domingo, 20 de setembro de 2026

DEMOCRACIA SUBSTITUTIVA


            Não há como negar que a referência do termo Democracia, nas últimas décadas, passou a ser utilizado para justificar as mais estranhas vontades no âmbito da política. Oscilando entre a representação de grupos que em nome do povo se apoderam das estruturas governamentais para implementarem políticas sociais como também outras facções e seitas visam o poder para extraírem do consentimento popular a autorização para assaltar o país, reduzir os direitos conquistados e garantirem o controle da ordem por meio da violência e da repressão.

            Se ninguém gosta de ser chamado de impostor, ditador ou usurpador é preciso que se encontrem termos na linguagem política que confundam as interações civilizatórias, seguidas pelos dois referenciais dialéticos: amor e temor, do jeito que nos explicou Nicolau Maquiavel: “É que o amor se mantém por meio de vínculo de dever, e este vínculo os homens o rompem, levados pela sua índole perversa, sempre que de tal lhes resulte proveito. Já o temor é mantido por medo ao castigo, e este medo jamais abandona os indivíduos”.[1]

            Essa estrutura estatal patriarcal sustenta o que podemos considerar na prática da “Democracia substitutiva”, o comportamento dos homens no recinto dos seus lares, ora servindo-se do consentimento coletivo para impor as ordens como deveres conjugais e filiais, ora utilizando-se de ameaças e diferentes formas de violência, para garantir-se enquanto sujeito da dominação. Por isso, a afetividade e o temor são duas manifestações psíquicas que contém e expandem as pulsões de acordo com as situações da convivência.

            Esse roteiro civilizatório traçado segundo os interesses formados nas circunstâncias das disputas conjunturais ou estruturais, divide as populações formando lados opostos, caracterizados pela aceitação ou pela repugnância. É nesse particular que residem os estranhamentos e as confusões conceituais entre aquilo que é certo ou errado. Tal qual ocorre na família quando uma parte se sente mais segura, quando a autoridade paterna se impõe com a firmeza suficiente para punir algum dos membros pela desarmonia comportamental, na esfera política, uma parte da população concorda com a imposição de medidas punitivas contra a outra parte insubordinada.

Desse modo, considerando a consonância entre o amor e o temor na interioridade do poder, não podem existir em qualquer sociedade, regimes democráticos ou totalitários sem o apoio e o consentimento individual e grupal. Para que isso ocorra é preciso situar os posicionamentos em torno do acordo ou dos desacordos. O “concordo” e o “discordo” se impõem pela avaliação sentimental individual, medidos pelos parâmetros opostos do “gosto” e do “desgosto”.  Esses movimentos oscilantes são operacionalmente produzidos segundo a capacidade substitutiva de cada oligarquia política.

A política não é um sentimento puro e natural. Ela precisa “ser feita” com intencionalidade, energia e determinação. Nesse fazer há diversas obrigações que poderíamos chamar de funções ou papeis, pois, esses movimentos são considerados uma arte expressa no cenário político. Nesse teatro há atores e atrizes principais e coadjuvantes; da mesma forma que há parte das plateias que se manifestam e, outras, expectadoras sem vontade de manifestarem-se; embora torça a favor ou contra.

A Democracia substitutiva intenta a mais renovada maneira de conduzir a política segundo os interesses de grupos, facções e seitas. Apesar de ainda vigorarem os partidos políticos, a descaracterização dos mesmos levou a confundir a posição de classe dos cidadãos que deixaram de ser, na grande maioria, sujeitos da política, em vista da defesa dos próprios direitos. A análise em geral dos discursos permite verificar que a corrupção e a violência se tornaram anseios principais dos candidatos que dão aos termos maior atenção. Com isso deixam passar sem nenhuma observação, a estrutura da sociedade desigual, a exploração humana e da natureza e, a decadência total da civilização.

Esses roteiros eleitorais cujos palanques viram palcos para os candidatos a representantes apresentarem intenções aos espectadores, que apenas gritam e batem palmas, servem mais às forças conduzidas pelas classes dominantes, porque, as verdadeiras contradições não educam as massas para se organizarem e defenderem os seus próprios interesses.

A perda do horizonte socialista levou também as forças contrárias ao capitalismo, esquecerem de todas as lutas pelas conquistas dos direitos sociais foram desenvolvidas. A perda da visão estratégica de que o socialismo é uma construção feita dentro do capitalismo, e que precisa aprofundar-se em todas as dimensões desta sociedade desigual, leva a colocar em risco os próprios avanços das melhorias sociais.

Quando qualificamos os aspectos substitutivos da Democracia, não estamos apenas olhando para os comportamentos das forças políticas de direita, se assim podemos chamar esses aglomerados que caminham para impor um regime totalitário, sem identifica-lo com este nome; devemos considerar também as forças contrárias que esvaziaram o conteúdo da Democracia participativa, e substituíram a organização de base; a formação política das  massas; a multiplicação de novas lideranças, como também a insurreição popular e a Revolução socialista, pela cômoda prática virtual de se fazer conhecer os candidatos e candidatas à distância, como se fossem extra sociais, de pele lisa, intocáveis e visíveis apenas nas campanhas eleitorais.

Considerando os avanços tecnológicos no âmbito da produção, os trabalhadores braçais foram diminuídos, ocasionando à extinção de algumas profissões artesanais. Ao se deixar de fazer política artesanalmente, as funções de militantes, coordenadores de núcleos e células partidárias e, as lideranças de bairro ou de outros locais de trabalho, bem como as formas de campanhas de rua, como as pichações, as pinturas e as colagens de materiais de propaganda, desapareceram.

Se substituirmos, o ótimo pelo bom, depois o bom pelo satisfatório e este pelo regular, saberemos porque o extraordinário desapareceu. Nossos olhos precisam levantar as pálpebras para enxergarmos mais além dos processos eleitorais. O socialismo é uma construção feita com superações de relações, elas e não as opiniões devem ser defendidas para que sirvam de acúmulo para impulsionar as novas vitórias.

Não existe transformação sem mudanças, como também o contrário é verdadeiro. Substituir pode ser necessário, mas nunca para adequar-se à ordem estabelecida pela superestrutura capitalista. As classes trabalhadoras e as massas populares encantam-se com as vitórias e desencantam-se facilmente com as frustrações, principalmente aquelas produzidas pela covardia de não querer lutar.

                                                                       Ademar Bogo      



[1] MAQUIAVÉL, Nicolau. O Príncipe. Mário e Celestino da Silva(tradução) Brasília, Senado Federal, 2019, p. 101.

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