domingo, 31 de maio de 2026

A LUTA CONTRA A IMPERTINÊNCIA


Na Filosofia da Linguagem as palavras são vistas, como em qualquer situação, mas também pelas intenções que escondem. Por isso a linguística procura sempre relacionar o signo significante e os seus significados, isto porque, um termo pode dizer diversas coisas e todas elas verdadeiras.

A impertinência segue o caminho oposto da linguagem verdadeira. Apear de também fazer uso das palavras, registra-se pelas trilhas do inadequado, causa irritação, desconforto e conflitos. São palavras e falas que instigam as desavenças pela ignorância dos falantes que se colocam em posições cujo interesse é desfazer e rebaixar os seus oponentes.

A linguagem política é feita de semântica às avessas, não é como a literatura que é propositalmente significativa e bela, como faz o escritor português Mia Couto, ao explicar a sua escrita: “Escrevo como Deus: direito mas sem pauta. Quem me ler que desentorte as palavras. Alinhada só a morte. O resto tem as duas margens da dúvida. Como eu, feito de raças cruzadas”.[1] A linguagem do império é traiçoeira, é feia e falsa. Os seus dizeres são mesquinhos e permeados de interesses fixos que as palavras encobrem com disfarces.

No fundo a linguagem imperialista deveria nos alertar, pois ela sempre aponta para frente; somente se refere ao passado quando é para cobrar alguma conta inventada. Sendo assim, quando não temos uma perspectiva segura a seguir, devemos observar as palavras de nossos inimigos, elas, ao dizerem o que eles pretendem, nos indicam a direção para onde devemos ir.

O filósofo Lucius Annaeus Seneca, conhecido por nós como Sêneca, foi preso por Nero e obrigado a cortar os pulsos suicidando-se na prisão para escapar aos martírios impostos. Para ele a mesma ideia pode ser expressa em linguagem diferente. “Você vê aqueles que elogiam sua eloquência, que cobiçam sua riqueza, que cortejam seu favor ou que se gabam de seu poder? Todos os estes são, ou, o que dá na mesma, podem ser seus inimigos”.[2] Confiar desconfiando deveria ser um princípio obrigatório quando se trata da relação entre países.

O ano de 2026 deverá passar para a história como sendo um dos mais irônicos já vividos pela humanidade, isto porque, os diálogos entre as partes nunca dizem quais são as verdadeiras intenções e, as intenções surgem sempre depois de uma ameaça consumada. Somente quem aprendeu a ler chantagens pode verdadeiramente organizar a própria autodefesa. Vejamos dois exemplos construídos de propósito: a possibilidade de vir à tona as denúncias de pedofilia e tráfico sexual envolvendo Donald Trump, conhecido como “Caso Epstein” custou a guerra contra o Irã, no intuito de abafar a exposição pessoal do presidente dos Estados Unidos. O outro mais recente, envolvendo os desvios financeiros do Banco Master, está rendendo ao Brasil a inclusão na lista dos países terroristas, abrindo as portas pela intervenção direta dos Estados Unidos, com claro objetivo de preservar a família Bolsonaro.

Poderíamos considerar que este ato irresponsável e covarde de fugir para a casa do inimigo entregando-se em troca de que ele venha atacar o próprio país, seja apenas um truque ou uma medida midiática que visa tirar o escândalo dos noticiários? A curto prazo sim. No entanto, todos sabemos que o interesse do imperialismo não se prende ao objetivo de matar traficantes, mas em saquear as riquezas naturais dos países alheios. Vide o que ocorreu na Venezuela. Após sequestrarem o presidente Maduro, e a deputada Cilia Flores, apossaram-se do petróleo e o assunto sobre o tráfico de drogas foi encerrado.

O Brasil está na rota da cobiça estrangeira. Mais dia menos dia o capital imperialista exigirá mais do que o controle parcial das riquezas naturais, desejará tomar posse delas para assegurar o futuro dos negócios do império. Por isso, a linguagem tem que ser direta, sem meias palavras, nem visitas de cortesia com recepções sobre tapetes vermelhos. A impertinência só respeita as mensagens transmitidas pela resistência.

A soberania de um país se alcança e mantém com a capacidade de luta permanente. Falar alto nem tampouco manso sacia a fome do capital estrangeiro. Ele precisa de uma força maior para contê-lo e, isso somente um povo organizado pode fazer.

                                                                       Ademar Bogo  



[1] Mia Couto. Estórias abensonhadas, p. 68

[2] Sêneca. A vida feliz, p. 18.

domingo, 17 de maio de 2026

A FORÇA DA INDIFERENÇA

 

            Todos sabemos que a política não se faz só com política, há outras áreas que se envolvem com suas especialidades para ajudar a pensar, planejar e executar os planos táticos e estratégicos. O filósofo Michel Foucault ao fazer as suas elaborações filosóficas sore a política, percebeu o problema contemporâneo da seguinte forma: "O que acontece atualmente e o que somos nós, nós que talvez não sejamos nada mais e nada além daquilo que acontece atualmente?" A questão da filosofia é a questão presente que é o que somos. Daí a filosofia hoje ser inteiramente política e inteiramente indispensável à política”.[1]

            Quando colocamos a filosofia à disposição da política começamos a perceber que somos nós os fazedores dos acontecimentos atuais e, como consequência, somos lembrados e conhecidos por eles. A civilização embora se utilize das forças da natureza, é humana. Assim também são humanas a violência, a ignorância e a corrupção.

            Sobre a corrupção há diversas elaborações confirmando as suas origens. Basta observar um pouco mais atentamente que no cenário ao fundo das fotografias de muitos processos políticos, aparecem as empresas nacionais e multinacionais, os Bancos e o Estado. Por isso, aquilo que nos acostumamos a chamar de “democracia” que emerge das urnas, é uma versão ingênua da dominação e do totalitarismo, chamado por Max Weber de “patrimonialismo”, pois, pouco ou quase nada há para diferenciar entre o que é público e o que é privado.

            Diante dessa promiscuidade, as mãos que abraçam e carregam o dinheiro público para distribuí-lo entre as forças aliadas dos grupos políticos, são as mãos do capital privado. Para que isso aconteça é preciso dar às transações certos requintes de legalidade e, enquanto não estourar um escândalo, as grandes multidões comportam-se como torcidas organizadas diante de dois times que disputam um campeonato em um campo de futebol. Mal sabem elas que os custos para um dos times se sagar campeão, não serão pagos pela arrecadação dos ingressos; outras formas de investimentos serão realizadas em vista das facções obterem vantagens posteriores.

            As constatações são transparentes. O crime organizado e o capital especulativo deram-se as mãos e passaram a constituir facções políticas visando tomar o Estado e transformá-lo no meio principal para a realização das transações criminosas e protegerem-se da repressão. Já não se pode chamar essas excrecências de “máfias” porque estas têm como tradição, agirem secretamente com normas rigorosas, como é o caso da “lei do silêncio”. Os negócios e investimentos das atuais milícias são públicos e os líderes das mesmas atuam em duas frentes: uma que permite reduzir as penas com as delações e, a outra, se a primeira ocorrer, articulam-se para mudar as leis que os condenaram, impondo ao poder judiciário a recontagem dos anos de prisão, com o objetivo de reduzir as dozes, pela medida imposta da “Dosimetria”.

            Por outro lado, os acontecimentos moldaram a polarização das opiniões político eleitorais no Brasil. Já não se pensa mais na qualidade das ideias, apenas quem elas representam. Nesse sentido, situação e oposição empatam em todas as pesquisas. Os “fiéis da balança” são agora os indiferentes. Se considerarmos que um dos princípios democráticos é contabilizar a vantagem numérica da maioria sobre a minoria, certamente estamos a perceber que, a indiferença tornou-se uma nova força política, que pode estar alheia ou revoltada, mas é ela quem decidirá as próximas eleições para presidente da República do Brasil, em 2026.

            Não é difícil de chegar a essa constatação, basta observar os últimos pleitos as pequenas diferenças que ficaram em torno de 1% e, as pesquisas de opinião para o segundo turno  entre o candidato do PT e qualquer um, de qualquer outro partido, e teremos o denominado “empate técnico”.

            Agora podemos continuar o raciocínio filosófico iniciado acima por Foucault, não sem antes perguntar quem somos nós na atualidade política? De certo podem aparecer muitas opiniões classificatórias, no entanto, a grande maioria dos cidadãos, não somos mais do que eleitores. Quem éramos e quem somos?; a resposta a essa pergunta está no curso dos acontecimentos. Eles, ao longo do tempo levaram à aceitação daquilo que não era aceito e à passividade ao que era radicalidade.

            Os protestos converteram-se em mensagens nas redes sociais; a solidariedade em doações no pix e, o conteúdo da formação da consciência tornaram-se áudios curtos, porque ninguém aguenta ouvir alguém por mais de um minuto. Sendo assim, os totalmente indiferentes e analfabetos da política eleitoral, fora da polaridade, podem não estar com a razão, mas estão com a última palavra. O triste fim de um período histórico é constatado quando os sem opinião detém o poder de decisão. Então, quem somos nós?

                                                                       Ademar Bogo    



[1] FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984, p. 303.

domingo, 3 de maio de 2026

A CERCA DE BAMBU

 

            Toda vez que nos espantamos com algum fato, principalmente acontecido na política, desconhecemos que nada acontece repentinamente sem antes ter sido projetado, preparado e realizado com a ativa participação de determinadas forças e, com a indiferença que soa como autorização das outras forças inativas.

            O filósofo francês Etienne Balibar ao escrever sobre a alienação destacou que: “A alienação é obra do próprio homem: ela não se distingue do processo de sua atividade. Criando objetos, ou seja, expressando-se, realizando a si mesmo, o homem cria o instrumento de sua própria despossessão. É a atividade humana que é pervertida, alienada – alienante, e por conseguinte a alienação aparece primeiro ao homem como uma fatalidade natural”.[1]

            A desenvoltura dessa posição do autor é antecipada pela reminiscência do pensamento de Feuerbach, quando criticou a religião em 1841, em seu livro, A essência do cristianismo e, lá, intolerantemente revelou as bases da alienação religiosa. Balibar se serve disso para dizer que: “Deus criado pelo homem torna-se criador do homem, e se atribui sob forma de perfeições os atributos do homem. Por causa disso o homem é apenas a coisa de Deus: sua liberdade é aí perdida”.

            Longe de querer entrarmos em debate sobre a questão religiosa, devido ao pouco espaço desta escrita, não permitiria sustentar quando as seitas impõem, não apenas o conteúdo das crenças, como também os valores monetários para propagá-lo e praticá-lo. O que queremos é servir-nos da metáfora para aplicá-la na política e mostrar que em um determinado estágio da luta de classes, quando os processos se esgotam, o conteúdo das consciências em geral se modifica e passa a defender que as pessoas são filhas da mesma coisa.

            Para facilitar o entendimento da alienação, no lugar de Deus, disposto no parágrafo acima, coloquemos o Estado e logo perceberemos que o direito, o cidadão, o político, o eleitor etc., são coisas da criação do Estado. Mas quem criou o Estado que veio a criar essa diversidade de coisas? Os burgueses que passaram a atribuir a toda superestrutura a responsabilidade de manter a ordem social.

            De qualquer modo não escapamos de relacionar a alienação com a religião e a política. Na medida que o homem criou Deus na visão de Ludwig Feuerbach, para que a divindade atribuísse as suas características aos mesmos seres que o criaram, a criação do Estado visou os mesmos resultados. Para os burgueses, mais do que a igualdade da razão, como ensinava Kant, eles, como orientou Georg Hegel, queriam uma instituição capaz de reconhecê-los como proprietários legalmente livres para realizar os seus interesses.

            Se quisermos identificar uma diferença primeira, os burgueses ao contrário dos trabalhadores quando criaram o Estado nunca mais se alienaram dele. Ou seja, sempre souberam a sua função e como devem utilizá-lo para manterem a ordem dominante sobre os cidadãos obedientes e dominados.

            Quando voltamos à teoria revolucionária escrita desde a metade do século dezenove, não encontramos nenhum elogio ao Estado, muito pelo contrário, todas suas características são infernais que nenhum homem gostaria que a divindade lhe repassasse aquelas qualidades. Mas eis então que nos deparamos na atualidade com essa profissão de Fé ameaçando pôr abaixo o fantasioso mundo da liberdade criado na cabeça dos trabalhadores.

            Por que passamos a divinizar a criatura perversa criada pelos burgueses, que nos criou como cidadãos democratas e cumpridores das leis? Pelo fato de atribuirmos a ele a responsabilidade de nos levar ao mundo da felicidade, onde haveria comida e acesso aos bens de consumo para todos. Nesse sentido, ao invés de detratar o governo que aplica as Leis do Estado, passamos a elogiá-lo porque ele também nos elogia. No entanto, como criadores de um governo que nos criou como bolsistas, candidatos a subir no elevador do bem-estar, nos afastamos e alienamos da luta, isto porque, o nosso criador nos passou a ilusão que, para sermos o que somos precisamos apenas continuar fiéis para garantir a sua eternidade pelo voto. Com isso foi embora a consciência crítica, as capacidades organizativas, as metodologias dos cursos de formação de liderança, a prática das reuniões de núcleos, as mobilizações para ampliar e assegurar os direitos e a própria perspectiva de tomarmos, verdadeiramente o poder do Estado e transformá-lo, para que deixe de ser um instrumento de dominação de classe.

            Portanto, alienados das demais criaturas, assistimos as forças burguesas que criaram o Estado, aprovarem leis no parlamento que amenizam as penas dos criminosos políticos e, reprovarem as indicações e os vetos do poder  Executivo, ameaçando com novos golpes se o governo não satisfizer as suas vontades que, acima de tudo, é entregar o restante das riquezas naturais aos Estados Unidos.

            Podemos concluir. Em sociedades alienadas o poder político não é eterno. A obrigatoriedade em defender a democracia contra as posições totalitárias, serve também para garantir que as forças contrárias se organizem e disputem os mesmos espaços temporariamente ocupados pelos democratas que, em caso de demorar a se realizar o retorno ao poder, promovem golpes de Estado ou chamam o poder imperial para fazer invasões, sequestrar e matar os governantes como fizeram na Venezuela e no Irã.

            Portanto, a lição histórica nos ensina que, com pessoas alienadas não se faz política, apenas se disputa eleições andando sobre o fio da navalha. Política se faz com pessoas conscientes, mas para isso, voltando à metáfora, agora com um estímulo dialético, precisamos de criadores que criem as criaturas e, partidariamente não as deixe alienarem-se. A tática do voto, isoladamente, representa uma cerca de bambu diante de um tanque de guerra. Vamos continuar nos escondendo atrás dela?

                                                                                               Ademar Bogo



[1] BALIBAR, Etienne. caderno cemarx, nº 7 – 2014, p. 233. In. BALIBAR/Étienne%20Balibar%20-%20As%20Ideologias%20pseudomarxistas%20da%20alienação.pdf