segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O APOCALÍPSE ELEITORAL


            Na obra, O capital de Karl Marx, encontramos passagens belíssimas que fundem saberes econômicos, filosóficos, históricos e literários, principalmente na parte que se refere ao dinheiro; isto porque, em qualquer lugar onde exista produção capitalista, ele representa uma das formas de expressão da riqueza. No entanto, esta forma encarnada na mercadoria desde o início do capitalismo, com a evolução da concentração e a volatilização monetária no processo já incontrolável, é digna de comparação, segundo o próprio Marx, com a besta do Apocalipse.

Para ressaltar o poder do dinheiro nas relações de troca, Marx recorreu ao Apocalipse comparando-o com a besta para os capitalistas: “Todos eles têm um mesmo desígnio, e entregarão sua força e seu poder à besta. E que só possa comprar ou vender quem tiver o sinal, a saber, o nome da besta ou o número do seu nome”.[1]

 Nessa comparação, a besta exterminadora do Apocalipse, no capitalismo, em grande medida, se movimenta com a força monetária. É com essa força que os exterminadores dos direitos, da cultura e da própria vida no planeta, controlam a economia e a política. A ameaça de intervenção militar na América Latina prometida pelo presidente dos Estados Unidos, para assegurar os interesses imperialistas, é a demonstração da profundidade da fome que a besta está mergulhada.

Não se trata de espiritualizar a análise, mas há momentos na história que se colocam como marcos assinalando o “fim dos tempos”, principalmente quando tomamos o sentido diacrônico, no qual a linguagem precisa caracterizar os fenômenos das mudanças estruturais e culturais, conforme se desenvolveram no tempo histórico. Concretamente, podemos visualizar que esse tempo das disputas eleitorais em dois turnos, que sustentaram os discursos das garantias democráticas, foi posto de cabeça para baixo e, por si só, já está sem condições de responder às necessidades das mudanças revolucionárias.

As tentativas de golpe de Estado são meras demonstrações grotescas do que significa o poder apocalíptico do dinheiro e dos interesses do capital. Os escândalos que ameaçam implodir as instituições, as quais sempre foram sustentáculos da ordem e do Estado de Direito, representam a incorporação da energia destrutiva do capital que, se preciso for, arrasará toda e qualquer base de impedimento ao acesso às matérias primas que lhe garantam o controle por alguns a anos a mais de sobrevivência.

Há décadas estamos refreados nos processos de mudanças estruturais. Embora muitas conquistas socializadoras tenham sido alcançadas, os representantes capitalistas da democracia representativa impuseram, impunemente limites e derrotas à classe trabalhadora, no que diz respeito ao avanço das conquistas sociais e da distribuição da riqueza.

Os conteúdos denuncistas entranhados nas campanhas eleitorais atuais, fazem sobressair a corrupção como sendo o grande mal da política, descredibilizando os bons candidatos, ao mesmo tempo que protegem os agentes econômicos e financeiros que estão na base da corrupção. As instituições públicas ao invés de aparecerem apenas como mediadoras dos desvios de verbas públicas, são postas em evidência para proteger os verdadeiros corruptos e sonegadores de impostos.

Os reclames empresariais contra a quantidade de impostos são expressões disfarçadas para justificar o aumento dos preços ou amealhar, com os subsídios, ainda mais dinheiro. Não precisa ser economista para saber que qualquer taxa de imposto é incluída no custo da produção e circulação dos produtos. Quem paga o imposto não é o capitalista, mas o consumidor; da mesma forma que quem paga o próprio salário é o trabalhador, depois de produzi-lo nos trinta dias trabalhados antes do recebimento.

Os sinais do “apocalipse eleitoral” estão evidenciados no rumo que tomam as disputas, envolvendo a desmoralização jurídica e as crenças religiosas. Em relação à primeira, o objetivo é de desmoralizar quem julga para que a negação das leis e da ordem democrática, instituídas no passado pelos próprios burgueses, que sempre formam a maioria no parlamento, deixem de garantir às vitórias das forças contrárias. Em relação às outras, o avanço das seitas neopentecostais, criadas para combater, com a ajuda da própria hierarquia da Igreja católica nas últimas décadas do século passado, as Comunidades Eclesiais de Base e a Teologia da Libertação, chega ao auge com as práticas de intolerância religiosa, contra os cultos afrodescendentes e o catolicismo.

Com esses elementos implosivos da democracia representativa, somam-se as milicias armadas criadoras da própria ordem, contra o velho Estado Democrático de Direito capitalista, asfixiado pela impotência e a conivência de parte das forças policiais que colaboram com o crime organizado e favorecem, em última instância, ao poder imperialista dos Estados Unidos, que almeja usurpar a soberania dos países possuidores de riquezas naturais.

O recente conflito brasileiro entre a oposição entre o candidato evangélico contra o candidato católico, envolvendo a padroeira do Brasil, a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, tenderá, num curto espaço de tempo deslocar-se para os 5.570 (cinco mil quinhentos e setenta) municípios nos quais predomina um padroeiro ou padroeira, eleitos pela tradição do catolicismo. Portanto, as disputas que deveria ser entre as classes para exigir direitos e controle do capital, rumarão para afirmarem-se como disputas religiosas de pobres contra pobres.

Portanto, a identificação apocalíptica que numera os partidos e os caracteriza com as cores adequadas, será substituída pelas insígnias como foram as do nazismo, a estrela de Davi; o candelabro de sete braços; o chifre do carneiro, ou outro mais atualizado, vinculado às cores do nacionalismo patriota. Por estas simbologias, medir-se-ão quem são os amigos e os inimigos; enquanto as práticas militantes, ao invés de voltarem-se contra os shoppings, Bancos, empresas mineradoras estrangeiras etc., se resumirá em depredações de templos religiosos e conflitos de rua.

Tudo isso veio sendo planejado ideologicamente pela intervenção imperialista, para doutrinar e alienar as massas no continente Latino-americano, como parte antecipada da estratégia da intervenção militar da qual também fez parte os processos eleitorais em dois turnos. As consequências são estarrecedoras do ponto de vista revolucionário, pois, além de adestrar os partidos políticos, fez as parcelas mais conscientes da classe trabalhadora deixarem de ser esquerda para afirmarem-se como sociais liberais, fazendo assistência para as massas, despolitizando-as e desorganizando-as totalmente.

Na atualidade podemos dizer que os processos eleitorais mobilizam multidões, mas não organizam resistência alguma, nem defendem as lideranças ofendidas, a exemplo do que ocorreu com a cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff em 2016 e a prisão de Lula em 2018.

Em síntese, não é de tudo ruim acreditar no “fim dos tempos”, porque de fato as contradições, mesmo que sejam negativas se superam e, nessa transição apresentam sinais da “boa-nova”, feita pelo aprendizado em toda a trajetória do percurso. É provável que estamos mais fracos do que quando começamos. Por outro lado, estamos muito mais sabidos. Isso nos ajudará a andar mais rápidos, no entanto, é preciso querer renovar as próprias energias e encontrar as formas eficientes de aplicá-las.

                                                                       Ademar Bogo



[1] MARX, Karl. O capital: Crítica da economia política. Rio de Janeiro; Bertrand Brasil, 1996, p. 97.

domingo, 20 de setembro de 2026

DEMOCRACIA SUBSTITUTIVA


            Não há como negar que a referência do termo Democracia, nas últimas décadas, passou a ser utilizado para justificar as mais estranhas vontades no âmbito da política. Oscilando entre a representação de grupos que em nome do povo se apoderam das estruturas governamentais para implementarem políticas sociais como também outras facções e seitas visam o poder para extraírem do consentimento popular a autorização para assaltar o país, reduzir os direitos conquistados e garantirem o controle da ordem por meio da violência e da repressão.

            Se ninguém gosta de ser chamado de impostor, ditador ou usurpador é preciso que se encontrem termos na linguagem política que confundam as interações civilizatórias, seguidas pelos dois referenciais dialéticos: amor e temor, do jeito que nos explicou Nicolau Maquiavel: “É que o amor se mantém por meio de vínculo de dever, e este vínculo os homens o rompem, levados pela sua índole perversa, sempre que de tal lhes resulte proveito. Já o temor é mantido por medo ao castigo, e este medo jamais abandona os indivíduos”.[1]

            Essa estrutura estatal patriarcal sustenta o que podemos considerar na prática da “Democracia substitutiva”, o comportamento dos homens no recinto dos seus lares, ora servindo-se do consentimento coletivo para impor as ordens como deveres conjugais e filiais, ora utilizando-se de ameaças e diferentes formas de violência, para garantir-se enquanto sujeito da dominação. Por isso, a afetividade e o temor são duas manifestações psíquicas que contém e expandem as pulsões de acordo com as situações da convivência.

            Esse roteiro civilizatório traçado segundo os interesses formados nas circunstâncias das disputas conjunturais ou estruturais, divide as populações formando lados opostos, caracterizados pela aceitação ou pela repugnância. É nesse particular que residem os estranhamentos e as confusões conceituais entre aquilo que é certo ou errado. Tal qual ocorre na família quando uma parte se sente mais segura, quando a autoridade paterna se impõe com a firmeza suficiente para punir algum dos membros pela desarmonia comportamental, na esfera política, uma parte da população concorda com a imposição de medidas punitivas contra a outra parte insubordinada.

Desse modo, considerando a consonância entre o amor e o temor na interioridade do poder, não podem existir em qualquer sociedade, regimes democráticos ou totalitários sem o apoio e o consentimento individual e grupal. Para que isso ocorra é preciso situar os posicionamentos em torno do acordo ou dos desacordos. O “concordo” e o “discordo” se impõem pela avaliação sentimental individual, medidos pelos parâmetros opostos do “gosto” e do “desgosto”.  Esses movimentos oscilantes são operacionalmente produzidos segundo a capacidade substitutiva de cada oligarquia política.

A política não é um sentimento puro e natural. Ela precisa “ser feita” com intencionalidade, energia e determinação. Nesse fazer há diversas obrigações que poderíamos chamar de funções ou papeis, pois, esses movimentos são considerados uma arte expressa no cenário político. Nesse teatro há atores e atrizes principais e coadjuvantes; da mesma forma que há parte das plateias que se manifestam e, outras, expectadoras sem vontade de manifestarem-se; embora torça a favor ou contra.

A Democracia substitutiva intenta a mais renovada maneira de conduzir a política segundo os interesses de grupos, facções e seitas. Apesar de ainda vigorarem os partidos políticos, a descaracterização dos mesmos levou a confundir a posição de classe dos cidadãos que deixaram de ser, na grande maioria, sujeitos da política, em vista da defesa dos próprios direitos. A análise em geral dos discursos permite verificar que a corrupção e a violência se tornaram anseios principais dos candidatos que dão aos termos maior atenção. Com isso deixam passar sem nenhuma observação, a estrutura da sociedade desigual, a exploração humana e da natureza e, a decadência total da civilização.

Esses roteiros eleitorais cujos palanques viram palcos para os candidatos a representantes apresentarem intenções aos espectadores, que apenas gritam e batem palmas, servem mais às forças conduzidas pelas classes dominantes, porque, as verdadeiras contradições não educam as massas para se organizarem e defenderem os seus próprios interesses.

A perda do horizonte socialista levou também as forças contrárias ao capitalismo, esquecerem de todas as lutas pelas conquistas dos direitos sociais foram desenvolvidas. A perda da visão estratégica de que o socialismo é uma construção feita dentro do capitalismo, e que precisa aprofundar-se em todas as dimensões desta sociedade desigual, leva a colocar em risco os próprios avanços das melhorias sociais.

Quando qualificamos os aspectos substitutivos da Democracia, não estamos apenas olhando para os comportamentos das forças políticas de direita, se assim podemos chamar esses aglomerados que caminham para impor um regime totalitário, sem identifica-lo com este nome; devemos considerar também as forças contrárias que esvaziaram o conteúdo da Democracia participativa, e substituíram a organização de base; a formação política das  massas; a multiplicação de novas lideranças, como também a insurreição popular e a Revolução socialista, pela cômoda prática virtual de se fazer conhecer os candidatos e candidatas à distância, como se fossem extra sociais, de pele lisa, intocáveis e visíveis apenas nas campanhas eleitorais.

Considerando os avanços tecnológicos no âmbito da produção, os trabalhadores braçais foram diminuídos, ocasionando à extinção de algumas profissões artesanais. Ao se deixar de fazer política artesanalmente, as funções de militantes, coordenadores de núcleos e células partidárias e, as lideranças de bairro ou de outros locais de trabalho, bem como as formas de campanhas de rua, como as pichações, as pinturas e as colagens de materiais de propaganda, desapareceram.

Se substituirmos, o ótimo pelo bom, depois o bom pelo satisfatório e este pelo regular, saberemos porque o extraordinário desapareceu. Nossos olhos precisam levantar as pálpebras para enxergarmos mais além dos processos eleitorais. O socialismo é uma construção feita com superações de relações, elas e não as opiniões devem ser defendidas para que sirvam de acúmulo para impulsionar as novas vitórias.

Não existe transformação sem mudanças, como também o contrário é verdadeiro. Substituir pode ser necessário, mas nunca para adequar-se à ordem estabelecida pela superestrutura capitalista. As classes trabalhadoras e as massas populares encantam-se com as vitórias e desencantam-se facilmente com as frustrações, principalmente aquelas produzidas pela covardia de não querer lutar.

                                                                       Ademar Bogo      



[1] MAQUIAVÉL, Nicolau. O Príncipe. Mário e Celestino da Silva(tradução) Brasília, Senado Federal, 2019, p. 101.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O JOGO SUJO CONTRA A ESPERTEZA LIMPA


            O jogo da política entre as forças da extrema-direita e o centro-direita que engoliu a esquerda e todas as iniciativas de reações populares, tornou-se cada vez mais perigoso e terminal. Se fosse possível considerar um ciclo de nascimento e morte, poderíamos dizer que ele está se concluindo com uma profunda melancolia depressiva, no que diz respeito à paixão das mobilizações das massas e, profundamente marcado pelo envelhecimento do conjunto dos líderes, até mesmo para dar sequência à manutenção das disputas no interior da democracia liberal.

            As forças de direita, mesmo dentro dos processos democráticos liberais, sempre foram totalitárias no trato com a ordem, seja no mundo do trabalho ou no mundo da política. Até o final do século passado ela se mantinha no poder pelo uso das forças repressivas. Em qualquer situação de instabilidade, bastava acionar as forças policiais e fazer a violência afirmar a autoridade dos dominadores contra os dominados.

            No início deste século, no Brasil, logramos ganhar a presidência da República e triunfar eleitoralmente. Tudo ocorreu por mérito das lutas populares, mas também pela certeza do controle absoluto dos processos eleitorais pelas forças de direita, que na Assembleia Nacional Constituinte de 1988 concordaram em universalizar o voto. Basta lembrar que na primeira República, de 1889 a 1930, em média apenas 5% da população votava nas eleições. Havia um rígido controle eleitoral e institucional, depois, crentes que os trabalhadores nunca ousariam disputar os espaços de poder, foram liberalizando o voto, mas mantiveram o controle da democracia representativa selecionando os candidatos.

As vitórias eleitorais brasileiras alcançadas pelas forças partidárias de tradição progressista, com o apoio popular, emitiu um sinal trocado transformando os mandatos em conquistas, quando na verdade eram apenas um empréstimo para o uso de parte das instituições, que poderiam ser usadas, remuneradas com as concessões e devolvidas quando as forças conservadoras desejassem ter de volta o controle de toda a superestrutura.

Este jogo ilusório da democracia representativa, inventado para que as forças inimigas, por meio do voto, pudessem confrontar os interesses, foi calculado para, sempre depois dos pleitos os perdedores calarem-se para que os grupos oligárquicos pudessem governar. Sempre a presença do povo, essa prática tornou-se parte da cultura política capitalista. Por isso, a Democracia é entendida se houver ou não eleições presidenciais. Fora desse contexto, outros conceitos regulam a vida dos cidadãos, como estes por exemplo: Estado Democrático de Direito; meritocracia; racismo estrutural e cultural; SUS e Plano de Saúde; Sistema de cotas na educação, políticas públicas, juros etc.

            A manipulação do conceito de Democracia induziu as forças de esquerda do passado, para além do próprio esgotamento de suas forças a perderem a própria identidade com os conflitos de classe, com a revolução e o socialismo. A defesa da ordem passou a ser a principal bandeira de conscientização da população, para evitar que a extrema-direita tentasse tomar à força e, implantar em seu lugar, também na política o totalitarismo. Por que também politicamente? Pelo simples fato que, conforme as pesquisas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Brasil 69,1% dos trabalhadores ganham menos de dois salários-mínimos e, apenas 0,5% ganham mais de 20 salários, ou seja, apenas um milhão de pessoas ficam com a maior parte dos rendimentos e do trabalho alheio.  O aspecto econômico não é visto como totalitarismo, porque a renda não é relacionada com a liberdade e o direito de ir e vir, nem com a proibição de entrar em todos os lugares, devido à falta de uma etiqueta de luxo nas vestimentas, ou pelo baixo poder aquisitivo para comprar ingressos para assistir algum evento.

            Os capitalistas quando criaram o Estado capitalista com os três poderes e, o Direito Positivo portador das leis para manter a ordem dominante, tinham em mente construir um instrumento que fosse além da universalidade da razão, conforme havia pragmatizado o filósofo Immanuel Kant e se constituísse num instrumento de poder absoluto. O suposto “enfraquecimento das instituições”, longe de querer eliminar o Estado, contém os interesses da recomposição do poder hegemônico dentro delas. Portanto, se o capitalismo e o Estado capitalista representam a mesma coisa, como os capitalistas conseguiriam garantir as suas causas sem o Supremo Tribunal Federal? O que eles querem é substituir alguns juízes que não fazem tudo o que um poder totalitário deseja.

            Quando os burgueses aliados das forças armadas planejam e executam um golpe de Estado, não querem destruir o Estado, mas apenas fazê-lo funcionar totalmente a seu favor. Por outro lado, o equivalente a um golpe de Estado é a Revolução que almeja tomar o Estado e transformá-lo, mas também controlar o capital e distribuir a riqueza, eliminando, em alto grau, a diferença entre as classes. Optando pelos processos eleitorais pacíficos, sem manter as lutas populares em defesa dos direitos e contra a exploração do capital, os trabalhadores, mais dia menos dia, nos encontraremos com duas fatalidades: a primeira, mesmo que tenhamos ganhado pleitos por diversas vezes encadeadas, perdendo as eleições temos que entregar, pelo jogo democrático, os cargos e os palácios alugados; a segunda, é sofrer um golpe de Estado e vermos uma onda totalitária cair sobre as nossas cabeças.  

            Nesse campo da democracia representativa capitalista, não existe vitórias sem fim. Pode haver para as forças progressistas, um determinado equilíbrio que se situa no centro engenheirado pelo abocanhamento e a cooptação das forças de esquerda, até que as pressões e descômodos tomarem conta das forças da extrema-direita e ela querer recuperar alguns lugares perdidos no campo da institucionalidade. Ela sempre o faz com a conivência do outro lado que desaprendeu a resistir com os calcanhares enterrados no solo, acostumou-se apenas bater palmas para algum ministro do Supremo Tribunal que, se valendo da toga assegurou algum direito. No entanto, isto está cada vez mais fragilizado e, na precisão, os cultuadores da guilhotina não vacilam quando precisam cortar alguma cabeça, esteja ela onde estiver.

            O melancólico fechamento do ciclo institucional, com a vitória ou a derrota de Lula, será daqui a meses ou em quatro anos. Depois disso, todos os partidos brasileiros, sem exceção, estão aculturados e domesticados pela ordem legalista institucional, não terão mais o mesmo fulgor, pois desaprenderam tudo o que sabiam sobre a luta de classes e a revolução. As lideranças mais velhas, estão literalmente velhas, sem forças para recomeçar um novo ciclo e, as gerações mais novas, não sabem abrir o novo ciclo porque não foram ensinadas a lutar, nem tampouco possuem algum parâmetro que as possa motivar, pois, o horizonte utópico foi apagado com a esponja do pacifismo obediente. Mas terão de aprender por conta própria e assumirem o comando do próprio destino.

            Quando este ciclo político sindical iniciou no final da década de 1970 pouco ou quase nada havia sobrado das forças anteriores; a ditadura militar havia eliminado todas as resistências. As circunstâncias históricas empurraram todas as lutas seguintes para conquistar e garantir direitos, eles estão escritos na Constituição Federal, mas não estão seguros, porque as letras sem resistência política, podem ser apagadas. É preciso que as chamas que incendiaram aquelas vitórias permaneçam acesas para iluminarem o caminho das novas vitórias; no entanto, é preciso descobrir como fazer isso.

Portanto, a pergunta a ser feita é, como reavivar os ânimos para as novas lutas? As crises promovem sofrimentos, mas também provocam reações. Se temos consciência que a minoria exploradora da humanidade se vale do consentimento da maioria para continuar governando, explorando e depredando o planeta, devemos ter a esperteza de acreditar que, mesmo que o voto continue sendo exigido, as lutas não podem por ele serem substituídas. Talvez a conjugação mais simples a conjugar seja: votar e lutar, que é igual, voltar a lutar.

                                                                       Ademar Bogo