfixiados pela fome vendo os produtos sendo exportados para outros países possuidores de poder de compra. Ou seja, se antes o apartheid social firma-se sobre o preconceito, agora quem estabelecerá a divisão, será o próprio mercado, devido aos preços exorbitantes, os grandes contingentes serão impedidos a consumir.

O papel das forças revolucionárias deve ser o de não deixar as massas acreditarem que não podem comer porque os preços estão altos. Os preços dos produtos não podem ditar se devemos passar fome ou não. Quem dita quem deve ser incluído ou excluído é capital e os capitalistas que o encarnam. Portanto, está cada vez mais nítida a formação das condições para se desencadear a verdadeira luta de classes, mas, para isso precisamos convencer e convencer-nos que um ser social é mais do que um cidadão. O primeiro tem tudo para ser o sujeito da História, o segundo somente têm direitos a serem exigidos de seus representantes escolhidos por meio da ilusão do voto.            

Precisamos de um partido que, inicialmente reúna a parte convencida de que é preciso superar o capitalismo e o Estado capitalista e, ao transformar os anseios em ações, convencer e transformar em força organizada, as grandes massas sofredoras e deserdadas. Passar necessidade como passam os cães diante das vitrines de carne trancadas, porque a prioridade é a exportação ou porque os preços são regulados em dólar, quando o salário é pago em real, não é nada racional.

Se as guerras são vitais para os capitalistas definirem como poderão acumular mais riquezas, elas também são oportunidades de darmos um passo à frente na contestação e na superação da dominação imperialista. Enquanto eles gastam energias para combaterem-se entre si, façamos a nossa própria marcha em direção à liberdade.

                                                           Ademar Bogo

                                               Autor do livro “Caminho do tempo”. Editora Cousa.

domingo, 6 de março de 2022

CARÊNCIA OFENSIVA


            Enquanto as forças de esquerda ou de posições políticas progressistas dividem-se mundo a fora, pondo-se a favor da Rússia ou da Ucrânia, ficando, com isso, reféns das hipóteses políticas postas pela grande imprensa, o povo ucraniano é quem paga com altos sacrifícios. Com exceção dos países já marcados pela exclusão do consenso imperialista, que se colocam em defesa dos direitos da Rússia, a maioria das opiniões, ou são cuidadosas, medrosas e até controversas.

Situemos, antes de tudo, a Ucrânia e demos a ela o direito de ser um país e um povo autodeterminado. Ninguém pode ser contra essa posição. A soberania de um país é indiscutível. Dito isto, situemos também a Ucrânia na geopolítica regional e veremos que ela, por consequências geográficas e históricas, já pertenceu ao pacto de Varsóvia entre 1955-1991, quando saiu e passou a ser denominada de “linha vermelha”, separando a Rússia dos países que, gradativamente foram se associando à OTAN, ampliando o poder de influência do imperialismo norte-americano no mundo. O desejo político dos governantes ucranianos é também associarem-se a esse bloco, mas, com isso, levaria a ameaça inimiga até as fronteiras da Rússia.

Se olharmos mais atentamente, sem nenhuma paixão, a situação do povo ucraniano é, atualmente, no mundo, a mais desfavorável possível. Por isso, sem comando, a solução dada a ele, é a fuga para os países vizinhos. Se por um lado, o objetivo da retirada em massa da população, serve para poupar a vida de civis, por outro lado, as forças de direta ucranianas, interpretam que, o esvaziamento das cidades serve para acelerar a ação militar russa e por isso dificultam a concretização dessa tática.

A situação da Rússia também não é confortável. Se o conflito se prolonga, aumenta o desgaste político a nível mundial; isto porque, o consenso midiático é de não aliviar a ofensiva difamatória e, mesmo no campo de batalha, é desgastante manter as forças em combate, basicamente estacionadas, tendo o máximo de cuidado para não abater civis. Mas, também não pode recuar. Se o fizer e a Ucrânia se aliar à OTAN, seria como se o seu vizinho abrisse uma janela no muro de seu quintal e por ele vigiasse todos os seus movimentos.

Há uma vontade histórica da Europa e aliados, em destruir o potencial russo como fizeram com a União Soviética. No entanto, por mais que façam, o núcleo duro resiste e ruma para afirmar, juntamente com outros países da Ásia, o pólo oposto ao imperialismo dos Estados Unidos.

De pronto, poderíamos ficar por aqui, satisfeitos com as informações, mas não extrairíamos as lições do conflito e nem tampouco apontaríamos para um desfecho favorável ao povo ucraniano e, para encontrá-la precisamos colocar no tabuleiro os partidos comunistas da Ucrânia. Eles foram criados a partir de 1993 e, como todos atuaram até 2014 na institucionalidade.

Em 2014 com a interferência imperialista, o governo legitimamente eleito, tal qual ocorreu no Brasil, foi deposto e, em 2015, o Partido Comunista da Ucrânia , o Partido Comunista Renovado e, o Partido Comunista dos Trabalhadores e Camponeses da Ucrânia, foram proibidos de atuar, usar símbolos, manifestar opinião e participara da vida política do país. A solução dos três partidos foi de apoiar as províncias separatistas de Donetsk e Lugansk, o que lhes rendeu, devido a propaganda enganosa do governo, ainda mais desgaste diante da população.

O enfraquecimento e “desaparecimento” dos Partidos Comunistas é parte desta catástrofe que se abate sobre a Ucrânia. A falta de uma força política e de lutas internas, deixa a situação ainda pior. O povo por si mesmo não se sente capaz de enfrentar a situação e, por isso foge, recolhe-se ou se coloca equivocadamente a favor do governo, o mesmo que faz a intervenção russa prolongar-se. A posição mais acertada seria, a de tomar a frente do processo e depor o governo fantoche dos Estados Unidos, restabelecer a verdadeira democracia, os direitos à soberania e a autodeterminação do povo ucraniano. Em parte é isso que pleiteia também a Rússia. A diferença é que ela o faz com tanques e bombas, sem a participação popular. Sendo vitorioso, o governo russo poderá, empossar um governo favorável às suas posições ou anexar o território ucraniano, mantendo-o como uma província da Rússia.

Falta, portanto, revelar ao povo ucraniano que, pela localização geopolítica do país, independentemente dos resultados desse assombroso conflito, a linha vermelha continuará existindo e será submissa à OTAN ou a Rússia. Aquele país está localizado na linha divisória dos interesses das potências capitalistas.

Para o povo ucraniano o caminho mais curto para estancar o sofrimento e a destruição, não é a fuga, mas as ruas. Para isso as forças comunistas e de esquerda deveriam assumir o comando e voltarem-se contra os inimigos internos que provocaram essa barbárie. Aplica-se aqui quanto lá, o velho provérbio popular: “Só o povo salva o povo”. Talvez, se as forças de esquerda, espalhadas pelo mundo, que se ocupam em condenar este ou aquele lado, gastassem as energias para ajudar a superar a carência ofensiva do povo ucraniano, estariam resgatando, de uma só vez, o princípio do internacionalismo proletário e a dignidade revolucionária.

 

                                                                                          Ademar Bogo

                                                                                  Autor do livro: Caminho do tempo

                                   https://cousa.minestore.com.br/produtos/caminho-do-tempo

 

domingo, 27 de fevereiro de 2022

A GUERRA DA AGONIA


            A guerra em andamento na Ucrânia sendo vista de duas maneiras: a primeira como vêem os Estados Unidos e aliados de que a Rússia provocou uma “invasão” de território e ofendeu a soberania de outro país, e, a segunda, como autodefesa do avanço da OTAN, contra o nazismo em crescimento no mundo e a antecipação aos planos do imperialismo de asfixiar o crescimento da Rússia.

            São duas formas, mas não únicas. Se tomarmos os movimentos ascendentes da modernidade para cá, perceberemos nitidamente que a importância das potencias mundiais, com o passar do tempo, desgastam-se e o poder desloca-se para outros pontos do planeta.  Quando tomamos a referência do colonialismo desde 1500, os nomes dos países em evidência como Portugal e Espanha aparecem com grande destaque. No entanto, esquecemos que a Holanda constituía-se na época, como a maior indústria naval e força comercial marítima, penetrando por todos os continentes competindo com as duas potências colonialistas.

            A partir da Revolução Francesa com o crescimento industrial e referência política, Inglaterra e França apossaram-se de grande parte das colônias, diminuindo imensamente o poder de influência mundial da Holanda. Paralelamente a esses países os Estados Unidos estenderam os seus domínios e, embora disputando espaço com outras potências, a partir da Segunda Guerra Mundial, passou, não somente subjugar as nações, mas a obrigá-las a apoiá-lo quando quisesse desenvolver qualquer ofensiva externa.

            A criação da Organização das Nações Unidas – ONU – em 1945 e, da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN – em 1949, como também, para as Américas, a Organização dos Estados Americanos – OEA -, dentre outros organismos de controle teve como estratégia, interferir, reunidamente, sobre os destinos dos países dependentes.

            A mudança de estratégia do domínio individual para o coletivo, do imperialismo dos Estados Unidos da América, visou formar um consenso forçado dos países submetidos aos seus interesses com controle direto sobre as soberanias, e sempre ditou, a partir de Washington, como deveria ser os parâmetros econômicos, políticos, militares etc.; um controle mundial nunca visto na História da humanidade.

            Todo esse poderio e controle não impediu que, paralelamente surgisse, principalmente, no continente asiático, pouco influenciado, exceto o Japão e a Coreia do Sul, potências concorrentes. A China, a India e a Rússia (esta última divisa e pertence territorialmente aos dois continentes, europeu e asiático) além dos investimentos econômicos, também competiram com o fortalecimento da indústria bélica.

            A abertura econômica da China, a partir de 1979 e o separatismo da União Soviética depois de 1991, foram saudados com grande euforia pelos capitalistas ocidentais. Todos correram, principalmente para a China, transferindo para aquele país, as tecnologias mais avançadas e, ajudaram, por diferentes fatores (dentre eles a força de trabalho barata) a torná-la  uma potência competitiva. A Rússia, por sua vez, recriou setores da classe burguesa, mas manteve o Estado fortalecido, assim como a China, controlando econômica política e militarmente cada país.

            Como essas expansões não impediram o surgimento das crises constantes do capitalismo, que vêm se repetindo desde a década de 1970, quando o modelo neoliberal começou a vigorar e a globalização passou a ser política e juridicamente oficializada as contradições ganharam mais destaques. Os conflitos regionais e a participação direta e frustrada dos Estados Unidos levaram ao enfraquecimento do império que passou a ter de dividir espaço mundial, com economias mais dinâmicas, como é o caso da China.

            A reação unificada dos países submissos aos Estados Unidos contra a Rússia soa um tanto estranho, se considerarmos que, principalmente a Europa, é a que mais tem a perder economicamente com o gás e o petróleo importados. No entanto, para além do incômodo econômico, marcas são marcas. A Rússia e a China, embora tenham aberto as suas economias e crescido nos parâmetros capitalistas, guardam consigo o estigma do comunismo e, principalmente a China, por ter mantido alguns princípios fundamentais do novo modo de produção. Essa marcas ideológicas são nitidamente percebidas, na linguagem preconceituosa da Rede Globo e no discurso raivo do governo contra as bandeiras vermelhas, arrefecido nos últimos dias com a esperança de que a Rússia venha auxiliar o candidato do genocídio, nas próximas eleições para presidente.

            Evidentemente a reação contra a Rússia reflete o deslocamento do poder político mundial, senão na sua totalidade, mas a Ásia agora está em campo para impor também os seus interesses e, dos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU, eles representam dois votos. Por outro lado, Vladimir Putin enfrenta sozinho a ascendência do nazismo na Europa, da mesma forma como fizera Stalin em 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia e desencadeou a Segunda Guerra Mundial.

            O processo de violação dos direitos democráticos na Ucrânia assemelha-se ao que ocorreu no Brasil, com a mesma estratégia golpista, de tirar, por simples votações no parlamento, os presidentes legitimamente eleitos. Aqui, o plano vigorou porque, feita a transição, houve a eleição, aceitamos o resultado e as forças adeptas do nazismo que venceram estão a governar até o final deste ano, quando se pensa tirá-las do poder pela via eleitoral. Na Ucrânia, os planos falharam e duas regiões Donetsk e Luhansk, não aceitaram o resultado eleitoral imposto e ofereceram resistência. De lá para cá, não somente os habitantes dessas duas regiões, como todos os habitantes de descendência russa e forças de oposição, vinham sendo reprimidas pelo governo de índole nazista que, mesmo estando fora da OTAN, é aliado dos Estados Unidos.

            Os combates na Ucrânia reproduzem a mesma situação de 1º de Setembro de 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia para chegar à Rússia. Os dois países divisam com a Rússia. No entanto, agora Putin antecipou-se e, antes que o seu vizinho se alie legalmente ao inimigo, permitindo que os aparatos bélicos sejam instalados em cima da divisa, foi preciso reagir.  

Não se trata de negar a soberania de cada país e nem concordar com o Estados Unidos, mesmo porque é o país mais especializado neste quesito. Há dois anos tentou invadir a Venezuela usando o Brasil para empossar um fantoche como presidente.  Trata-se de uma ameaça iminente contra a Rússia e, por essa razão, a intervenção é preventiva.

A correlação de forças mudou. Se Stalin teve a seu lado, em sua época, a Inglaterra e a França para lutar contra a Alemanha, hoje Putin não tem e, dependendo de como o processo fluir, é pouco provável, mas pode até vir perder a guerra ou ter de recuar, se o desfecho demorar muitos dias, mas isso não anula a determinação Histórica de que o imperialismo norte-americano está em decadência e, as suas ordens não são mais unânimes, nem tampouco hegemoniza o controle da economia do mundo. Outras potências surgiram e querem o espaço merecido.É evidente que o império agoniza e com ele agoniza também, por ter feito a escolha errada, agoniza temporariamente também a Europa ,até ser salva pela China.

Uma certeza podemos ter conosco, mesmo com o deslocamento do poder do império para outros pólos, o capitalismo destrutivo e decadente não tem mais solução. A excrescência do crescimento do nazismo no mundo é a demonstração de que, para este tipo de crise civilizatória somente o banditismo político pode segurar o avanço das forças democráticas e revolucionárias. Falta este levantamento para por fim ao impérios.  No momento em que os povos entenderem que não basta governar os países, mas é preciso comandar solidariamente todos eles, a política mudará de natureza e as lutas serão pelo poder e não pela escolha de fantoches da ordem imperialista e capitalista.

                                                           Ademar Bogo