domingo, 23 de fevereiro de 2025

DE PERNAS PRO AR

         No ano de 1999, o escritor uruguaio Eduardo Galeano lançou no Brasil o livro com esse título: De pernas pro ar; nele, com o nome de “A exceção”, fez um destaque no formato de informe: “Só existe um lugar onde o norte e o sul do mundo se enfrentam em igualdade de condições: é um campo de futebol do Brasil, na foz do Rio Amazonas. A linha do equador corta pela metade o Estádio Zenão, no Amapá, de modo que cada equipe joga um tempo no Sul e outro tempo no Norte”.[1] Com o mesmo nome também existe um filme brasileiro, lançado em 2010, dirigido por Roberto Santucci que originalmente chamava-se de “Sex Delícia”, mas, após o resultado negativo de uma pesquisa de opinião, decidiram mudar o nome da obra.

               Em poucas palavras, a Linha do Equador, se pudéssemos vê-la, seria como um cinto colocado horizontalmente bem no ventre da bola do Globo terrestre e, serve, dentre outras coisas, para demarcar a divisa das duas metades, de baixo e de cima, marcando os Hemisférios, Sul e Norte. Como naturalmente já está lá, simbolicamente passou também a representar a concentração da riqueza e da pobreza mundial.

            Se quisermos tecer algumas outras relações, podemos dizer que o planeta também funciona dividido por duas grandes classes, tal qual se dá com a relação entre o capital e o trabalho, representados pela burguesia e o proletariado, nele a subdivisão atende pelo nome de Norte, no qual vigoram as potências capitalistas, como  os Estados Unidos da América, a União Europeia e o Japão e, o restante dos países, embora não estejam todos abaixo da linha do Equador, são considerados parte do “Sul global” países subdesenvolvidos.

            Nos interessa aqui, mais do que discutir o posicionamento das potências econômicas capitalistas que, como ocorre na luta de classes, nos conflitos entre as nações, os prejuízos das crises e das guerras, sempre devem ser pagos pelos mais fracos, apontar que, no Estádio “Zenão do mundo”, o Sul perdedor começará empatar e ganhar os jogos, nos quais serão disputados os interesses econômicos.

 Os Estados Unidos da América, nos últimos dois séculos, representam o país que mais se envolveu em conflitos no mundo. No entanto, apesar de toda truculência e vigilância intervencionista, começa a revelar que essa estratégia não tem mais sustentação. Segundo o Pentágono, há cerca de 865 bases militares norte-americanas instaladas em 135 países, com um contingente de 350 mil soldados habitando nelas.[2] Com a sofisticação tecnológica, a vigilância e os combates entre inimigos demandam uma nova estrutura de guerra.

O que está em jogo nas supostas mudanças de estratégia do novo governo dos Estados Unidos da América, em relação aos conflitos pelo mundo? Como já indicamos em outros textos, o imperialismo, nos moldes da velha Revolução Industrial, registrada em preto e branco, nesta fase do capitalismo mostra cansaço e, as desvantagens na correlação de forças mundiais estão postas sobre o tabuleiro. Para tentar se segurar ainda com alguma autoridade, além das ameaças, extradições, taxações e punições, o governo de Ronald Trump quer diminuir os custos da dominação e cobrar os prejuízos anteriores dos países aliados. Para ficarmos apenas nos dois últimos exemplos de custos a cobrar, a Ucrânia em praticamente 3 anos de conflito, recebeu do governo norte-americano, 175 bilhões de dólares em ajuda, mas está sendo convidada a devolver centavo por centavo. O segundo caso é o apoio dado a Israel no montante superior a 20 bilhões de dólares, para atacar covardemente a Palestina e, agora exige o território de Gaza como pagamento.

            Nessa nova estratégia podemos decifrar algumas outras intenções do império norte-americano. No primeiro aspecto, que envolve diretamente a Ucrânia, é fazer um acordo com a Rússia em busca de alcançar três objetivos: a) Interferir na relação entre a Rússia e a China, pelo simples fato de que a primeira é apenas uma ameaça militar, no entanto, a segunda está se tornado um inimigo economicamente poderoso, com raízes fincadas em todos os continentes; as duas potências juntas, com os poderes bélicos e econômico, podem enfrentar o resto do mundo; b) Diminuir os gastos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN – que reúne 32 países da Europa, onde os Estados Unidos investem por ano, 600 bilhões de dólares, mas que, pouco ou quase nada mais serve aos interesses estadunidenses, principalmente se o inimigo principal, imediato, de fato passar ser a China e não a Rússia; c) Implementar a tática da cobrança da proteção militar. No caso da Ucrânia deverá pagar os recursos investidos até aqui, pela política da extorsão, pela exploração mista dos minérios, principalmente o manganês e o alumínio; com isso, 50% desses produtos estarão, por prazo indeterminado comprometidos com a dívida de guerra. A mesma pretensão de Trump é com o assalto a Gaza; tendo em vista os ganhos com a reconstrução das cidades palestinas, por meio dos recursos recolhidos pela ONU, pensa ele, apropriar-se definitivamente daquele território e reaver os recursos financeiros destinados a Israel que, mesmo perdendo a guerra, teria uma base militar amiga estruturada no território alheio.

            Portanto, a imagem que podemos ter do mundo neste final do primeiro quarto de século é que, ele está mesmo de “pernas para o ar”. Imaginar que os Estados Unidos e a Rússia um dia pudessem ter um acordo de paz, seria como pensar em ver um leão e uma onça convivendo na mesma jaula. Por outro lado, considerar que a Europa seria abandonada à própria sorte, com o corte repentino da metade do orçamento anual da OTAN (600 bilhões de dólares) e, responsabilizada a organizar a sua própria defesa, também não estava no roteiro do filme “Sex Delícia” do imperialismo, que mirava apenas o prazer da dominação militar.

            Não nos enganemos, esses supostos acenos pela paz é para ganhar tempo e preparar a nova fase da guerra, isto porque, os conflitos de interesses antagônicos continuarão existindo. De outro modo, o velho império se deu conta que precisa recuperar o fôlego, pois, as lavaredas saem fracas  das narinas do dragão e já não intimidam o mundo como antes. A estratégia do império segue a linha do fortalecimento de si mesmo a partir das cobranças aos naturais aliados de fazerem o mesmo. Na hora precisa, se todos estiverem fortes, a junção das forças contra a China e a Rússia será automática. Provavelmente, o grosso dos investimentos serão feitos para manter aquelas bases que garantam a exploração e a apropriação das riquezas alheias.

            Dois fatores jogam contra a estratégia norte americana. O primeiro é que o acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia favorece a Rússia; esta, além de ficar com os territórios ocupados terá o alívio das sanções econômicas e ganhará tempo também para recuperar a sua economia e reconstruir o seu arsenal bélico para continuar sendo uma das grandes potências militares do mundo. Como as divergências continuam sendo com a velha Europa, pouco ofensiva, a tendência é manter-se como retaguarda armada da China. O segundo fator é que esse movimento para retomar as rédeas da dominação do mundo, já está atrasada. A china com 18 trilhões de dólares de Produto Interno Bruto – PIB - , nos próximos dez anos, tem  potencial de  ultrapassar os 27 trilhões do PIB dos Estados Unidos, que sofrerá revezes econômicos, devido a sua matriz produtiva movida a petróleo, as desvantagens tecnológicas e a incapacidade de acompanhar a concorrência no mercado mundial. Nesta última, o único recurso encontrado para enfrentar as disputas mercantis, é a imposição de elevadas taxas sobre os produtos importados.

            Para o nosso lado, os sinais de ficarmos de “pernas para o ar”, vêm de dois sinais de covardia emitidos pelo governo brasileiro: a) A baixa popularidade, evidentemente que merecida, pois, nada é feito que orgulhe os explorados, ao contrário, as políticas de preservação dos exploradores seguem mais seguras do que se tivéssemos com um governo de extrema-direita, senão vejamos: os juros, apesar da mudança do presidente do Banco Central, continuam ainda mais elevados; o preço dos combustíveis que influenciam na alta de todos os preços dos produtos dependentes de transporte terrestre e, apesar da “intervenção” na Petrobras, nenhum sinal de melhora;  o mesmo ocorre com o custo dos alimentos etc. b) Por outro lado, a Linha do Equador que divide o campo de futebol situado nas proximidades da Foz do Rio Amazonas, na qual se pensa perfurar poços de petróleo é mais uma contribuição equivocada e representa o enterro definitivo do compromisso desse governo com enfrentamento das mudanças climáticas. Se a energia produtiva do imperialismo é o petróleo, é evidente que, não importa onde esteja, lá estará a exigência, como ocorreu com o pré-sal, da obrigatoriedade de entregar o poço para o controle do capital internacional.      

            De pernas para o ar, portanto, está esse governo que ao invés de investir em políticas para desconcentrar a terra, taxar as grandes fortunas e criar alternativas de trabalho para as pessoas mais pobres, acomoda-se dentro das exigências das responsabilidades fiscais, distanciado das organizações que investiram tudo, acreditando em melhorias. Mas, pior que isso, de pernas para o ar estão as forças partidárias progressistas (já não sabemos se são), que ao invés de debaterem com a sociedade os problemas do país, gastam o tempo articulando candidaturas, no meio de um mandato de um presidente que vai de mal a pior. Tantas outras coisas estão de pernas para o ar que cada cabeça pensante pode indicar e atualizar a relação.

            Não teremos tempos fáceis pela frente, o importante é perceber que tudo tende a ficar ruim para todos. Como as organizações populares crescem mais em tempo de “vacas magras”, agora, que as forças, antes de esquerda, já não têm a oferecer e pelo que tudo indica, o ciclo da política eleitoral para as causas populares se esgotou, cabe saber o quê e em que direção iremos reiniciar a longa marcha. “A união faz a força”; mas é preciso ter uma razão para se unir.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] GALEANO, Eduardo. De pernas pro ar. Porto Alegre: L&PM, 1999, p. 27.

domingo, 16 de fevereiro de 2025

O IMPÉRIO DE TAMANCAS

 

             Em qualquer Dicionário informal, a expressão: “Subir nas tamancas”, significa irritar-se, perder a linha ou levantar o tom de voz. Ou seja, uma mudança repentina de comportamento indicando que o sujeito, não apenas ficou alterado, mas perdeu a compostura.

            O filósofo dinamarquês Kierkegaard, em 1841 escreveu o texto sobre O conceito de ironia e surpreendeu por torná-la uma grandeza conceitual, cuja característica no discurso retórico, está em dizer o contrário do que se pensa. Para situá-la basta entender que o fenômeno é o contrário da essência. Nesse sentido, as palavras que armam o espetáculo não expõem verdadeiramente o que as intenções representam. Então disse o autor: “Uma das  maiores alegrias  do irônico consiste em descobrir  em toda  parte estes pontos fracos: e quanto mais proeminente  é a pessoa em quem se encontram tais traços, tanto mais alegria lhe dá poder fazê-la de boba, tê-la em seu poder, embora esta não se  dê conta disso, de modo que  até uma pessoa eminente  em alguns instantes se torna um fantoche para o irônico, que a faz dançar como um títere, que ele maneja mexendo os cordões conforme deseja...” [1]

            No momento em que vivemos, o “novo xerife do mundo”, pensa utilizar-se da ironia para abobar a humanidade, com centenas de medidas e ameaças disparadas ao mesmo tempo. É evidente que o imperialismo norte-americano, na medida que o capital especulativo passou a vigorar como o senhor da acumulação, também feriu de morte a base produtiva e o poder político empresarial dos Estados Unidos da América. Como uma montanha rochosa não se transforma de um dia para outro em pedras moídas, a derrocada levou tempo, mas chegou.

            A lógica imposta pelo capitalismo desde a sua origem, baseada na acumulação e reprodução do capital, deu para algumas nações, em diferentes períodos, principalmente a partir da Revolução Industrial, o poder dos domínios econômico e político em partes determinadas do mundo. Como exemplo podemos citar a Bélgica, a França e Portugal que reinaram até a década de 1970 na África; no continente asiático foram os ingleses e os franceses e, na América Latina, desde 1823, sob a orientação da doutrina Monroe: “América para os americanos”, o domínio foi fatal e sanguinário, pois, a ilusão com a “democracia” norte-americana, ironicamente, como conteúdo sempre prezou pela defesa dos direitos humanos, da  liberdade, a organização política, social, econômica e cultural, mas, na essência sempre agiu por meio de controles totalitários, determinando cada gesto, com algumas poucas  exceções, dos governos teleguiados e intimidados.

            O que importa nesse momento, sem entrarmos nas especificidades das épocas, dos métodos e das táticas empregadas, na dominação política das américas, é entender que, independentemente dos bobos da corte, o capital tem vida própria; ele apenas precisa das pessoas que pensam a política para pressioná-los a agirem conforme as necessidades da expansão, acumulação e reprodução da riqueza; e o faz com tamanha velocidade que, as vezes, ficamos por muito tempo ligados ao fenômeno e esquecemos totalmente da essência dos processos.

            O surgimento do neoliberalismo na década de 1970, em meio a uma crise profunda do capitalismo mundial, pôs em movimento, por meio de um consenso entre os capitalistas, o fenômeno da globalização, com o modelo econômico neoliberal que anulou os limites das fronteiras continentais (sem abalar muito o controle político), permitindo que qualquer capitalista do mundo pudesse ir e investir em qualquer lugar. Sem perceber as consequências, com a globalização e o neoliberalismo, iniciou-se formação da grande contradição do imperialismo clássico, como já foi chamada de “fase superior do capitalismo”.

            A primeira grande vítima dessa engenharia política sem condições de enfrentar o furação liberal, foi a Alemanha Oriental e, logo em seguida, a União das Repúblicas  Soviéticas – URSS – que, em poucos meses, no início da década de 1990, desfez os seus laços socialistas, dando um passo atrás para, cada país entrar na dança das economias de mercado globalizadas.

            No entanto, se o cosmos é de todos, qualquer indivíduo “bem-sucedido”, pelo poder do capital, pode se fixar em qualquer lugar. Porém, arrombando as portas dos países, antes denominados de “Terceiro mundo”, não impediu que, por exemplo, a China e a Índia investissem em tecnologia e estabelecessem, por direito globalizado, as suas bases produtivas onde apenas reinavam as potências ocidentais. A Rússia, por sua vez, assumiu-se como a guardiã de todo o acúmulo alcançado em diferentes áreas pela antiga União Soviética e preparou-se para a resistência.        

            Por que então o presidente dos Estados Unidos da América, ironicamente, “subiu nas tamancas”, quando na verdade não subiu, apenas raivosamente passou a dançar com o incômodo calçado? Pelo simples fato que, enquanto o capital de seu país, acostumado a extorquir as nações pela especulação, com investimentos, principalmente na indústria armamentistas, os diversos países em ascensão investiram em tecnologia produtiva de bens e serviços. De tal modo que, a ironia da História é que, ao exigir que os outros deixassem as portas abertas, o império também teve de abrir as suas e, na atualidade, não pode fechá-las, pois não teria como sustentar-se economicamente. O que tenta fazer? Reajustar o aluguel dos inquilinos que utilizam o seu território, aparentemente, sem considerar que aquele país também é inquilino em outros tantos e sofrerá as mesmas taxações.

            Logo, as bravatas, ameaças e até mesmo as deportações de imigrantes ilegais, são latidos de um cão sem pelos, que causa repulsa a todos que o veem. Serve como disfarce para esconder que, as pernas cansadas fazem o andar mais lento arrastar as tamancas. As provocações encordoadas e as ameaças aos que estão com os pés calçados e preparados para uma corrida de longo trecho e alta velocidade, revelam a certeza de que ficará para trás nessa disputa, por isso tentará intimidar e multar cada um que passar na sua frente.

            O que temos de bom nesse cenário ruim? É que o imperialismo norte-americano pela primeira vez na História, se indispõem contra os seus principais aliados. A contradição principal promove os fenômenos, mas também expressa a sua essência. O velho Tio San já não dá mais a direção política a nível mundial sem reações, ao contrário, retira-se dos círculos de poder coletivo e, por outro lado, apesar dos avanços tecnológicos, retorna às matrizes industriais obsoletas do século passado. Esse poderia ser um alerta ao governo brasileiro que, ao invés de propagar a abertura de poços de exploração de petróleo na Foz do Amazonas, deveria investir em energia limpa, liderando assim a corrida, nessa era do antropoceno, de combate, não somente  ao aquecimento global, mas a ruina total do planeta.

            E, o que temos de ruim nesse cenário ruim? É que, a Revolução Industrial liberal capitalista continua avançando como revolução burguesa permanente. O capital por outras mãos, continua destrutivamente se reproduzindo e não haverá alívio, nem para o planeta nem para a humanidade. O momento exige capacidade, sabedoria e organização para escolhermos os inimigos contra os quais queremos lutar. Eles são muitos, mas, às vezes, o que aparenta por fora ser o mais forte, por dentro está todo corroído que já não consegue sustentar-se sobre os pés de barro e as tamancas de madeira.

            A ironia que fazia sorrir os dominantes, agora, alegra os dominados. É tempo de reação e não de acovardamento.

                                                                                                    Ademar Bogo

           



[1] KIERKEGAARD, S.A. O conceito ode ironia: Constantemente referido a Sócrates.2 ed. Bragança Paulista

Editora Universitária São Francisco, 2005, p. 218.

domingo, 26 de janeiro de 2025

TUDO OU NADA

            Estão na ordem dia as manchetes com o nome do novo presidente dos Estados Unidos Donald Trump, com imagens quase sempre acompanhadas de cores demoníacas. E não é pouca coisa; as medidas tomadas recentemente atingem, desde a mais alta contradição bélica mundial com ameaças de sanções e invasões, até o último ser transgênero, preso, desidentificado,   humilhado mais do que um imigrante ilegal, algemado e deportado para o seu país.

            A ameaça e perda real de direitos poderia ser atribuída a um regime totalitário, como geralmente é feito com acusações a um presidente tido como ditador, por ter sido reeleito por diversas vezes. No entanto, apesar das más impressões, tudo corre sobre os trilhos da mais sólida democracia, incontestada, pois a parte que vinha acostumando-se a contestar os resultados, desta vez ganhou as eleições.

            Pronto, sem muitos detalhes, vamos à questão: por qual razão um regime democrático em determinados períodos históricos obriga-se a tomar medidas que são fortemente identificadas com as de um regime totalitário? Será que a democracia no capitalismo não possui a mesma essência que o totalitarismo?   

            É importante refletir e refrear os instintos para não cair na armadilha da responsabilização de um só bandido, por toda a violência do mundo ou, pelo inverso, simplesmente esperar que um democrata, desta vez mais jovem, venha despertar os anseios identitários como ocorreu no tempo de Barack Obama e reavivados na frustrada tentativa da correligionária de Kamala Harris. O que está ocorrendo nos Estados Unidos, não é a simples troca de presidente, mas o envelhecimento das garras da águia, que veio perdendo ao longo dos tempos, o vigor do voo sobre o mundo; por isso, para alimentar-se obriga-se a ser ainda mais violenta e, apesar dos atos com requinte de crueldade serem atribuídos ao presidente, a maioria da população de lá aplaude e aprova com satisfação.

Para não tomarmos como surpresa, Marx ao tratar das crises em geral do capitalismo, já fazia essas constatações: “Da mesma forma, também na sociedade desenvolvida as coisas se apresentam na superfície como mundo de mercadorias imediatamente existente. Mas essa própria superfície aponta para além de si mesma, para as relações econômicas que são postas como relações de produção. Por isso, a articulação interna da produção constitui a segunda seção; sua síntese no Estado, a terceira; a relação internacional, a quarta; o mercado mundial, a conclusão, em que a produção é posta como totalidade, assim como cada um de seus momentos; na qual, porém, todas as contradições simultaneamente entram em processo.”[1] Então, não é disso que se trata?

Na medida que outras economias ascenderam com a capacidade de disputar a hegemonia produtiva, comercial e ter influência política mundial, parte das contradições principais avolumaram-se e levaram para dentro do coração do império, alguns sérios limites e ele começou a perder vigor. Mas o principal da contradição está relacionado com a tecnologia. Bem comparado o mesmo paradoxo que se formou na passagem superação da fotográfica em preto e branco para o sistema digital com cores e maior qualidade, pode ser empegado no caso do parque industrial, da matriz energética e a competitividade comercial mundial dos Estado Unidos. Ao anunciar que o petróleo será a fonte energética principal; que os acordos climáticos não serão respeitados e que os imigrantes em massa serão deportados, as medidas evidenciam que há um processo recessivo em andamento; a indústria, além de envelhecida está obsoleta e a capacidade de inserção da força-de-trabalho, com mais de 4% de desempregados, está esgotada.  

Até o momento as políticas de enfrentamento com os opositores mundiais deram-se por meio de sanções, enfrentamentos bélicos unilaterais e no fortalecimento de big tech para infestarem o mundo com disfarces e mentiras. Já se pode afirmar que a principal liderança hoje dos Estados Unidos é apenas no mercado da informação. Não é pouca coisa, mas terão elas a capacidade de enfrentar e superar a simultaneidade das contradições, como por exemplo a energia suficiente para manter as plataformas ligadas?

De nossa parte não basta olhar com ceticismo para o poder decadente do imperialismo, é preciso perguntar, se na convalescência das crises, o que ele exigirá de nós? Será o total controle do petróleo? A taxação elevada sobre produtos de exportação para impedir a produção? A abertura ainda maior para o capital imperialista concluir o ciclo das privatizações? O impedimento de relacionamento comercial com a China? A entrega do governo para os negacionistas? Etc.

Quando Lenin em 1916 publicou o livro: Imperialismo, fase superior do capitalismo, dentre os diversos temas, tratou da acumulação da produção; do papel do capital financeiro e da exportação do capital; mas não podia prever o comportamento, nem tampouco os maus tratos oferecidos pelos países centrais, contra a “importação” de força-de-trabalho, oferecida pelos “novos bárbaros”, produzidos pelo próprio império, nos países periféricos historicamente explorados.

Esta fase superior do imperialismo comandada pelo capital destrutivo, ainda não alcançou o máximo patamar. Ela evolui para o biocídio e o humanocídio indiscriminados, bem como, acelera o progresso rumo à exaustão das reservas minerais, da água doce e da temperatura suportável, simplesmente para saber em qual língua será declarado aquilo que as religiões chamam de “juízo final”. Por isso, o mal-estar estomacal do império, que o faz vomitar em baciadas os imigrantes inservíveis para o grau de exploração que será obrigado implementar, ainda é cedo para saber tudo o que ainda virá. Mas isto já vinha sendo feito, em parte pelos governos anteriores, que sem filmagem das algemas e das correntes nos pés extraditavam imigrantes, financiavam o terrorismo sionista e enviavam armas para a Ucrânia.

Portanto, chegamos ao ponto conclusivo. Já se disse com diferentes formas e em diversos momentos e lugares, que o imperialismo é o “inimigo da humanidade”, e o é, não porque a explora e a trata mal, mas também porque tem nas mãos elevadas chances de exterminá-la. Quando vemos a desesperada corrida para encontrar condições de habitar outros planetas, os avisos de que a elite capitalista nos envia, é que ela já se prepara para sair fora da terra. Isso significa dizer que, enquanto a humanidade assiste aos preparativos do seu próprio extermínio, eles investem livremente em transporte extraterrestre. Por isso, nessa fase do imperialismo, nunca foi tão imperativa a sentença do, “Tudo ou nada”.

Convencer-nos de que o imperialismo é verdadeiramente o inimigo, significa dizer que precisamos começar a responder a altura cada ato ofensivo praticado contra qualquer povo em qualquer parte do mundo, ou para qualquer repatriamento de imigrantes, deveremos atacar e repatriar os investimentos em busca de que cada país retome o controle de todas as suas riquezas e alcance a verdadeira soberania. “Tudo ou nada” representa um programa de ação a favor do controle total dos territórios e povos e não se deixar arrastar pacificamente para a barbárie.

A ideia de invadir o império como fizeram os bárbaros, no longo período de lutas e tentativas como ocorreu ao tomarem a sede do Império Romano no ano de 476 d.C., com o muro do México e elevado controle tecnológico etc., parece ser inviável. Mas não há necessidade de fazermos isto, pois a expansão do capital imperialista, fez a vulnerabilidade do império vir até nós e já alcança os degraus de nossas portas. Por isso, se o governo de cada país deixar de mendicância, prostração e oferecimento de subsídios para o capital externo; impedir que as forças armadas e policiais locais defendam os investimentos imperialistas e não ataquem o povo; nós, por meio de mobilizações, nacionais e internacionais combinadas, faremos a expropriação desse patrimônio todo e o nacionalizaremos. Dessa forma, o império ruirá diante de nossos olhos e pés.

Tudo ou nada, é tudo, ou nada! Não há mais o que esperar do capitalismo.

                                                                                   Ademar Bogo          



[1] MARX, Karl. Grundrisse.  São Paulo: Boitempo, 2011, p. 254

domingo, 19 de janeiro de 2025

OS MUNDOS SENSÍVEL E INTELIGÍVEL

 

     O filósofo Leandro Konder com sua intuição fantástica expressou um dia que: “Caso alguém possuísse toda a água do mundo teria em suas mãos o destino de todos os homens”.[1] Em nome do tratamento da água, as empresas já controlam grandes mananciais, fazendo bilhões de pessoas no mundo terem como único acesso a água pela torneira da cozinha de suas casas. Se essas mesmas empresas tomassem a decisão de colocarem um produto alucinógeno atingiriam num só período, pelo menos, a metade da população mundial. No Brasil 84,9% das pessoas dependem das empresas controladoras do abastecimento de água nas cidades. Este é o mundo sensível em que conhecemos.

            De modo semelhante se substituíssemos no enunciado acima e, ao invés de água colocássemos o substantivo da “tecnologia digital”, chegaríamos á mesma conclusão: “Caso alguém vier a controlar a tecnologia digital do mundo, terá o destino de todas as pessoas em suas mãos”. No entanto, há uma diferença entre as duas comparações, se na primeira as pessoas ainda podem recorrer a algumas alternativas, como o de aparar a água das chuvas, na segunda não há possibilidade alguma, pois a virtualidade já se coloca como um espírito superior que entra em cada cérebro por meio de um aparelho digital ou monitora os movimentos pessoais através da captação de imagens, calor corporal, íris dos olhos, chip implantado no corpo etc. Este é o mundo inteligível que ainda não conhecemos.

Quando retornamos os textos iniciais do materialismo histórico, encontramos bons indicadores para entendermos os sentidos das transformações. Marx, nos seus manuscritos já havia percebido: “Que a vida física e mental do homem interconectada com a natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é uma parte da natureza”.[2]  Na sequência vamos encontrar a importância do trabalho como capacidade objetiva de transformação das naturezas orgânicas e inorgânicas, por isso, transformamos e nos transformamos.

Se a Revolução Industrial do século XVIII empenhou-se em extrair da natureza a matéria prima para produzir mercadorias, na atualidade com a continuação daquela revolução, com requintes tecnológicos eletrônicos e virtuais, a matéria prima é a própria natureza humana o objeto de transformação é o seu próprio modo de ser e de pensar.

Se por um lado não devemos, em nome dos elevados riscos, incorrer no negacionismo de posicionar-nos contra os avanços tecnológicos, reproduzindo o amedrontamento das destruições metodológicas do passado, por outro, devemos encarar com naturalidade toda a evolução. Se o Homo sapiens inventou o machado de pedra, todos os objetos cortantes desde a serra até a gilete e, mais recentemente os bisturis manuseados por robôs para precisarem ainda mais as intervenções cirúrgicas, descendem daquela descoberta da pedra cortante. O mesmo ocorre com a escrita. Para guardar informações, desde o início as pessoas descobriram que não tinham capacidade mental para guardarem na memória muitas informações ao mesmo tempo, por isso, os registros serviam de arquivos e documentos. Há poucas décadas a mudança praticamente ontológica veio para ampliar o potencial humano, a máquina de datilografia foi superada pelo computador e a memória deste último se aproximou muito do que faz o cérebro humano; com um simples toque é exposto em uma tela tudo o que foi informado a qualquer tempo anterior. Nessa mesma continuação temos agora o desafio de aprendermos a lidar com esse instrumento de trabalho que é a “Inteligência artificial”.

Há, porém, um terceiro lado desse triângulo que é o poder de controle tecnológico cada vez mais concentrado, pois, diferentemente da água que possui lagos e fontes esse situa-se no espaço e o controle se dá, no mínimo, por satélites. Por isso não podemos ver a tecnologia virtual como “ciência aplicada” apenas. Sob o comando de poucos controladores capitalistas ela é dominação geopolítica; espionagem econômica, militar e social; exacerbação de divergências e formação de consensos instantâneos sobre temas, leis e posicionamentos coletivos. Em síntese, as pessoas serão teleguiadas pelos algoritmos e aceitarão as soluções para as necessidades pessoais acessando aplicativos criados por esse mundo inteligível.

Todas as pessoas do mundo deixarão, muito em breve, de serem anônimas. Os dados pessoais, características físicas, impressões digitais etc., estarão no Banco de dados de comum acesso. Aparentemente poderíamos nos dar por satisfeitos, pois, chegamos ao ponto de constituirmos uma verdadeira “comunidade universal”, sem divisas nacionais nem impedimentos para os relacionamentos. Nos aspectos dos controles, o próprio e propalado “livre-arbítrio” poderá ser limitado, ao pesquisar o algoritmo convencerá o cliente a mudar de opção. Se houvesse o mesmo interesse muitas operações criminosas poderiam ser abortadas antes de ocorrerem, bastaria um simples envio de um robô programado para enfrentar o mundo do crime.

Evidentemente que se levarmos em conta tudo o que já se disse sobre o assunto da tecnologia virtual, ficaríamos meses alinhando as contribuições e os perigos. Não vem ao caso, o que importa é fixarmos o nosso debate em torno da materialidade de algumas contradições e perceber que, assim como, embora já tenhamos acesso ás cirurgias robotizadas, o bisturi manual, a gilete e o machado, como instrumentos de corte, não foram aposentados. Isso é para entendermos que, embora a violência possa ser combatida com drones e robôs, as armas brancas e de fogo continuarão sendo utilizadas, isto porque, o coronel que controlava, no passado, o açude da água, em certos lugares ainda continua, em outros, evoluiu para o monopólio da empresa de abastecimento. O mesmo ocorre com a violência, o matador de aluguel ainda permanece, mas ganhou ainda maior expressão, a milicia do crime com a organização do poder paralelo. A inteligência artificial terá interesse em combater o crime organizado?

Uma segunda preocupação se reporta à política. Diante de tamanhas e generalizadas interferências qual será de fato a importância do poder político? Quem de fato tomará as decisões, serão os governantes ou proprietários das big tech que infestarão as redes sociais de informações mentirosas, fazendo os mandatários das nações a assumirem que voltam atrás, anulando decisões que jamais tomaram, como ocorreu recentemente com a normativa das transações no Pix. Qual será portanto, o papel dos partidos políticos e do próprio Estado com os seus órgãos de informação obsoletos preparados apenas para fixarem comunistas?

Num terceiro bloco de complexidades teremos a política econômica. Sabemos que desde a origem o capital foi ampliando as suas formas, passou de produtivo, para financeiro, depois para especulativo e, agora, talvez estejamos entrando em outra forma que ainda deverá ser nomeada de “capital inteligível” que é este da reprodução e acumulação através da informação, das chantagens e mentiras produzidas. Como enfrentar imaterialidade capitalista, ausente fisicamente do território ou nação nos quais provoca os ataques?

Por fim, sem desprezar as demais complexidades que se formarão na educação, comércio, cultura etc., as futuras gerações terão de enfrentar o problema do controle extraterrestre. O que estamos vendo são pequenos sinais principiados pela instalação de satélites, inalcançáveis com mobilizações de massa, mas a possibilidade de criar cidades e indústrias no espaço, iniciando pela exploração de minérios em outros planetas, veremos de fato o mundo ser dividido em dois: sensível e inteligível, como intuiu Platão há mais de trezentos anos antes de Cristo que, em certos aspectos misturam a ideia com a forma e, em outros, apenas as ideias, pois, tendo os seus proprietários ido morar no espaço, impõem de cima para baixo, os interesses desses poucos  selecionados capitalistas.

É nesse sentido que vimos a questão da violência acima. Se no mundo sensível redutos populacionais ou regiões desérticas não forem úteis ao capital, não haverá interesse em promover interferências, com isso, os aterros sanitários com lixo espacial poderão ser criados em campos abertos ou simplesmente jogados nas águas dos oceanos.

É na ampliação do entendimento dessa última fronteira tecnológica que devemos concentrar os estudos e os debates. Seguindo o princípio de que “quem controlar a tecnologia da inteligência artificial controlará a humanidade” é que a luta pelo socialismo se torna ainda mais urgente. Precisamos romper com o comodismo e os acomodados que estão preocupados apenas com a interferência das big tech nas eleições presidenciais de 2026, esquecendo todo o comprometimento do futuro. Precisamos agir antes que os capitalistas criem suas moradas no mundo inteligível, pois se, sobre a terra já é difícil alcançá-los, muito menos será se mudarem para outro planeta.

É tempo de reação e não de amedrontamento. É no controle dos instrumentos de trabalho, formados com elevadas tecnologias e do capital, que reside o poder e não simplesmente no interior do Estado. São as necessidades materiais e não as satisfações virtuais que mobilizam as pessoas. No entanto, vence quem tiver a capacidade de invertê-las como prioridade.

                                                                                   Ademar Bogo                        



[1] KONDER, Leandro. O marxismo na batalha das ideias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 118.

[2] MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 85

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

UM QUARTO DO SÉCULO

            Parte de nossas gerações viventes tivemos o privilégio de vivermos as passagens combinadas de um milênio para outro, terminar e iniciar um século e, agora já alcançamos um quarto do século novo, mas o que de novo fizemos neste novo período?

            As retrospectivas analíticas nos revelam terríveis continuações como a miséria, a violência, o desmatamento, a concentração da terra, a poluição do ar, a contaminação das águas, sem contar com o agravamento de duas coisas totalmente incontroláveis: a concentração da riqueza e a brutalidade das catástrofes naturais provocadas pelas ações artificiais humanas.

            Dentre todas as decadências capitalistas que podemos apresentar com longos parágrafos, é na impotência da política que se concentram as maiores fraquezas. Há pelo menos quarenta anos iniciamos a estratégia legalista de conquistar o poder por dentro da ordem, respeitando o estado de direito. Para que isso fosse possível, além de cativar os antigos inimigos, foi preciso mudar a linguagem radical; as formas de tratamento; anistiar os golpistas e torturadores do regime totalitário anterior e, garantir a ilusória defesa da incontrolável democracia representativa. As inflamáveis campanhas eleitorais firmaram-se na liberdade de constituir alianças com todas as bandeiras disponíveis no campo partidário e, no final de tudo, o respeito aos resultados sempre foi um princípio a respeitar. A voz das urnas veio a ser a voz da democracia, até que um dia, as forças de direita, cansadas de serem imitadas, pariram, talvez a principal novidade deste quarto de século: a nova extrema-direita, golpista e antidemocrática. E, tal qual um camponês descalço em um quintal varrido, que não encontra sequer um graveto para espantar um animal peçonhento, ficamos nós sem poder usar as mãos e nem os pés para enfrentar as ofensivas dessas parcelas negacionistas.  

            Qual é o diagnóstico político possível de ser feito? Se a estratégia conformista, baseada no mal menor não impediu que ressurgisse o mal maior, significa que algo na frágil muralha democrática foi mal construído. Talvez o equívoco esteja situado no campo, não do possível, mas da opção preferível imediata, como apontou o filósofo Aristóteles. “Pois o mal menor pode ser visto em comparação com o mal maior como um bem, uma vez que este mal menor é preferível ao maior, e tudo o que é preferível é bom".[1] O problema é que, o mal maior ao ser evitado na política não desaparece, ele se conserva e espera o momento para engolir o mal menor e punir todos os seus defensores.

            No aspecto político organizativo, de nosso lado não surgiu nenhuma inovação. Os partidos, as centrais sindicais e os movimentos populares, mais significativos já completam quatro décadas de idade. O cansaço e a fraqueza das ideias e argumentos, impedem que as táticas ofensivas sejam recriadas, como também as forças combativas sejam renovadas. Nos 25 anos deste século, pelo menos 16 deles foram governados pelas forças de esquerda e associadas. No entanto,  nesse período, o agronegócio fez uma revolução estrutural no campo brasileiro; as miliciais criaram um Estado paralelo nos territórios urbanos; o capital passou da hegemonia produtiva e financeira industrial para a forma especulativa intervencionista e controladora das taxas de juros e da dívida pública; a tecnologia nas comunicações evoluiu da máquina de datilografia para a inteligência artificial; as campanhas eleitorais deixaram para trás as pichações em muros, panfletagens massivas, debates radiofônicos e televisionados e avançaram para os disparos de mensagens com robôs; o telefone público do orelhão com fichas, foi superado pela rede social que coloca na palma de cada mão das pessoas de todas as classes um smartfone; os drones voam como vagalumes investigando e registrando qualquer movimento ou aglomeração etc. Enquanto nós ficamos repetindo conceitos como: trabalho de base; jornada de lutas; calendários de ações; pauta de reivindicação; audiência com o governo; doação de alimentos; desapropriação; créditos; eleição de parlamentares e tantas outras expressões que já não agitam as massas nem ofendem os capitalistas, eles, sem nada disso, mobilizam e mantém informados e esporadicamente mobilizados pelo menos 30% dos eleitores do país. Em síntese, (desculpe o trivial exemplo), enquanto os inimigos armam as jogadas, nós há anos repetimos a mesma tática de jogo, de cruzar bolas altas na área, sem nenhum centroavante para cabecear.

            Podemos concluir que no final desse quarto de século, nos deparamos com dois limites. O primeiro diz respeito à morte das reações espontâneas das massas. Se deixaram de reagir ou de se oferecerem para a luta, para daí surgirem os movimentos populares, que já não se vê surgir, é porque além da falta de convocações, algo de muito terrível foi feito contra o senso comum crítico no interior desses grandes contingentes populacionais. Teria o assistencialismo governamental corroído a noção dos direitos e acostumados os pobres cooptados a esperar que alguém ofereça soluções para os problemas. Voltemos à estratégia do preferível: não é oferecendo o mal menor para as massas famintas que se impede o mal maior de continuarem na miséria. Não estaria na hora de perceber que o Estado é inimigo dos trabalhadores, tanto quando reprime, quanto quando oferece míseros recursos por meio de políticas públicas e por qualquer desrespeito às normas ameaça interromper os benefícios?

 O segundo limite está sendo sustentado pela anulação daquilo que sempre se chamou de esquerda, e que, depois de ganhar eleições e governar, perdeu a natureza histórica tornando-se “situação”. Esse papel sempre reservado na história para as forças de direita. Qual é a diferença? Enquanto ser de esquerda é ser de luta, indo para a situação a ordem é conciliar, fazer acertos com a oposição. Ou não foi isso que aconteceu com as forças de direita neste quarto de século? Bastou perder as eleições e tornar-se oposição ao governo que, com a identificação de extrema-direita, passou a constituir um movimento de massas para lutar.    

Se tradicionalmente as revoltas populares foram direcionadas contra os patrões e as autoridades governamentais atuantes na estruturas estatais, com os avanços tecnológicos, o patronato deixou de ser um ente simbólico da exploração e, com as vitórias eleitorais, a esquerda, ao tornar-se situação, fez com que parte das massas entendesse que não há necessidade de lutar porque tudo lhes será dado, enquanto a outra parte, cooptada pelas seitas religiosas e também descontentes com a governabilidade por acreditar que todos os políticos são “farinha do mesmo saco”, se mantém na oposição, contestando e votando contra o governo.

Isso tudo é o que temos acumulado nesse primeiro quarto de século, mas o que devemos fazer para dinamizar o novo período que nos levará ao meio do século XXI? Para uns continua sendo a estratégia da governabilidade para criar leis que garantam a formação sólida de uma base econômica capaz de colocar o Brasil entre as grandes potências capitalistas. No entanto, essa posição “preferível” não avalia a veemência destrutiva do capital que, seguindo nesse ritmo em 2050, muito pouco poderá ser feito para salvar o planeta da barbárie.

Se quisermos uma representação do estado lastimável que politicamente vivemos neste final do primeiro quarto de século é que os capitalistas avançam na velocidade da luz e nós na velocidade da fumaça. Portanto, a questão é como barrá-los e derrotá-los para impedir que levem à frente a revolução liberal ainda inconclusa? Com as formas e práticas organizativas que temos não há esperança alguma que algo de novo venha a ser feito.

Podemos apontar que a estratégia pacifista levou ao saturamento do crescimento das lutas pela inoperância e repetição das táticas; insistir nela é um grande equívoco. Se com quase duas décadas de governo “progressista” não se conseguiu impor limite algum ao capital, é sinal que é preciso enfrentar os desafios com táticas insurrecionais, para isso precisamos de organizações corajosas, confiáveis e que se proponha a convocar e promover a desobediência civil contra todas as leis que cerceiam os direitos sociais.  

Apontamos que as estabilidades econômicas e políticas sonhadas não são aliadas das forças revolucionárias. Defender as transformações sociais com o crescimento da economia, arcabouço fiscal e aumento do salário-mínimo é sorrir sem dentadura para o capital. É na instabilidade que as forças se enfrentam e se renovam. O pacifismo e a defensiva favorecem as classes dominantes. Logo, não há mais bases nem militantes capazes para se fazer “trabalho de base” à moda antiga, é preciso apostar em convocações massivas para contestar a moral do direito de propriedade sem limite; enfrentar e destituir o direito de acumular capital e riqueza às custas da miséria e impor-se contra a ordem jurídica que legitima a sociedade desigual.

É evidente que a conjuntura muda quando mudam os métodos de atuação e, estes mudam quando as forças organizadas mudarem o comportamento. O excesso de respeito educou as organizações a se enquadrarem à ordem capitalista. É tempo de começar a exercitar as características da ordem socialista pondo em pauta a criação de novas formas de organização.

                                                                       Ademar Bogo



[1] Aristóteles. Ética a Nicômaco.

domingo, 22 de dezembro de 2024

ENTRE A MORTE E O PÂNTANO

 

O título metafórico inspira-se na descrição de Nietzsche sobre o “homem pouco”, referindo-se ao filósofo Diógenes que saía durante o dia com uma lanterna procurando por um homem justo. Nessa adaptação ele procurava Deus. “Procuro Deus! Procuro Deus!”; despertando grandes gargalhadas misturadas com gritos irônicos: “Então ele está perdido?”; “Está se escondendo?”; “Ele tem medo de nós?”; “Embarcou em um navio?”; “Emigrou?”. Detendo-se diante dos curiosos, o louco perguntou: “Para onde foi Deus?” e, em seguida respondeu: “Nós o matamos!”. Depois, com menor veemência, para que todos se calassem, continuou a explicação: “Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? — também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos?”[1]

            É evidente que o parágrafo anterior se refere ao comportamento dos cristãos civilizados. Os atos revestidos de perversidades, sem o mínimo de compaixão e solidariedade entre os indivíduos, levaram a tais desfechos. Parece estranho invocar a ajuda de um morto para encontrar saídas em meio à decadência ética. No entanto, se quisermos sair da filosofia e rumarmos para a política, encontraremos os mesmos significados para as mesmas atitudes confusas.

            Lenin ao analisar o dogmatismo defendido por seus colegas de partido, após explicitar que estavam caminhando debaixo de fogo em uma estrada escarpada, rodeados de inimigos, tentando arrastá-los para o pântano, expressou: “Alguns dos nossos gritam: vamos para o pântano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal ato, replicam: como vocês são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidá-los a seguir um caminho melhor!”.[2] Na sequência, tal qual fez o “homem louco”, Lenin sentenciou a conclusão: “Sim, senhores, são livres não somente para convidar, mas de ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano e, na medida de nossas forças estamos prontos a ajudá-los a transportar para lá os seus lares”.

            As referências acima não se atém propriamente às religiões com todas as suas crenças pervertidas, nem tampouco aos lugares poluídos para onde escorre o esgoto do desenvolvimento civilizatório, mas, da política como expressão das forças capazes de  direcionarem a sociedade para os caminhos da superação dos seus próprios limites.

            Desde que a Igreja católica no ano de 325, no Concilio de Nicéia, quando se enfrentaram as duas tendências: os alexandrinos e os arianos, tendo como desfecho a excomunhão do padre Ário e, as suas divergências, uma a uma serviram para a elaboração da profissão de fé, exposta na “Oração do credo”, os seguidores dessa religião, em detrimento dos comportamentos éticos, reafirmam aquele compromisso dogmático em todas as celebrações. Da mesma na forma ocorre na política, a partir do momento em que se pôs em discussão o “Arcabouço fiscal”, passou ele a ser, em todas as discussões, em detrimento dos problemas sociais, a referência dos compromissos governamentais. Em síntese, se pelos comportamentos antiéticos sociais e religiosos identificamos a “morte de Deus”, pelas atitudes das forças da situação, favoráveis ao governo, assistimos a cada dia a “morte da política”.

            Pelas últimas decisões do Congresso Nacional, o comprometimento, do que ainda se chama de forças de esquerda, diante do ataque do capital especulativo, ninguém mais pode duvidar de que a economia subsumiu a política. A ilusão de que o poder institucional levaria à superação dos problemas sociais, se desvaneceu; isto porque, na medida que todas as atenções para conter os gastos públicos se fixam sobre o salário mínimo e o Benefício de Prestação Continuada, enquanto os altos salários, as grandes fortunas, os subsídios para o grande capital, o compromisso intocável com o pagamento da dívida pública  etc., são preservados, sem que  nenhuma mobilização sindical ou popular de protesto tenha sido provocada, é de acreditar que a política verdadeiramente está morta; o que vive é o burocratismo liberal pacifista.

            A paralisia das forças sindicais e populares diante das exigências do capital, é assustadora. A crença de que o Supremo Tribunal Federal fará justiça e conterá os golpistas e, o Ministério da Fazenda, com a ajuda do novo aliado presidente do Banco Central colocarão o país na linha da estabilização econômica, dando, por certo, alguns pontos positivos para melhorar as condições de disputa nas eleições presidenciais de 2026, faz dos partidos da situação, favoráveis ao governo, verdadeiros fantoches, que só abrem a boca e os braços para falarem e gesticularem a favor do arcabouço funcional. Ninguém mais teme a “cobra cega” e desdentada que se tornou a “esquerda”.

            O pântano no qual está afogada a política institucional, que corta recursos da educação mas mantém o fundo para atender as emendas parlamentares, não pode servir de endereço para que as forças populares também se dirijam para lá. Nessa situação, se para o “homem louco” ainda há tempo: “O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos.”; para a política, o tempo acabou. Nesse caso, teremos de ter a coragem de dizer como fez Lenin em sua conclusão: “(...) larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra liberdade, porque nós também somos livres para irmos aonde nos aprouver, livres não só para combater o pântano como também aqueles que para lá se dirigem”.  

            O princípio de que “a luta continua”, permanece válido; faltam lutadores e organizações comprometidas com a transformação social e não com a estabilidade capitalista.

                                                                                   Ademar Bogo



[1] NIETZSCHE. A gaia ciência (§125).

[2] LENIN, V.I. Que fazer? São Paulo: Hucitec, 1986, p. 7.

domingo, 8 de dezembro de 2024

CONDIÇÃO E POSIÇÃO

 

    Com o esgotamento da ofensiva institucional de esquerda, no intuito de barrar a permanente revolução liberal capitalista em movimento ascendente desde 1848, nos deparamos com discussões que não transcendem mais o cenário eleitoral. Em detrimento da destrutividade do planeta, nessa fase, a mais violenta da história do capitalismo, as preocupações partidárias estão fixadas no crescimento da econômica e na posição política dos pobres, em franca revelação de que a oposição continua sendo a referência de resistência e de autodefesa contra o sistema.

            Quando se põe em discussão como questão central o conceito de “pobre de direita”, em grande medida está-se querendo manter viva a agenda eleitoral, num período que deveria ser dedicado ao debate e a contestação dos problemas estruturais. É da própria natureza da análise dialética termos de considerar a lei da unidade e luta dos contrários e, um aspecto da totalidade pode ter maior ou menor atenção, dependendo da importância que damos a ele. Por exemplo se divisarmos que as eleições de 2026 são mais importantes do que o assalto atual às riquezas naturais seja do petróleo, dos minérios e do avanço do agronegócio sobre as terras do serrado e da Amazônia, discutiremos os desafios políticos para impedir que os pobres nos abandonem. Se as preocupações são com a melhoria da renda sem distribuição da riqueza concentrada nas grandes fortunas, ficaremos discutindo o aumento real do salário-mínimo, o teto para o imposto de renda para a classe média e o controle das finanças públicas para cumprir as metas estabelecidas pelo arcabouço fiscal, sem tocar num fio de cabelo da exploração vigente.

            Há de chegar o dia de alguém ter a coragem de dizer que, para essas pautas não precisa ter uma esquerda organizada e se ela insistir em discutir esses aspectos administrativos do capitalismo deixará de existir e virá direita. Na verdade, o que temos construído nos últimos 40 anos, foi uma polarização, não entre direita esquerda, mas uma conformação civilizada da política entre situação e oposição. Isto fica claro quando se debate a tese dos “pobres de direita”, mas nada se diz dos “ricos ou da classe média esquerda”. Por que será? Porque não se trata da disputa de ideias contra ou a favor do capital, mas, de maior ou menor competência para garantir os avanços do capitalismo, com um pouco mais ou um pouco menos de justiça social.

            Já reprisamos em excesso esse entendimento de Marx e Engels, escrito no livro A ideologia alemã; o importante agora é saber que o pensamento pode ser antigo, mas a aplicação é moderna. “As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante”.[1] Para compreender esse pensamento é preciso ler as suas consequências que, não é pelo simples fato de as forças de esquerda terem se tornado situação no regime político, que as suas ideias passarão a dominar materialmente o sistema dominante. Isto está claro na continuação do parágrafo que diz: “(...)a classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios de produção espiritual de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual.”

            Diante do emaranhado de questões que poderiam ser formuladas, as que mais preocupam, com certeza, não seriam as que deveriam revelar se os pobres são de direita ou de esquerda, porque, de fato eles não sabem do que se trata essa classificação e, pela tradição idiomática a simbologia da direita é imensamente mais simpática. O canhoto, na antiguidade era repelido por atrair maus agouros; os Salmos nos indicam que devemos olhar para a direita; o Concílio de Nicéia do ano 325, ao escrever o Credo, delineou que o filho subiu ao céu e está “sentado à direita do pai”. “Andar direito”; “Entrar com o pé direito”, são mais do que superstições, representam práticas que coordenam os comportamentos. A única coisa que na tradição tem algum valor por estar do lado esquerdo é o coração, mas, a racionalidade moderna o desancou da centralidade corporal, pela sua fragilidade sentimental; instabilidade amorosa; vulnerabilidade e demonstração de fraqueza nos momentos de tomar decisões mais rígidas.

            Distinguir “condição” de “posição” ajudaria bastante na interpretação de certos comportamentos. Primeiramente, devemos considerar que o pobre não é de direita nem de esquerda ele é simplesmente pobre, material e espiritualmente. A sua consciência sensível, não lhe permite compreender a estrutura das classes sociais, nem as causas da sua situação. Ele sabe o que é a fome, mas nada entende das leis tendenciais do capital que promove a acumulação da riqueza; sabe o que é ser pai ou filho, mas não consegue explicar os fundamentos da família e a sua função perante o Estado; sabe o que é um bem, mas não o distingue da propriedade privada; manuseia o dinheiro e nada entende do sistema financeiro, do movimento do capital especulativo etc. Aí entram os modismos da espontaneidade da autoridade do “lugar de fala”, como se isso por si só fosse um poder constituído. A realidade nos mostra que, não é por ser pobre  que alguém consegue explicar a riqueza; nem por sofrer discriminações que explica o racismo estrutural; ou receber um benefício de uma política pública e pôr-se a favor da esquerda ou da direita.

            Se a condição do “pobre” estruturalmente continua sendo a mesma nos governos de situação ou de oposição, significa que a sua posição política pode mudar, por duas razões pelo menos: considerando as ideias dominantes, ele pode ser convencido que, para aquele momento, tal candidato seja melhor ou pela opção emocional antissistêmica, por ser verdadeiramente vítima constante dos poderes constituídos. Vejamos apenas algumas indicações. Quando um governante vai à televisão e diz que irá “combater a violência”, está dizendo que equipará a polícia para atacar indiscriminadamente os habitantes pobres e pretos das regiões indicadas. Da mesma forma acontece com as promessas sobre o melhoramento do atendimento à saúde, mas as filas de espera não diminuem; no melhoramento do transporte, os ônibus continuam os mesmos; na educação, os colégios somente mudam a pintura dos muros. O que pensa uma pessoa mal atendida, revistada pela polícia ou que teve um parente assassinado por ela? Continuará votando naquele governante? Logo, há momentos nos quais, o prefeito, o governador ou o presidente é eleito e reeleito e retorna posteriormente; outras vezes é desprezado para sempre.

            Já faz muito tempo que estes conceitos de esquerda e direita foram retirados do horizonte político, pelo próprio modus operandi das disputas, basta observar os palanques, como mudam de um pleito para outro. Para a consciência sensível a verdade estampa-se no dizer de serem todos “farinha do mesmo saco”. O exemplo mais ilustrativo é o presidente e o vice do governo federal atual, já foram ferrenhos opositores. Ou seja, se a condição não muda o pobre, o pobre muda de posição. Então propagar aos quatro ventos que o resultado das eleições deve ser respeitado e a democracia representativa o ideal a ser mantido, mas, assustar-se com a possibilidade da volta da extrema-direita ao governo, é como desconhecer que em 31 dezembro o ano atual acaba e, no ano seguinte ele aparecerá com um novo número.   

            Por fim, exigir que o pobre não tenha em certos pleitos posição de direita, sem ter nenhuma organização de esquerda para elevar o nível da consciência sensível para a consciência política, é uma hipocrisia. Por outro lado, querer ser de esquerda e ao mesmo tempo ser situação a favor do sistema capitalista, são duas hipocrisias. Os “pobres de direita” em debate, viveram e vivem sob o poder totalitário do crime organizado ou das polícias dos governos também desses que se dizem “esquerda”. Desse modo, o que mudaria para esses imensos contingentes populacionais tendo um governo “centro-direita” ou de extrema-direita? A resposta pode ser, de que, alguns direitos serão respeitados por algum tempo. Mas precisa ser de “esquerda” para fazer somente isto?

                                                         Ademar Bogo



[1] MARX/ENGELS. A ideologia alemã. São Paulo, Boitempo, 2009, p. 47.